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20 de jan de 2009

Guerras








Guerra Fria é a designação atribuída ao período histórico de disputas estratégicas e conflitos indiretos entre os Estados Unidos e a União Soviética, compreendendo o período entre o final da Segunda Guerra Mundial (1945) e a extinção da União Soviética (1991). Em resumo, foi um conflito de ordem política, militar, tecnológica, econômica, social e ideológica entre as duas nações e suas zonas de influência.

História

Com o final da Segunda Guerra Mundial, a Europa estava arrasada e ocupada pelos exércitos das duas grandes potências vencedoras, os EUA e a URSS. O desnível entre o poder destas duas superpotências e o restante dos países do mundo era tão gritante, que rapidamente se constitui um sistema global bipolar, ou seja, centrada em dois grandes polos.

Os EUA defendiam a economia capitalista, argumentando ser ela a representação da democracia e da liberdade. Em contrapartida a URSS enfatizava o socialismo como resposta ao domínio burguês e solução dos problemas sociais.

Sob a influência das duas doutrinas, o mundo foi dividido em dois blocos liderados cada um por uma das superpotências: a Europa Ocidental e a América Central e do Sul sob influência cultural, ideológica e econômica estado-unidense, e a maior parte do Leste Asiático, Ásia central e Leste europeu, sob influência soviético. Assim, o mundo dividido sob a influência das duas maiores potências econômicas e militares da época, estava também polarizado em duas ideologias opostas: o Capitalismo e o Socialismo.

Entretanto era notória deste o início da Guerra Fria a superioridade norte americana. Em 1945 os Estados Unidos tinham metade do PIB mundial, 2/3 das reservas mundiais de ouro, 60% da capacidade industrial ativa do mundo, 67% da capacidade produtora de petróleo, além da maior Marinha e da maior Força Aérea que existia. Seus exércitos intactos ocupavam metade ocidental da Europa e o Japão, algumas das zonas mais ricas e industrializadas do mundo antes da Guerra. Também ocupavam parte do sudeste asiático, especificamente metade da península da Coreia e grande parte das ilhas do Pacífico. O território continental americano nunca havia sido realmente ameaçado durante a Segunda Guerra Mundial, sendo que a batalha travada geograficamente mais próxima do continente foi a de Pearl Harbor, no Havai.

Por sua vez a União Soviética ocupava a metade oriental da Europa e a metade norte da Ásia, uma parte da Manchúria e da Coreia, regiões tradicionalmente agrícolas e pobres. O próprio território soviético havia sido palco de batalhas durante a II Guerra Mundial, contra divisões alemãs. O resultado é que em 1945 os Estados Unidos contabilizavam cerca de 500 mil mortos na guerra, contra cerca de 20 milhões de soviéticos mortos (civis e militares). Centenas de cidades soviéticas estavam destruídas em 1945. A maior parte das industrias, da capacidade produtiva agrícola e da infra-estrutura de transportes, energia e comunicações estava destruída ou seriamente comprometida.

Operação Impensável é o nome de um plano inicial de guerra feito pelo governo britânico em 1945. Tal operação consistia na invasão da então União Soviética por forças militares britânicas, poloneses exilados, americanos e mesmo alemães recém rendidos.

Após a derrota alemã na Segunda Guerra, os países vencedores lhe impuseram pesadas sanções. Dentre as quais a divisão da Alemanha em 4 áreas administrativas, cada uma chefiada por um dos vencedores: Estados Unidos, França, Reino Unido e União Soviética e duas zonas de influência: Capitalista e Socialista. Berlim, a capital da Alemanha, também foi dividida, ainda que sob território de influência soviética. A comunicação entre o lado ocidental da cidade fragmentada e as outras zonas era feita por pontes aéreas e terrestres.

Em 1948, numa tentativa de controlar a inflação galopante da Alemanha, os Estados Unidos, a França e o Reino Unido criaram uma "trizona" entre suas zonas de influência, para fazer valer nestes territórios o Deutsche Mark (Marco alemão). Josef Stalin, então líder da URSS, reprovou a ideia e, como contra-ataque, procurou reunificar Berlim sob sua influência. Desse modo, em 23 de Junho de 1948, todas as rotas terrestres foram fechadas pelas tropas soviéticas, numa violação dos acordos da Conferência de Ialta.

Para não abandonar as zonas ocidentais de Berlim e dar vitória à União Soviética, os países ocidentais prontificaram-se a criar uma grande ponte aérea, em que bombardeiros estado-unidenses saíam da "trizona" levando mantimentos aos mais de dois milhões de berlinenses que viviam no ocidente da cidade. Stalin reconheceu a derrota dos seus planos em 12 de Maio de 1949. Pouco depois, as zonas estado-unidense, francesa e britânica se unificaram, originando a Bundesrepublik Deutschland (República Federativa da Alemanha ou Alemanha Ocidental), cuja capital era Bonn. Da zona soviética surgiu a Deutsche Demokratische Republik (República Democrática Alemã ou Alemanha Oriental), com capital Berlim, a porção oriental.

A fragilização das nações europeias, após uma guerra violenta, permitiu que os Estados Unidos estendessem uma série de apoios econômicos à Europa aliada, para que estes países pudessem se reerguer e mostrar as vantagens do capitalismo. Assim, o Secretário de Estado dos Estados Unidos, George Marshall, propõe a criação de um amplo plano econômico, que veio a ser conhecido como Plano Marshall. Tratava-se da concessão de uma série de empréstimos a baixos juros e investimentos públicos para facilitar o fim da crise na Europa Ocidental e repelir a ameaça do socialismo entre a população descontente. Durante os primeiros anos da Guerra Fria, principalmente, os Estados Unidos fizeram substanciais investimentos nos países aliados, com notável destaque para o Reino Unido, a França e a Alemanha Ocidental.

O Japão, entre 1947 e 1950, recebeu menos apoio americano. A situação só se transformou com a explosão da Guerra da Coreia, que fez do Japão o principal aliado das tropas das Nações Unidas. Após a declaração da guerra, os americanos realizaram importantes investimentos na economia japonesa, que também foi impulsionada com a demanda de guerra.

Em 1951 foi elaborado o Plano Colombo, uma organização realizada por países do Sudeste Asiático, com intenções de reestruturação social. Os norte-americanos realizaram alguns investimentos para estimular a economia do sub-continente, mas o volume de capital investido foi muito menor ao destacado para o Plano Marshall, porém bem menos ambicioso, para estimular o desenvolvimento de países do sul e sudeste da Ásia.

Em resposta ao plano econômico estadunidense, a União Soviética propôs-se a ajudar também seus países aliados, com a criação do COMECON (Conselho para Assistência Econômica Mútua). O COMECON fora proposto como maneira de impedir os países-satélites da União Soviética de demonstrar interesse no Plano Marshall, e não abandonarem a esfera de influência de Moscou.

Terminada a Segunda Guerra Mundial, as duas potências vencedoras dispunham de uma enorme variedade de armas, muitas delas desenvolvidas durante o conflito, outras obtidas dos cientistas alemães e japoneses.

Novos tanques, aviões, submarinos, navios de guerra e mísseis balísticos constituíam as chamadas armas convencionais. Mas também haviam sido desenvolvidas novas gerações de armas não convencionais, como armas químicas, que praticamente não foram utilizadas em batalha. A Alemanha que desenvolveu a maior indústria de armas químicas do mundo, utilizou esses gases mortais em câmaras de gás nos campos de concentração. Algumas armas biológicas foram testadas, principalmente pelo Japão na China ocupada, mas a tecnologia da época ainda era muito pouco eficiente. O maior destaque ficou com uma nova arma não-convencional, mais poderosa que qualquer outra arma já testada até então: bomba atómica. Só os Estados Unidos tinham essa tecnologia, o que aumentava em muito seu poderio bélico e sua superioridade militar estratégica em relação aos soviéticos.

A União Soviética iniciou então seu programa de pesquisas para também produzir tais bombas, o que conseguiu em 1949. Mas logo a seguir, os EUA testavam a primeira bomba de hidrogênio, centena de vezes mais poderosa. A União soviética levaria até 1953 para desenvolver a sua versão desta arma, dando início a uma nova geração de ogivas nucleares menores, mais leves e mais poderosas.

A União Soviética obteve a tecnologia para armas nucleares através de espionagem. Em 1953, nos EUA, o casal Julius e Ethel Rosenberg foi condenado a morte por transmitir à União Soviética segredos sobre a bomba atómica norte americana.

Essa corrida ao armamento era movida pelo receio recíproco de que o inimigo passasse a frente na produção de armas, provocando um desequilíbrio no cenário internacional. Se um deles tivesse mais armas, seria capaz de destruir o outro.

A corrida atingiu proporções tais que, já na década de 1960, os EUA e a URSS tinham armas suficiente para vencer e destruir qualquer outro país do mundo. Uma quantidade tal de armas nucleares foi construída, que permitiria a qualquer uma das duas superpotências, sobreviver a um ataque nuclear massivo do adversário, e a seguir, utilizando apenas uma fração do que restasse do seu arsenal, pudesse destruir o mundo. Esta capacidade de sobreviver a um primeiro ataque nuclear, para a seguir retaliar o inimigo com um segundo ataque nuclear devastador, produziu medo suficiente nos líderes destes dois países para impedir uma Guerra Nuclear, sintetizado em conceitos como Destruição Mútua Assegurada ou "Equilíbrio do terror".

Em 1949 os EUA e o Canadá, juntamente com a maioria da Europa capitalista, criaram a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), uma aliança militar com o objetivo de proteção internacional em caso de um suposto ataque dos países do leste europeu.

Em resposta à OTAN, a URSS firmou entre ela e seus aliados o Pacto de Varsóvia (1955) para unir forças militares da Europa Oriental. Logo as alianças militares estavam em pleno funcionamento, e qualquer conflito entre dois países integrantes poderia ocasionar uma guerra nunca vista antes.

A tensão sentida pelas pessoas com relação às duas superpotências acentuou-se com o início da corrida armamentista, cujo “vencedor” seria a potência que produzisse mais armas e mais tecnologia bélica. Em contraponto, a corrida espacial trouxe grandes inovações tecnológicas e proporcionou um grande avanço nas telecomunicações e na informática.

Com a vitória aparente dos estadunidenses, a política Macartista foi implantada e divulgada no mundo por meio de longametragens e propagandas políticas. O macartismo, criado pelo senador estadunidense Joseph McCarthy nos anos 50, culminou na criação do Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas do Senado dos Estados Unidos. Em outras palavras, toda e qualquer atividade pró-comunismo estava terminantemente proibida e qualquer um que as estimulasse estaria sujeito à prisão ou extradição. Inúmeros artistas e produtores de filmes ou de programas de televisão que criticavam o governo americano foram acusados de comunistas. Foi criada a Lista Negra de Hollywood contendo os nomes de pessoas do meio artístico acusados de atividades antiamericanas. A era do macartismo acabou por extirpar do meio artístico americano a maior parte dos produtores progressistas ou simpatizantes da esquerda.

O único grande confronto militar que envolveu batalhas em que de um lado haviam forças militares americanas e do outro forças soviéticas, foi a Guerra da Coreia. A península da Coreia foi dividida, em 1945, pelo paralelo 38 N, em duas zonas de influência: uma ao norte, ocupada pela União Soviética, e a partir de 1949 pela República Popular da China, comunista; era a República Popular Democrática da Coreia. A outra porção, ao sul do paralelo 38 N, foi ocupada pelas tropas americanas e permaneceu capitalista com apoio das nações ocidentais passou a ser conhecida como República da Coreia.

Em 1950, os líderes da Coreia do Norte, incentivada pela vitória do socialismo na China um ano antes, recebeu apoio da URSS para tentar reunificar a Coreia sob o comando de um governo socialista, invadiu e ocupou a capital sul-coreana Seul, desencadeando um conflito armado. Os Estados Unidos solicitaram ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, a formação de uma força multinacional para defender a Coreia do Sul. Na ocasião a URSS se recusou a participar da reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas em que esta medida foi discutida, e os Estados Unidos conseguiram legitimar a primeira grande batalha militar da Guerra Fria contra o bloco soviético.

As tropas anglo-americanas fizeram a resistência no sul, reconquistando a cidade e partindo em uma investida contra o norte. A China, sentindo-se ameaçada pela aproximação das forças ocidentais, enviou reforços à frente de batalha, fazendo da Coreia um grande campo de batalha.

Após muitas batalhas, com avanços e recuos de ambos os lados, um primeiro acordo de paz é negociado, mas demora dois anos para ser ratificado. O General americano Douglas MacArthur chegou a solicitar o uso de armas nucleares contra a Coreia do Norte e a China, mas foi afastado do comando das forças americanas.

Apenas quando a União Soviética já havia testado sua primeira bomba de hidrogênio, em 1953, é que um armistício foi assinado em Panmunjon, em 27 de Julho de 1953. O acordo manteve a península da Coreia dividida em dois Estados soberanos, praticamente como antes do início da guerra, com mudanças mínimas na linha de fronteira. Essa divisão da Coreia em dois países se mantém até hoje. Em Junho de 2000, os governos das duas Coreias anunciaram planos de reaproximação dos dois países. Isso significou o início da desmilitarização da região, a diminuição do isolamento internacional da Coreia do Norte e, para milhares de coreanos, a possibilidade de reencontrar parentes separados há meio século pelo conflito. Pela tentativa, o então presidente da Coreia do Sul, Kim Dae Jung, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2000.

A Operação Washtub, foi uma operação secreta da CIA organizada para plantar um falso esconderijo de armas Soviético na Nicarágua para demonstrar que a Guatemala tinha laços com Moscou. A operação fazia parte de um plano para derrubar o Presidente da Guatemala, Jacobo Arbenz Guzmán em 1954.

Um dos campos que mais se beneficiaram com a Guerra Fria foi o da tecnologia. Na urgência de se mostrarem superiores aos rivais, Estados Unidos e União Soviética procuraram melhorar os seus arsenais militares. Como consequência, algumas tecnologias conhecidas hoje (como alguns tecidos sintéticos) foram frutos dessa corrida.

A corrida espacial está nesse contexto. A tecnologia aeroespacial necessária para o lançamento de mísseis e de foguetes é praticamente a mesma, e portanto os dois países investiram pesadamente na tecnologia espacial.

Sentindo-se ameaçada pelos bombardeiros estratégicos americanos, carregados de artefatos nucleares que sobrevoavam as fronteiras com a URSS constantemente, a URSS começou a investir em uma nova geração de armas que compensasse esta debilidade estratégica. Assim, a União Soviética dá início à corrida espacial no ano de 1957, quando os soviéticos lançaram Sputnik, o primeiro artefato humano a ir ao espaço e orbitar o planeta. Em novembro do mesmo ano, os russos lançaram Sputnik II e, dentro da nave foi a bordo o primeiro ser vivo a sair do planeta: a cadela Laika.

Após as missões Sputnik, os Estados Unidos entraram na corrida, lançando o Explorer I, em 1958. Mas a União Soviética tinha um passo na frente, e em 1961 os soviéticos conseguiram lançar Vostok I, que era tripulada por Yuri Gagarin, o primeiro ser humano a ir ao espaço e voltar são e salvo.

A partir daí, a rivalidade aumentou a ponto de o presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, prometer enviar americanos à Lua e trazê-los de volta até o fim da década. Os soviéticos apressaram-se para vencer os estadounidenses na chegada ao satélite. As missões Zond deveriam levar os primeiros humanos a orbitarem a Lua, mas devido a falhas, só foi possível aos soviéticos o envio de missões não-tripuladas, Zond 5 e Zond 6, em 1968. Os Estados Unidos, por outro lado, conseguiram enviar a missão tripulada Apollo 8 no Natal de 1968 a uma órbita lunar.

O passo seguinte, naturalmente, seria o pouso na superfície da Lua. A missão Apollo 11 conseguiu realizar com sucesso a missão, e Neil Armstrong e Edwin Aldrin tornaram-se os primeiros humanos, respectivamente, a caminhar em outro corpo celeste.

A corrida espacial se tornou secundária com a distensão dos anos 1960-1970, mas volta a ter relevância nos anos 1980, no que pode ser considerado o último capítulo daquela disputa. O presidente dos EUA anuncia investimentos bilionários na construção de um sistema espacial de defesa anti-mísseis balísticos. A oficialmente denominada Iniciativa Estratégica de Defesa e conhecida como guerra nas estrelas, poderia defender o território americano dos mísseis russos e acabar com a lógica da Destruição Mútua Assegurada.

Neste contexto os EUA enviam ao espaço o primeiro veículo espacial reutilizáveis: o ônibus espacial. A URSS levaria alguns anos para construir a sua versão do ônibus espacial, (o Buran) mas foi a primeira a colocar no espaço uma nave espacial armada de ogivas nucleares, a Polyus, que teria sido destruída pelos próprios líderes soviéticos em 1987, quando já estavam avançadas as negociações diplomáticas para por fim à Guerra Fria.

Outro campo em que ocorreu grande desenvolvimento durante a Guerra Fria foi o das comunicações. Temendo um possível bombardeio soviético, durante a década de 1960, O Pentágono financiou o desenvolvimento de um sistema de comunicação entre os computadores, que envolveu centros de pesquisa militares e civis, como algumas das principais universidades americanas. A rede de comunicações criada pela agência Arpa ficaria conhecida como Arpanet.

A lógica do sistema era a seguinte: caso fosse feito um bombardeio soviético, a central de informações não estaria em um só lugar, mas sim em vários pontos conectados em uma rede, ou seja, cada nó da rede funcionaria como uma central, todas conectadas entre si. A infraestrutura da rede foi construída com fibra óptica para não sofrer interferência dos pulsos eletromagnéticos produzidos pelas explosões nucleares. O sistema foi inaugurado com sucesso em 1969, na Universidade da Califórnia (UCLA), com o envio de uma mensagem de caracteres para outro servidor.
Durante toda a década de 1970 e 1980 o uso dessa tecnologia se manteve restrito a fins militares e acadêmicos. Somente em Convenção realizada no ano de 1987 a rede seria liberada para uso comercial. A partir de então a Arpanet passou a se chamar Internet. Em 1990, o físico inglês Tim Berners-Lee criaria o HTML (Linguagem de Marcação de Hipertexto). Na década de 1990 a Internet passaria por um processo de expansão gigantesco, tornando-se um grande meio de comunicação da atualidade.

Após a morte de Stalin, em 1953, Nikita Khrushchov subiu ao posto de Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética e, portanto, governante dos soviéticos. Condenou os crimes de seu antecessor e pregou a política da coexistência pacífica entre os soviéticos e americanos, o que significaria os esforços de ambos os lados em evitar o conflito militar, havendo apenas confronto ideológico e tecnológico (corrida espacial). Houve apenas tentativas de espionagem. Esta política também possibilitou uma aproximação entre os líderes. Khrushchov reuniu-se diversas vezes com os presidentes americanos: com Dwight D. Eisenhower, em 1956, no Reino Unido; em 1959 nos Estados Unidos; e em 1960 na França; e com Kennedy se encontrou uma vez, em 1961, em Viena, Áustria.

Um grupo de países optou por não tomar parte na Guerra Fria. Em sua maioria, países africanos, asiáticos e ex colônias europeias de independência recente. Para garantir sua neutralidade, os assim denominados países não alinhados, promoveram a criação do Movimento Não Alinhado.

O rei do Egito, pró-europeu, foi derrubado por Gamal Abdel Nasser em 1953, que procurou instalar uma política nacionalista e pan-arabista. Sua primeira manobra política de efeito foi a guerra que declarou contra o recém-criado estado de Israel, porque eles teriam humilhado os árabes na Guerra de Independência Israelita. Com os clamores de outros países árabes para uma nova investida contra os judeus, Nasser aliou-se à Jordânia e à Síria.

Na mesma época, Nasser teria declarado a intenção de nacionalizar o Canal de Suez, que era controlado majoritariamente por franceses e britânicos. Isso preocupou as duas potências, que necessitavam do canal para seus interesses colonialistas na África e Ásia. Assim, a França, o Reino Unido e Israel decidiram formar uma aliança, declararam guerra ao Egito de Nasser e cuidaram da ocupação do Egito. Os europeus cuidaram de bombardear e lançar paraquedistas em locais estratégicos, enquanto os israelitas cuidaram da invasão terrestre, invadindo a península do Sinai em poucos dias depois.

A guerra no Egito perturbou a paz que vinha sendo mantida entre Washington D.C. e Moscou. Dwight D. Eisenhower, então presidente americano, criticava a repressão em Budapeste, na Hungria, e teve que provar que era contra a invasão a Israel. Os Estados Unidos tentaram várias vezes fazer os europeus mudarem de ideia e retirar os ocupantes do Egito, ao mesmo tempo que Khrushchev demandava respostas. Os Estados Unidos, inclusive, tentaram, a 30 de Outubro de 1956, levar ao Conselho de Segurança das Nações Unidas a petição de retirada das tropas do Egito, mas França e Reino Unido vetaram a petição. A União Soviética seguia a mesma linha de raciocínio do Estados Unidos, sendo assim favorável à desocupação das terras egípcias porque queria estreitar laços com os árabes, e se aliou rapidamente à Síria e ao Egito.

A crescente pressão econômica estadunidense e a ameaça de Khrushchov de que "modernas armas de destruição" seriam usadas em Londres e Paris fizeram os dois países recuarem, e os aliados se retiraram do Sinai em 1957. Após a retirada, o Reino Unido e a França foram forçadas a perceber que não eram mais líderes políticos do mundo, enquanto o Egito manteve sua política nacionalista e, mais tarde, pró-soviética.

Cuba, a maior das ilhas caribenhas, sofreu uma revolução em 1959, que retirou o ditador pró-estadunidense Fulgêncio Batista do poder, e instaurou a ditadura de Fidel Castro a partir de 1959. A instauração de um regime socialista preocupou a Casa Branca que ainda em 1959 tentou depor o novo governo, apoiando membros ligados ao antigo regime e iniciando um embargo econômico à ilha. Com o bloqueio do comércio de petróleo e grãos, Cuba passa a adquirir esses produtos da URSS. O governo de Fidel Castro, inicialmente composto por uma frente de grupos nacionalistas, populistas e de esquerda, que variava de social-democratas aos de inspiração marxista-leninista, rapidamente se tornaria polarizaria em torno dos líderes mais pró-URSS. Em 1961, a CIA chegou a organizar o desembarque de grupos de oposição armados que deporiam Fidel Castro na operação da Invasão da Baía dos Porcos, que foi um fracasso completo. Diante desta situação o novo regime cubano se aproxima rapidamente da URSS, que oferece proteção militar.

Em 1962, a União Soviética foi flagrada construindo 40 silos nucleares em Cuba. Segundo Kruschev, a medida era puramente defensiva, para evitar que os Estados Unidos tentassem nova investida contra os cubanos. Por outro lado, no plano estratégico global, isto representava uma resposta à instalação de mísseis Júpiter II pelos estadunidenses na cidade de Esmirna, Turquia, que poderiam ser usadas para bombardear todas as grandes cidades da União Soviética.

Rapidamente, o presidente Kennedy tomou medidas contrárias, como a ordenação de quarentena à ilha de Cuba, posicionando navios militares no mar do Caribe e fechando os contatos marítimos entre a União Soviética e Cuba. Vários pontos foram levantados a respeito deste bloqueio naval: os soviéticos disseram que não entendiam porque Kennedy havia tomado essa medida, já que vários mísseis estadunidenses estavam instalados em territórios dos países da OTAN contra os soviéticos, em distâncias equivalentes àquela entre Cuba e os EUA; Fidel Castro revelou que não havia nada de ilegal em instalar mísseis soviéticos em seu território; e o primeiro-ministro britânico Harold Macmillan disse não ter entendido por que não foi sequer ventilada a hipótese de acordo diplomático.

Em 23 e 24 de Outubro, Kruschev teria enviado uma carta a Kennedy, informando suas intenções pacíficas. Em 26 de Outubro disse que retiraria seus mísseis de Cuba se Washington se comprometesse a não invadir Cuba. No dia seguinte, pediu também a retirada dos balísticos Júpiter da Turquia. Mesmo assim, dois aviões espiões estadunidenses U-2 foram abatidos em Cuba e na Sibéria em 27 de Outubro, o ápice da crise. Neste mesmo dia, os navios mercantes soviéticos haviam chegado ao Caribe e tentariam passar pelo bloqueio. Em 28 de Outubro, Kennedy foi obrigado a ceder os pedidos, e concordou em retirar os mísseis da Turquia e não atacar Cuba. Assim, Nikita Kruschev retirou os mísseis nucleares soviéticos da ilha.


Apesar de o acordo ter sido negativo para os dois lados, o grande derrotado foi o líder soviético, que foi visto como um fraco que não soube manter sua posição frente aos estadunidenses.

Durante a Guerra Fria, a propaganda e os os esforços anticomunistas dos EUA fizeram-se sentir na região. De 1946 a 1984, os Estados Unidos mantiveram no Panamá a Escola das Américas. A finalidade deste órgão era formar lideranças militares pró-EUA. Vários ditadores latino-americanos foram alunos desta instituição, entre eles o ditador do Panamá Manuel Noriega, e Leopoldo Galtieri, líder da Junta Militar da Argentina. A partir de 1954, os serviços de inteligência norte-americanos participaram de golpes de estado contra governos latino-americanos. Após a Revolução cubana, o receio de que o comunismo se espalhasse pelas Américas cresceu muito. Governos simpáticos ao comunismo ou democraticamente eleitos, mas contrários aos interesses políticos e econômicos dos EUA foram removidos do poder.

Em 1961, o presidente Kennedy criou a Aliança para o Progresso, para abrandar as tensões sociais e auxiliar no desenvolvimento econômico das nações latino-americanas. Este programa ofereceu ajuda técnica e econômica a vários países. Com isto pretendia-se afastar a possibilidade das nações da América Latina alinharem-se com o bloco soviético. Mas, como programa não alcançou os resultados esperados, foi extinto em 1969 pelo presidente Richard Nixon.

O período da distensão (Détente) seguiu-se à Crise dos Mísseis, por ela quase ter levado as duas superpotências a um embate nuclear. Os EUA e a URSS decidiram, então, realizar acordos para evitar uma catástrofe mundial. Nesta época, vários tratados foram assinados entre os dois lados. A política Détente, foi principalmente seguida por Brejnev, que mais tarde criaria um grande sistema diplomático e de distensão, sendo este o sistema que salvaria a pele de Brejnev, que entrara em uma estagnação econômica, apesar de alcançar um bem-estar para o povo soviético. Durante a direção de Brejnev e sua inseparável doutrina, o povo que nascera depois da Guerra Fria nunca havia presenciado um momento de tanta paz mundial.

Os dois países tinham seus motivos particulares para buscar acordos militares e políticos. A URSS estava com problemas nos relacionamentos com a China, e viu este país se desalinhar do socialismo monopolista de Moscou. Isso criou a prática da diplomacia triangular, entre Washington, Moscou e Pequim. Também estavam com dificuldades agrícolas e econômicas. E os Estados Unidos haviam entrado numa guerra contra o Vietnã, e na década de 1970 entrariam em uma grave crise econômica.

A Distensão, apesar de garantir o não-confronto militar, acirrou a rivalidade política e ideológica, culminando em algumas revoltas sociais e apoios a revoltas e revoluções na Europa e no Terceiro Mundo.

Como exemplo, pode-se citar a Invasão do Afeganistão, a Intervenção Soviética em Praga, e a própria guerra do Vietnã.

A Guerra do Vietnã foi um dos maiores confrontos militares envolvendo capitalistas e socialistas no período da Guerra Fria. Opôs o Vietname do Norte e guerrilheiros pró-comunistas do Vietname do Sul contra o governo pró-capitalista do Vietname do Sul e os Estados Unidos.

Após a Convenção de Genebra (1954), o Vietnã, recém-independente da França, seria dividido em duas zonas de influência, como a Coreia, e estas zonas seriam desmilitarizadas e mantidas cada uma sob um dos regimes (capitalismo e socialismo). Infelizmente para o Vietname do Sul, o líder do Norte, Ho Chi Minh, era muito benquisto entre a população, por ser defensor popular e herói de guerra. O governo do Vietname do Sul decidiu proibir o plebiscito de ocorrer em seu território, pois queria manter o alinhamento com os estadunidenses. Como o Vietname do Norte queria a reunificação, lançaram-se em uma guerra contra o Sul.

O Vietname do Norte contou com o apoio da Frente de Liberação Nacional, ou vietcongs, um grupo de rebeldes no Vietname do Sul. E o Vietname do Sul contou, em 1965, com a valiosa ajuda dos Estados Unidos. Eles entraram na guerra para manter o governo capitalista no Vietname, e temendo a ideia do "efeito dominó" (Teoria do Dominó) no qual, ao verem um país que se libertou do capitalismo preferindo o socialismo, outros países poderiam seguir o exemplo (como foi o caso de Cuba).

Até 1965, a guerra estava favorável ao Vietname do Norte, mas quando os Estados Unidos se lançaram ao ataque contra o Vietname do Norte, tudo parecia indicar que seria um grande massacre dos vietnamitas, e uma fácil vitória ocidental. Mas os vietnamitas do norte viram nessa guerra uma extensão da guerra de independência que haviam acabado de vencer contra a França, e lutaram incessantemente. Contando com o conhecimento do território, os vietnamitas do norte conseguiram vencer os Estados Unidos, o que é visto como uma das mais vergonhosas derrotas militares dos Estados Unidos. Em 1975, os Estados Unidos e o Vietname do Norte assinaram os Acordos de Paz de Paris, onde os EUA reconheceram a unificação do Vietnã sob o regime comunista de Ho Chi Minh.Foi estipulada uma data (1957) para a realização de um plebiscito, decidindo entre a reunificação do país ou não e, se sim, qual regime seria adotado.

Desde o início da década de 1950 a República Popular da China tinha problemas com a União Soviética, por causa de hierarquia de poderes. Moscou queria que o socialismo no mundo fosse unificado, sob a tutela do Kremlin, enquanto Pequim achava que a República Popular da China não deveria se submeter aos soviéticos. Além disso, o governo chines exigia que a URSS transferisse sua tecnologia nuclear para a China, o que não era bem visto por Moscou. Este processo acabou levando a ruptura sino-soviética.

Ao longo dos anos 1960 os Estados Unidos iniciaram uma aproximação com a URSS que levaria ao que ficou conhecido como distensão política, enquanto recrudesceram suas relações com a China comunista, aprofundando a disputa com este pais no Sudeste Asiático, onde se aprofundava a Guerra do Vietnã. Neste período as disputas entre URSS e China cresceram ainda mais. Esta tensão tornou-se um problema crescente para os soviéticos, que perdiam um forte aliado no Leste Asiático e passaram a ver a China como uma potencial ameaça. No fim dos anos 1960, a China passa a manter cerca de 1 milhão de soldados na fronteira com a URSS, o que força a URSS a manter outro volume equivalente de tropas na região.

O auge da disputa entre China e URSS é considerado o ano de 1969, quando ocorre um confronto armado na fronteira sino-soviética, na região do rio Ussuri (nordeste da Manchúria) e os dois países quase entram em guerra.

Nos anos 1970 a situação se inverte e os EUA passam a se aproximar da China e isolar novamente a URSS, iniciando inclusive um processo de ampliação das relações ecônomicas com a China e de guerra comercial com a URSS.

Estas mudanças ocorridas na década de 1970, pioraram ainda mais a situação da URSS, pois Mao Tse-tung, secretario-geral da China socialista, ampliou o processo de aproximação com os EUA. Além de isolar a URSS, a aproximação com os EUA trouxe vantagens para a China, como o fim da Guerra do Vietnã, o reconhecimento diplomático pelos americanos, a adesão da China à ONU e a substituição de Taiwan (China nacionalista) pela China no Conselho de Segurança da ONU.

Desde a Revolução Chinesa de 1949, o mundo ocidental via o governo de Mao Tse-Tung como ilegal, e continuaram reconhecendo como governo legítimo da China o governo refugiado em Taiwan. Com a aproximação entre Pequim e Washington, os Estados Unidos passaram a reconhecer o governo de Mao Tse-tung como o legítimo regente chinês, ou seja, a República Popular da China como a China de fato. Assim, outros países ocidentais tomaram a mesma decisão, e a China pôde entrar para ONU, como participante e como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Em 1975, os Estados Unidos e o Vietname do Norte assinaram os Acordos de Paz de Paris, os EUA reconheceram a unificação do Vietnã e iniciaram uma nova fase de cooperação com a China. A partir deste período, e principalmente nos anos 1980, a China passaria a apoiar os EUA na disputa deste pais com a URSS.

Após o ano de 1979, seguiu-se uma nova fase nas relações amistosas entre os Estados Unidos e a União Soviética, que ampliaram as relações entre as duas superpotências. O período que vai de 1979 a 1985, 1987 ou 1988 (dependendo da classificação), ficou conhecido como "II Guerra Fria", devido à retomada das hostilidades indiretas entre EUA e URSS, após o período da "distensão". No plano estratégico ficou clara a formação de uma grande coalizão global contra a União Soviética, que passou a incluir, além dos Estados Unidos e seus aliados da OTAN e o Japão, também a China.

Embora na época o apoio chinês à estratégia americana de cercamento da URSS tenha sido considerado secundário, hoje muitos historiadores consideram que este papel pode ter sido determinante para o desfecho da Guerra Fria.

Depois da gestão de Brejnev, a União Soviética teve duas rápidas governanças, Yuri Andropov e Konstantin Chernenko, homens que durante o período de Brejnev eram seus segundo homens, tendo um poder quase total sobre o país, sendo Andropov o chefe da temida e poderosa polícia secreta KGB e Chernenko, por treze anos carregando o segundo mais alto cargo dentro do país, que, na prática, governou o país durante a decadência na saúde de Brejnev, no final da década de 1970, e que surpreendentemente foi derrotado nas eleições por Andropov, que morreu pouco tempo depois de chegar ao cargo político máximo.

Seguinte a Chernenko, o chamado último bolchevique, foi eleito Mikhail Gorbachev, cuja plataforma política defendida era a necessidade de reformar a União Soviética, para que ela se adequasse à realidade mundial. Em seu governo, uma nova geração de políticos tecnocratas - que vinham ganhando espaço desde o governo Khrushchov - se firmou, e impulsionou a dinâmica de reformas na URSS e a aproximação diplomática com o mundo ocidental.

Gorbachev, embora defensor de Karl Marx, defendeu o liberalismo econômico na URSS como a única saída viável para os graves problemas econômicos e sociais. A União Soviética, desde o início dos anos 70, passava por grande fragilidade, evidenciada na queda da produtividade dos trabalhadores e a queda da expectativa de vida. A alta nos preços do petróleo no período 1973-1979 e a nova alta de 1979-1985, deram uma sobrevida temporária a um sistema econômico que já estava falido. A crise econômica mundial dos anos 1980, a escassez de moedas fortes e a queda no preço das commodities exportadas pela URSS (petróleo e cereais), ajudaram a aprofundar a crise do sistema econômico planificado da União Soviética.

Os gastos militares estavam tornando-se muito altos para uma economia como a soviética, planificada, extremamente burocratizada e com cerca de metade do PIB dos EUA. A economia de mercado dos EUA era muito mais competitiva e permitia o repasse acelerado de tecnologias militares e aeroespaciais de ponta para o setor civil. Na URSS tudo que seria produzido era previamente planejado nos Planos Quinquenais. A burocracia dificultava qualquer transferência de tecnologia sensível para o setor produtivo civil e toda a produção agrícola era milimetricamente planejada. Quando ocorre o acidente nuclear de Chernobil 1986, toda a produção agrícola daquele ano foi perdida, os gastos inesperados foram enormes e o Estado que havia planejado exportar uma safra recorde de grãos, teve que importar comida. Rapidamente começava a faltar até mesmo pão no país que havia sido o maior produtor mundial de trigo. Somando-se aos custos do envolvimento de meio milhão de homens no Afeganistão durante os anos 1980, mais os gastos militares da nova corrida armamentista, conhecida como segunda Guerra Fria, aquela enorme economia engessada colapsou.

Frente a estes problemas, Mikhail Gorbachev aplicou dois planos de reforma na URSS: a perestroika (série de medidas de reforma econômicas. Para Gorbachev, não seria necessário erradicar o sistema socialista, mas uma reformulação deste seria inevitável. Para tanto, ele passou a diminuir o orçamento militar da União Soviética, o que implicou diminuição de armamentos e a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão) e a glasnost (a "liberdade de expressão" à imprensa soviética e a transparência do governo para a população, retirando a forte censura que o governo comunista impunha).

A nova situação de liberdade na União Soviética possibilitou um afrouxamento na ditadura que Moscou impunha aos outros países. Pouco a pouco, o Pacto de Varsóvia começou a enfraquecer, e cada vez mais o Ocidente e o Oriente caminhavam para vias pacíficas. Em 1986, Ronald Reagan encontrou Gorbachev em Reykjavík, Islândia, para discutir novas medidas de desarmamento dos mísseis estacionados na Europa.

O ano de 1989 viu as primeiras eleições livres no mundo socialista, com vários candidatos e com a mídia livre para discutir. Ainda que muitos partidos comunistas tivessem tentado impedir as mudanças, a perestroika e a glasnost de Gorbachev tiveram grande efeito positivo na sociedade. Assim, os regimes comunistas, país após país, começaram a cair.

A Polônia e a Hungria negociaram eleições livres (com destaque para a vitória do partido Solidariedade na Polônia), e a Tchecoslováquia, a Bulgária, a Romênia e a Alemanha Oriental tiveram revoltas em massa, que pediam o fim do regime socialista. O ponto culminante foi a queda do Muro de Berlim em 9 de Novembro de 1989, que pôs fim à Cortina de Ferro e, para alguns historiadores, à Guerra Fria em si.

Esta situação repentina levou alguns conservadores da União Soviética, liderados pelo General Guenédi Ianaiev e Boris Pugo, a tentar um golpe de estado contra Gorbachev em Agosto de 1991. O golpe, todavia, foi frustrado por Boris Iéltsin. Mesmo assim, a liderança de Gorbachev estava em decadência e, em Setembro, os países bálticos conseguiram a independência.

Em Dezembro, a Ucrânia também se tornou independente. Finalmente, no dia 31 de Dezembro de 1991, Gorbachev anunciava o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, renunciando ao cargo que ocupava e ao seu sonho de ver um mundo socialista.



A Primeira Guerra Mundial (também conhecida como Grande Guerra antes de 1939, Guerra das Guerras ou ainda como a Última Guerra Feudal) foi um conflito mundial ocorrido entre Agosto de 1914 e 11 de Novembro de 1918.

Muitos dos combates na Primeira Guerra Mundial ocorreram nas frentes ocidentais, em trincheiras e fortificações (separadas pelas "Terras de Ninguém", que era o espaço entre cada trincheira, onde vários cadáveres ficavam a espera do recolhimento) do Mar do Norte até a Suíça. As batalhas se davam em invasões dinâmicas, em confrontos no mar, e pela primeira vez na história, no ar.

O saldo foi de mais de 19 milhões de mortos, dos quais 5% eram civis. Na Segunda Guerra Mundial, este número aumentou em 60%.

O conflito rompeu definitivamente com a antiga ordem mundial criada após as Guerras Napoleônicas, marcando a derrubada do absolutismo monárquico na Europa.

Três impérios europeus foram destruídos e conseqüentemente desmembrados: Alemão, o Austro-Húngaro e o Russo. Nos Bálcãs e no Médio Oriente o mesmo ocorreu com o Império Turco-Otomano. Dinastias imperiais européias como as das famílias Habsburgos, Romanov e Hohenzollern, que vinham dominando politicamente a Europa e cujo poder tinha raízes nas Cruzadas, também caíram durante os quatro anos de guerra.

O fracasso da Rússia na guerra acabou contribuindo para a queda do sistema czariano, servindo de catalisador para a Revolução Russa que inspirou outras em países tão diferentes como China e Cuba, e que serviu também como base para a Guerra Fria. No Médio Oriente o Império Turco-Otomano foi substituído pela República da Turquia e muitos territórios por toda a região acabaram em mãos inglesas e francesas. Na Europa Central os novos estados Tchecoslováquia, Finlândia, Letônia, Lituânia, Estônia e Iugoslávia "nasceram" depois da guerra e os estados da Áustria, Hungria e Polônia foram redefinidos. Pouco tempo depois da guerra, em 1923, os Fascistas tomaram o poder na Itália. A derrota da Alemanha na guerra e o fracasso em resolver assuntos pendentes no período pós-guerra, alguns dos quais haviam sido causas da Primeira Guerra, acabaram criando condições para a ascensão do Nazismo quatorze anos depois e para a Segunda Guerra Mundial em 1939, vinte anos depois.

Causas

Em 28 de Junho de 1914, o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono Austro-Húngaro, e sua esposa Sofia, Duquesa de Hohenberg, foram assassinados pelo sérvio Gavrilo Princip, que pertencia ao grupo nacionalista-terrorista armado Mão Negra (oficialmente chamado "Unificação ou Morte"), que lutava pela unificação dos territórios que continham sérvios.

O assassinato desencadeou os eventos que rapidamente deram origem à guerra, mas suas verdadeiras causas são muito mais complexas. Historiadores e políticos têm discutido essa questão por quase um século sem chegar a um consenso.

Algumas das primeiras hostilidades de guerra ocorreram no continente africano e no Oceano Pacífico, nas colônias e territórios das nações européias. Em Agosto de 1914 um combinado da França e do Império Britânico invadiu o protetorado alemão da Togoland, no Togo. Pouco depois, em 10 de Agosto, as forças alemães baseadas na Namíbia atacaram a África do Sul, que pertencia ao Império Britânico. Em 30 de Agosto a Nova Zelândia invadiu a Samoa, da Alemanha; em 11 de Setembro a Força Naval e Expedicionária Australiana desembarcou na ilha de Neu Pommern (mais tarde renomeada Nova Britânia), que fazia parte da chamada Nova Guinéa Alemã. O Japão invadiu as colônias micronésias e o porto alemão de abastecimento de carvão de Qingdao na península chinesa de Shandong. Com isso, em poucos meses, a Tríplice Entente tinha dominado todos os territórios alemães no Pacífico. Batalhas esporádicas, porém, ainda ocorriam na África.

Na Europa, a Alemanha e o Império Austro-Húngaro sofriam de uma mútua falta de comunicação e desconhecimento dos planos de cada exército. A Alemanha tinha garantido o apoio à invasão Austro-Húngara a Sérvia, mas a interpretação prática para cada um dos lados tinha sido diferente. Os líderes do Austro-Húngaros acreditavam que a Alemanha daria cobertura ao flanco setentrional contra a Rússia. A Alemanha, porém, tinha planejado que o Império Austro-Húngaro focasse a maioria de suas tropas na luta contra a Rússia enquanto combatia a França na Frente Ocidental. Tal confusão forçou o exército Austro-Húngaro a dividir suas tropas. Mais da metade das tropas foram combater os russos na fronteira, enquanto um pequeno grupo foi deslocado para invadir e conquistar a Sérvia.

A partir de 1917 a situação começou a alterar-se, quer com a entrada em cena de novos meios, como o carro de combate e a aviação militar, quer com a chegada ao teatro de operações europeu das forças norte-americanas ou a substituição de comandantes por outros com nova visão da guerra e das tácticas e estratégias mais adequadas; lançam-se, de um lado e de outro, grandes ofensivas, que causam profundas alterações no desenho da frente, acabando por colocar as tropas alemãs na defensiva e levando por fim à sua derrota. É verdade que a Alemanha adquire ainda algum fôlego quando a revolução estala no Império Russo e o governo bolchevista, chefiado por Lênin, prontamente assina a paz sem condições, assim anulando a frente leste, mas essa circunstância não será suficiente para evitar a derrocada. O armistício que põe fim à guerra é assinado a 11 de Novembro de 1918. Às 11h do 11º dia do 11 mês.



A Segunda Guerra Mundial (1939–1945) opôs os Aliados às Potências do Eixo, tendo sido o conflito que causou mais vítimas em toda a história da Humanidade. As principais potências aliadas eram a China, a França, a Grã-Bretanha, a União Soviética e os Estados Unidos. O Brasil se integrou aos Aliados em agosto de 1942. A Alemanha, a Itália e o Japão, por sua vez, perfaziam as forças do Eixo. Muitos outros países participaram na guerra, quer porque se juntaram a um dos lados, quer porque foram invadidos, ou por haver participado de conflitos laterais. Em algumas nações (como a França e a Jugoslávia), a Segunda Guerra Mundial provocou confrontos internos entre partidários de lados distintos.

O líder alemão de origem austríaca Adolf Hitler, Führer do Terceiro Reich, pretendia criar uma "nova ordem" na Europa, baseada nos princípios nazistas que defendiam a superioridade germânica, na exclusão — e supostamente eliminação física incluída — de algumas minorias étnicas e religiosas, como os judeus e os ciganos, bem como deficientes físicos e homossexuais; na supressão das liberdades e dos direitos individuais e na perseguição de ideologias liberais, socialistas e comunistas.

Tanto a Itália quanto o Japão entraram na guerra para satisfazer os seus propósitos expansionistas. As nações aliadas (como a França, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos da América) opuseram-se a estes desejos do Eixo. Estas nações, juntamente com a União Soviética, após a invasão desta pela Alemanha, constituíram a base do grupo dos Aliados.

Causas

A Primeira Guerra Mundial - "feita para pôr fim a todas as guerras" - transformou-se no ponto de partida de novos e irreconciliáveis conflitos, pois o Tratado de Versalhes (1919) disseminou um forte sentimento nacionalista, que culminou no totalitarismo nazi-fascista. As contradições se aguçaram com os efeitos da Grande Depressão. Além disso, a política de apaziguamento, adotada por alguns líderes políticos do período entre guerras e que se caracterizou por concessões para evitar um confronto, não conseguiu garantir a paz internacional. Sua atuação assemelhou-se à da Liga das Nações: um órgão frágil, sem reconhecimento e peso, que deveria cuidar da paz mundial, mas que fracassou totalmente. Assim, consolidaram-se os regimes totalitários. O germânico de origem austríaca Adolf Hitler defendia que a Alemanha necessitava mais espaço vital, ou "Lebensraum", e por isso queria estabelecer uma fronteira com a União Soviética. Hitler anexou ao Reich alemão a Áustria, seguido da Tchecoslováquia. A essas anexações, as potências ocidentais européias não responderam, mas quando Hitler avançou sobre a Polônia, foi declarado um conflito, e iniciou-se a Segunda Guerra Mundial.

Hitler na rota da Expansão

Logo após o abandono da Liga das Nações (que já se ressentia da ausência dos Estados Unidos, URSS e Brasil) pelo Japão, foi a vez da Alemanha retirar-se. Anunciando a saída da representação germânica, Hitler declarou que o não desarmamento das outras nações obrigava a Alemanha àquela forma de protesto. Embora na realidade ele simplesmente desejasse furtar-se às peias que a Liga das Nações poderia opor à sua política militarista, o Führer teve o cuidado de reiterar os propósitos pacifistas de seu governo. Aliás, nos anos seguintes, Hitler proclamaria suas intenções conciliatórias em várias oportunidades, como meio de acobertar objetivos expansionistas.

O nazismo fortalecia-se rapidamente na Alemanha. Hitler precisava do apoio de Reichswehr para realizar o rearmamento alemão, mas a maioria dos generais mantivera-se até então numa atitude de expectativa em relação ao novo governo. A pretensão das tropas SA, manifestada por seus chefes em múltiplas ocasiões, de se transformarem em exército nacional, horrorizava os militares profissionais, educados na Escola von Seeckt. Parecia-lhes um absurdo entregar aquela pequena, mas eficientíssima máquina, que era Reichswehr, nas mãos dos turbulentos "camisas pardas", acostumados apenas a combates de rua. Hitler inclinava-se a dar razão aos generais, o que vinha contra os interesses dos SA mais radicais. Em alguns círculos da milícia nazista, já se falava na necessidade de uma segunda revolução que restituísse ao Partido o ímpeto inicial.

O capitão Ernst Röhm, grande influenciador das tropas de choque nazistas, as SA, passou então a não só se mostrar mais radical ao Führer, mas ainda a incentivar a deposição de Adolf Hitler e fazer então um novo Putsch. Heinrich Himmler, chefe das SS, que na época era apenas uma subdivisão das SA, entregou a Hitler provas dos planos elaborados por Röhm - uma tentativa de assassinato a todos os grandes nomes do partido nazista, que, segundo os próprios planos, seria conhecido como "Noite das facas longas".

Por ordem expressa do Führer, foram realizadas execuções sumárias, realizadas pelas SS e pelas SD, na noite de 29 para 30 de Junho de 1934. Por ironia, Adolf Hitler deu às execuções o próprio nome idealizado por Röhm, Noite das Facas Longas. Quase todos os líderes das SA, a começar por seu chefe, o Capitão Ernst Röhm, foram passados pelas armas, juntamente com alguns políticos oposicionistas e o General von Schleicher (Kurt, 1882-1934), que era o maior opositor a Hitler no seio da Reichswehr. Tal decisão provocou a morte de algumas centenas de pessoas, muitas das quais eram fiéis do Partido, desde longa data.

Com essas execuções, o Führer atingiu um duplo objetivo: extinguiu os gérmenes da rebelião entre os SA, desde então reduzidos a um papel meramente decorativo, e deu aos generais uma sangrenta garantia de que pretendia conservá-los na direção da Reichswehr. O expurgo fora levado a cabo pelas SS, tropas de elite do Partido, ligadas a Hitler por um juramento especial. Esse corpo de homens selecionados, formando uma verdadeira guarda do regime, iniciou naquele dia a ascensão que iria levá-lo, sob a chefia de Heinrich Himmler, ao controle total da vida alemã, em nome de Hitler. Em 1945, quase um milhão de homens tinha envergado o uniforme negro com a insígnia da caveira, partindo de um núcleo que em 1929 contava com apenas 280 elementos.

A Noite das Facas Longas fez a Reichswehr cerrar fileiras em torno de Hitler, que, reforçado por tal sustentáculo, pode então se dedicar a seus planos longamente acalentados.

A primeira tentativa expansionista do III Reich fracassou. Desde sua ascensão ao poder, Hitler vinha incentivando o desenvolvimento de um partido nazista austríaco, como base para uma posterior anexação da Áustria à Alemanha. Nessa época, os austríacos estavam sob o governo ditatorial do chanceler católico Engelbert Dollfuss, inquebrantável defensor da independência de seu país. Em 27 de Julho de 1934, Dollfuss foi assassinado em Viena, por um grupo de nazistas sublevados. Mussolini, temendo que os alemães ocupassem a Áustria, enviou tropas para a fronteira, enquanto a Europa era sacudida por um frêmito de indignação contra a Alemanha. Hitler, porém, recuou, negando qualquer conivência com os conspiradores austríacos. Dollfuss foi sucedido por von Schuschnigg (Kurt Edler, n. 1897), que continuou a política conservadora e nacionalista de seu antecessor.

Reincorporação do Sarre e criação de uma "Luftwaffe"

Em 13 de janeiro de 1935, o nazismo obteve seu primeiro sucesso internacional. O Sarre era um antigo território alemão que tivera suas jazidas exploradas pelos franceses, durante 15 anos, como parte das reparações de guerra estabelecidas pelo Tratado de Versalhes. Agora, um plebiscito junto à população decidia, por maioria esmagadora, a reincorporação do Sarre ao Reich. Logo em seguida, em março, Hitler abalava a Europa com duas declarações retumbantes: No dia 9, anunciou a criação da Luftwaffe (Força Aérea) e, no dia 16, o restabelecimento do serviço militar obrigatório, elevando imediatamente os efetivos de Wehrmacht (Força de Defesa, novo nome das forças armadas alemãs), de 100.000 para 500.000 homens. Ambas as declarações foram feitas em sábados, para que seu impacto internacional fosse amortecido pelos feriados dos fins-de-semana.

As potências, alarmadas com o rearmamento germânico, decidiram, na Conferência de Stresa (abril de 1935), formar uma frente antialemã, condenando o repúdio unilateral de qualquer tratado de fronteiras na Europa e garantindo a independência da Áustria. Observe-se, porém, que a declaração de Stresa, subscrita pela Grã-Bretanha, França e Itália, não proibia a alteração de fronteiras fora da Europa, não impedindo a Mussolini a conquista da Etiópia ...

Em represália às decisões de Stresa, Hitler denunciou, em 21 de maio de 1935, todas as cláusulas militares do Tratado de Versalhes. Manifestando, como sempre, seus objetivos pacíficos, o Führer restituía à Alemanha a liberdade de ação no campo dos armamentos.

O governo inglês, preocupado com um possível desenvolvimento da marinha de guerra germânica, iniciou negociações secretas com os alemães, sem qualquer consulta à França. Em 18 de junho de 1935, a Europa soube, estarrecida, que Londres permitia aos nazistas a construção de uma frota de alto-mar, equivalente a 1/3 da marinha britânica, com uma proporção ainda maior de submarinos. Tal acordo equiparava a força naval alemã à francesa. A notícia provocou em Paris uma profunda irritação contra os ingleses, que haviam agido em função de seus interesses exclusivos e abandonado a França, diante de uma Alemanha cada vez mais poderosa. Ressentidos com os britânicos, os franceses procuraram então se aproximar da Itália, como um meio de barrar o caminho à Alemanha. O principal propugnador dessa nova orientação política da França foi o Primeiro-Ministro francês Pierre Laval.

Mussolini aceitou com entusiasmo a mão que a França lhe estendia, o que vinha servir seus planos imperialistas. O fascismo consolidara-se internamente, e a população italiana atingira um nível de prosperidade material até então jamais alcançado. Fiume fora definitivamente incorporada à Itália, mediante a concordância iugoslava. Satisfaziam-se assim as reivindicações nacionalistas italianas.

Entretanto, a própria psicologia do fascismo obrigava os dirigentes a estimularem constantemente o povo, conservando-o sempre excitado, a fim de manter o prestígio de Mussolini. O Duce queria evitar que a população italiana se habituasse à rotina, diminuindo o apoio ruidoso que lhe prestava e que afagava sua volúpia de poder. Devido a seu temperamento, era um líder que precisava de grandes gestos e de atos igualmente grandiosos, para alimentar sua enorme vaidade. Embora houvesse feito uma administração de incontestável valor na Itália, isso não lhe bastava. Sua concepção histórica impelia-o a imitar Júlio César, fazendo-o entrar, também, para a galeria dos grandes homens, sob o tríplice rótulo de administrador, estadista e conquistador.

Não existe um consenso sobre a data precisa em que o conflito foi iniciado, mas duas datas são marcantes: a invasão da China pelo Japão, em 1937, e a invasão da Polónia pela Alemanha em 1939.

Segunda Guerra Sino-japonesa

Em 1936, o governo japonês assinou com a Alemanha o Pacto Anti-Komintern (anticomunista) com o objetivo de combater o comunismo soviético, sendo a URSS a principal liderança comunista da Europa e Ásia. Devido a cultura militarista do Japão, um país de poucos recursos, eles planejaram conquistar todos os territórios da Ásia, o que incluía, a Coréia, a China e as ilhas do Pacífico. Porém o Tratado de Versalhes impedia as ambições japonesas, o que eles consideravam uma traição por parte das potências vencedoras da 1ª Guerra, pois o Japão ficou do lado delas, então eles se aliaram a Alemanha, cuja política expansionista ia ao encontro das ambições japonesas de conquistas territoriais.

Início da guerra na Europa

O plano de expansão do governo envolvia uma série de etapas. Em 1938, com o apoio de parte da população austríaca, o governo nazista anexou a Áustria, episódio conhecido como Anschluss.Em seguida, reivindicou a integração das minorias germânicas que habitavam os Sudetas (região montanhosa da Checoslováquia). Como esta não estava disposta a ceder, a guerra parecia iminente, foi então convocada uma conferência internacional em Munique. Na conferência de Munique, em setembro de 1938, ingleses e franceses, seguindo a política de apaziguamento, cederam à vontade de Hitler, concordando com a anexação dos Sudetos.

A 1 de Setembro de 1939, o exército alemão lançou uma forte ofensiva de surpresa contra a Polónia, com o principal objectivo de reconquistar seus territórios perdidos na Primeira Guerra Mundial e com o objetivo secundário de expandir o território alemão. As tropas alemãs conseguiram derrotar as tropas polacas em apenas um mês. A União Soviética tornou efetivo o acordo (Ribbentrop-Molotov) com a Alemanha nazi e ocupou a parte oriental da Polónia. A Grã-Bretanha e a França, responderam à ocupação declarando guerra à Alemanha, mas não entrando, porém, imediatamente em combate. A Itália, nesta fase, declarou-se "país neutro".

A guerra relâmpago

A 10 de Maio de 1940, o exército alemão lançou uma ofensiva, também de surpresa, contra os Países Baixos, dando início à Batalha da França. Os alemães visavam a contornar as poderosas fortificações francesas da Linha Maginot, construídas anos antes na fronteira da França com a Alemanha. Com os britânicos e franceses julgando que se repetiria a guerra de trincheiras da Primeira Guerra Mundial, e graças à combinação de ofensivas de pára-quedistas com rápidas manobras de blindados em combinação com rápidos deslocamentos de infantaria motorizada (a chamada "guerra-relâmpago" - Blitzkrieg, em alemão), os alemães derrotaram sem grande dificuldade as forças franco-britânicas, destacadas para a defesa da França. Nesta fase, ocorre a famosa retirada das forças aliadas para a Inglaterra por Dunquerque. O Marechal Pétain assumiu então a chefia do governo em França, que ficou conhecido como o governo de Vichy, assinou um armistício com Adolf Hitler e começou a colaborar com os alemães.

A invasão da URSS

Em 22 de Junho de 1941, os exércitos do eixo lançaram-se à conquista do território soviético, com a chamada Operação Barbarossa. Os exércitos do eixo contavam com 180 divisões, entre tropas alemãs, italianas, húngaras, romenas e finlandesas, num total de mais de três milhões e meio de soldados. A estes se opunham 320 divisões soviéticas, num total de mais de seis milhões de homens; porém apenas 160 destas divisões estavam situadas na região de fronteira com a Alemanha Nazi. Grande parte das tropas soviéticas estavam estacionadas na região leste do país, na fronteira com a China ocupada, antecipando a possibilidade de mais um ataque japonês contra a União Soviética, conforme acontecera em março de 1939.

A ofensiva era amplamente esperada, pois a invasão da União Soviética fazia parte do discurso nazista desde o surgimento do partido, tendo sido fortemente pregada por Adolf Hitler em seu livro "Mein Kampf" e estado presente em diversos de seus pronunciamentos políticos anteriores até mesmo ao início da guerra. Relatórios de serviços secretos davam conta da iminência da invasão, partindo não somente da espionagem soviética mas também de informações obtidas pelos ingleses e norte-americanos. A mobilização de grande número de tropas alemãs para a região de fronteira também foi percebida. Os soviéticos já vinham tomando medidas contra a invasão desde a década de 30, aumentando exponencialmente o contingente de seu exército.

Apesar de tudo isto, a invasão começa a 22 de junho de 1941 veio como uma surpresa, pois não se esperava que a Alemanha atacasse a URSS antes que a Inglaterra se retirasse da guerra, conforme se previa. O resultado disto foi uma enorme vantagem tática para as tropas alemãs nos primeiros dias da guerra, o que permitiu o envolvimento de grande número de divisões do exército vermelho e a destruição de grande parte dos aviões soviéticos ainda nas suas bases, antes mesmo que conseguissem levantar vôo.

As tropas do eixo foram divididas em três grupos de exércitos: norte, central e sul. O grupo norte atravessou os países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia) e marchou contra Leningrado , que foi atacada ao mesmo tempo pelos finlandeses, mais ao norte. A cidade foi completamente cercada a 8 de setembro de 1941; a partir de então só foi possível abastecê-la pela rota que atravessava o lago Ladoga, constantemente vigiada pelos aviões alemães. O resultado foi uma grave crise de fome, que segundo as estimativas teria vitimado por volta de um milhão de civis. A partir de 20 de novembro de 1941, foi possível estabelecer uma rota segura para Leningrado através do lago congelado, devido à recaptura do eixo ferroviário na cidade de Tikhvin, o que permitiu a evacuação de civis, melhorando a situação da cidade. O cerco de Leningrado só foi completamente levantado em Janeiro de 1944.

O exército central foi o que progrediu mais rapidamente, tendo conquistado completamente a cidade de Minsk a 29 de junho de 1941, operação que resultou na captura de 420 mil soldados do exército vermelho. A ofensiva prosseguiu com o grupo central marchando através da Bielorússia até atingir a cidade de Smolensk, penetrando finalmente no território da Rússia propriamente dita. Aqui o avanço das tropas alemãs foi interrompido pela primeira vez, dada a forte resistência oposta pelas tropas soviéticas, porém a cidade foi conquistada a 16 de julho.

O exército sul prosseguiu mais vagarosamente do que os outros dois, sendo forçado a combater no terreno dos pântanos Pripet, o que reduzia a velocidade dos avanços. Apesar disso, conseguiu empurrar o grupo sul do exército vermelho até a cidade de Kiev, onde seu avanço foi interrompido. Aproveitando-se do fato de que o exército central havia avançado muito mais adiante, os alemães deslocaram boa parte desse segundo grupo de exércitos para o sul, conseguindo assim envolver um enorme grupo de divisões no que ficou conhecido como o bolsão de Kiev. O resultado foi a captura de 700 mil soldados soviéticos, o que resultou praticamente na destruição do grupo sul do exército vermelho. A luta pela captura da capital da Ucrânia prosseguiu até 26 de setembro.

Após esta operação, o grupo sul do exército lançou-se à captura da península da Criméia. Esta operação seria concluída a 30 de outubro, com o cerco da cidade de Sebastopol que, no entanto, só foi capturada em Julho de 1942. A cidade de Odessa, sitiada por tropas romenas desde os primeiros dias da guerra, só foi tomada em setembro. Após capturar o território da Criméia, os alemães voltaram-se para o Cáucaso, chegando a tomar Rostov a 21 de novembro. Entretanto, a cidade foi retomada pelos soviéticos poucos dias depois, a 27 de novembro.

As tropas do exército central uniram-se a várias unidades do grupo norte e iniciaram a operação que tinha por objetivo envolver a cidade de Moscou, a 30 de setembro de 1941. Inicialmente as tropas do eixo prosseguiram com velocidade, capturando Bryansk, Orel e Vyazma, numa batalha em que foram cercados e capturados 650.000 homens, no que seria o último grande envolvimento em 1941. As tropas alemãs continuaram avançando até capturarem a cidade de Tula, a 165 quilômetros da capital russa, que passou a sofrer bombardeamentos aéreos. Entretanto, o avanço do exército alemão foi barrado, e as pinças norte e sul do ataque não puderam se encontrar, fechando o cerco. Apesar das gigantescas perdas que o exército vermelho havia sofrido, os soviéticos conseguiram formar novas divisões de conscritos, trazendo também para a frente oeste tropas anteriormente localizadas na região leste do país, repondo suas perdas e conseguindo dar combate aos alemães.

No dia 6 de dezembro, em pleno inverno, começou a contra-ofensiva dos russos, chefiada pelo general Georgy Zhukov. Utilizando equipamentos novos como os tanques T-34 e os morteiros foguetes Katyusha, o exército vermelho conseguiu retomar uma quantidade significativa de território, afastando definitivamente a ameaça que pairava sobre sua capital.

Em 1942, o exército alemão já não se encontrava em condições de tentar uma nova ofensiva contra Moscou, que também seria demasiadamente previsível. A Wehrmacht voltou-se então contra a região do Cáucaso, de grande importância econômica e militar devido a seus recursos petrolíferos (reservas de petróleo soviéticas no Mar Cáspio), industriais e agrícolas. Além disso, a conquista da região permitiria bloquear o rio Volga. A operação de captura do Cáucaso foi chamada de operação Azul e teve início em 28 de junho de 1942. No final do mês de julho os alemães já haviam avançado até a linha do rio Don e começaram os preparativos para o envolvimento da cidade de Stalingrado, defendida pelas tropas do General Chuikov. A cidade sofreu pesados bombardeamentos aéreos.

No fim de Agosto, a cidade foi cercada ao norte e no 1.º de setembro as comunicações ao sul também foram interrompidas. A partir de então, as tropas que combatiam na cidade só puderam ser abastecidas através do rio Volga, constantemente bombardeado pelos alemães. A batalha pela cidade durou três meses, conhecendo avanços e recuos de ambas as partes, com lutas sangrentas pela conquista de simples casas, prédios ou fábricas. O tipo de terreno resultante das ruínas da cidade arrasada favorecia o combate de infantaria, impedindo a utilização eficiente de tanques. Milhares de civis aprisionados no interior da cidade foram vitimados, principalmente em conseqüência dos bombardeamentos. Em novembro, os alemães haviam alcançado a margem do rio Volga, impedindo o abastecimento das tropas soviéticas.

Em novembro de 1942, os soviéticos iniciaram seu contra-ataque, batizado de Operação Urano, que tinha o objetivo de envolver as divisões alemãs em Stalingrado. Em 19 de novembro, as tropas do general Vatutin, que formavam a pinça norte do ataque, irromperam contra o flanco dos exércitos do Eixo, enquanto ao sul as tropas de Rokossovsky faziam o mesmo. Os alemães foram cercados pelo Exército Vermelho e as tentativas de abastecê-los através de uma ponta aérea não tiveram sucesso. Uma tentativa de romper o cerco foi feita pelas tropas do General Manstein, numa operação chamada de Tempestade de Inverno, porém as tropas cercadas no interior da cidade já estavam sem abastecimento há um bom tempo e não tiveram condições de colaborar com as demais tropas alemãs. Os soviéticos continuavam seu contra-ataque (agora a Operação Saturno), ameaçando envolver os exércitos de Manstein, que foi forçado a abandonar sua tentativa de salvamento e retirar-se. A 2 de fevereiro de 1943, os alemães remanescentes na cidade rendem-se. Mais de 800 mil soldados do eixo, entre alemães, húngaros, romenos e italianos, além de dois milhões de soviéticos, morreram nas operações que envolveram Stalingrado e todo o restante do 6º Exército alemão, comandado pelo Generalfieldmarschall (Marechal-de-Campo)Friedrich Von Paulus, que obedeceu até o fim as ordens de Hitler de não romper o cerco, sendo feito prisioneiro junto com o seu exército. A batalha de Stalingrado dura cinco meses. Dos trezentos mil soldados alemães encurralados no cerco, noventa mil morrem de frio e fome e mais de cem mil são mortos nas três semanas anteriores à rendição. Devido às rigorosas dificuldades do inverno nesse ano, que dificultava a subsistência até da população local, um grande número dos soldados alemães, sem proteção contra o frio nos campos de prisioneiros, não sobreviveu, sendo que poucos retornaram a sua terra natal após a guerra. Após a tomada de Stalingrado, as tropas soviéticas continuaram avançando e em fevereiro de 1943 retomaram Kursk, Kharkov e Rostov, retomando completamente a região do Cáucaso. A 20 de fevereiro, os alemães retomaram Kharkov, formando uma saliência no front soviético em Kursk, o que teria importantes conseqüências nos meses seguintes.

Os generais alemães e o próprio Hitler, após a queda de Stalingrado, tinham noção que esse quadro de desestabilização geral estava ocorrendo, e começaram a planejar medidas para reduzir seus efeitos. Muitos oficiais preferiam esperar uma ofensiva soviética e contra-atacar – a “ação de retaguarda” proposta por Manstein – buscando paralisar os russos com contra-ataques locais; outros militares defendiam que uma ofensiva deveria ser desfechada o quanto antes para incapacitar os soviéticos e depois esperar pelos ataques dos aliados ocidentais. Essa tática acabou sendo a escolhida por Hitler, resultando na “Operação Cidadela”, cognome do ataque contra a cidade de Kursk, onde estavam concentradas grandes forças russas que deveriam ser cercadas e destruídas. Foi uma operação perdida desde o início para os alemães, pois os soviéticos tinham superioridade em artilharia, tanques, homens e aviões, o que talvez não fizesse tanta diferença se também não tivessem as informações sobre os planos de ataque alemães – obtidas através da rede de espiões comunistas “Orquestra Vermelha” na Alemanha – e contassem com defesas em profundidade largamente preparadas na região. A culminância dessa malfadada operação foi a Batalha de Kursk, em julho de 1943, onde os alemães sofreram uma grande derrota e foram recuando até saírem da URSS e as forças soviéticas avançando em direção à Alemanha.

Embora o significado das batalhas entre Alemanha e URSS tenha sido enormemente relativizado no mundo capitalista pós-guerra, por conta de questões ideológicas próprias da Guerra Fria (quando não era mais conveniente ressaltar qualidades positivas do antigo aliado soviético...), o chamado fronte oriental foi onde aconteceram as mais ferozes batalhas, com as maiores perdas civis e militares da história, e mostrou excepcionais tenacidade e capacidade de reorganização e aprendizado do Exército Vermelho frente à Wehrmacht. Apesar de imensas perdas humanas e matérias, a URSS foi a única nação da guerra a ser invadida territorialmente pela Werhmacht (então o maior, melhor treinado, mais bem equipado, e mais eficiente exército do mundo, cujos vários feitos em eficiência e versatilidade em campo permanecem inigualados até hoje) a ser capaz de se reorganizar, e, sem rendição ou acordos colaboracionistas (como o do “Governo de Vichy”, na França), resistir, combater, e efetivamente rechaçar as forças alemãs para fora de seu território sem tropas externas atuando em seu território (como na recuperação da França, por exemplo, precisou da ajuda maciça de tropas americanas e britânicas), e, mais importante, seguir um curso de vitórias até a capital da Alemanha - terminando, na prática, a guerra: poucos dias depois do suicídio de Hitler na Berlim já completamente ocupada pelo Exército Vermelho, as forças alemãs assinaram sua rendição incondicional.

A reconquista da Europa

A partir de 1943, os exércitos aliados foram recuperando território passo a passo. Os soviéticos obrigaram os alemães a retroceder e os norte-americanos ocuparam parte da Itália.

A 6 Junho de 1944, no chamado Dia D (D-Day), os Aliados efectuaram um desembarque nas praias da Normandia (Operação Overlord), em que participaram o Exército Britânico (lutando nas praias de Gold e Sword), o Exército Americano (lutando em Omaha e Utah) e o Exército Canadense (lutando em Juno). Os americanos sofreram por volta de duas mil baixas, pois os tanques Sherman, (disfarçados de Chatas pelo Exército Americano para os esconder, e torná-los um fator surpresa) afundaram. Já o Exército britânico não teve muitas baixas em Gold e Sword, pois seus tanques blindados e especializados (em cortar trincheiras e explodir minas) conseguiram ultrapassar. Era o início da Batalha da Normandia. A Wehrmacht, não conseguiu responder ao ataque devidamente, pois o comandante da área (à época, General Erwin Rommel) não estava presente, pois seu carro havia sido bombardeado durante uma viagem à Alemanha e, encontrava-se internado num hospital da Luftwaffe.

A juntar a este facto, a Wehrmacht era naquela zona principalmente constituída por homens recrutados à força, em países invadidos pelos alemães. Especula-se também que, à hora da invasão, Hitler estaria a dormir, e nenhum dos seus subalternos se atreveu a acordá-lo, ou a dar ordem para que as divisões blindadas estacionadas no interior se dirigissem para a costa, a fim de deter a invasão. Outro factor que também atrasou a movimentação das divisões blindadas para a zona costeira foi a sabotagem, principalmente dos caminhos de ferro, por parte da resistência francesa. Na madrugada do dia 6, antes do desembarque, pára-quedistas haviam já saltado atrás das linhas alemãs, embora de forma desorganizada, tendo por isso a maioria destes falhado os locais de aterragem. O objectivo destes pára-quedistas era neutralizar as peças de artilharia alemãs colocadas no interior, que naturalmente iriam bombardear as tropas aliadas assim que estas chegassem às praias.

Após o desembarque na Normandia, seguiu-se a operação Market Garden em Setembro de 1944, que tinha como um dos objectivos libertar os Países Baixos. Esta operação foi superior à Overlord no que respeita ao número de soldados envolvidos (apenas pára-quedistas), mas resultou num enorme fracasso, contando-se cerca de 20 mil mortos, só entre os americanos, e 6500 britânicos foram feitos prisioneiros. O objectivo dos Aliados era conquistar uma série de pontes nos Países Baixos, o que lhes permitiria atravessar o rio Reno.

A derrota do Eixo

Apesar da evidente superioridade militar aliada, as tropas alemãs resistiram durante meses, até que, em Dezembro de 1944, Hitler ordenou uma contra-ofensiva na Bélgica, nas Ardenas. Os exércitos aliados, desgastados devido a problemas logísticos, sustiveram com grande dificuldade o avanço das tropas alemãs. Várias unidades aliadas foram cercadas pelo avanço alemão, privando estes soldados de receberem mantimentos e outros equipamentos, pelo que tiveram de sobreviver a um inverno rigoroso sem roupa adequada e com poucas munições. Eram frequentes as incursões de soldados alemães, disfarçados de soldados americanos, em áreas controladas pelos aliados para causar sérios transtornos, como mudança de caminhos de divisões inteiras, mudanças de placas, implantações de minas, emboscadas. Estes soldados alemães, os primeiros comandos, estavam sob o comando do Oberst (Coronel) Otto Skorzeny, que já libertara Mussolini, entretanto aprisionado em Itália. Finalmente, a ofensiva alemã acabou por fracassar, e o custo em termos militares acabou por fragilizar a posterior defesa do território alemão. Na Itália, foi tomada a abertura ao Reno, com participação de forças francesas, americanas e a Força Expedicionária Brasileira, fato que facilitou o avanço aliado pelo sul.

Antes mesmo de findar a guerra, as grandes potências firmaram acordos sobre seu encerramento, além de definirem partilhas, inaugurando novos confrontos com potencial de desencadear uma hecatombe nuclear. O primeiro dos acordos foi a Conferência de Teerã, no Irã, em 1943.

Em Janeiro de 1945, Winston Churchill, Franklin D. Roosevelt e Josef Stalin reúnem-se novamente em Ialta, Ucrânia, já sabendo da inevitabilidade da derrota alemã, para decidir sobre o futuro da Europa pós-guerra. Nesta conferência, fica decidido que todos os países libertados deveriam realizar eleições livres e democráticas - o que não se veio a verificar, nos países controlados pelo Exército Vermelho - e que a Alemanha teria de compensar os países que invadiu. Discutiu-se também a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) em bases diferentes das da Liga das Nações. Definiu-se, ademais, a partilha mundial, deixando à União Soviética o predomínio sobre a Europa Oriental, incorporando os territórios alemães a leste e definindo a participação da URSS na rendição do Japão, com a divisão da Coréia em áreas de influência soviética e norte-americana. Assim, lançavam-se as bases para a Guerra Fria.

Entretanto, o avanço das tropas aliadas e soviéticas chegou ao território alemão. Previamente, havia já sido estabelecido o avanço dos dois exércitos, ficando a tomada de Berlim a cargo do Exército Vermelho. Esta decisão, tomada pelas esferas militares, foi encarada com apreensão pela população, pois era conhecido o rasto de pilhagens, execuções e violações (estupro), que os soldados soviéticos deixavam atrás de si, em grande parte como retaliação pela mortes causadas pelos soldados alemães na União Soviética (o país com o maior número de baixas civis e militares de toda a guerra, cerca de 20 milhões). A 30 de Abril de 1945, Adolf Hitler suicidou-se, quando as tropas soviéticas estavam a exatamente dois quarteirões de seu bunker.

A 7 de Maio, o seu sucessor, o almirante Dönitz, assinou a capitulação alemã. A 14 de Agosto de 1945, o general Tojo do Japão rendeu-se incondicionalmente.

A guerra no Pacífico

Por volta de 1940, o Japão, tinha já ocupado vários territórios no Pacífico, e tentava agora aumentar a sua influência no Sudoeste Asiático e no Pacífico.

Em Junho de 1941, o Japão, invade a Indochina. O governo dos Estados Unidos da América, indignado, impõe sanções económicas ao Japão. Como represália, a 7 de Dezembro de 1941, a aviação japonesa atacou Pearl Harbor, a maior base norte-americana do Pacífico. Em apenas duas horas, os pilotos japoneses conseguiram inutilizar todos os navios ancorados no porto, cinco navios de guerra e outros 15 foram afundados ou destruidos.

No dia seguinte os EUA declaram guerra ao Japão, dando início à guerra do Pacífico.

Apenas duas horas após o ataque que deu início oficial à guerra do Pacífico, o ataque a Pearl Harbor, os japoneses iniciaram a invasão de vários territórios da Ásia e do Pacífico. Em Abril de 1942, o Japão, tinha já conquistado esses vastos territórios; controlando Hong Kong, a Malásia, Singapura — a qual a Grã-Bretanha abandonou a 15 de Fevereiro de 1942, a Indonésia, as Filipinas, a Birmânia e outras ilhas no Pacífico.

O sucesso dos japoneses, devia-se à utilização de um pequeno número de tropas, mas altamente treinadas e protegidas por uma força aérea. Todos os seus conflitos durante a Campanha do Sul foram combatidas por algumas divisões apenas, praticamente sem tanques ou armas sofisticadas.

O fim da guerra

Já em 1944 a guerra na Ásia começava a progredir devagar, já não mantendo o ritmo inicial da guerra. Em Março de 1944, as forças japonesas ocuparam a Birmânia e deram início a um ataque contra a Índia, mas acabaram por ser derrotadas em Impanhal. No Norte da China, as forças japonesas, começaram a enfrentar as forças comunistas de Mao Zedong. A Guerra Sino-Japonesa, que mobilizava mais de um milhão de homens, gastava mais recursos que a Campanha do Sul. Em 1944, depois de lançada a última ofensiva em Ichi Go, o Império japonês, tomou grande parte do Sul da China Central, estabelecendo uma ligação terrestre com a Indochina.

A quando a vitória japonesa na China, as forças Aliadas do Pacífico haviam chegado perto do arquipélago nipónico. Em 1945, a captura das ilhas de Iwo Jima (em Fevereiro) e Okinawa (em Abril), pelos Aliados, trouxeram o Japão para dentro do alcance de ataques aéreos e navais, começando assim os bombardeamentos a fábricas e instalações militares na ilha principal. Esses bombardeamentos, executados por bombardeiros norte-americanos B-29 entre Março e Junho, acabaram por destruir 58 cidades japonesas, matando mais de 393 000 civis.

Em inícios de Agosto o Imperador Hirohito, verificando as elevadas perdas nos últimos conflitos, autorizou que o embaixador japonês na União Soviética contactasse Estaline para apresentar uma rendição do Japão. Estaline recebeu a mensagem algumas horas antes da conferência dos Aliados na Alemanha, apresentando assim a rendição japonesa a Harry Truman. Os Aliados pediam ao Japão uma rendição incondicional, contudo o Japão decidiu não responder devido aos termos de rendição dos Aliados não especificarem o futuro do Imperador — visto como um deus para o povo japonês — tal como o sistema imperial. Harry Truman, após a sua chegada à conferência, recebeu uma mensagem que indicava que o teste da bomba atómica "Trinity" tinha sido bem sucedido; decidido a ganhar a guerra utilizando o projecto Manhattan deu indicações a Estaline para ignorar a mensagem japonesa e Estaline também com a idéia de ganhar territórios no Pacífico, ilhas conquistadas pelo Japão, concordou com Truman.

A 6 de Agosto, a bomba atómica "Little Boy", foi lançada sobre Hiroshima do B-29 "Enola Gay", pelo "esquadrão Atómico", contudo esta bomba não teve o efeito esperado, não tendo qualquer reacção no Imperador Hirohito e do Gabinete de Guerra japonês. Muito do povo japonês desconhecia ainda o ataque a Hiroshima, pois as estações de rádio e jornais não relataram nada sobre o ataque, apenas sobre um novo tipo de bomba desenvolvido.

A 8 de Agosto de 1945 a União Soviética declarou guerra ao Japão, como tinha concordado na conferência, e lançou uma invasão (Operação Tempestade de Agosto, August Storm) em grande escala à Manchúria, que se encontrava ocupada pelo Japão — tal invasão é reconhecida pelos japoneses como o que teve mais efeito para o fim da guerra.

Truman decidiu não esperar por uma resposta do Japão, ordenando assim o lançamento de uma segunda bomba atómica, a "Fat Man" que foi lançada pelo B-29 "Bock's Car" sobre Nagasaki a 9 de Agosto.

A 14 de Agosto o Japão rende-se incondicionalmente, após aquelas cidades terem sido atingidas pelos engenhos nucleares, que causaram cerca de 300 mil mortos instantaneamente, e um número indeterminado de vítimas posteriormente, devido à contaminação pela radiação. As chefias militares norte-americanas justificaram esta acção afirmando que uma invasão do Japão teria custos elevados em termos de vidas de soldados americanos.

O Japão assinou a rendição a bordo do USS Missouri, na baía de Tóquio, no dia 15 de Agosto, sendo celebrada a vitória nesse dia, conhecido como Dia V-J.



As Cruzadas foram expedições militares que partiam da Europa cristã a fim de combater os muçulmanos no Oriente.

Primeira Cruzada (1096-1099)

Foi chamada também de Cruzada dos Nobres ou dos Cavaleiros. Ao pregar e prometer a salvação a todos os que morressem em combate contra os pagãos (leia-se, muçulmanos) em 1095, o Papa Urbano II estava a criar um novo ciclo. É certo que a ideia não era totalmente nova: parece que já no século IX se declarara que os guerreiros mortos em combate contra os muçulmanos na Sicília mereciam a salvação. Mas desta vez a salvação não era prometida numa situação excepcional.

As várias versões que nos restam do seu apelo mostram que Urbano relatou também os infortúnios dos cristãos do oriente, e sublinhou que se até então os cavaleiros do ocidente habitualmente combatiam entre si perturbando a paz, poderiam agora lutar contra os verdadeiros inimigos da fé, colocando-se ao serviço de uma boa causa. O apelo foi feito a todos sem distinção, pobres ou ricos. E foi, de facto, o que sucedeu. Mas os ricos e pobres rapidamente formaram cruzadas separadas.

Por volta de 1097, um exército de 30 mil homens, dentre eles muitos peregrinos, cruzou a Ásia Menor, partindo de Constantinopla. A cruzada dos cavaleiros, possuindo recursos, embora progredindo devagar, fizera um acordo com o imperador de Bizâncio de lhe devolver os territórios conquistados aos turcos. Liderada por grandes senhores, levava quer proprietários, quer filhos segundos da nobreza. Esse acordo seria desrespeitado, à medida que o mal-entendido entre as duas partes cresceria.

Os bizantinos pretendiam um grupo de mercenários solidamente enquadrados ao qual se pagasse o soldo e que obedecesse às ordens - não aquelas turbas indisciplinadas; os cruzados não estavam dispostos, depois de tantos sacrifícios a entregar o que obtinham. Apesar da animosidade entre os líderes e das promessas quebradas entre os cruzados e os bizantinos que os ajudavam, a Cruzada prosseguiu. Os turcos estavam simplesmente desorganizados. A cavalaria pesada e a infantaria francas não tinham experiência em lutar contra a cavalaria leve e arqueiros turcos, e vice-versa. A resistência e a força dos cavaleiros venceram a campanha em uma série de vitórias, a maioria muito difíceis.

Em 19 de Junho de 1097, os cruzados cercaram e tomaram Nicéia, devolvendo-a aos bizantinos, e logo tomaram o rumo de Antioquia. Em julho, foram atacados pelos turcos em Dorileia, mas conseguiram vencê-los e, após penosa marcha, chegaram aos arredores de Antioquia em 20 de outubro. A cidade de Antioquia somente cairia, após longo cerco, a 3 de Junho de 1098, com a ajuda de um sentinela armênio que facilitou a entrada dos cruzados nas muralhas da cidade. Seguiu-se um saque terrível da população muçulmana da cidade, que ficou na posse de Boemundo de Taranto, o chefe dos normandos.

Godofredo de Bulhão, após longo cerco, conquistou Jerusalém atacando uma guarnição fraca em 1099. A repressão foi violenta. Segundo o arcebispo Guilherme de Tiro, a cidade oferecia tal espetáculo, tal carnificina de inimigos, tal derramamento de sangue que os próprios vencedores ficaram impressionados de horror e descontentamento. Godofredo de Bulhão ficou só com o título de protector e, à sua morte, Balduíno, seu irmão, proclamou-se rei. Os cristãos humilharam-se após as duas conquistas massacrando muito dos residentes, indiferentemente da idade, fé ou sexo. Após a vitória, era preciso organizar a conquista. Surgiram quatro estados cruzados, conhecidos coletivamente como Outremer ("Ultramar"), do norte para o sul: o Condado de Edessa, o Principado de Antióquia, o Condado de Trípoli, e o Reino de Jerusalém.

O sucesso da primeira cruzada pelas indisciplinadas tropas foi até certo ponto uma surpresa e ocorreu porque os cruzados chegaram num momento de desordem naquela periferia do mundo islâmico. Uma vez conquistado o território ao inimigo, os cruzados, cujos desentendimentos com os bizantinos começaram ainda durante a campanha, não mais quiseram devolver as terras aos seus irmãos de fé cristã do Império Bizantino.

Muitos dos combatentes retiraram-se uma vez conquistada Jerusalém (incluindo os grandes senhores), mas um núcleo ficou (cálculos chegam a falar de algumas centenas de cavaleiros e um milhar de homens a pé). As cidades principais (como Antioquia, Edessa) tornarem-se capitais de principados e reinos (embora Jerusalém fosse de certo modo o centro político e religioso), com outras marcas a protegê-los.

O sistema feudal foi transplantado para oriente com algumas alterações: muitas vezes, em vez de receber feudos, os cavaleiros eram pagos com direitos ou rendas (modalidade que existia também na Europa). As cidades mercantis italianas tornaram-se fundamentais para a sobrevivência desses estados: permitiram a chegada de reforços e interceptar os movimentos das esquadras muçulmanas, tornando o Mediterrâneo novamente um mar navegável pelos ocidentais. Mas rapidamente os muçulmanos iriam reagir.

De qualquer modo, nos anos seguintes, com a euforia da vitória, mais voluntários seguiram para o Oriente. Os contingentes seguiam por nacionalidades, continuando pouco organizados. As motivações eram variáveis: se alguns pretendiam obter novos feudos, ou redimir-se das suas faltas, havia também aqueles que "apenas" pretendiam ganhar batalhas, cobrir-se de glória, bênçãos espirituais, e voltar para a sua terra.

Os governantes cruzados encontravam-se em grande desvantagem numérica em relação às populações muçulmanas que eles tentavam controlar. Assim, construíram castelos e contrataram tropas mercenárias para mantê-los sob controle. A cultura e a religião dos francos era muito estranha para cativar os residentes da região. Dos seguros castelos, os cruzados interceptavam cavaleiros árabes.

Por aproximadamente um século, os dois lados mantiveram um clássico conflito de guerrilha. Os cavaleiros francos eram muito fortes, mas lentos. Os árabes não aguentavam um ataque da cavalaria pesada, mas podiam cavalgar em círculo em volta dela, na esperança de incapacitar as unidades dos francos e fazer emboscadas no deserto. Os reinos cruzados localizavam-se, em sua maioria, no litoral, pelo qual eles podiam receber suprimentos e reforços, mas as constantes incursões e o infeliz populacho mostravam que eles não eram um sucesso econômico.

Ordens de monges cavaleiros foram formadas para lutar pelas terras sagradas. Os cavaleiros templários e hospitalários eram, em sua maioria, francos. Os cavaleiros teutônicos (Teutonicorum) eram germânicos. Esses eram os mais bravios e determinados dos cruzados, mas nunca eram suficientes para fazer a região ficar segura. Os reinos cruzados sobreviveram por um tempo, em parte porque aprenderam a negociar, conciliar e jogar os diferentes grupos árabes uns contra os outros.

Por volta do ano 1100, uma nova expedição partiu. Chegados a Constantinopla, levantaram-se discussões com os bizantinos que estavam fartos de ter aqueles vizinhos incómodos que pilhavam a terra, portavam-se de uma forma muito mais brutal em guerra, e ficavam com o que conquistavam (para além das diferenças culturais e religiosas).

Entretanto, os turcos estavam a unificar-se para tentar fazer face a estas ameaça. Evitando combates directos até ao último momento contra a cavalaria pesada cristã, usaram tácticas de emboscadas. Em Mersivan, esmagaram um dos exércitos cristãos (o dos lombardos e francos) que fora abandonado pelos seus líderes e cavaleiros (que fugiram). Estes foram severamente criticados pela fuga, assim como Alexio, imperador de Bizâncio, por não ter dado apoio.

Outro grupo, o exército de Nivernais, também foi destruído de forma similar (com fuga de líderes incluída). A expedição da Aquitânia portou-se melhor: ao menos os cavaleiros ficaram a combater e morrer juntamente com o povo. Alguns poucos conseguiram fugiram para Constantinopla. Três exércitos aniquilados em dois meses, enquanto que o pequeno exército de Jerusalém (com o membros da Primeira Cruzada) derrotava um exército egípcio.

Por alguns anos, não foram pregadas mais cruzadas, e os territórios cristãos no oriente tiveram de se aguentar por conta própria. Assumiram como padroeiro São Jorge da Capadócia, exemplo de cavaleiro cristão, e seu brasão de armas, a cruz vermelha num escudo branco.

O condado de Edessa caiu em 1144, sob Zangi, governante de Alepo e Mosul. Cairam mais tarde Antioquia em 1268, Trípoli em 1289 e o último posto dos Cruzados, Acre, durou até 1291.

Segunda Cruzada (1147-1149)

Em 1145, foi pregada uma nova cruzada por Eugénio III e São Bernardo. A perda do Condado de Edessa provocou a organização dessa cruzada. Desta vez foram reis que responderam ao apelo: Luís VII da França e Conrado III do Sacro Império, para nomear os mais importantes. Curiosamente, os contingentes flamengos e ingleses acabaram por conquistar Lisboa e voltar para as suas terras na sua maioria, uma vez que eram concedidas indulgências para quem combatia na Península Ibérica.

O exército de Conrado acabou esmagado pelos turcos num momento de repouso. O que sobrou juntou-se aos franceses, com o apoio dos templários. Com algumas dificuldades de transporte, mais uma vez uma parte do exército teve de ser abandonada para trás (sobretudo os plebeus a pé), e estes tiveram de abrir caminho contra os turcos.

Luís VII e Conrado em Jerusalém, depois de algumas discussões, acabaram por ser convencidos a atacar Damasco, mas ao fim de poucos dias tiveram que se retirar perante a ameaça de uma parte dos nobres fazê-lo por conta própria. O resultado desta Cruzada foi miserável (se excetuarmos a conquista de Lisboa), tendo sucesso apenas em azedar as relações entre os reinos cruzados, os bizantinos e os governantes muçulmanos amigáveis. Nenhuma nova cruzada foi lançada até a um novo acontecimento: a conquista de Jerusalém pelos muçulmanos em 1187. Os cristãos enfrentavam um adversário decidido, Saladino.

Terceira Cruzada (1189-1192)

A Terceira Cruzada, pregada pelo Papa Gregório VIII após a tomada de Jerusalém pelo sultão Saladino em 1187, foi denominada Cruzada dos Reis. É assim denominada pela participação dos três principais soberanos europeus da época: Filipe Augusto (França), Frederico Barbaruiva (Sacro Império Romano-Germânico) e Ricardo Coração de Leão (Inglaterra).

O imperador Frederico Barbaruiva, atendendo os apelos do papa, partiu com um contingente alemão de Ratisbona e tomou o itinerário danubiano atravessando com sucesso a Ásia Menor, porém afogou-se na Cilícia ao atravessar o Sélef (hoje Goksu). A sua morte representou o fim prático desse núcleo. Os reis de França e Inglaterra passaram o tempo todo a querelar-se, até que aquele se retirou.

Se Ricardo Coração de Leão conseguiu alguns actos notáveis (a conquista de Chipre, Acre, Jaffa e uma série de vitórias contra efectivos superiores) também não teve pejo em massacrar prisioneiros (incluindo mulheres e crianças). Com Saladino, teve um adversário à altura, combatendo e travando um subtil táctico. Em 1192, acabou-se por chegar a um acordo: os cristãos mantinham o que tinham conquistado e obtinham o direito de peregrinação, desde que desarmados, a Jerusalém (que ficava em mãos muçulmanas).

Se esse objectivo principal falhara, alguns resultados tinham sido obtidos: Saladino vira a sua carreira de vitórias iniciais entrar num certo impasse e o território de Outremer (o nome que era dado aos reinos cruzados no oriente) sobrevivera.

Quarta Cruzada (1202-1204)

A Quarta Cruzada foi denominada também de Cruzada Comercial, por ter sido desviada de seu intuito original pelo doge (duque) Dândolo, de Veneza, que levou os cristãos a saquear Zara e Constantinopla, onde foi fundado o Reino Latino de Constantinopla, fazendo com que o abismo entre as igrejas Ocidental e Oriental se estabelecesse definitivamente.

O Papa Inocêncio III apelou a uma cruzada em 1198 para conquistar Jerusalém (o objectivo falhado da Terceira Cruzada), mas os preparativos começariam dois anos depois. Vários grandes senhores trouxeram exércitos e estipularam um acordo com Veneza que transportaria essas tropas na sua frota em troca de uma quantia. O problema é que muitos dos senhores acabaram por não ir, e os que foram não tinham condições para pagar o valor estipulado (que era fixo).

Foi criado um novo acordo então: os cruzados conquistariam Zara, uma cidade veneziana na Dalmácia que se revoltara, em troca de um adiamento do pagamento. Entretanto chegaram notícias de Bizâncio. O Imperador Isaac II fora derrubado pelo seu irmão Aleixo III e fora cegado. O filho de Isaac II, de nome Aleixo IV, conseguira fugir e apelara aos cruzados para o ajudarem: em troca de o colocarem no trono prometia-lhes dinheiro e os recursos do império para a conquista de Jerusalém. Ainda hoje os historiadores discutem se as coisas se passaram assim ou se foi uma justificação para o que se iria suceder.

Os cruzados aceitaram imediatamente uma vez que isso parecia resolver os seus problemas. Partiram em 1202. O Papa considerou que se atacassem território cristão (nomeadamente Zara) ficariam excomungados. A cidade foi conquistada e depois de deixarem passar o Inverno atacaram Constantinopla. A cidade resistiu, mas o imperador Aleixo III acabou por fugir com o tesouro da cidade.

Com novos impostos a ser lançados para pagar as promessas feitas aos cruzados, rapidamente a população ficou à beira da revolta. Aleixo V, um parente afastado fez um golpe matando Aleixo IV e colocando novamente na prisão Isaac II que fora libertado pelos cruzados e governara com o filho.

Os cruzados decidiram então conquistar em proveito próprio o império, nomear um imperador latino e dividir os territórios. Aleixo I Comneno fugiu com algum tesouro e a cidade foi saqueada pelos latinos durante três dias. Estátuas, mosaicos, relíquias, riquezas acumuladas durante quase um milénio foram pilhadas ou destruídas durante os incêndios. A cidade sofreu um golpe tão terrível que nunca mais conseguiu se recompor, mesmo depois de voltar a ser grega em 1261. E assim terminou a Quarta Cruzada, pois ninguém pensou mais em dirigir-se para Jerusalém: a maioria regressou com o que roubara, alguns ficaram com feudos no oriente.

Cruzada Albigense

A Igreja Católica, sob o comando do Papa Inocêncio III, sentiu-se ameaçada pelo grande número de pessoas que viam no catarismo um retorno ao cristianismo primitivo.

Os Cátaros afirmavam que a Igreja se corrompera desde os tempos de Constantino I e rejeitavam todos os sacramentos. O Catarismo considerava o poder papal uma espécie de paganismo sob uma máscara de cristianismo e, por isso, defendiam a volta à igreja simples do Novo Testamento.

Aparentemente eles consideravam o mundo material intrinsicamente mau, mas é importante destacar que grande parte das informações sobre a fé albigense chegaram até nós de fontes parciais, como a Inquisição, por exemplo. Por isso é difícil saber detalhes daquilo que eles realmente queriam. Contudo, certamente buscavam viver como viviam os cristãos no tempo em que o Novo Testamento foi escrito. O exército da Cruzada Albigense (muitos deles vagabundos, aventureiros e mercenários) criado pelo Papa Inocêncio III, foi incentivado pela Igreja a ver os cátaros como discípulos de Satanás que incentivavam o suicídio e proibiam o casamento e a procriação. Mas todos concordam que os Cátaros jamais juravam e condenavam a usura, conforme ensino de Jesus e dos apóstolos.

Em 1208, foi estipulada uma lei imposta também pela Inquisição que declarava o catarismo como herege e em 1209 foi feita a Cruzada Albiginese, um exército sedento de sangue mandado para aniquilar os Cátaros em Carcassonne (capital cátara) e em outros locais. Muitos albigenses foram lançados vivos nas fogueiras ordenadas pelo Papa Inocêncio III. Guardadas as devidas proporções, muitos comparam o holocausto albigense ao holocausto judeu praticado pela intolerância nazi na segunda guerra mundial.

Entretanto, há correntes de estudiosos que acreditam que o principal motivo para a reação foram as ondas de violência contra cristãos leais a Roma (culminando com o assassinato de um representante de Inocêncio III, que estava na região, no início do século XIII). A reforma da Igreja em si não era posta em questão, tratava-se de outra filosofia. Afinal, um retorno ao cristianismo primitivo também era estimulado concomitantemente por Francisco de Assis, na Itália, e não houve repressão da cúpula da Igreja ao movimento dele. A reforma e o despojamento na Igreja, portanto, não seriam o problema, e sim uma outra religião que surgia, com um grau exarcerbado de radicalismo, o que imediatamente teria causado espanto e provocado a reação do Papa e da maioria dos católicos franceses, alemães e ingleses.

Cruzada das Crianças (1212)

A Cruzada das Crianças, é um misto de fantasia e fatos. A lenda baseia-se em duas movimentações separadas com origem na França e na Alemanha, no ano de 1212. Esta cruzada teria ocorrido entre a Terceira e a Quarta Cruzada e seria um movimento extra-oficial, baseado na crença que apenas as almas puras (no caso as crianças) poderiam libertar Jerusalém. Foi um desastre, pois a maioria das crianças morreu no caminho, de fome ou de frio. As que sobreviveram foram vendidas como escravas pelos turcos no Norte da África. Alguns chegaram somente até a Itália, outros se dispersaram, e houve aqueles que foram seqüestrados e escravizados pelos muçulmanos.

Quinta Cruzada (1217-1221)

Também pregada por Inocêncio III, partiu em 1217 e foi liderada por André II, rei da Hungria, e por Leopoldo VI, duque da Áustria. Decidiu-se que para se conquistar Jerusalém era necessário conquistar o Egito primeiro, uma vez que este controlava esse território.

Desembarcados em São João D'Acre, decidiram atacar Damietta, cidade que servia de acesso ao Cairo, a capital. Depois de conquistar uma pequena fortaleza de acesso aguardaram reforços e meteram-se a caminho. Depois de alguns combates, e quando tudo parecia perdido, uma série de crises na liderança egípcia permitiram aos cruzados ocupar o campo inimigo. O sultão acabou por oferecer o reino de Jerusalém e uma enorme quantia se os cristãos retirassem; o cardeal Pelágio, que se tornara num dos chefes da expedição, acabou por convencer os restantes a recusar.

Começaram a cercar Damietta e depois de algumas batalhas sofreram uma derrota. O sultão renovou a proposta, mas foi novamente recusada. Depois de um longo cerco, que durou de fevereiro a novembro, a cidade caiu. Os conflitos entre os cruzados agudizaram-se e perdeu-se tanto tempo que os egípcios recuperaram forças. Reforços até 1221 chegaram aos cristãos. Lançaram-se numa ofensiva, mas os muçulmanos foram retirando e levando os cruzados a uma armadilha; sem comida e cercados acabaram por ter de chegar a um acordo: retiravam-se do Egito e tinham suas vidas salvas.

Sexta Cruzada (1228-1229)

Foi liderada pelo imperador do Sacro Império Frederico II, que tinha sido excomungado pelo Papa. Ele partiu com um exército que foi diminuindo com as deserções, e uma semi-hostilidade das forças cristãs locais devido à sua excomunhão pelo Papa. Aproveitando-se das discórdias entre os muçulmanos, Frederico II conseguiu, por intermédio da diplomacia, um tratado com os turcos que lhe concedia a posse de Jerusalém, Belém e Nazaré por dez anos. Mas a derrota dos cristãos em Gaza fê-los perder os Santos Lugares em 1244.

Sétima Cruzada (1248-1250)

Foi liderada pelo rei da França Luís IX, posteriormente canonizado como São Luís. Ele desembarcou diretamente no Egito e, depois de alguns combates, conquistou Damietta. Novamente o sultão ofereceu Jerusalém e novamente foi recusado. Em Mansurá, depois de quase terem vencido, os cruzados são derrotados pela imprudência do irmão do rei, Roberto de Artois. Depois de uma retirada desastrosa, o exército puramente rendeu-se. Luís IX caiu prisioneiro e os cristãos tiveram de pagar um pesado resgate pela sua libertação. Somente a resistência da rainha francesa em Damietta permitiu que se conseguisse negociar com os egípcios. Luís ficou mais algum tempo e conseguiu salvar o território de Outremer (indiretamente, as invasões mongóis deram o seu contributo).

Oitava Cruzada (1270)

O Oriente Médio vivia uma época de anarquia entre as ordens religiosas que deveriam defendê-lo, bem como entre comerciantes genoveses e venezianos.

O rei francês Luís IX retomou então o espírito das cruzadas e lançou novo empreendimento armado, a Oitava Cruzada , em 1270, embora sem grande percussão na Europa. Os objetivos eram agora diferentes dos projetos anteriores: geograficamente, o teatro de operações não era o Levante mas antes Túnis, e o propósito, mais que militar, era a conversão do emir da mesma cidade norte-africana.

Luís IX partiu inicialmente para o Egito, que estava sendo devastado pelo sultão Baybars. Dirigiu-se depois para Túnis, na esperança de converter o emir da cidade e o sultão ao Cristianismo. O sultão Maomé recebeu-o de armas nas mãos. A expedição de São Luís redundou como quase todas as outras expedições, numa tragédia. Não chegaram sequer a ter oportunidade de combater: mal desembarcaram as forças francesas em Túnis, logo foram acometidas por uma peste que assolava a região, ceifando inúmeras vidas entre os cristãos, nomeadamente São Luís e um dos seus filhos. O outro filho do rei, Filipe, o Audaz, ainda em 1270, firmou um tratado de paz com o sultão e voltou à Europa. Chegou a Paris em maio de 1271 e foi coroado rei, em Reims, em agosto do mesmo ano.

Nona Cruzada (1271 - 1272)

A Nona Cruzada é, muitas vezes, considerada como parte da Oitava.

Em 1268, Baybars, sultão mameluco de Egito, havia reduzido o Reino Latino de Jerusalém, o mais importante Estado cristão estabelecido pelos cruzados, a uma pequena faixa de terra entre Sidão e Acre.

Alguns meses após a morte de Luís IX, na Oitava Cruzada, o príncipe Eduardo da Inglaterra, depois Eduardo I, comandou os seus seguidores até Acre. Em 1271 e inícios de 1272, conseguiu combater Baybars, após firmar alianças com alguns governantes da região adversários dele. Em 1272, estabeleceu contatos para firmar uma trégua, mas Baybars tentou assassiná-lo, enviando homens que fingiram buscar o batismo como cristãos. Eduardo, então, começou preparativos para atacar Jerusalém, quando chegaram notícias da morte de seu pai, Henrique III. Eduardo, como herdeiro ao trono, decidiu retornar à Inglaterra e assinou um tratado com Baybars, que possibilitou seu retorno e, assim, terminou a Nona Cruzada.

Causas do Fracasso

Diversas razões contribuíram para o fracasso das Cruzadas, entre elas: os europeus eram minoria, em meio a uma população geralmente hostil; a opressão à população nativa fez com que o domínio fosse cada vez mais difícil; as diversas lutas entre os próprios cristãos contribuíram para enfraquecê-los enormemente. Todas, exceto a pacífica sexta Cruzada (1228-1229), foram prejudicadas pela cobiça e brutalidade; judeus e cristãos na Europa foram massacrados por turbas armadas em seu caminho para a Terra Santa. O papado era incapaz de controlar as imensas forças à sua disposição.

O legado das cruzadas

As cruzadas influenciaram a cavalaria européia e, durante séculos, sua literatura.

Se por um lado aprofundaram a hostilidade entre o cristianismo e o Islã, por outro estimularam os contatos econômicos e culturais para benefício permanente da civilização européia. O comércio entre a Europa e a Ásia Menor aumentou consideravelmente e a Europa conheceu novos produtos, em especial, o açúcar e o algodão. Os contatos culturais que se estabeleceram entre a Europa e o Oriente tiveram um efeito estimulante no conhecimento ocidental e, até certo ponto, prepararam o caminho para o Renascimento.



A origem da divisão dos Estados Unidos da América em "Norte" e "Sul" data dos tempos coloniais, quando a área que atualmente constitui os Estados Unidos ainda eram colônia de três países - Espanha, França e Reino Unido. Primariamente, tais diferenças começaram devido a diferenças geográficas na região das Treze Colônias inglesas. No sul, os primeiros assentadores da região encontraram um clima quente e um solo fértil, ideal para o cultivo de tabaco. Grandes plantações de tabaco foram cultivadas, e mão-de-obra escrava foi trazida em grande quantidade do continente africano. Posteriomente, algodão e cana-de-açúcar passaram a ser cultivados também nestes Estados. Rapidamente, a agricultura sob o sistema de Plantation e um estilo de vida primariamente rural passou a dominar os Estados do Sul.

Enquanto isto, o clima frio e o solo rochoso dos Estados do Norte mostraram-se pouco adequados à prática da agricultura. Isto forçou os colonos desta região a buscarem outras fontes de renda como o comércio e a manufatura, assim favorecendo a criação de grandes cidades comerciais como Boston, Filadélfia e Nova Iorque - e, apesar de que, no ano do início da Revolução Americana de 1776, a maioria da população do Norte ainda vivesse em áreas rurais, a economia destes Estados já era baseada primariamente no comércio e na manufatura.

Após a independência dos Estados Unidos, e até a década de 1850, as diferenças entre o Norte (cada vez mais industrializado) e o Sul agropecuário aumentavam gradativamente. Na década de 1850, os Estados Unidos já haviam se expandido até seus atuais limites territoriais na América do Norte (posteriomente, adquiriria o Alasca da Rússia, Havaí e outros territórios ultramarítimos). Então, os Estados Unidos já estavam em uma fase de rápida industrialização. Porém, o rápido crescimento econômico do país esteve concentrado primariamente nos Estados do Norte. Este crescimento causou o rápido crescimento populacional das cidades da região, gerando grandes avanços na área de transportes e comunicações. Apesar do Sul também ter passado por este processo, o tal progresso ocorreu muito mais lentamente do que no Norte.

A escravidão no período pré-Guerra

Em tempos coloniais, os americanos viam a escravidão como um mal necessário. Quando os Estados Unidos tornaram-se independentes, os poucos abolicionistas da época pressionaram o governo do país a abolir a escravidão na Constituição do país, mas não tiveram sucesso.

No começo do século XIX, vários nortistas começaram a ver a escravidão como errada, desnecessária e imoral ao país, e muitos deles começaram a advocar idéias abolicionistas. Uma minoria dos sulistas, por sua vez, também possuía idéias abolicionistas. Porém, a maioria da população livre do Sul não queria a abolição da escravatura. Cerca de metade da população dos Estados do Sul era composta por afro-americanos e seus descendentes, mão de obra forte, saudável e obediente. A maioria dos sulistas lucrava muito com a escravidão e esta fazia parte da cultura local. Cerca de um terço da população branca do Sul era um membro de uma família dona de escravos. Cerca de metade destas famílias tinham entre um a cinco escravos, e 1% tinham mais de 100. Mesmo muitos sulistas que não possuíam escravos eram a favor da escravidão; o que caracteriza o conceito de Sociedade Escravista criado pelo professor Douglas Colle Libby da Universidade Federal de Minas Gerais, que significa: aquela sociedade em que ocorre a escravidão e que esta é de tal forma impregnada na sociedade que determina como as demais pessoas se relacionam ao trabalho.


Em 1850, um grupo de atos, os Compromissos de 1850, foram aprovados pelo Congresso americano, em uma tentativa em solucionar os atritos entre o Norte e o Sul. Os Compromissos permitiriam a continuação da escravidão, mas proibiriam-na no Distrito de Columbia. O Compromisso também admitiria a Califórnia à União como um estado livre (onde a escravidão seria proibida), mas permitiria a escravidão em territórios recentemente adquiridos ou criados, bem como o direito de decisão entre a permissão ou a proibição da escravidão.

Em 1854, o Ato de Kansas-Nebraska foi aprovado pelo Congresso, novamente, em uma tentativa do governo americano em tentar solucionar os atritos entre o Norte e o Sul. O Ato criou os territórios de Kansas e de Nebraska, e permitia a escravidão nestes dois territórios. O Ato também especificava que, caso um território fosse elevado à categoria de Estado, sua população teria o direito de votar a favor ou contra a continuação da escravidão. Porém, muitos nortistas opuseram-se a este Ato, alegando que, uma vez que a escravidão estivesse bem fincada em um território, estaria ali para ficar. Em 1856, a maioria da população de Kansas votou contra a escravidão, mas grupos pró-escravidão recusaram-se a aceitar a decisão, e, logo, revoltas populares surgiram no Estado. Ainda no mesmo ano, um senador abolicionista foi espancado até ficar inconsciente por um representante do Sul. Em 1861, o Kansas juntou-se à União como um Estado livre.

A Decisão de Dred Scott foi um caso judicial julgado pela Suprema Corte. No caso, Dred Scott, um escravo, reivindicava a liberdade, alegando que já havia morado em um território livre. Porém, a Suprema Corte decidiu que ele, como escravo, era propriedade. Além disso, a Suprema Corte alegou que negros não podiam ser considerados cidadãos americanos. Esta decisão gerou grande controvérsia e raiva no Norte.

Em 1858, o senador William Seward, que posteriomente tornar-se-ia o Secretário de Estado de Abraham Lincoln, caracterizou as diferenças entre o Norte e o Sul como um "conflito irreparável". O motivo deste conflito, segundo Seward, era a escravidão. Em 1859, um abolicionista extremista, chamado John Brown, e seguidores, tentaram iniciar uma rebelião de escravos em um vilarejo da Virgínia Ocidental. Brown, porém, foi capturado um dia depois. Foi julgado e condenado à morte por enforcamento, culpado de traição. Vários sulistas viram esta rebelião como uma ação do Norte para tentar acabar com a escravidão através da força.

A escravidão e a política

O Ato de Kansas e Nebraska gerou raiva e discórdia entre a população do Norte, especialmente entre republicanos, que eram contra a escravidão, bem como sua expansão a outros territórios dos Estados Unidos. Entre os principais membros do partido estava Abraham Lincoln.

Em 1858, o Partido Democrata ficou dividido na criação de uma Constituição de que habitantes pró-escravidão do território de Kansas esperavam adotar quando Kansas se tornasse um Estado. Porém, os líderes do partido tomaram posições opostas na Constituição. Alguns era a favor da escravidão, outros contra. Esta controvérsia fez com que o partido fosse dividido em dois ramos em 1860, um nortista, pró-abolicionismo, e outro sulista, pró-escravidão.

Os republicanos escolheram Lincoln como seu candidato nas eleições presidenciais de 1860. Abraham Lincoln, em sua campanha eleitoral, afirmou que os Estados Unidos não podiam viver eternamente, "metade livre, metade escrava", desencadeando sentimentos havia muito reprimidos pelos sulistas e nortistas. O partido democrata, dividido em dois, tinha dois candidatos, um a favor da escravidão e outro contra. Lincoln acabou vencendo as eleições em todos os Estados livres excepto na Nova Jérsei. Porém, apenas 39% da população do país havia votado em Lincoln, tendo vencido por ter uma pluraridade de votos do colégio eleitoral americano. Quase nenhum dos votos do colégio eleitoral era procedente do Sul. Lincoln não foi nem colocado na votação como candidato em nove Estados da região. Os sulistas temiam que Lincoln impusesse mais restrições à prática da escravidão, ou mesmo sua abolição.

Por fim, durante o final da década de 1850, a maioria do Senado americano passou a ser formada por nortistas. O balanço político entre o Norte e o Sul, anteriormente balanceado somente por causa do número igual de Estados escravistas e abolicionistas, fora quebrado ao longo da década de 1850, após a sucessiva elevação de três territórios à categoria de Estado abolicionista. Uma vez que os sulistas já eram minoria na Câmara dos Representantes, por causa da maior população do Norte, os sulistas enfrentavam o risco de tornarem-se uma minoria perpétua em ambas as câmaras do Congresso, e assim, não mais podendo defender tarifas protecionistas, que provocariam estragos na economia do Sul, dependente de material industrializado procedente do Reino Unido, nem mais o uso da escravidão.

Secessão e formação dos Estados Confederados da América

Pouco antes das eleições presidenciais, líderes sulistas começaram a pedir pela secessão do Sul da União, caso Lincoln vencesse as eleições. Muitos sulistas aprovavam a secessão, através da idéia de que os Estados possuem direitos e poderes que o governo federal não poderia proibir através de métodos legais. Os sulistas alegaram que os Estados Unidos por si mesmo eram uma liga de Estados independentes, e que qualquer destes Estados possuía o direito de tornar-se independente.

Em dezembro de 1860, a Carolina do Sul tornou-se o primeiro estado a sair da União. Logo ela foi acompanhada por outros cinco Estados - Alabama, Flórida, Geórgia, Louisiana e Mississippi. Os principais líderes políticos e senhores de escravos, em sucessivas reuniões ainda em dezembro de 1860, aprovaram a Constituição confederada, formalizando a criação dos Estados Confederados da América. Tais Estados elegeram Jefferson Davis, do Mississippi, como presidente do país, estabelecendo em 7 de fevereiro de 1860 uma Constituição, e a capital em Montgomery.

Em seu primeiro discurso após ter sido inaugurado como presidente dos Estados Unidos da América, Lincoln afirmou que a Confederação era um movimento sem fundamentos legais, e que "a União ficaria unida para sempre, e que a União faria uso de todos os meios possíveis para garantir a possessão de propriedades da União localizados nos Estados do Sul". Houve uma tentativa de reconciliação, que os rebeldes não aceitaram. Os confederados ofereceram uma indenização à União pelas propriedades da última em território confederado, oferta que foi recusada por Lincoln.

Em 12 de abril, os sulistas atacaram Fort Sumter, na baía de Charleston, Carolina do Sul. Três dias depois, o forte rendeu-se. Lincoln começou a juntar tropas para recuperar o forte, e este movimento nortista foi visto como uma declaração de guerra pela Confederação. Mais cinco Estados juntar-se-iam aos Estados Confederados da América - Arkansas, Carolina do Norte, Tennessee, Virgínia e Texas. Richmond, a capital da Virgínia, foi escolhida como a capital dos Estados Confederados da América.

Forças armadas

Quando a Guerra Civil Americana começou, com o ataque sulista ao Fort Sumter, nem a União nem a Confederação possuíam um plano de recrutamento de soldados. O exército da União, no início da guerra, era composto de apenas aproximadamente 11 mil soldados. O exército da Confederação era ainda menor, por volta de seis mil soldados. Em abril de 1861, o Congresso americano aprovou uma convocação inicial de 65 mil homens - todos voluntários - para fazer frente ao ataque sulista. No começo da guerra, ambas a União e a Confederação utilizavam apenas voluntários como soldados - participava da guerra quem quisesse. Isto funcionou bem no início da guerra.

Porém, à medida que a guerra foi estendendo-se, e o número de baixas em ambos os lados começou a aumentar, mais recrutas passaram a ser necessários. A duração da guerra e os números de baixas, porém, diminuíram muito o entusiasmo pela população de ambos os lados pela guerra, e assim sendo, o número de voluntários acabou caindo. O alistamento forçado acabou sendo instituído em ambos os lados ao longo da guerra. Na Confederação, o alistamento forçado foi instituído em abril de 1862, forçando todas as pessoas brancas do sexo masculino entre 18 a 35 anos de idade e em boas condições de saúde a servirem no exército por três anos. Em fevereiro de 1864, tais limites haviam sido estendidos para 17 a 50 anos. Já a União instituiu o alistamento forçado em março de 1863, para pessoas, sem distinção de raça, do sexo masculino, entre 20 a 45 anos de idade. Mulheres, em momento algum, foram autorizadas a lutar em ambos os lados, embora algumas tivessem se disfarçado como homens, e lutado por suas federações.

A guerra foi cognomeada por vários soldados como "guerra entre homens ricos, lutas entre homens pobres". Isto porque este recrutamento forçado possuía suas exceções. Em ambos os lados, homens que, pelas regras do recrutamento forçado, teriam de servir no exército, poderiam contratar um substituto - geralmente, um homem pobre e sem trabalho - para lutar em seu lugar. Na União, pessoas podiam pagar ao governo 300 dólares (uma grande soma de dinheiro na época) para não ser forçado a alistar-se. Estas exceções fizeram com que o sistema de recrutamento forçado fosse mal visto por soldados de origem humilde, tanto na União quanto na Confederação. Na cidade de Nova Iorque, em julho de 1863, alguns meses após o alistamento militar forçado ter sido instituído, uma grande revolta popular tomou curso. Os revoltados estavam armados, e exigiam o fim do alistamento forçado. Esta revolta foi suprimida com o uso de força policial e militar. Apesar dos problemas, o recrutamento forçado em ambos os lados foram bem-sucedidos em seu principal objetivo, o de aumentar o número de soldados nas forças armadas.

Outra medida também contribuiu nos esforços de guerra - ambos os lados permitiam que qualquer homem formasse um pequeno regimento ou uma força mercante a serviço de sua federação, sendo que tais grupos recebiam uma soma do governo. O Norte também instituiu um tipo especial de pagamento, bounty payments. Quando uma pessoa entrasse à força militar da União voluntariamente, ele era recompensado com uma soma em dinheiro. Esta medida, porém, também causou um problema: várias pessoas alistavam-se voluntariamente, usando nomes falsos, recebiam a soma em dinheiro, e após isto, desertavam. Muitos deles inclusive alistavam-se e desertavam seguidamente, usando vários nomes falsos.

Após o fim da guerra, duas organizações fraternais foram abertas - uma aberta a ex-soldados da União e suas famílias, e a outra para ex-soldados da Confederação e suas famílias. Em 1905, o governo americano instituiu uma medalha de campanha válida a todos os soldados que lutaram na guerra - seja ao lado da União ou da Confederação. O último veterano vivo da guerra, Albert Woolson, da União, morreu em 2 de agosto de 1956, aos 109 anos de idade.

Principais líderes

Os presidentes da União e da Confederação, Abraham Lincoln e Jefferson Davis, como Comandantes-em-Chefe de suas respectivas nações, tinham a responsabilidade de escolher as pessoas que iriam ocupar os maiores postos militares de suas federações.

Os principais líderes da União foram Abraham Lincoln, William H. Seward, Edwin M. Stanton, Ulysses S. Grant, William Tecumseh Sherman, George H. Thomas, George B. McClellan, Henry W. Halleck, Joseph Hooker, Ambrose Burnside, Irvin McDowell, Philip Sheridan, George Crook, George Armstrong Custer, Christopher Carson, John E. Wool, George Gordon Meade, Winfield Hancock, Elihu Washburne, Winfield Scott, Abner Read e Robert Gould Shaw.

Os principais líderes da Confederação foram Jefferson Davis, Robert E. Lee, Joseph E. Johnston, Thomas J. Jackson, James Longstreet, Pierre Gustave Toutant de Beauregard, John Mosby, Braxton Bragg, John Bell Hood, James Ewell Brown Stuart, William Mahone, Judah P. Benjamin, Jubal Early, Nathan Bedford Forrest e Ambrose Powell Hill.

Cinco oficiais da União que lutaram na guerra tornar-se-iam futuramente Presidente dos Estados Unidos da América: Grant, Rutherford B. Hayes, James Garfield, Benjamin Harrison e William McKinley.

As federações

Ambos os lados - a União, composta primariamente por Estados e territórios contra a escravidão, e a Confederação, que primariamente era contra a abolição da escravidão - possuíam "Estados de fronteira" (border states), Estados que localizavam-se na fronteira entre a União e a Confederação. Arkansas, Carolina do Norte, Tennessee e Virgínia eram os Estados de fronteira da Confederação, fazendo fronteira com Estados da União. Delaware, Kentucky, Maryland e Missouri eram os Estados de fronteira da União, fazendo fronteira com a Confederação. Parte da população destes Estados acreditava na causa dos nortistas, e outra parte na causa dos sulistas. Isto fez com que movimentos separatistas surgissem em vários destes Estados, levando à divisão entre diversas famílias. Muitas pessoas destas famílias lutaram pela União, enquanto parentes lutaram pela Confederação. Diversos casos de familiares lutando entre si em batalha foram registrados ao longo da guerra.

A União

A União é os Estados Unidos da América propriamente dito. Os Estados que compunham a União eram Califórnia, Connecticut, Delaware, Illinois, Indiana, Iowa, Kentucky, Maine, Maryland, Massachusetts, Michigan, Minnesota, Missouri, Nova Hampshire, Nova Jérsei, Nova Iorque, Ohio, Oregon, Pensilvânia, Rhode Island, Vermont e Wisconsin, mais os territórios de Colorado, Dakota Nebraska, Nevada, Novo México, Utah e Washington. Cerca de 22 milhões de pessoas viviam na União no início da guerra, com mais de quatro milhões delas sendo homens entre 15 a 40 anos de idade - a faixa etária adequada para serviço militar.

O Kansas foi elevado à categoria de Estado da União logo no início da guerra. Na região oeste e noroeste do Estado confederado de Virgínia, a maior parte da população era majoritamente leal à União. Em 1863, esta região da Virgínia separou-se da última, assim criando o Estado de Virgínia Ocidental, que logo aderiu à União. O Nevada foi adicionado à lista de Estados da União em 1864.

A União enfrentou o separatismo em diversos Estados de fronteira. Grupos separatistas foram criados em Kentucky e em Missouri. Estes grupos enviaram representantes à Confederação, mas os Estados continuaram oficialmente na União. A maioria da população de Maryland e da capital americana, Washington, DC, também apoiava a causa dos sulistas. Porém, o fato de que o governo da União estava localizado em Washington, DC - por direito, o governo dos Estados Unidos controla diretamente a cidade - impediu a saída de Washington da União. Já medidas tomadas pelo governo da União impediram a secessão de Maryland aos Estados Confederados. Isto foi tomado primariamente como uma medida de proteção - a capital americana Washington, DC está localizada entre Virgínia e Maryland.

Lincoln, como comandante-chefe das forças da União, foi o primeiro presidente dos Estados Unidos a assumir vastos poderes não estabelecidos na Constituição americana. Lincoln suspendeu o direito ao habeas corpus - o direito da pessoa presa a ser ouvida na Corte Judicial. Lincoln recebeu duras crítcas por causa desta ação. O Partido Republicano e o governo de Lincoln receberam duras críticas do Partido Democrático da União, que queria o fim imediato da guerra. Mesmo alguns membros do próprio Partido Republicano, que formavam a ala extremista do Partido, criticaram Lincoln, pedindo por esforços de guerra mais agressivos, a imediata abolição da escravatura e mudanças imediatas na estrutura socio-econômica dos Estados do Sul dos Estados Unidos.

O financiamento dos esforços de guerra foi difícil. Ao longo da guerra, a União gastou cerca de 2,16 bilhões de dólares. Cerca de 20% deste total foram arrecadados através da arrecadação de impostos já existentes. Papéis governamentais - comprados a um preço fixo por uma pessoa, que seria posteriomente, após a guerra, reembolsada juntamente com os juros - arrecadaram 40%. 30% foram tomados emprestados de instituições financeiras. Os 10% restantes foram impressos na forma de papel moeda, impresso em casos de emergência, o que causou grande inflação, na ordem dos 40% o ano, na União. O crescimento anual dos salários dos trabalhadores não acompanhava o mesmo passo do crescimento da inflação, resultando em greves e revoltas por melhores salários e condições de trabalho. Ironicamente, muitas destas revoltas foram iniciadas por sindicatos dominados por brancos, que opuseram-se ao uso de afro-americanos não afiliados a sindicatos por parte das fábricas.

Apesar destes problemas, a Guerra Civil Americana trouxe prosperidade econômica para a União. As necessidades de guerra - armas, roupas, alimentos - estimularam bastante a agricultura e a indústria de manufaturação. A indústria de mineração cresceu drasticamente - a produção de carvão e ferro, especialmente - bem como a produção de aço. O crescimento da produção agropecuária da União - primariamente lã, algodão, milho, trigo e carne - fez com que exportações para países europeus dobrassem - à época, alimentos na Europa estavam em falta, devido a sucessivas plantações mal-sucedidas - assim compensando pela drástica queda nas exportações destes produtos por parte da Confederação, que estava sob bloqueio em terra e mar durante a guerra.

Alguns atos econômicos instituídos pelo governo da União ajudaram neste período de crescimento econômico. Tais atos estabeleceram um banco central, uma moeda padrão e o Departamento Governamental de Agricultura, em 1861. Atos instituídos em 1862 foram os responsáveis pela aprovação da construção da primeira ferrovia transcontinental americana, pelo fornecimento de lotes de terras no oeste americano a preços nulos ou muito baixos, e o estabelecimento de instituições de ensino superior. Em 1863, o primeiro imposto de renda nacional foi instituído. A forte economia da União não somente foi um dos motivos primários da vitória desta sobre a Confederação, mas como também o principal motivo do grande crescimento econômico dos Estados Unidos após o fim da guerra, que fez do país a maior potência industrial por volta da década de 1890.

Confederação

Os Estados que compunham a Confederação eram o Alabama, Arkansas, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Flórida, Geórgia, Louisiana, Mississippi, Tennessee, Texas e Virgínia. Quando a Guerra Civil Americana começou, o Confederação tinha cerca de 9,5 milhões de habitantes - incluindo 3,5 milhões de afro-americanos. Cerca de um milhão de pessoas brancas do sexo masculino, entre 15 a 40 anos de idade viviam na Confederação.

O presidente da União, Abraham Lincoln, possuía vários poderes não estabelecidos na Constituição. Isto não aconteceu na Confederação. Isto porque muitos sulistas sempre se opuseram a um governo central, onde uma única pessoa possui enormes poderes. Por causa disto, o Congresso da Confederação tornou-se dividido, com alguns membros apoiando o poder concentrado nas mãos de uma única pessoa, e com outros membros se opondo a isso. As relações de alguns Estados da Confederação com o governo da última, bem como entre alguns destes Estados, tornaram-se difíceis. Jefferson Davis, o presidente da Confederação, pediu ao Congresso da Confederação permissão ao exercimento dos poderes exercidos por Lincoln, mas seu pedido foi atendido apenas em parte, e Davis recebeu apenas alguns poderes limitados.

Desde o início da Guerra Civil Americana, o financiamento da guerra mostrou-se extremamente difícil para a Confederação. Ao longo da guerra, a Confederação gastou cerca de 2,5 bilhões de dólares. Cerca de 1% deste total foram arrecadados através da elevação de impostos já existentes. Esta percentagem é muito pequena porque os confederados temiam que uma drástica elevação nos impostos pudesse causar revoltas da elite do país. 39% foram tomados emprestados de instituições financeiras e arrecadados na forma de papéis governamentais. Os 60% restantes foram impressos na forma de papel moeda, gerando, assim, inflação descontrolada, na ordem dos 250% o ano, na Confederação. No final da guerra, os preços em geral estavam cerca de mil vezes mais altos do que no início da guerra. Na Confederação, em 1861, um par de sapatos custava 1,8 dólar e um barril de trigo custava dois dólares. Em 1864, estes itens custavam 200 e 275 dólares, respectivamente, e no final da guerra, o barril de trigo custava mais de mil dólares. Os sulistas passaram a fabricar roupas com tecido de carpete e cortinas e a imprimir jornais em papel de parede.

Ao longo da Guerra Civil Americana, a Confederação tentou adaptar-se às necessidades dos esforços de guerra. Fábricas civis passaram a fabricar armas. A produção de algodão caiu drasticamente, e a produção de cereais aumentou. Mas as condições dos soldados da Confederação eram sensivelmente piores do que a dos soldados da União - em matéria de alimentos e armas. Em desespero, um ato instituído em 1863 permitiu a agentes federais da Confederação o confisco de propriedade civil que pudesse ser utilizada nos esforços de guerra, como cavalos, alimentos, roupas e armas. Os civis eram pagos com o que os agentes decidissem pagar.

Queda da Confederação

Em 1864, já estava claro que a Confederação havia perdido a guerra. Suas forças gradualmente diminuíam, graças a baixas em batalhas e à conquista de território confederado por parte da União, assim diminuindo o número de recrutas. Além disso, equipamentos estavam em falta, e a maioria do sistema de transportes da Confederação ou havia passado ao controle da União (caso da bacia hidrográfica do Rio Mississippi e do Rio Tennessee) ou havia sido sabotado (ferrovias). Porém, os sulistas continuaram a resistir bravamente contra os ataques da União.

Em 9 de março de 1864, Lincoln deu a Grant o comando de todas as forças da União. Em maio, Grant e a Tropa do Potomac, comandada por Meade, moveram-se para uma região nomeada Wilderness - uma região de florestas e arbustos - atraindo assim o confederado Lee e suas forças. Grant, comandante direto de 118 mil soldados, achava que, com quase o dobro de soldados (Lee tinha apenas 60 mil soldados), venceria facilmente a batalha. A Batalha de Wilderness iniciou-se em 5 de maio e perdurou por dois dias. A vegetação densa deu a vantagem para Grant. A cavalaria e os canhões nortistas mostraram-se inúteis na região. Além disso, eventualmente, os arbustos pegaram fogo, e vários soldados morreram queimados. Ambos os lados eventualmente recuaram, tendo sofrido enormes perdas.

Em maio de 1864, Sheridan, comandante de uma tropa de 100 mil soldados, por ordens de Grant, invadiu e conquistou muito do sudeste da Confederação. Sheridan conquistou Atlanta ainda em maio, tendo enfrentado resistência de uma força confederada de aproximadamente 60 mil soldados, comandadas por Joseph Eggleton Johnston. Este eventualmente recuou, e foi substituído por John Hood. Este decidiu invadir o Tennessee, esperando que Sheridan fizesse o mesmo. Hood acreditava que podia vencer Sheridan no terreno montanhoso do Tennessee. Porém, na Batalha de Franklin, em 30 de novembro, Hood foi derrotado pelo General nortista John Schofield. Hood recuou para Nashville, Virgínia, e foi derrotado definitivamente por Sheridan e seus 55 mil soldados na Batalha de Nashville, em 16 de dezembro.

Enquanto isto, ao longo de maio de 1864, Grant tentou em uma série de ataques "tudo-ou-nada" contra a capital confederada, Richmond. A Batalha de Spotsylvania Court, ocorrida em 8 de maio, teve os mesmos resultados de Wilderness. Em 3 de junho, Grant, ao comando de 50 mil soldados, ordenou um ataque a Cold Habor e seus 30 mil soldados, localizada imediatamente ao norte de Richmond. Os confederados, bem entricheirados, conseguiram desferir aproximadamente 7,5 mil baixas em apenas alguns minutos contra Grant, que foi forçado a recuar. Grant foi apelidado de "açougueiro" pela mídia nortista, tendo perdido 45 mil soldados em apenas um mês.

Sabendo que um ataque frontal e direto contra Richmond seria desastroso, Grant moveu suas forças em direção ao sul, ao sul do Rio James, para atacar Petersburg, um pólo ferroviário que abastecia Richmond com suprimentos. A captura de Petersburg forçaria Lee a sair da cidade para defender a capital confederada. Ao invés de um ataque direto, Grant desta vez preferiu cercar Petersburg e lentamente estagná-la com a falta de suprimentos. Assim sendo, trincheiras foram cavadas em torno da cidade e ferrovias alimentando a cidade foram cortadas.

Por um ano Petersburg ficou cercada, até que nos primeiros dias de abril de 1865 as instalações ferroviárias de Petersburg foram finalmente capturadas pelas forças de Grant. Lee foi forçado então a fugir da cidade, e forças nortistas capturaram Richmond em 10 de abril. Grant continuou a perseguir Lee e sua força, que batia em retirada, tendo conseguindo cercá-lo em Appomattox. Lee, ao controle de 50 mil soldados, viu que uma vitória era impossível contra os aproximadamente 120 mil soldados de Grant, e Lee pediu por termos da rendição em 8 de abril. No dia seguinte, Grant e Lee encontraram-se na corte judicial de Appomattox, onde Grant ofereceu termos relativamente generosos de rendição.

A Guerra Civil Americana não acabara oficialmente, mas a rendição da principal tropa confederada significava que o fim da guerra era uma questão de tempo. Em 14 de abril, Lincoln foi assassinado por um extremista sulista, mas isto em nada afetaria o rumo da guerra. Gradualmente, outros generais confederados renderam-se. As últimas tropas sulistas renderam-se em 28 de junho de 1865.



A Guerra do Contestado foi um conflito armado entre a população cabocla e os representantes do poder estadual e federal brasileiro travado entre outubro de 1912 a agosto de 1916, numa região rica em erva-mate e madeira disputada pelos estados brasileiros do Paraná e de Santa Catarina.

Para entender-se bem a guerra sertaneja , é preciso voltar um pouco no tempo e resgatar o valor da figura de três monges da região. O primeiro monge que galgou fama foi João Maria, um homem de origem italiana, que peregrinou pregando e atendendo doentes de 1844 a 1870. Fazia questão de viver uma vida extremamente humilde, e sua ética e forma de viver arrebanhou milhares de crentes, reforçando o messianismo coletivo. Sublinhe-se, porém, que não exerceu influência direta nos acontecimentos da Guerra do Contestado que ocorreria posteriormente. João Maria morreu em 1870, em Sorocaba, Estado de São Paulo.

O segundo monge adotou o codinome (alcunha) de João Maria, mas seu verdadeiro nome era Atanás Marcaf, provavelmente de origem síria. Aparece publicamente com a Revolução Federalista de 1893, mostrando uma postura firme e uma posição messiânica. Sobre sua situação política, dizia ele "estou do lado dos que sofrem". Chegou, inclusive, a fazer previsões sobre os fatos políticos da sua época. Atuava na região entre os rios Iguaçu e Uruguai. É de destacar a sua influência inquestionável sobre os crentes, a ponto de estes esperarem a sua volta através da ressurreição, após seu desaparecimento em 1908.

As entrelinhas do que estava por vir estavam se amarrando entre si. A espera dos fiéis acaba em 1912, quando apareceu publicamente a figura do terceiro monge. Este era conhecido inicialmente como um curandeiro de ervas, tendo se apresentado com o nome de José Maria de Santo Agostinho, ainda que, de acordo com um laudo da polícia da Vila de Palmas, Estado do Paraná, ele fosse, na verdade, um soldado desertor condenado por estupro, de nome Miguel Lucena de Boaventura.

Como ninguém conhecia ao certo a sua origem, como aparentava uma vida reta e honesta, não lhe foi difícil granjear em pouco tempo a admiração e a confiança do povo. Um dos fatos que lhe granjearam fama foi a presunção de ter ressuscitado uma jovem (provavelmente apenas vítima de catalepsia patológica). Supostamente também recobrou a saúde da esposa do coronel Francisco de Almeida, acometida de uma doença incurável. Com este episódio, o monge ganha ainda mais fama e credibilidade ao rejeitar terras e uma grande quantidade de ouro que o coronel, agradecido, lhe queria oferecer.

A partir daí, José Maria passa a ser considerado santo: um homem que veio à terra apenas para curar e tratar os doentes e necessitados. Metódico e organizado, estava muito longe do perfil dos curandeiros vulgares. Sabia ler e escrever e anotava em seus cadernos as propriedades medicinais das plantas encontradas na região. Com o consentimento do coronel Almeida, montou no rancho de um dos capatazes o que chamou de farmácia do povo, onde fazia o depósito de ervas medicinais que utilizava no atendimento diário, até horas tardias da noite, a quem quer que o visitasse.

Após a conclusão das obras do trecho catarinense da estrada de ferro São Paulo-Rio Grande, a companhia Brazil Railway Company, que recebeu do governo 15 km de cada lado da ferrovia, iniciou a desapropriação de 6.696 km² de terras (equivalentes a 276.694 alqueires) ocupadas já há muito tempo por posseiros que viviam na região entre o Paraná e Santa Catarina. O governo brasileiro, ao firmar o contrato com a Brazil Railway Company, declarou a área como devoluta, ou seja, como se ninguém ocupasse aquelas terras. "A área total assim obtida deveria ser escolhida e demarcada, sem levar em conta sesmarias nem posses, dentro de uma zona de trinta quilômetros, ou seja, quinze para cada lado". Isso, e até mesmo a própria outorga da concessão feita à Brazil Railway Company, contrariava a chamada Lei de Terras de 1850. obstante, o governo do Paraná reconheceu os direitos da ferrovia; atuou na questão, como advogado da Brazil Railway, Affonso Camargo, então vice-presidente do Estado.

Esses camponeses que viram o direito às terras que ocupavam ser usurpado, e os trabalhadores que foram demitidos pela companhia (1910), decidiram então ouvir a voz do monge José Maria, sob o comando do qual organizaram uma comunidade. Resultando infrutíferas quaisquer tentativas de retomada das terras - que foram declaradas "terras devolutas" pelo governo brasileiro no contrato firmado com a ferrovia - cada vez mais passou-se a contestar a legalidade da desapropriação. Uniram-se ao grupo diversos fazendeiros que, por conta da concessão, estavam perdendo terras para o grupo de Farquhar, bem como para os coronéis manda-chuvas da região.

A união destas pessoas em torno de um ideal, levou a organização do grupo armado, com funções distribuídas entre si. O messianismo adquiria corpo. A vida era comunitária, com locais de culto e procissões, denominados redutos. Tudo pertencia a todos. O comércio convencional foi abolido, sendo apenas permitidas trocas. Segundo as pregações do líder, o mundo não duraria mais 1000 anos e o paraíso estava próximo. Ninguém deveria ter medo de morrer porque ressuscitaria após o combate final. É de destacar a importância atribuída às mulheres nesta sociedade. A virgindade era particularmente valorizada.

O "santo monge" João Maria rebelou-se, então, contra a recém formada república brasileira e decidiu dar status de governo independente à comunidade que comandava. Para ele, a República era a "lei do diabo". Nomeou "Imperador do Brasil" um fazendeiro analfabeto, nomeou a comunidade de "Quadro Santo" e criou uma guarda de honra constituída por 24 cavaleiros que intitulou de "Doze Pares de França", numa alusão à cavalaria de Carlos Magno na Idade Média.

Os camponeses uniram-se a este, fundando alguns povoados, cada qual com seu santo. Cada povoado seria como uma "Monarquia Celeste", com ordem própria, à semelhança do que Antônio Conselheiro fizera em Canudos.

Convidado a participar da festa do Senhor do Bom Jesus, na localidade de Taquaruçu (município de Curitibanos), o monge vai acompanhado de cerca de 300 fiéis, e lá permanece por várias semanas, atendendo aos doentes e prescrevendo remédios.

Desconfiado com o que acontecia, e com medo de perder o mando da situação local em Curitibanos, o coronel Francisco de Albuquerque, rival do coronel Almeida, enviou um telegrama para a capital do Estado pedindo auxílio contra "rebeldes que proclamaram a monarquia em Taquaruçu"'.

O governo brasileiro, então comandado pelo Marechal Hermes da Fonseca, responsável pela "Política das Salvações", caracterizada por intervenções político-militares que em diversos Estados do país pretendiam eliminar seus adversários políticos, sentiu indícios de insurreição neste movimento e decidiu reprimi-lo, enviando tropas para "acalmar" os ânimos.

Antevendo o que estava por vir, José Maria parte imediatamente para a localidade de Irani com todo o seu carente séquito. A localidade nesta época pertencia a Palmas, cidade que estava na jurisdição do Paraná, e que tinha com Santa Catarina questões jurídicas não resolvidas por conta de divisas territoriais, e acabou vendo nessa grande movimentação uma estratégia de ocupação daquelas terras.

A guerra do Contestado inicia-se neste ponto: em defesa de suas terras, várias tropas do Regimento de Segurança do Paraná são enviadas para o local, a fim de obrigar os invasores a voltar para Santa Catarina. Estamos em outubro de 1912.

Mas as coisas ocorrem bem diferente do planejado. Tem início um confronto sangrento entre tropas do governo e fiéis do Contestado no lugar chamado "Banhado Grande". Ao término da luta, estão sem vida dezenas de pessoas, de ambos os lados. Morreram no confronto o coronel João Gualberto, que comandava as tropas, e também o monge José Maria, mas os partidários do contestado tinham conseguido a sua primeira vitória.

José Maria é enterrado com tábuas pelos seus fiéis, a fim de facilitar a sua ressurreição, já que os caboclos acreditavam que este ressuscitaria acompanhado de um Exército Encantado, vulgarmente chamado de Exército de São Sebastião, que os ajudaria a fortalecer a Monarquia Celeste e a derrubar a República, que cada vez mais acreditava-se ser um instrumento do diabo, dominado pelas figuras dos coronéis.

Em 8 de fevereiro de 1914, numa ação conjunta de Santa Catarina, Paraná e governo federal, foi enviado a Taquaruçu um efetivo de 700 soldados, apoiados por peças de artilharia e metralhadoras. Estes logram êxito na empreitada, incendeiam completamente o acampamento dos jagunços, mas sem muitas perdas humanas, já que os caboclos e fiéis da causa do Contestado se refugiaram em Caraguatá, local de difícil acesso e onde já viviam cerca de 20.000 pessoas.

Os fiéis que mudaram para Caraguatá, interior do atual município de Lebon Régis, eram chefiadas por Maria Rosa, uma jovem com 15 anos de idade, considerada pelos historiadores como uma Joana D'Arc do sertão, já que "combatia montada em um cavalo branco com arreios forrados de veludo, vestida de branco, com flores nos cabelos e no fuzil". Após a morte de José Maria, Maria Rosa afirmava receber, espiritualmente, ordens do mesmo, o que a fez assumir a liderança espiritual e militar de todos os revoltosos, então cerca de 6.000 homens.

De março a maio outras expedições foram realizadas, porém todas sem sucesso. Em 9 de março de 1914, embaladas pela vitória de Taquaruçu, que tinham destruído completamente, as tropas cercam e atacam Caraguatá, mas aí o desastre é total. Fogem em pânico perseguidos pelos revoltosos. Esta nova vitória enche os contestadores de ânimo. O fato repercute em todo o interior, trazendo para o reduto ainda mais pessoas com interesses afins, mas também atinge em cheio ao governo e aos órgãos legalmente constituídos.

Como cada vez mais pessoas engajavam-se abertamente ao movimento, piquetes foram formados pelos fiéis para o arrebanhamento de animais da região a fim de suprir as necessidades alimentícias do núcleo de Caraguatá. São então fundados os redutos de Bom Sossego e São Sebastião. Só neste último se aglomeravam cerca de 2.000 pessoas.

Além de colocar em prática técnicas de guerrilha para a defesa dos ataques do governo, os fanáticos passaram ao contra-ataque. Em 2 de setembro, lançaram um documento que intitulou-se "Manifesto Monarquista", deflagrando-se, a partir de então, o que chamavam de a Guerra Santa, caracterizada por saques e invasões de propriedades de coronéis e por um discurso que exigia pobreza e cobrava exploração ao máximo da República.

Invadiam as fazendas dos coronéis tomando para si tudo o que precisavam para suprir as necessidades do reduto. Além disso, amparados nas vitórias que tiveram, atacaram várias cidades, como foi o caso de Curitibanos, onde os alvos eram invariavelmente os cartórios, locais onde se encontravam os registros das terras que antes a eles pertenciam. Não bastasse isso, num outro ataque na localidade de Calmon, destruíram completamente a segunda serraria da Lumber, uma das empresas que vieram de fora para explorar a madeira da faixa de terra de 30 quilômetros (15 quilômetros de cada lado) às margens da ferrovia.

Com a ordem social cada vez mais caótica na região, o governo central designa o general Carlos Frederico de Mesquita, veterano de Canudos, para comandar uma ação contra os rebeldes. Inicialmente tenta, sem êxito, um acordo para dispensar os revoltosos; a seguir ataca duramente Santo Antônio, obrigando os rebeldes a fugir. O reduto de Caraguatá, que antes vira as tropas do governo fugirem perseguidas por revoltosos, tem agora de ser abandonada às pressas pelos mesmos revoltosos devido a uma grande epidemia de tifo. Considerando, equivocadamente, dispersos os revoltosos, o general Mesquita dá a luta por encerrada.

Mas a calmaria terminaria logo. Os revoltosos rapidamente se reagrupam e se organizam na localidade de Santa Maria, interior norte do município de Lebon Régis, intensificando os ataques: tomam e incendeiam a estação de Calmon; dizimam a vila de São João (Matos Costa), atacam Curitibanos e ameaçam Porto União da Vitória, cuja população abandona a cidade em desespero.

Os boatos chegam até Ponta Grossa e dizem que os revoltosos e seu exército pretendem marchar até o Rio de Janeiro para depor o Presidente. Os rebeldes já dominam, nesta altura dos acontecimentos, cerca de 250 km² da região do Contestado.

O governo federal joga uma outra, e ainda mais dura, cartada: nomeia o general Fernando Setembrino de Carvalho para o comando das operações contra os Contestadores. Este chega a Curitiba em setembro de 1914, chefiando cerca de 7.000 homens, com ordes de sufocar a rebelião e pacificar a região a qualquer custo. Sua primeira providência foi restabelecer as ligações ferroviárias e guarnecer as mesmas de novos ataques.

Nas proximidades da ferrovia, o exército brasileiro construiu o Campo da Aviação de Rio Caçador, onde hoje existe o município homônimo. Como apoio de operações de guerra, pela primeira vez na história da América Latina foram usados dois aviões para fins de reconhecimento. Em um acidente durante as operações, morreu o Capitão Ricardo Kirk, primeiro aviador militar do Brasil.

Astutamente, Setembrino enviou um manifesto aos revoltosos no qual garantia a devolução de terras para quem se entregasse pacificamente. Garantia também, por outro lado, um tratamento hostil e severo para quem resolvesse continuar em luta contra o governo.

Com o passar do tempo, general Fernando Setembrino de Carvalho adotou uma nova postura de guerra, evitando o combate direto, que era o que os revoltosos esperavam e para o que estavam se preparando, optando, pelo contrário, por cercar o reduto dos fanáticos com tropas por todos os lados, evitando que entrassem ou saíssem da região onde estavam. Para isto, o general dividiu seu efetivo em quatro alas com nomes dos quatro pontos cardeais e, gradativamente, foi avançando e destruindo qualquer resistência que encontrasse pelo caminho.

Com esta nova estratégia, rapidamente começou a faltar comida nos acampamentos dos revoltosos. Isto teve como conseqüência imediata a rendição de dezenas de caboclos. Contudo, a maioria dos que se entregavam eram velhos, mulheres e crianças - talvez uma contra-estratégia dos fiéis para que sobrasse mais comida aos combatentes que ficaram para trás e que ainda defenderiam a causa.

Neste ponto da guerra do Contestado, começa a se destacar a figura de Deodato Manuel Ramos, vulgo "Adeodato", considerado pelos historiadores como o último líder dos Contestadores. Adeodato transfere o núcleo dos revoltosos para o vale de Santa Maria, que contava ainda com cerca de 50.000 homens. Só que aí, à medida que ia faltando o alimento, Adeodato passa a revelar-se cada vez mais autoritário, não aceitando a rendição. Aos que se entregavam, aplicava sem dó a Pena de morte.

Cerco fechado, sem pressa e deixando os revoltosos nervosos lutarem contra si mesmos, em 8 de Fevereiro de 1915 a ala Sul, comandada pelo tenente-coronel Estillac, chega a Santa Maria. De um lado as forças do governo, bem armadas, bem alimentadas, de outro, rebeldes também armados, é verdade, mas famintos e sem ânimo para resistir muito tempo. A luta inicial é intensa e, à noite, o tenente-coronel ordena a retirada, afinal, já contabilizara só no seu lado 30 mortos e 40 feridos. Novos ataques e recuos ocorreram nos dias seguintes.

Em 28 de março de 1915,o capitão Tertuliano Potyguara parte da vila de Reinchardt com 1.085 homens em direção a Santa Maria, perdendo só em emboscadas durante o trajeto, 24 homens. Depois de vários confrontos, num deles Maria Rosa, a líder espiritual dos rebeldes, morre às margens do rio Caçador. Em 3 de abril, as tropas de Estillac e Potyguara avançam juntas e ordenadas para o assalto final a Santa Maria, onde restavam apenas alguns combatentes já quase mortos pela fome.

Em 5 de Abril, depois do grande assalto a Santa Maria, o general Estillac registra que "tudo foi destruído, subindo o número de habitações destruídas a 5.000 (...) as mulheres que se bateram como homens foram mortas em combate (...) o número de jagunços mortos eleva-se a 600. Os redutos de Caçador e de Santa Maria estão extintos. Não posso garantir que todos os bandidos que infestam o Contestado tenham desaparecido, mas a missão confiada ao exercito está cumprida". Os rebeldes sobreviventes se dispersaram em muitas cidades.

Em dezembro de 1915 o último dos redutos dos revoltosos foi devastado pelas tropas de Setembrino. Adeodato fugiu, vagando com tropas no seu encalço. Conseguiu, no entanto, escapar de seus perseguidores e, como foragido, ficou ainda 8 meses escondendo-se pelas matas da região. Mas a fome e o cansaço, além de uma perseguição sem trégua, fizeram com que Adeodato se rendesse. Encerrava-se então, em agosto de 1916, com a prisão de Adeodato, a Guerra do Contestado.

Adeodato foi capturado e condenado a 30 anos de prisão. Entretanto, em 1923, 7 anos após ter sido preso, Adeodato é morto pelo próprio diretor da cadeia numa tentativa de fuga.



Os últimos dias de março de 1815 foram azedos para os diplomatas reunidos em Viena. Ali, representantes de Rússia, Prússia, Áustria, Suécia, Inglaterra e várias nações e reinos menores tentavam, havia meses, redesenhar o mapa político da Europa, reinstaurando as monarquias e os territórios que existiam antes do furacão napoleônico. Porém, a ilusão de que o general corso estava liquidado acabou quando souberam que ele não só havia retornado do exílio em Elba (uma ilhota no Mediterrâneo), como no dia 20 de março fora recebido em glória em Paris. Os aliados mal puderam acreditar. Napoleão, dez meses antes, em 11 de abril de 1814, fora derrotado por uma coalizão de mais de 500 mil soldados de várias nações européias, que se sublevaram contra o domínio francês após a desastrosa campanha napoleônica na Rússia, em 1812. Vitoriosos, os aliados colocaram Luís XVIII no trono da França e enviaram Bonaparte ao exílio. Agora, quando estavam prestes a dividir o bolo, teriam de brigar novamente com seu pior pesadelo.

Em 15 de junho, com 124 mil homens, ele invadiu a Bélgica. Seu único trunfo era bater separadamente os exércitos inimigos antes que se reunissem. As tropas que estavam na área eram formadas por prussianos e outras compostas por ingleses, belgas, neerlandeses e alemães, instalados na Bélgica. Napoleão tentaria batê-los para forçar algum armistício com as outras nações, que estavam com seus exércitos mais distantes da França. O desafio não era fácil. O exército anglo-batavo-alemão contava com 93 mil homens, liderados pelo duque de Wellington. O prussiano tinha 117 mil homens, comandados por uma velha raposa, o general Blücher. Mesmo em inferioridade numérica, Napoleão teria de atacar. Dentro de um mês o exército austríaco de 210 mil homens, outro russo, de 150 mil, e um terceiro grupo austro-italiano, de 75 mil invadiriam a França pelo norte e pelo sul.

Quando invadiu, as tropas anglo-batavo-alemãs ainda não haviam se juntado ao exército prussiano. Napoleão decidiu bater primeiramente os prussianos, que estavam à sua direita em Ligny. E mandou o Marechal Ney com 24 mil homens, para Quatre-Bras a fim de barrar qualquer tentativa dos ingleses ajudarem os aliados. No dia 16 de junho de 1815, Bonaparte encarou o velho Blücher. Sabendo que eram os franceses que tinham de correr atrás do osso, o prussiano entrincherou seus homens em fazendas próximas a Ligny e esperou. A batalha durou todo o dia. No fim da tarde, a Guarda Imperial francesa arrebentou o centro prussiano, decidindo a batalha. Blücher evitou uma desgraça maior, liderando o contra-ataque com a cavalaria. Os prussianos puderam recuar em ordem, na escuridão.

Ao término do embate, os prussianos amargavam 22 mil baixas, contra 11 mil dos franceses. Blücher evitou a derrota. Napoleão, porém, conseguiu o que queria: afastar os prussianos para bater os ingleses em seguida. Para não deixar que os prussianos pudessem se juntar aos ingleses na batalha seguinte, Napoleão destacou uma tropa de 30 mil homens, entregou-a ao general Grouchy e ordenou que perseguisse os prussianos.

No dia seguinte, 17 de Junho, o duque de Wellington se aproveitou da chuva forte que caiu sobre a região para levar o exército a uma posição mais segura, o monte Saint Jean. Os franceses chegaram lá ao fim do dia. O temporal continuava. Mas Napoleão não dispunha de tempo. Mesmo sob tempestade, ele foi pessoalmente verificar as condições do campo durante a noite. Naquele momento, Bonaparte tinha a chance com que tanto sonhara. Os prussianos estavam em retirada, sendo acossados por Grouchy. A ele só restava ter um bom desempenho contra os ingleses no dia seguinte e demonstrar à Europa que a França ainda estava viva.

Pela manhã, o tempo melhorara. Wellington contava com 23 mil ingleses e 44 mil soldados aliados, vindos da Bélgica, da Holanda e de pequenos estados alemães, num total de 67 mil homens, apoiados por 160 canhões. Os franceses contavam com 74 mil homens e 250 canhões. Wellington posicionou suas tropas ao longo da elevação de Saint Jean. Sua ala direita se concentrava em torno da fazenda de Hougomount. No centro, logo abaixo da colina, outra fazenda, La Haye Sainte , estava ocupada por King's German Legion (Hanover). À esquerda tropas aliadas se posicionavam em torno a uma terceira fazenda, a Papelotte. Wellesley assumiu uma postura extremamente defensiva. Em parte, porque seu exército não era dos melhores e porque, para ele, quanto mais tempo demorasse a batalha, maiores eram as chances de o reforço prussiano chegar.

Napoleão queria começar o ataque cedo. A violenta tempestade noturna, entretanto, fez com que Napoleão adiasse o ataque previsto para a noite de 17 de Junho para o meio-dia do dia 18, a fim de aguardar que o solo secasse já que a chuva havia transformado o campo de batalha num lamaçal. Ele teve de esperar até aproximadamente 11 horas da manhã, quando o solo ficou mais seco, para iniciar o ataque contra Wellesley. A idéia era chamar a atenção para esse setor e fazer o inglês desperdiçar tropas ali e então atacar no centro. O ataque a Hougomount, com fogo de canhões, durou meia hora. O lugar era protegido por duas companhias inglesas, que não somavam mais de 3,5 mil homens. Elas receberam o peso de mais de 10 mil franceses, mas não cederam. Aos poucos, o que era para ser um blefe tragou durante todo o dia preciosos recursos franceses. Pior, Wellesley não caíra na armadilha e mantinha as melhores tropas no centro, perto de La Haye Sainte. Napoleão então decidiu que era a hora de atacar o centro da linha inglesa.

O marechal Ney, seu braço-direito, posicionou 74 canhões contra a estratégica fazenda de La Haye Sainte. Napoleão agora faria o que sempre comandava com eficiência: explodir o centro adversário. Pressentindo o perigo, Wellesley ordenou às tropas posicionadas no alto do monte Saint Jean que se jogassem ao chão para diminuir os danos, mas nem todos tiveram a chance. As tropas belgo-neerlandesas do general Bilandt, que permaneceram na encosta desprotegida do monte, foram simplesmente massacradas. Mal os canhões se calaram, foi a vez de os tambores da infantaria francesa iniciarem seu rufar.

Marchando em colunas, os 17 mil homens do corpo comandado pelo general D'Erlon atacaram. O objectivo: conquistar a fazenda de La Haye Sainte, o ponto vital do centro inglês. Ao mesmo tempo, outro contingente se aproximava, pressionando a ala esquerda dos britânicos. Napoleão agora declarava as suas verdadeiras intenções e partia para o ataque frontal. Acossadas pela infantaria francesa, as tropas inglesas perderam Papellote e deixaram vulnerável a ala esquerda. Ao mesmo tempo, as tropas alemãs da Legião do Rei, as responsáveis pela guarda de La Haye Sainte, no centro, ameaçavam sucumbir.

Foi o momento de Wellesley pensar rápido. Na ala esquerda, o comandante inglês ordenou que o príncipe alemão Bernhardt de Saxe-Weimar retomasse Papelotte, o que foi feito com sucesso. Para conter o ataque da infantaria napoleônica no centro, ele acionou a 5a Brigada, veterana da guerra na Espanha. Fuziladas a curta distância, as tropas de Napoleão retrocederam, não sem antes deixar morto no campo, com uma bala na cabeça, o chefe da brigada inimiga, o general Picton. Ao ver os franceses recuando, Wellesley viu a chance de liquidar a batalha. Acionou sua cavalaria para um contra-ataque no centro. As brigadas Household, Union e Vivian provocaram desordem entre os franceses. Mas por pouco tempo. Perto da linha de canhões inimiga, a cavalaria inglesa foi surpreendida por um contra-golpe mortal. A cavalaria pesada francesa, com seus Courassiers (couraceiros), apoiados pelos Lanciers (cavalaria leve), atacou os ingleses. O general Ponsonby, chefe da brigada Union, morreu junto com sua unidade, aniquilada. Napoleão dava o troco e continha os ingleses.

A batalha permanecia num impasse. Na ala direita de Wellesley, a luta prosseguia sem um resultado decisivo em Hougomount. No centro e na esquerda, os ingleses e os aliados batavos e alemães haviam a muito custo mantido La Haye Sainte e Papilotte. Foi nessa hora, entretanto, que Bonaparte recebeu uma notícia que o alarmou. Cerca de 40 mil homens se aproximavam do lado direito do exército francês, nas imediações de Papilotte. De início, chegou a pensar que fosse o general Grouchy — que havia sido encarregado de afastar os prussianos — chegando. Logo suas esperanças se desfizeram. Grouchy falhara. Aquele corpo de exército era simplesmente a vanguarda do exército prussiano, que chegava para socorrer o aliado inglês. Napoleão teve que improvisar. Sua ala direita, comandada pelo general Lobau, se realinhou de modo defensivo para segurar a chegada dos prussianos e dar ao imperador algumas horas para agir.

Enquanto isso, ele ordenou ao marechal Ney que, de uma vez por todas, tomasse La Haye Sainte e rompesse o centro inglês, assegurando a vitória. Às 16 horas, o marechal francês Ney, com dois batalhões de infantaria, ordenou um ataque coordenado e capturou La Haye Sainte, uma fazenda no meio das linhas aliadas. A artilharia francesa então começou a atacar os aliados a partir do centro. Nesse momento Ney, cometeu um erro fatal de julgamento. Em meio à fumaça dos canhões e à loucura da batalha, supôs que o exército inglês estava recuando. Ele então ordenou que sua cavalaria partisse para cima do inimigo. Napoleão achou o movimento precipitado, mas, uma vez que Ney era quem estava encabeçando o ataque, enviou mais cavaleiros para sustentar a carga.

A tremenda carga dos Courassiers terminou de forma trágica. A infantaria inglesa não estava recuando, como Ney imaginava. Eles se agruparam em quadrados e passaram a fuzilar os cavaleiros franceses, que não conseguiam romper as formações defensivas. Nas duas horas seguintes, Ney lideraria ao menos 12 cargas de cavalaria contra o centro inglês, com mais de 5 mil cavaleiros.

La Haye Sainte finalmente caiu em mãos francesas, mas os ingleses ainda mantinham seu centro coeso no alto do monte Saint Jean.

A cavalaria francesa lançou o assalto final e foi novamente batida. Os ingleses não estavam em melhor estado e suas linhas estavam a ponto de romper. Ney, dessa vez corretamente, identificou a oportunidade de vencer e implorou a Napoleão por mais tropas. "De onde você espera que eu tire mais tropas? Quer que eu invente algumas agora?", respondeu Napoleão, irritado. "Nesse momento, Bonaparte viu a vitória escapar. Mais um esforço e Wellesley teria sido derrotado. A essa altura, os prussianos estavam esmigalhando a direita de seu exército e ele teve que priorizar esse setor para ganhar mais fôlego. Na verdade, talvez ele esperasse ver surgir, a qualquer momento as tropas de Grouchy. Com 30 mil homens a mais, ele poderia ter vencido a batalha. A luta com os prussianos ia de mal a pior. Dez batalhões da Jovem Guarda Imperial após um combate feroz contra o dobro de inimigos, haviam perdido 80% de seus homens e começavam a recuar.

Napoleão decidiu então utilizar sua última e preciosa reserva: a sua famosa Velha Guarda Imperial, a elite de seus veteranos. Ele enviou dois batalhões contra os prussianos — e mais uma vez eles fizeram valer a sua fama. Quando a Velha Guarda entra em campo, os inimigos tremiam. Até então, ela nunca havia sido derrotada em batalha. Os dois batalhões varreram sozinhos 14 batalhões prussianos, estabilizaram a ala direita e deram ao imperador a chance de lutar novamente contra Wellesley no centro.

Logo, os gritos de "La Garde recule!" (a Guarda recua) ecoaram pelo campo. O centro inglês havia resistido a despeito de todos os esforços. Pelo lado direito, os 40 mil prussianos finalmente esmagavam os 20 mil franceses que lhes haviam obstruído durante horas. Em um último ato de coragem, três batalhões da Velha Guarda permaneceram lutando para dar ao imperador a chance de fugir. Lutariam até o fim. Cercados por prussianos, receberam ordem de rendição. O general Cambonne, o líder, teria então afirmado: "A Guarda morre, mas não se rende". Em outro ponto, o marechal Ney, apelidado por Napoleão como "o bravo dos bravos", ao ver tudo perdido, reuniu um grupo de soldados fiéis e liderou uma última carga de cavalaria, gritando: "Assim morre um Marechal da França!”

Napoleão, agarrado por auxiliares, foi retirado à força do campo de batalha. Seria posteriormente posto sob custódia inglesa e enviado à distante ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, onde morreria em 1821. A batalha custara a ingleses, belgas, neerlandeses e alemães 15 mil baixas. Os prussianos deixaram no campo 7 mil homens. Os franceses amargaram 25 mil mortos e feridos, além de 8 mil prisioneiros.

Wellesley finalmente se encontrou com Blücher para o aperto de mãos. A ameaça napoleônica fora vencida de vez. Blücher queria chamar a batalha de Belle Aliance — nome da fazenda que fora o quartel-general de Napoleão durante a batalha. Wellesley, porém, teve outra ideia. É que ele tinha suas manias. Uma delas era batizar combates com o nome do lugar onde ele dormira na noite anterior. Uma vila a alguns quilômetros dali, conhecida por Waterloo, deu então o nome à histórica batalha.



Napoleão tentara atacar a Inglaterra na Campanha da Bolonha, mas com a entrada da Áustria e a Rússia na guerra contra a França, o imperador francês foi forçado a abandonar o ataque às Ilhas Britânicas em prol de uma campanha contra a Áustria.

Em 1804, Napoleão acreditava que a paz definitiva na Europa só seria possível com a neutralização da capacidade militar do Reino Unido. Este contexto, contudo, pareceria impossível naquele momento diante da superioridade da marinha britânica. Assim, ele concebe, com o Almirante Louis René Levassor de Latouche-Tréville, um ousado plano diversional: concentrar momentaneamente o maior número de navios possível no Canal da Mancha, evitando que os ingleses fizessem o mesmo. Para tanto, a esquadra franco-espanhola sairia do Mediterrâneo, atraindo os ingleses até às Antilhas e regressaria rapidamente, unindo-se às esquadras de Brest e Rochefort, que avançariam para a Mancha. Nessa altura concretizar-se-ia a invasão. Latouche-Treville falece antes de tentar executar este estratagema e Napoleão o confia ao Almirante Villeneuve (a primeira parte do plano transcorre como previsto, mas Villeneuve será surpreendido em Trafalgar, no sul da Espanha, e a frota imperial será aniquilada).

Napoleão mantém seu "Grande Exército" estacionado nas cercanias de Boulogne, preparado para invadir a Grã-Bretanha, à espera da esquadra de Villeneuve. Enquanto aguardam, as tropas são treinadas e recebem freqüentes visitas do Imperador, para manter elevado seu moral. Em meados de agosto, Napoleão recebe a notícia de que a esquadra de Villeneuve atrasara-se e de que há movimentação na Europa central, onde as tropas russas avançam para se unir às austríacas. Os prussianos e o napolitanos, a soldo dos ingleses, também parecem dispostos a se unir contra a França.

Napoleão desiste de invadir a Inglaterra e parte para enfrentar os austríacos e russos. Assim, em menos de 20 dias, Napoleão levou seu imenso exército em marcha acelerada de uma ponta a outra da Europa.

O exército austríaco, sob o comando de Mack, compreende 80.000 homens e acha-se colocado no alto Danúbio, à volta de Ulm, no Wurtenberg, perto da fronteira com a Baviera, esperando que Napoleão atravessasse a Floresta Negra.

Contudo o Imperador contorna os austríacos mais ao norte e arremete para o sul, colocando o grosso do seu exército entre Ulm e Viena e cortando a retirada a Mack.

Este pode escapar enquanto a manobra não se completa, mas é iludido por Karl Schulmeister, alemão a serviço dos franceses, que se infiltrou no Estado-maior austríaco à custa de fornecer (com a permissão de Napoleão) informações corretas sobre o dispositivo francês.

Schulmeister leva Mack a acreditar na ocorrência de um levante em Paris contra Napoleão, que seria obrigado a retirar suas tropas para voltar à capital. Como Mack duvida, Napoleão manda imprimir (no próprio acampamento) um número falsificado de uma gazeta de Paris que traz notícias desta revolução imaginária. Sentindo-se seguro, Mack permanece em Ulm até ser completamente cercado pelos franceses.

Os marechais de Napoleão aconselham-no a bombardear a cidade, mas o Imperador sabe que este banho se sangue seria desnecessário; efetivamente, intimado a render-se, Mack capitula com todo o seu armamento em 20 de outubro de 1805.

O resultado da batalha foi (mais) uma prova do brilhantismo de Napoleão: apenas 5.980 baixas (mortos ou feridos) do lado francês, contra 12.000 baixas austríacas e 30.000 prisioneiros; consta que outros 30.000 escaparam, mas, destes, 10.000 foram mais tarde feridos ou mortos e o resto capturado.

A Áustria mantinha na Itália um exército de 90.000 homens, comandados pelo Arquiduque Carlos, mas ele se encontra em xeque pelo Marechal Massena, à frente de 50.000 soldados. Napoleão avança à toda pressa sobre Viena, que ocupa sem resistência. Mais a leste, em Olmutz, o exército do Czar Alexandre (com 75.000 homens) reúne-se ao remanescente do exército do Imperador Francisco I (18.000 homens). Napoleão dispõe de 75.000 homens (mais 7.000 soldados de Davout, que aguardam em Viena), mas o verdadeiro perigo está na possibilidade de a Prússia decidir-se a entrar na guerra contra a França, o que poderia mais que duplicar aqueles efetivos. O Imperador tem urgência em terminar a campanha antes que isto aconteça e, para tanto, encena uma pequena comédia: propositadamente, deixa vulnerável o flanco direito de seu exército e envia emissários propondo a paz ao imperador russo e ao austríaco.

A pedido de Napoleão, o Czar envia um plenipotenciário impondo condições humilhantes à França; Napoleão finge estudar tal proposta, hesita, suspira, e termina por repudiá-la fingindo-se desesperado, mas disposto a vender caro sua derrota. O emissário russo cai como um pato e tranqüiliza o estado-maior austro-russo, que adota o "plano Weyrother": uma movimentação principal de encontro ao fragilizado flanco direito francês e ataques diversionários ao flanco esquerdo francês.

Em 2 de dezembro de 1805, ou seja, no primeiro aniversário da coroação de Napoleão, a planície de Austerlitz (hoje Slavkov, na República Checa) será o palco da Batalha do Três Imperadores (da França, da Rússia e da Áustria – embora este último não estivesse realmente presente no local). É inverno e os lagos da região estão congelados.

O norte do campo de batalha é dominada pelos montes Santon (210 m de altura) e Zuran (260 m); neste, encontra-se Napoleão no começo da refrega. No centro da planície, ergue-se o outeiro de Pratzen, com cerca de 12 metros de altura e encostas suaves. Napoleão ocupa e abandona este outeiro antes da batalha, como uma isca. Ele imagina que seus inimigos, ao enviar o grosso de sua tropa para envolver-lhe o flanco direito, estarão enfraquecendo o próprio centro, onde pretende atacar. Para ajudar a defender seu débil flanco direito, ordena a Davout que venha em passo forçado de Viena (os soldados de Davout cobrirão 110 km em 48 horas e serão fundamentais para o desenlace da batalha).

A batalha começa às oito horas e, como previsto, as tropas russas atacam o flanco direito francês, mas sem sucesso: seus ataques são mal coordenados e os franceses ou mantém suas posições ou as recuperam, quando perdidas. Começam a chegar os primeiros homens de Davout. Por volta das nove horas, o Imperador ordena a Nicolas Jean de Dieu Soult que tome o outeiro de Pratzen, comentando: "um sopro mais forte e esta guerra acaba". Saint-Hilaire e Vandamme, comandantes de Soult, encarregam-se do ataque. Saint-Hilaire avança sobre o outeiro, coberto por uma espessa névoa que é dissipada de repente por um sol incomumente brilhante (o lendário "Sol de Austerlitz"). Os russos que ocupavam Pratzen são surpreendidos pelo avanço francês e recuam depois de uma hora de luta feroz. Um pouco ao norte, Vandamme prossegue na investida.

Napoleão desloca-se de Zuran para Pratzen e manda reforçar o ataque de Vandamme. Os russos ainda reagem, mas são afastados pela cavalaria pesada de Napoleão. Por volta das catorze horas, o exército austro-russo encontra-se dividido em dois, como pretendia Napoleão. Daí em diante, ao norte, apesar da bravura dos russos, uma bem-coordenada série de ataques franceses conseguiu impor a superioridade napoleônica.

O foco de Napoleão desloca-se para o sul: a divisão de St. Hilaire e parte do III Corpo de Davout levam o pânico às tropas inimigas que lá se encontram. Os soldados russos tentam fugir atravessando o lago de Satschan, que é alvejado pela artilharia de Napoleão. O gelo se parte e um número incerto de russos (algo entre 200 e 2.000 homens) morre afogado.

Embora as estatísticas sejam pouco precisas, estima-se que tenha havido, entre os franceses, 1.288 mortos e 6.993 feridos, com perda de uma única bandeira; do lado oposto, 16.000 mortos, 11.000 prisioneiros, com perda de 185 canhões e 45 bandeiras. Para alguns, esta batalha é comparável à de Cannae, em que Aníbal Barca venceu os romanos. Finda a batalha, chega um enviado do Rei da Prússia, levando a declaração de guerra à França. Diante da vitória do Imperador, deixa a declaração no bolso e felicita-o efusivamente.

Em 26 de dezembro de 1805 Áustria e França assinam o tratado de Presburgo (Bratislava), pelo qual a Áustria reconhece o território francês definido pelos tratados do Campo Formio (1797) e Lunéville (1801); cede também territórios, a Baviera, Wurttemberg e Baden, que eram aliados alemães de Napoleão, e concorda em pagar 40 milhões de francos como indenização de guerra. Veneza é entregue ao reino da Itália.

Em 12 de julho de 1806, 16 Estados alemães deixam o Sacro Império Romano-Germânico e assinam o Rheinbundakte - o Tratado da Confederação do Reno, cujo protetor é Napoleão. Em 6 de agosto, cedendo a um ultimato de Napoleão, Francisco I declara extinto o Sacro Império, embora mantenha o título de Imperador. Nos anos seguintes, 23 outros Estados alemães irão se juntar à Confederação, permancendo fora apenas a Áustria, a Prússia, o Holstein dinamarquês e a Pomerânia sueca (a região da Alsácia-Lorena já era parte da França).



A Guerra Peninsular entre 1807 e 1814, tem uma sequência de eventos envolvendo a península que remontam à Campanha do Rossilhão (1793–95), quando tropas de Portugal reforçam as da Espanha, integrando a primeira aliança liderada pela Inglaterra contra a França revolucionária.

A partir da ascensão de Napoleão Bonaparte ao poder (1799), a Espanha alia-se à França para, por meio da invasão e da divisão de Portugal entre estes, atingir indirectamente os interesses comerciais do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda (Guerra das Laranjas, 1801).

Em Julho de 1807, com os acordos secretos de Tilsit, vai no entanto abrir-se um novo capítulo na guerra europeia. Em Agosto, enquanto Napoleão faz concentrar tropas em Baiona para a invasão de Portugal, os representantes da França e de Espanha em Lisboa entregaram ao príncipe regente de Portugal, dom João, os seus “pedidos”: Portugal teria que se juntar no bloqueio continental que a França decretara contra a Inglaterra; fechar os seus portos à navegação britânica; declarar a guerra aos ingleses; sequestrar os seus bens em Portugal, e prender todos os ingleses residentes.

Em 5 de Setembro de 1807, o general Andoche Junot está já em Baiona a cuidar dos últimos preparativos das tropas que irão invadir Portugal, antes de obter uma resposta definitiva do príncipe regente de Portugal, e antes mesmo de Napoleão assinar o Tratado de Fontainebleau com a Espanha (27 de outubro de 1807), no que parecia ser o projecto de uma repartição do território português em três novas unidades políticas:

- Lusitânia Setentrional – território entre o rio Minho e o rio Douro, um principado a ser governado pelo soberano do extinto reino da Etrúria (então Maria Luísa, filha de Carlos IV de Espanha);

- Algarves – região compreendida ao sul do Tejo, a ser governada por Manuel de Godoy, o Príncipe da Paz, primeiro-ministro de Carlos IV, com o título de rei;

- Resto de Portugal – território circunscrito entre o rio Douro e o rio Tejo, região estratégica pelos seus portos, a ser administrada directamente pela França até à paz geral.

Tornando aparente à Espanha querer cumprir o Tratado de Fontainebleau, Napoleão ordena a invasão de Portugal, iniciando o que se denomina por Guerra Peninsular (1807–1814), cuja primeira parte é conhecida como invasões francesas a Portugal.

Na iminência da invasão, o príncipe regente, D. João, fizera já saber a Napoleão que iria cumprir as disposições do Bloqueio Continental e, em 30 de Outubro, declarara mesmo guerra à Inglaterra, mandando prender em Novembro os ingleses residentes em Portugal. A Convenção secreta entre Portugal e a Inglaterra, assinada no dia 22 de Outubro, estabelecia com segurança a manobra luso-britânica de pôr a salvo a Família Real e o governo português no Brasil.

Sob o comando do General Jean-Andoche Junot, as tropas francesas entraram na Espanha em 18 de Outubro de 1807, cruzando o seu território em marcha acelerada em pleno inverno, e alcançando a fronteira portuguesa em 20 de Novembro. Sem encontrar resistência militar, uma coluna de tropas invasoras atingiu Abrantes em 24 de Novembro. Faminto e desgastado pela marcha e pelo rigor da estação, o exército francês teve dificuldade para ultrapassar o rio Zêzere, entrando em Santarém em 28, de onde partiu no mesmo dia, rumo a Lisboa, onde entrou em 30, à frente de dois regimentos em muito mau-estado. Um dia antes, a Família Real e a corte portuguesa haviam saído para o Brasil a bordo de uma larga esquadra naval, protegida por naus britânicas, e levando consigo cerca de 15 mil pessoas, deixando o governo do território europeu de Portugal nas mãos de uma regência, com instruções para não "resistir" aos invasores. Ficava vazio de conteúdo o decreto de Napoleão publicado pelo jornal francês Le Moniteur de 30 de Outubro, dando como banida a Casa de Bragança do trono de Portugal.

Ao chegar a Lisboa, Junot tomou medidas para a instalação das tropas que o precediam. No dia 2 de Dezembro, entrou na cidade o general Laborde, com os efectivos reduzidos e extenuados, com muitos homens montados em burros, mal podendo estar de pé. Três semanas depois de chegar a Lisboa, Junot tinha ainda apenas um efectivo de 10 mil dos 28 mil soldados franceses que tinham invadido Portugal, distribuindo-os ao redor de Lisboa. A divisão espanhola de Solano, saindo de Badajoz, tomara entretanto Elvas e Campo Maior, indo estabelecer o seu quartel-general em Setúbal, ocupando também Alcácer do Sal e, no Algarve, Tavira e Lagos. A divisão de Tarranco, com cerca de 6 mil homens, entrou por Valença e foi garantir a tomada da cidade do Porto, onde já estava o general Juan Carrafa com 4 mil homens, vindos por Tomar e Coimbra. Iniciava-se o período do domínio francês de "El-Rei Junot".

Entretanto, Napoleão envia mais tropas para o norte de Espanha que, sob o pretexto apoiar as tropas de ocupação em Portugal, tomam as cidades de Pamplona, Barcelona, Figueras (Catalunha) e San Sebastian. O marechal Joaquim Murat, cunhado de Napoleão, atravessa então Bidassoa e marcha com 100 mil soldados sobre Madrid. Antes de Murat chegar a Madrid, uma rebelião em Aranjuez, em 19 de Março de 1808, depõe o rei Carlos IV, afasta Manuel Godoy, e coloca no trono espanhol o príncipe das Asturias, com o nome de Fernando VII.

O rei Fernando VII recebe o marechal Murat como aliado, confiando ainda que Napoleão cumprirá o Tratado de Fontainebleau. Em Abril, o rei Fernando VII de Espanha é forçado a abdicar em Baiona e a reconhecer José Bonaparte como rei de Espanha. Além do rei Fernando VII de Espanha, são colocados sob prisão Carlos IV, a rainha, e Manuel de Godoy. Perante a anulação da Casa Real Espanhola, a população de Madrid levanta-se contra os franceses, levando Murat a ordenar o fuzilamento de milhares de espanhóis, que Francisco Goya, em 1814, veio a homenagear no quadro "Os fuzilamentos de 3 de Maio". Durante o mês de Maio e Junho, eclodem insurreições populares contra as tropas francesas de ocupação por toda a Espanha e Portugal.

Em 9 de Maio de 1808, o príncipe regente de Portugal, no Brasil, declarava nulos todos os tratados de Portugal com a França, declarando guerra aos franceses e amizade ao seu antigo aliado, a Grã-Bretanha. No Porto, em 6 de Junho, vai abrir-se um período de revoltas populares contra a ocupação francesa, em resultado das quais as populações de Chaves, Miranda, Torre de Moncorvo, Ruivães, Vila Real, entre outras, responderam imediatamente à chamada. Sob o comando do tenente-general Sepúlveda o movimento de Trás-os-Montes voltou ao Porto, onde foi nomeada a Junta Provisional do Supremo Governo do Reino (1808), sob o comando do bispo do Porto, D. António de Castro.

A notícia do levantamento do povo espanhol levou o general Solano a retirar com as suas tropas para Espanha. O general Quesnel, um francês que substituíra Tarrancos por morte deste, é preso pelas tropas espanholas de Balestra que, entretanto, recebera também ordem de regressar a Espanha.

Em Portugal, as tropas francesas sob o comando de Junot ficam reduzidas às concentrações numa área em volta de Lisboa, delimitada pelo Atlântico, o rio Tejo, e por uma linha que ia de Peniche até Abrantes. No resto do território, os franceses dispunham de forças em posições fortificadas em Setúbal, Almeida e Elvas. Fora dessa área e dessas localidades, os franceses deslocavam-se ainda com um certo à vontade, provocando baixas às forças portuguesas e às populações que se lhes opunham. A resistência portuguesa crescia porém dia-a-dia. Quando uma força francesa sob o comando do general Loison, sediada em Almeida, tentou marchar sobre o Porto, viu-se cercada por forças de guerrilha de camponeses rudimentarmente armados, mas muito aguerridos. Após três dias de combates, Loison é forçado a retroceder.

No sul do país, a tão esquecida revolta de Olhão teria mesmo tomado a dianteira nos combates corpo-a-corpo, no dia 16 de Junho, tendo sido inclusivamente considerada pelo próprio príncipe regente, como "o primeiro sinal para se restaurar a Monarquia" (ver Alvará Régio de 15 de Novembro de 1808), elevando o então lugar a Vila de Olhão da Restauração.

A Junta do Porto, sob o comando do bispo D. António de Castro, vai manter-se ao lado dos resistentes ao ocupante francês. No dia 24 de Julho, depois de passar pela Corunha, desembarca no Porto o general Arthur Wellesley (mais tarde duque de Wellington), onde recebe algum apoio, mas sobretudo preciosas informações sobre a situação militar no conjunto do território português. No dia seguinte, Wellesley decide navegar até à entrada do Tejo para consultas com o almirante Charles Cotton, comandante naval britânico na área. O forte de Peniche estava ocupado por forças francesas e no Tejo estava por perto uma esquadra russa. Decidem fazer o desembarque das tropas britânicas na foz do Mondego.

No dia 1 de Agosto, as tropas britânicas começaram a desembarcar perto da Figueira da Foz, marchando no dia 10 em direcção a Leiria onde se juntaram às forças portuguesas de Bernardino Freire, comandante do exército português em Montemor-o-Velho. No total seriam cerca de 20 mil homens; 14 mil britânicos e 6 mil portugueses. Do lado francês, havia inicialmente 30 mil homens, mas calculou-se que não haveria agora mais de 12 mil homens nos arredores da capital. Os restantes estariam distribuídos por Tomar, Abrantes, etc., a que havia que descontar o número de baixas provocados pelas guerrilhas populares e pelas deserções. Travaram-se, na seqüência, a batalha de Roliça e a batalha do Vimeiro, vencidas pelos aliados Portugal/Reino Unido da Grã-Bretanha forçando à Convenção de Sintra.

Enquanto em Portugal se lutava contra a ocupação francesa, Napoleão mantinha no trono espanhol o seu irmão José Bonaparte. Os espanhóis, em revolta contra os usurpadores franceses, obtêm apoio das tropas britânicas estacionadas no norte de Portugal. Sob o comando de John Moore, os Britânicos passam a fronteira no início de 1809, para serem derrotados, na Corunha, pelo Marechal Nicolas Jean de Dieu Soult. Obrigadas a retirar, deixaram a descoberto a fronteira com Portugal, permitindo a Soult invadir o país pela fronteira de Trás-os-Montes e Alto Douro (Chaves) em Março de 1809, vencendo a Batalha do Carvalho d'Este e avançando até à cidade do Porto, que ocuparam a 24 desse mês, fixando fronteira no rio Douro.

A 12 Maio desse mesmo ano, tropas Luso-Britânicas sob o comando do General Arthur Wellesley e do comandante-em-chefe o Marechal William Carr Beresford, atravessaram o Rio Douro e venceram a chamada batalha do Douro, reconquistando a cidade do Porto (29 de Maio) e expulsando o invasor, que se retirou para a Galiza. Seguindo para o sul, as tropas de Wellesley travaram a batalha de Talavera em território espanhol e regressaram a Portugal.

É de salientar ainda a importância da escaramuça de Serém, Concelho do Vouga — região pantanosa do rio Vouga e do rio Marnel, actualmente pertencente ao Concelho de Águeda —, em que o Capitão-Mor do Vouga, José Pereira Simões, travou o avanço para o Sul do Marechal Soult, até à chegada do Coronel Nicholas Trant e do Batalhão Académico e, posteriormente, do General Arthur Wellesley, com reforços. Como consequência, as hostes do Marechal Soult não conseguiram atravessar o rio Vouga, perderam a escaramuça de Serém e foram obrigados a retirar-se para o Norte, tendo-se acantonado na cidade do Porto.

Uma terceira invasão francesa do território português teve início em 1810, sob o comando do Marechal André Masséna. Penetrando pela região Nordeste de Portugal, conquistou a Praça-forte de Almeida (Agosto), na fronteira, marchando em seguida sobre Lisboa. Interceptado pelas forças Luso-Britânicas, foi derrotado na batalha do Buçaco (27 de Setembro). Reagrupando as suas forças, retomou a marcha, flanqueando as tropas Luso-Britânicas e forçando-as a recuarem para defender a capital. Os franceses atingiram as Linhas de Torres a 14 de Outubro, erguidas na previsão dessa eventualidade e onde as tropas Luso-Britânicas os aguardavam desde o dia 10, retirando-se, derrotados, ao final do dia seguinte.

A campanha dos exércitos britânico, português e espanhol, entre maio e agosto de 1813, culminou na batalha de Vitória, seguida um mês depois pela batalha dos Pirinéus. Em pouco mais de dois meses e depois de uma ofensiva de 600 quilómetros com mais de 100 mil homens das três nações em armas, o curso da história européia foi modificado de forma decisiva. Seguiu-se uma série de batalhas em território francês até à vitória em Toulouse (10 de abril de 1814), que colocou fim à Guerra Peninsular.

O estudo das circunstâncias que envolvem a Guerra Peninsular são importantes pelos desdobramentos que encerram, debilitando as forças da França e consolidando a hegemonia inglesa que se afirma desde então. Ao eliminar a monarquia de Carlos IV de Bourbon na Europa, Napoleão abriu as portas que conduziram à independência da América espanhola (com importante apoio da Grã-Bretanha). O mesmo ocorreu ao permitir a saída de D. João VI para o Brasil, processo que criaria as pré-condições para a independência da América portuguesa. Ainda em 1808, ao aportar a Salvador, na Bahia, o Príncipe regente assinou o Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas, vindo a assinar, em 1810, os tratados que permitiram a hegemonia britânica nas relações comerciais entre ambos os países, abrindo as portas de um mercado em três continentes, com tarifas alfandegárias privilegiadas. Com fôlego renovado, sob o comando do mesmo Wellington, herói da Guerra Peninsular, a Grã-Bretanha derrotou Napoleão na batalha de Waterloo (1815), desfrutando de uma hegemonia mundial que conservaria até a Primeira Guerra Mundial (1914–18).

Por outro lado, embora com menor impacto, o governo de Portugal declararia guerra à França e à Espanha, ocupando a Guiana francesa (1809–15) e a Banda Oriental do rio da Prata, actual Uruguai (1810–28).

A crise económica e institucional em Portugal continental agravou-se com a permanência da corte portuguesa no Brasil, o que fortaleceu as idéias liberais no país, conduzindo à Revolução do Porto (1820) e forçando o retorno do soberano à Europa (1821). A tentativa de recolonização do Brasil levou à independência deste, no ano seguinte (1822). Enquanto que franceses e ingleses continuaram com o seu desenvolvimento económico e industrial, Portugal viu o seu território transformado em campo de batalha, as cidades constantemente pilhadas pelos exércitos estrangeiros e a indústria estagnada.



A Guerra do Paraguai foi o maior conflito armado internacional ocorrido na América do Sul. Estendeu-se de dezembro de 1864 a março de 1870. É também chamada Guerra da Tríplice Aliança (Guerra de la Triple Alianza) na Argentina e Uruguai e de Guerra Grande, no Paraguai.

Após o término da Guerra do Prata em 1852 com a vitória dos aliados (unitaristas argentinos, colorados uruguaios e Império do Brasil) sobre os federalistas argentinos e blancos uruguaios liderados por Juan Manoel Rosas, a região do Prata foi pacificada. Contudo, não tardou para que logo os rivalidades se acirrassem entre a Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai graças aos desentendimentos quanto às fronteiras entre os países, a liberdade de navegação dos rios platinos, as disputas pelo poder por parte das facções locais (federalistas e unitaristas na Argentina, e blancos e colorados no Uruguai) e rivalidades históricas de mais de três séculos.

Em represália à intervenção no Uruguai, no dia 11 de Novembro de 1864, Francisco Solano López ordenou que fosse apreendido o navio brasileiro Marquês de Olinda. No dia seguinte, o navio a vapor paraguaio Tacuari apresou o navio brasileiro, que subia o rio Paraguai rumo à então Província de Mato Grosso, levando a bordo o coronel Frederico Carneiro de Campos, recém-nomeado presidente daquela província e o médico Antônio Antunes da Luz, entre outros. A tripulação e passageiros foi feita prisioneira e enviada à prisão, onde todos, sem exceção, sucumbiram à fome e aos maus tratos.

Sem perda de tempo, as relações com o Brasil foram rompidas e já no mês de dezembro o sul de Mato Grosso, atual Mato Grosso do Sul, foi invadido, antes mesmo de qualquer declaração formal de guerra ao Brasil, que só foi feita no dia 13 de Dezembro. Três meses mais tarde, em 18 de Março de 1865, López declarou guerra à Argentina, que exigia neutralidade no conflito e não permitira que os exércitos paraguaios atravessassem seu território para combater no Uruguai e invadir o sul do Brasil. Quando as notícias dos acontecimentos começavam a chegar a Dom Pedro II e seu ministério no Rio de Janeiro, capital do Império, em março de 1865 as tropas de Solano López penetraram em Corrientes (Argentina), visando o Rio Grande do Sul e o Uruguai, onde esperavam encontrar apoio dos blancos. O Uruguai, já então governado por Venâncio Flores, instalado pelo Governo Imperial brasileiro, solidarizou-se com o Brasil e a Argentina.

Durante a primeira fase da guerra (1864-1865) a iniciativa esteve com os paraguaios. Os exércitos de López definiram as três frentes de batalha iniciais invadindo Mato Grosso, em dezembro de 1864, e, nos primeiros meses de 1865, o Rio Grande do Sul e a província argentina de Corrientes. Atacando, quase ao mesmo tempo, no norte (Mato Grosso) e no sul (Rio Grande e Corrientes), os paraguaios estabeleceram dois teatros de operações.

A invasão de Mato Grosso foi feita ao mesmo tempo por dois corpos de tropas paraguaias. A província achava-se quase desguarnecida militarmente, e a superioridade numérica dos invasores permitiu-lhes realizar uma campanha rápida e bem-sucedida.

Um destacamento de cinco mil homens, transportados em dez navios e comandados pelo coronel Vicente Barros, subiu o rio Paraguai e atacou o Forte de Nova Coimbra. A guarnição de 155 homens resistiu durante três dias, sob o comando do tenente-coronel Hermenegildo de Albuquerque Porto Carrero, depois barão de Forte de Coimbra. Quando as munições se esgotaram, os defensores abandonaram a fortaleza e se retiraram, rio acima, a bordo da canhoneira Anhambaí, em direção a Corumbá. Depois de ocupar o forte já vazio, os paraguaios avançaram rumo ao norte, tomando, em janeiro de 1865, as cidades de Albuquerque e de Corumbá.

A segunda coluna paraguaia, comandada pelo coronel Francisco Isidoro Resquin e integrada por quatro mil homens, penetrou, por terra, em uma região mais ao sul de Mato Grosso, e logo enviou um destacamento para atacar a colônia militar fronteiriça de Dourados. O cerco, dirigido pelo major Martín Urbieta; encontrou brava resistência por parte do tenente Antônio João Ribeiro, atualmente patrono do Quadro Auxiliar de Oficiais, e de seus 16 companheiros, que morreram sem se render (29 de dezembro de 1864). Os invasores prosseguiram até Nioaque e Miranda, derrotando as tropas do coronel José Dias da Silva. Enviaram em seguida um destacamento até Coxim, tomada em abril de 1865.

As forças paraguaias, apesar das vitórias obtidas, não continuaram sua marcha até Cuiabá, a capital da província, onde o ataque inclusive era esperado — João Manuel Leverger havia fortificado o acampamento de Melgaço para proteger Cuiabá. O principal objetivo da invasão de Mato Grosso foi distrair a atenção do governo brasileiro para o norte do Paraguai, quando a decisão da guerra se daria no sul (região mais próxima do estuário do Prata). É o que se chama de uma manobra diversionista, destinada a iludir o inimigo.

A invasão de Corrientes e do Rio Grande do Sul foi a segunda etapa da ofensiva paraguaia. Para levar apoio aos blancos, no Uruguai, as forças paraguaias tinham que atravessar território argentino. Em março de 1865, López pediu ao governo argentino autorização para que o exército comandado pelo general Venceslau Robles, com cerca de 25 mil homens, atravessasse a província de Corrientes. O presidente Bartolomeu Mitre, aliado do Brasil na intervenção no Uruguai, negou-lhe a permissão. Em resposta a esta negativa, no dia 18 de março de 1865, o Paraguai declarou guerra à Argentina.

Na sexta-feira de 13 de abril de 1865, uma esquadra paraguaia de 5 (cinco) belonaves, descendo o rio Paraná, aprisionou navios argentinos no porto fluvial de Corrientes. Em seguida, as tropas do general Robles tomaram a cidade. Ao invadir Corrientes, López pensava obter o apoio do poderoso caudilho argentino General Justo José de Urquiza, governador das províncias de Corrientes e Entre Ríos, chefe federalista hostil a Mitre e ao governo de Buenos Aires. A invasão da Argentina por López, entretanto, teve efeito oposto. Urquíza e outros federalistas argentinos simpatizavam com os blancos uruguaios. O assassinato do General blanco Leandro Gómez pelos Colorados após a sua heróica defesa de Payssandú do ataque dos brasileiros e colorados em janeiro de 1865 causou ressentimentos nos federalistas argentinos. As ações de López deram aos federalistas argentinos apenas 2 (duas) opções: lutar contra o invasor ou continuar neutros. Urquíza, inicialmente, prometeu lutar contra López. A atitude ambígua assumida por Urquiza, entretanto, manteve estacionadas as tropas paraguaias, que avançaram posteriormente cerca de 200 km em direção ao sul, mas terminaram por perder a ofensiva.

Em ação conjugada com as forças de Robles, uma tropa de dez mil homens sob as ordens do tenente-coronel Antônio de la Cruz Estigarribia cruzou a fronteira argentina ao sul de Encarnación, em maio de 1865, dirigindo-se para o Rio Grande do Sul. Atravessou-o no rio Uruguai na altura da vila de São Borja e a tomou em 12 de junho. Uruguaiana, mais ao sul, foi tomada em 5 de agosto sem apresentar qualquer resistência significativa ao avanço paraguaio.

A primeira reação brasileira foi enviar uma expedição para combater os invasores em Mato Grosso. A coluna de 2.780 homens comandados pelo coronel Manuel Pedro Drago saiu de Uberaba, em Minas Gerais, em abril de 1865, e só chegou a Coxim em dezembro do mesmo ano, após uma difícil marcha de mais de dois mil quilômetros através de quatro províncias do Império. Mas encontrou Coxim já abandonada pelo inimigo. O mesmo aconteceu em Miranda, onde chegou em setembro de 1866. Em janeiro de 1867, o coronel Carlos de Morais Camisão assumiu o comando da coluna, reduzida a 1.680 homens, e decidiu invadir o território paraguaio, onde penetrou até Laguna, em abril. Perseguida pela cavalaria inimiga, a coluna foi obrigada a recuar, ação que ficou conhecida como a retirada da Laguna.

Apesar dos esforços da coluna do coronel Camisão e da resistência organizada pelo presidente da província, que conseguiu libertar Corumbá em junho de 1867, a região invadida permaneceu sob o controle dos paraguaios. Só em abril de 1868 é que os invasores se retiraram, transferindo as tropas para o principal teatro de operações, no sul do Paraguai.

No dia 1° de maio de 1865, o Brasil, a Argentina e o Uruguai assinaram, em Buenos Aires, o Tratado da Tríplice Aliança, contra o Paraguai.

As forças militares da Tríplice Aliança eram, no início da guerra, francamente inferiores às do Paraguai, que contava com mais de 60 mil homens e uma esquadra de 23 vapores e cinco navios apropriados à navegação fluvial. Sua artilharia possuía cerca de 400 canhões.

As tropas reunidas do Brasil, da Argentina e do Uruguai, prontas a entrar em ação, não chegavam a 1/3 das paraguaias. A Argentina dispunha de aproximadamente 8 mil soldados e de uma esquadra de quatro vapores e uma goleta. O Uruguai entrou na guerra com menos de três mil homens e nenhuma unidade naval. Dos 18 mil soldados com que o Brasil podia contar, apenas 8 mil já se encontravam nas guarnições do sul. A vantagem dos brasileiros estava em sua marinha de guerra: 42 navios com 239 bocas de fogo e cerca de quatro mil homens bem treinados na tripulação. E grande parte da esquadra já se encontrava na bacia do Prata, onde havia atuado, sob o comando do Marquês de Tamandaré, na intervenção contra Aguirre.

Na verdade, o Brasil achava-se despreparado para entrar em uma guerra. Apesar de sua imensidão territorial e densidade populacional, o Brasil tinha um exército mal-organizado e muito pequeno. E, na verdade, tal situação era reflexo da organização escravista da sociedade, que, marginalizando a população livre não proprietária, dificultava a formação de um exército com senso de responsabilidade, disciplina e patriotismo. Além disso, o serviço militar era visto como um castigo sempre a ser evitado e o recrutamento era arbitrário e violento. As tropas utilizadas até então nas intervenções feitas no Prata eram constituídas basicamente pelos contingentes armados de chefes políticos gaúchos e por alguns efetivos da Guarda Nacional. Um reforço era, portanto, necessário. A infantaria brasileira que lutou na Guerra do Paraguai não era formada de soldados profissionais, mas pelos chamados Voluntários da Pátria, cidadãos que se apresentavam para lutar. Muitos eram escravos enviados por fazendeiros e negros alforriados. A cavalaria era formada pela Guarda Nacional do Rio Grande do Sul.

Segundo o Tratado da Tríplice Aliança, o comando supremo das tropas aliadas caberia a Bartolomeu Mitre, presidente da Argentina. E foi assim na primeira fase da guerra.

Uma pequena força de 3.846 homens sob o comando do General Wenceslao Paunero observou a atividade do inimigo. Percebendo que os paraguaios haviam deixado Corrientes deficientemente protegida ao marcharem para a margem leste do rio, o General embarcou suas tropas argentinas, juntamente com 364 brasileiros e 500 mercenários europeus, na esquadra brasileira, subiu o Rio Paraná e, em 25 de maio (o feriado nacional argentino) recapturaram Corrientes após árdua luta.

López imediatamente mandou tropas para retomar a cidade, enquanto as tropas incursoras recuavam, tendo mantido Corriente por menos de 24 (vinte e quatro) horas. A vitória aliada, apesar de efêmera, serviu para levantar a moral. O ataque também demonstrou à López a vulnerabilidade das linhas de comunicação de seu exército invasor.

Foi no setor naval que o Brasil, mais bem preparado, infligiu, logo no primeiro ano de guerra, uma pesada derrota aos paraguaios na batalha do Riachuelo.

Na bacia do rio da Prata as comunicações eram feitas pelos rios; quase não havia estradas. Quem controlasse os rios ganharia a guerra. Todas as fortalezas paraguaias tinham sido construídas nas margens do baixo curso (parte do rio perto de sua foz) do rio Paraguai.

Em 11 de junho de 1865, no rio Paraná, travou-se a Batalha Naval do Riachuelo, na qual a esquadra comandada pelo chefe-de-divisão Francisco Manuel Barroso da Silva derrotou a esquadra paraguaia, comandada por Pedro Inacio Meza, cortando as comunicações com o tenente-coronel paraguaio Antonio de la Cruz Estigarribia, que estava atacando o Rio Grande do Sul. A vitória do Riachuelo teve notável influência nos rumos da guerra: impediu a invasão da província argentina de Entre Ríos, destruiu o poderio naval paraguaio (tornando-se impossível a permanência dos paraguaios em território argentino) e cortou a marcha, até então triunfante, de López. Ela praticamente decidiu a guerra em favor da Tríplice Aliança, que passou a controlar, a partir de então, os rios da bacia platina até a entrada do Paraguai. Desse momento até a derrota final, o Paraguai teve de recorrer à guerra defensiva.

Simultaneamento ao ataque naval, uma força de 10.000 paraguaios atavessou a província argentina das Missões. Alcançando o Rio Uruguai, a força se dividiu em 2 (duas) colunas e rumaram para o sul, marchando em ambas as margens do rio. O Tenente-coronel Antonio de la Cruz Estigarribia, o comandante geral, liderou cerca de 7.500 tropas na margem leste, e o Major Pedro Duarte comandou as 5.500 tropas na margem oeste. Os paraguaios encontraram pouca resistência dos argentinos na margem oeste ou dos brasileiros na margem leste. López acreditava que se conseguisse controlar o Rio Grande do Sul e invadir o Uruguai, os escravos brasileiros iriam sublevar-se e os recém expulsos blancos uruguaios voltariam a pegar em armas. Além disso, emissários paraguaios incitaram a sedição entre as tropas irregulares formadas por Urquíza em Entre Ríos. Urquíza, que havia recebido o comando da vanguarda aliada, voluntariou-se para retornar à província e restaurar a ordem. Em vez disso, ele retornou ao seu rancho, aumentou sua fortuna vendendo cavalos aos aliados, e as tropas irregulares desertaram para suas fazendas e ranchos.

O Coronel Estigarribia atravessou o Rio Uruguai e ocupou sucessivamente, de junho a agosto, as povoações de São Borja, Itaqui e Uruguaiana. Os contatos com o Major Duarte foram interrompidos pelo assédio de duas embarcações armadas brasileiras, comandadas pelo Tenente Floriano Peixoto, e pelo pântano que os separavam.

O presidente uruguaio Flores decidiu atacar a menor das forças paraguaias. Em 17 de agosto, na batalha de Jataí, na margem direita do rio Uruguai, a coluna sob as ordens do major Pedro Duarte, a qual pretendia chegar ao Uruguai, foi detida por Flores.

Em 16 de julho, o Exército Brasileiro chegou à fronteira do Rio Grande do Sul e logo depois cercou Uruguaiana. A tropa recebeu reforços e enviou pelo menos três intimações de rendição a Estigarribia. Em 11 de setembro Dom Pedro II chegou ao local do cerco, onde já estavam os presidentes argentino Bartolomé Mitre e uruguaio Venancio Flores, além de diversos líderes militares, como o Almirante Tamandaré. As forças aliadas do cerco contavam então com 17346 combatentes, sendo 12393 brasileiros, 3802 argentinos e 1220 uruguais, além de 54 canhões. A rendição veio em 16 de setembro quando Estigarribia entrou em acordo em relação as condições exigidas.

Encerrava-se com esse episódio a primeira fase da guerra, em que Solano López lançara sua grande ofensiva nas operações de invasão da Argentina e do Brasil. No início de outubro, as tropas paraguaias de ocupação em Corrientes receberam de López ordem para retornar a suas bases em Humaitá. Nessa altura, as tropas aliadas estavam-se reunindo sob o comando de Mitre no acampamento de Concórdia, na província argentina de Entre Ríos, com o marechal-de-campo Manuel Luís Osório à frente das tropas brasileiras. Parte destas deslocou-se para Uruguaiana, onde foi reforçar o cerco a esta cidade pelo exército brasileiro no Rio Grande do Sul, comandado pelo tenente-general Manuel Marques de Sousa, barão e depois Conde de Porto Alegre. Os paraguaios renderam-se no dia 18 de Setembro de 1865.

Nos meses seguintes, as tropas aliadas, com Mitre como comandante-em-chefe, libertavam os últimos redutos paraguaios em território argentino, as cidades de Corrientes e São Cosme, na confluência dos rios Paraná e Paraguai, no final de 1865. No fim do ano de 1865, a ofensiva era da Tríplice Aliança. Seus exércitos já contavam mais de 50 mil homens e se preparavam para invadir o Paraguai.

Fortalecidos, com um efetivo de cinqüenta mil homens, os aliados lançaram-se à ofensiva. A invasão do Paraguai iniciou-se subindo o curso do rio Paraguai, a partir do Passo da Pátria. Sob o comando do general Manuel Luís Osório, e com o auxílio da esquadra imperial, transpuseram o rio Paraná, em 16 de abril de 1866, e conquistaram posição em território inimigo, em Passo da Pátria, uma semana depois. De abril de 1866 a julho de 1868, as operações militares concentraram-se na confluência dos rios Paraguai e Paraná, onde estavam os principais pontos fortificados dos paraguaios. Durante mais de dois anos o avanço dos invasores foi bloqueado naquela região, apesar das primeiras vitórias da Tríplice Aliança.

A primeira posição a ser tomada foi a Fortaleza de Itapiru. Após a batalha do Passo da Pátria e a do Estero Bellaco (2 de Maio), as forças aliadas acamparam nos pântanos de Tuiuti, em 20 de maio, onde sofreram um ataque paraguaio quatro dias depois. A primeira batalha de Tuiuti, a maior batalha campal da história da América do Sul e uma das mais importantes e sangrentas do conflito, foi vencida pelos aliados em 24 de Maio de 1866 e deixou um saldo de 10.000 mortos.

Por motivos de saúde, em julho de 1866 Osório passou o comando do 1°Corpo de Exército brasileiro ao general Polidoro da Fonseca Quintanilha Jordão. Na mesma época, chegava ao teatro de operações o 2°Corpo de Exército, trazido do Rio Grande do Sul pelo barão de Porto Alegre (10.000 homens).

O caminho para Humaitá não fora desimpedido. O comandante Mitre aproveitou as reservas de dez mil homens trazidos pelo barão de Porto Alegre e decidiu atacar as baterias do Forte de Curuzú e do Forte de Curupaiti, que guarneciam a direita da posição de Humaitá, às margens do rio Paraguai. A bateria de Curuzu foi conquistada em 3 de setembro pelo barão de Porto Alegre. Não se obteve, porém, o mesmo êxito em Curupaiti, que resistiu ao ataque de 20 mil argentinos e brasileiros, guiados por Mitre e Porto Alegre, com apoio da esquadra do almirante Tamandaré. Em 22 de setembro, os aliados foram dizimados pelo inimigo: cinco mil homens morreram em poucas horas. Este ataque fracassado criou uma crise de comando e deteve o avanço dos aliados.

Nessa fase da guerra, destacaram-se muitos militares brasileiros. Entre eles, os heróis de Tuiuti: o general José Luís Mena Barreto, o brigadeiro Antônio de Sampaio, patrono da arma de infantaria do Exército brasileiro, o tenente-coronel Emílio Luís Mallet, patrono da artilharia e o próprio Osório, patrono da cavalaria, além do tenente-coronel João Carlos de Vilagrã Cabrita, patrono da arma de engenharia, morto em Itapiru.

No segundo período da guerra (1866-1869), os desentendimentos entre Osório (comandante das forças brasileiras) e o presidente argentino, que se opunha às perseguições aos paraguaios, levou o governo brasileiro a substituí-lo. Designado em 10 de outubro de 1866 para o comando das forças brasileiras, o marechal Luís Alves de Lima e Silva, marquês e, posteriormente, Duque de Caxias, chegou ao Paraguai em novembro, encontrando o exército praticamente paralisado. Os contingentes argentinos e uruguaios vinham sendo retirados aos poucos do exército dos aliados, assolado por epidemias. Desentendimentos entre Venâncio Flores (Uruguai) e Mitre (Argentina) e problemas internos fizeram ambos se retirarem do combate e voltarem a seus países, deixando o Brasil praticamente sozinho. Tamandaré foi substituído no comando da esquadra pelo almirante Joaquim José Inácio, futuro visconde de Inhaúma. Paralelamente, Osório organizava um 3.°Corpo de exército no Rio Grande do Sul (cinco mil homens). Na ausência de Mitre, Caxias assumiu o comando geral e providenciou a reestruturação do exército.

Entre novembro de 1866 e julho de 1867, Caxias organizou um corpo de saúde (para dar assistência aos inúmeros feridos e combater a epidemia de cólera-morbo) e um sistema de abastecimento das tropas. Conseguiu também que a esquadra imperial, que se ressentia do comando de Mitre, colaborasse nas manobras contra Humaitá. Nesse período, as operações militares limitaram-se a escaramuças com os paraguaios e a bombardeios da esquadra contra Curupaiti. López aproveitava a desorganização do inimigo para reforçar suas fortificações em Humaitá.

Apesar dos esforços de Caxias, os aliados só reiniciaram a ofensiva em 22 de julho de 1867. A marcha de flanco pela ala esquerda das fortificações paraguaias constituía a base tática de Caxias: ultrapassar o reduto fortificado paraguaio, cortar as ligações entre Assunção e Humaitá e submeter esta última a um cerco. Com este fim, Caxias iniciou a marcha em direção a Tuiu-Cuê. Em 1º de agosto Mitre retornou ao comando e insistia no ataque pela ala direita, que já se mostrara desastroso em Curupaiti. Embora a manobra de Caxias tenha sido bem-sucedida, o tempo decorrido possibilitou a López fortificar-se também nessa região e fechar de vez o chamado Quadrilátero.

Mitre deu ordens para que a esquadra imperial forçasse a passagem em Curupaiti e Humaitá. Em 15 de agosto, duas divisões de cinco encouraçados ultrapassaram, sem perdas, Curupaiti, mas foram obrigadas a deter-se frente aos poderosos canhões da fortaleza de Humaitá. O fato causou novas dissensões no alto comando aliado. Mitre desejava que a esquadra prosseguisse. Os brasileiros, entretanto, consideravam imprudente e inútil prosseguir, enquanto não se concatenassem ataques terrestres para envolver o Quadrilátero, que se iniciaram, finalmente, em 18 de agosto.

A partir de Tuiu-Cuê, os aliados rumaram para o norte e tomaram São Solano, Vila do Pilar e Tayi, às margens do rio Paraguai, onde completaram o cerco da fortaleza por terra e cortaram as comunicações fluviais entre Humaitá e Assunção. Em 3 de novembro de 1867, como reação, López atacou a retaguarda da posição aliada de Tuiuti. Nessa segunda batalha de Tuiuti, López esteve próximo da vitória, mas, graças ao reforço trazido pelo general Porto Alegre, os brasileiros venceram.

Em janeiro de 1868, com o afastamento definitivo de Mitre, que retornou à Argentina, Caxias voltou a assumir o comando geral dos aliados. Em 19 de fevereiro a esquadra imperial, capitão-de-mar-e-guerra Delfim Carlos de Carvalho, depois barão da Passagem, forçou a passagem de Humaitá. Apesar os navios encouraçados terem ultrapassado a fortaleza, chegando a bombardear Assunção, só em 25 de julho de 1868 Humaitá, totalmente cercada, caiu após um demorado cerco.

Solano López deixara Humaitá, com parte de suas tropas, em março, indo se instalar em San Fernando. Ali descobriu que alguns funcionários de seu governo e seu irmão Benigno tramavam derrubá-lo. Formado um conselho de guerra para julgar os implicados, centenas foram executados, no que ficou conhecido como o massacre de San Fernando.

Efetuada a ocupação de Humaitá, as forças aliadas comandadas por Caxias marcharam 200 km até Palmas, fronteiriça às novas fortificações inimigas (30 de setembro). Situadas ao longo do arroio Piquissiri, essas fortificações barravam o caminho para Assunção, apoiadas nas Fortificações de Lomas Valentinas. Ali, López havia concentrado 18 mil paraguaios em uma linha fortificada que explorava habilmente os acidentes do terreno e se apoiava nos fortes de Angostura e Itá-Ibaté. Renunciando ao combate frontal, o comandante brasileiro idealizou, então, a mais brilhante e ousada operação do conflito: a manobra do Piquissiri. Em 23 dias fez construir uma estrada de 11 km através do Chaco pantanoso que se estendia pela margem direita do rio Paraguai, enquanto forças brasileiras e argentinas encarregavam-se de diversões frente à linha do Piquissiri. Executou-se então a manobra: três corpos do Exército brasileiro, com 23.000 homens, foram transportados pela esquadra imperial de Humaitá para a margem direita do rio, percorreram a estrada do Chaco em direção ao nordeste, reembarcaram em frente ao porto de Villeta, e desceram em terra no porto de Santo Antônio e Ipané, novamente na margem esquerda, vinte quilômetros à retaguarda das linhas fortificadas paraguaias do Piquissiri. López foi inteiramente surpreendido por esse movimento, tamanha era sua confiança na impossibilidade de grandes contingentes atravessarem o Chaco.

Na noite de 5 de dezembro, as tropas brasileiras encontravam-se em terra e, em vez de avançar para a capital, já desocupada pela população e bombardeada pela esquadra, iniciaram no dia seguinte o movimento para o sul, conhecido como a "dezembrada". A dezembrada constituiu-se de uma série de vitórias obtidas por Caxias em dezembro de 1868. No mesmo dia, o general Bernardino Caballero tentou barrar-lhes a passagem na ponte sobre o arroio Itororó. Na tomada da ponte de Itororó, Caxias, aos 65 anos de idade, partiu a galope em direção ao inimigo, com espada em punho, exclamando: "sigam-me os que forem brasileiros!"; não foi morto por sorte. Vencida a batalha de Itororó, o Exército brasileiro prosseguiu na marcha e aniquilou na localidade de Avaí, em 11 de dezembro, as duas divisões de Caballero. Em 21 de dezembro, tendo recebido o necessário abastecimento por Villeta, os brasileiros atacaram o Piquissiri pela retaguarda e, após seis dias de combates contínuos, conquistaram a posição de Lomas Valentinas, com o que obrigou a guarnição de Angostura a render-se em 30 de dezembro. As batalhas da Dezembrada exibiram espantosas mortandades dos dois lados, bem como tentativas de recuo das tropas brasileiras, impedidas graças à presença de Caxias na linha de frente. López, acompanhado apenas de alguns contingentes, fugiu para o norte, na direção da cordilheira.

Após destruir o exército paraguaio em Lomas Valentinas, Caxias acreditava que a guerra tinha acabado. Não se preocupou em organizar e chefiar a perseguição de López, pois parecia que o ditador fugia para se asilar em outro país e não, como se viu depois, para improvisar um exército e continuar a resistir no interior.

No dia 24 de Dezembro os três novos comandantes da Tríplice Aliança (Caxias, o argentino Gelly y Obes e o uruguaio Enrique Castro) enviaram uma intimação a Solano López para que se rendesse. Mas López recusou-se a ceder e, acompanhado apenas de alguns contingentes, fugiu para o norte, na direção da cordilheira, chegando a Cerro León.

O comandante-em-chefe brasileiro se dirigiu para Asunción, evacuada pelos paraguaios e ocupada em 1° de Janeiro de 1869 por tropas imperiais comandadas pelo coronel Hermes Ernesto da Fonseca, pai do futuro Marechal Hermes da Fonseca. No dia 5, Caxias entrou na cidade com o restante do exército e 13 dias depois, por motivo de saúde, deixou o comando e regressou ao Brasil. A partida de Caxias e de seus principais chefes militares fez crescer entre as tropas o desânimo, com a multiplicação dos pedidos de dispensa dos oficiais e voluntários.

No terceiro período da guerra (1869-1870), o genro do imperador Dom Pedro II, Luís Filipe Gastão de Orléans, conde d'Eu, foi nomeado para dirigir a fase final das operações militares no Paraguai, pois buscava-se, além da derrota total do Paraguai, o fortalecimento do Império Brasileiro. O marido da princesa Isabel era um dos poucos membros da família imperial com experiência militar, já que na década de 1850 participara, como oficial subalterno, da campanha espanhola na Guerra do Marrocos. A indicação de um membro da família imperial pretendia diminuir as dificuldades operacionais das forças brasileiras, problema agravado pelos muitos anos de campanha, pela insatisfação dos veteranos e pelos conflitos, políticos e pessoais, que se alastravam entre os oficiais mais experientes. Em agosto de 1869, a Tríplice Aliança instalou em Assunção um governo provisório encabeçado pelo paraguaio Cirilo Antonio Rivarola.

Solano López, prosseguindo na resistência, refez um pequeno exército de 12.000 homens e 36 canhões na região montanhosa de Ascurra-Caacupê-Peribebuí, aldeia que transformou em sua capital. À frente de 21 mil homens, o conde d'Eu chefiou a campanha contra a resistência paraguaia, a chamada Campanha das Cordilheiras, que se prolongou por mais de um ano, desdobrando-se em vários focos.

O Exército brasileiro flanqueou as posições inimigas de Ascurra e venceu a batalha de Peribebuí (12 de agosto), onde López transferira a capital. Após a batalha de Peribuí, o Conde d'Eu parece ter-se exasperado com a obstinação paraguaia em continuar a luta, nada fazendo para evitar a degola de prisioneiros capturados durante e depois dos combates. Na batalha seguinte, Campo Grande ou Nhu-Guaçu (16 de agosto), as forças brasileiras se defrontaram com um exército formado, em sua maioria, por crianças e idosos, recrutados a força pelo ditador paraguaio. A derrota paraguaia encerrou o ciclo de batalhas da guerra. Os passos seguintes consistiram na mera caçada a López, que abandonou Ascurra e, seguido por menos de trezentos homens, embrenhou-se nas matas, marchando sempre para o norte.

Dois destacamentos foram enviados em perseguição ao presidente paraguaio, que se internara nas matas do norte do país acompanhado de 200 homens. No dia 1.° de março de 1870, as tropas do general José Antônio Correia da Câmara (1824-1893), o visconde de Pelotas, surpreenderam o último acampamento paraguaio em Cerro Corá, onde Solano López foi ferido a lança, pelo cabo Chico Diabo, e depois baleado nas barrancas do arroio Aquidabanigui após recusar-se à rendição. Suas últimas palavras foram: "Morro com minha pátria". Em 20 de junho de 1870, Brasil e Paraguai assinaram um acordo preliminar de paz. Assim chegou ao fim o mais sangrento conflito internacional das Américas, a guerra do Paraguai.

O Paraguai sofreu grande redução em sua população. A guerra acentuou um desequilíbrio entre a quantidade de homens. Algumas fontes citam que 90% da população paraguaia teria perecido ao final da Guerra. Estimativas contemporâneas, contudo, fixam o percentual de perdas de vidas entre 15% e 20% da população.

Dos cerca de 160 mil brasileiros que combateram na Guerra do Paraguai as melhores estimativas apontam cerca de 50 mil óbitos e outros mil inválidos. Outros ainda estimam que o número total de combatentes pode ter chegado a 400 mil, com 60 mil mortos em combate ou por doenças.

As forças uruguaias contaram com quase 5600 homens, dos quais pouco mais de 3100 morreram durante a guerra devido às batalhas ou por doenças.

Já a Argentina perdeu cerca de 18 mil combatentes dentre os quase 30 mil envolvidos. Outros 12 mil civis morreram devido principalmente a doenças.

Fato é que a Guerra do Paraguai não se diferenciou dos demais conflitos ocorridos durante o século XIX. As altas taxas de mortalidade não foram decorrentes somente por conta dos encontros armados. Doenças decorrentes da má alimentação e péssimas condições de higiene parecem ter sido a causa da maior parte das mortes. Entre os brasileiros, pelo menos metade das mortes tiveram como causa doenças típicas de situações de guerra do século XIX. A principal causa mortis durante a guerra parece ter sido o cólera.

Não houve um tratado de paz em conjunto. Embora a guerra tenha terminado em março de 1870, os acordos de paz não foram concluídos de imediato. As negociações foram obstadas pela recusa argentina em reconhecer a independência paraguaia.

O Brasil não aceitava as pretensões da Argentina sobre uma grande parte do Grande Chaco, região paraguaia rica em quebracho (produto usado na industrialização do couro). A questão de limites entre o Paraguai e a Argentina foi resolvida através de longa negociação entre as partes. A única região sobre a qual não se atingiu um consenso — a área entre o rio Verde e o braço principal do rio Pilcomayo — foi arbitrada pelo presidente estado-unidense Rutherford Birchard Hayes que a declarou paraguaia. O Brasil assinou um tratado de paz em separado com o Paraguai, em 9 de janeiro de 1872, obtendo a liberdade de navegação no rio Paraguai. Foram confirmadas as fronteiras reivindicadas pelo Brasil antes da guerra. Estipulou-se também uma dívida de guerra que foi intencionalmente subdimensionada por parte do governo imperial do Brasil mas que só foi efetivamente perdoada em 1943 por Getúlio Vargas, em resposta a uma iniciativa idêntica da Argentina.

O reconhecimento da independência do Paraguai pela Argentina só foi feito na Conferência de Buenos Aires, em 1876, quando a paz foi estabelecida definitivamente.

Em dezembro de 1975, quando os presidentes Ernesto Geisel e Alfredo Stroessner assinaram em Assunção um Tratado de Amizade e Cooperação, o governo brasileiro devolveu ao Paraguai troféus da guerra.

As aldeias paraguaias destruídas pela guerra foram abandonadas e os camponeses sobreviventes migraram para os arredores de Assunção, dedicando-se à agricultura de subsistência na região central do país. As terras das outras regiões foram vendidas a estrangeiros, principalmente argentinos, e transformadas em latifúndios. A indústria entrou em decadência. O mercado paraguaio abriu-se para os produtos ingleses e o país viu-se forçado a contrair seu primeiro empréstimo no exterior: um milhão de libras da Inglaterra, que se pode considerar a potência mais beneficiada por esta guerra, pois além de ver extinta a competição paraguaia na América do Sul como exemplo de desenvolvimento, viu Brasil e a Argentina aumentarem suas dívidas externas.

Depois da guerra, boa parte das melhores terras do Paraguai foi anexada pelos vencedores. O Brasil ficou com a região entre os rios Apa e Branco, aumentando para o sul o estado do Mato Grosso. A Argentina anexou o território das Missões e a área conhecida como Chaco Central (território argentino de Formosa). Durante todo o tempo da campanha, as províncias de Entre Rios e Corrientes abasteceram as tropas brasileiras com gado, gêneros alimentícios e outros produtos.

O Brasil, que sustentou praticamente sozinho a guerra, pagou um preço alto pela vitória. A guerra foi financiada pelo Banco de Londres e pelas casas Barings Bank e Rothschild. Durante os cinco anos de lutas, as despesas do Império chegaram ao dobro de sua receita, provocando uma crise financeira. A escravidão passou a ser questionada, pois os escravos que lutaram pelo Brasil permaneceram escravos.

O Exército Brasileiro passou a ser uma força nova e expressiva dentro da vida nacional. Transformara-se numa instituição forte que, com a guerra, ganhara tradições e coesão interna e representaria um papel significativo no desenvolvimento posterior da história do país. Além disso, houve a formação de um inquietante espírito corporativista no exército.



A guerra de Tróia (AO 1990: guerra de Troia) pode ter sido um grande conflito bélico entre gregos e troianos, possivelmente ocorrido entre 1300 a.C. e 1200 a.C. (fim da Idade do Bronze no Mediterrâneo).

A maioria de gregos clássicos admitia que a Guerra de Tróia era um evento histórico, embora muitos entendessem que os poemas homéricos continham vários exageros. Por exemplo, o historiador Tucídides, conhecido por seu espírito crítico, considerava-a um evento real, mas duvidava que os gregos houvessem mobilizado a quantidade de navios (mais de mil) mencionada por Homero, para atacar os troianos.

Por volta de 1870, na Europa, os estudiosos da Antiguidade eram concordes em considerar as narrativas homéricas absolutamente lendárias. Segundo eles, a guerra jamais ocorrera e Tróia nunca existira. Mas quando o alemão Heinrich Schliemann (um apaixonado pelas obras de Homero) descobriu as ruínas de Tróia e de Micenas, foi preciso reformular esses conceitos.

Ao longo do século XX, tentou-se tirar conclusões baseadas em textos hititas e egípcios, que datam da provável época da guerra. Arquivos hititas, como as Cartas de Tawagalawa, mencionam o reino de Ahhiyawa (Acaia ou Grécia), que se localizava "além do mar" (Egeu) e controlava a cidade de Milliwanda, identificada como Mileto. Igualmente é mencionado, nesses e em outros documentos, a Confederação de Assuwa, uma liga composta por 22 cidades, uma das quais, Wilusa (Ilios ou Ilium), pode ter sido Tróia. Em um tratado datado de 1280 a.C., o rei de Wilusa é chamado de Alaksandu, ou seja, Alexandre, que é o outro nome pelo qual Páris é referido na Ilíada.

Após a famosa Batalha de Kadesh (contra o Egito de Ramsés II), essa confederação rompeu sua aliança com os hititas, o que provocou, em 1230 a.C., uma campanha punitiva do rei Tudhalia IV (1240 a.C. - 1210 a.C.). Mas sob o reinado de Arnuwanda III (1210 a.C. - 1205 a.C.) os Hititas foram forçados a abandonar as terras que controlaram na costa do Egeu, abrindo espaço para possíveis invasores de além-mar. Nesse caso, a Guerra de Tróia teria sido o ataque de Ahhiyawa (Acaia) contra a cidade de Wilusa (Ílios) e seus aliados da Confederação de Assuwa.

Os trabalhos dos historiadores Moses Finley e Milman Parry procuraram associar a Guerra de Tróia com um amplo fluxo migratório de micenianos, decorrente da invasão dos Dórios no Peloponeso. Poderia também haver uma correlação com o ataque ao Egito pelos “povos do mar”, nos tempos do faraó Ramsés III.

Mas os céticos quanto à veracidade da guerra glorificada por Homero apóiam-se na ausência de qualquer registro hitita de uma invasão da Anatólia (onde se localizava Tróia) por povos vindos do mar.

Em resumo, embora Schliemann tenha encontrado as ruínas da cidade de Tróia (aliás, várias cidades, uma sobre a outra) no sítio mencionado por Homero, a questão da historicidade da guerra continua dividindo a opinião dos estudiosos.



A batalha das Termópilas, travada no contexto da II Guerra Médica, decorreu no Verão de 480 a.C., no desfiladeiro das Termópilas, na Grécia Central. Ali, de acordo com a tradição veiculada pelo historiador Heródoto de Halicarnasso, 300 espartanos sob o comando de seu rei Leónidas, acompanhados por não mais de 7 000 aliados de outras πόλεις (cidades-Estado) helénicas, enfrentaram centenas de milhares (historiadores não entram em acordo exato quanto ao número, que podia variar de uma ou duas centenas de milhares) de persas liderados por Xerxes, filho de Dario.(Diz-se que Leônidas, sabendo-se perdido, teria ordenado a retirada dos não-espartanos, e, com 300 compatriotas, teria combatido o colosso persa).

A grande disparidade numérica entre os contendores levou a que a batalha terminasse com uma aparentemente retumbante vitória persa, muito embora os Gregos, antes de serem totalmente aniquilados, tenham conseguido inflingir um elevado número de baixas e retardar consideralvemente o avanço dos Persas pela Grécia. A intervenção dos Gregos, para além de os levar a morrer como homens livres, e não como escravos persas, foi de tal modo decisiva para o futuro do conflito, que bem podem ser também considerados vencedores. De facto, não vence uma batalha apenas aquele que destrói o exército inimigo, mas sim aquele que cumpre seu objectivo – e os Espartanos, ao deterem durante dias (3 dias ao certo), não tanto quanto esperavam (10 dias era o desejado), os Persas nas Termópilas, permitiram a salvação de Atenas e, por conseguinte, da nascente Civilização Ocidental.

À entrada do século V a.C., a Pérsia Aqueménida tinha-se convertido no maior império que o mundo jamais vira, tanto em dimensão territorial, como étnica. Depois de subjugar os vizinhos Medos, os Persas partiram à conquista da Babilónia, da Assíria, da Arménia, do Elão, da Bactriana, da Síria-Palestina, do Egipto e da Ásia Menor, onde pela primeira vez se viriam a confrontar com as πόλεις gregas da Jónia. Devido a todas estas conquistas, o seu soberano podia-se arrogar, com propriedade, o título de Rei de Reis – em persa, Šāh-an-Šāh (literalmente, o Xá dos Xás), título que Heródoto verte para grego como βασιλεύς (basileus, «rei»).

O embate entre a Hélade (dividida em várias pequenas cidades-Estado independentes, separadas entre si por particularismos geográficos e culturais) e o poderoso império Persa (então governado por Dario) tornou-se inevitável. Em 499 a.C., rebenta a revolta de Mileto (na Jónia) contra os Persas, logo violentamente debelada; pouco depois, o imperador persa, sentindo-se numa posição de força, envia os seus embaixadores às cidades da Grécia continental, a fim de estas se submeterem pacificamente ao seu domínio. Porém, o envio destas missões diplomáticas não surtiu o efeito desejado – apenas a Macedónia e a Tessália se declararam vassalas da Pérsia (enviando-lhe, segundo Heródoto, amostras do seu solo e da sua água, em sinal de submissão), enquanto que, nas demais πόλεις, os legados imperiais foram executados.

Estala assim o conflito entre Persas e Helenos: a I Guerra Médica (também chamada I Guerra Pérsica ou Guerra Medo-Persa). Dario avança rumo à Grécia europeia, desembarca em Maratona, onde é derrotado por uma força combinada de hoplitas atenienses e plateenses (Esparta, a potência militar da Grécia, recusou-se a estar presente, invocando motivos religiosos). Dario, derrotado, regressa à Ásia.

O conflito reacender-se-ia com o seu filho, Xerxes, que subira ao trono em 485 a.C.. A derrota pesava sobre o espírito do novo monarca, e respirava-se na Corte um clima de vingança (fomentado, por exemplo, por Mardónio, o supremo comandante dos exércitos). Desta feita, porém, Xerxes procurou preparar, até ao mais ínfimo detalhe, a expedição destinada a tomar a Grécia: começou por ordenar a construção de uma ponte de barcas ligando as duas margens do Estreito dos Dardanelos (484 a.C.), permitindo um mais fácil deslocamento das suas tropas e poupando dessa forma recursos preciosos e tempo (mais tarde, os Helenos – como por exemplo Ésquilo, na sua tragédia Persas – atribuirão a Posídon, o Deus dos Mares, um papel relevante na sua vitória, pois o rei persa, ao tentar deter uma força da Natureza – manifestação do sagrado animada por aquela divindade –, despertou a ira do Olimpíco, o qual decidiu então a sorte da guerra a favor do povo grego); ao mesmo tempo, determinou que uma poderosa esquadra atravessasse o Egeu e rumasse às costas gregas, assim que se iniciasse a invasão, por forma a apoiar as operações em terra.

As cidades-Estado gregas, conhecedoras dos preparativos da nova expedição persa, decidiram, como reacção, pôr de lado as suas divergências tradicionais, e reuniram-se na conferência pan-helénica no Istmo de Corinto (481 a.C.). Das cidades do continente, apenas Argos (a maior inimiga de Esparta à época), se recusou a estar presente, o que lhe valeu a acusação de medismo, isto é, de ser simpatizante dos Medos (o nome genérico que os Gregos atribuíam então aos Persas e aos povos por eles subjugados); de igual forma, as colónias gregas (como a Cirenaica, no Norte de África, Massália, no Sul da Gália, ou Siracusa, na Sicília) também não compareceram, talvez por não se sentirem directamente ameaçadas pelos Persas, dada a sua situação geográfica.

As 31 πόλεις presentes na conferência formaram uma Liga destinada a defrontar o inimigo comum, tendo proclamado a reconciliação geral e declarado guerra à Pérsia. O comando dessa liga foi atribuído ao rei Leónidas, que governava o Estado militarista por excelência na Antiguidade grega – Esparta; com efeito, os cidadãos Espartanos eram soldados profissionais, sendo condicionados, desde o berço, para a vida militar, o que fez da cidade a potência dominante da Hélade até então.

Em finais desse ano de 481 a.C. tem finalmente início a projectada invasão da Grécia, tendo os Persas dominado a Macedónia rica em matérias-primas (como a madeira), a Calcídica com os seus excelentes portos de mar, e a fértil Tessália, na qual fixaram as suas bases, encaminhando-se de seguida, a passos largos, para o centro da Grécia, onde se virá a travar o recontro das Termópilas.

Acabava de se iniciar a II Guerra Médica, um novo conflito entre o Ocidente e o Oriente, entre Cidadãos (os habitantes das πόλεις gregas) e Bárbaros (o nome com que, depreciativamente, os Helenos se referiam aos Medo-Persas), entre Europeus e Asiáticos (pela primeira vez na História da Humanidade, há uma real consciência da distinção entre duas culturas, dois mundos distintos, separados por dois continentes) onde se viria a jogar o destino da Civilização Ocidental, tal como hoje a conhecemos. Porém, deve-se ter em conta que a própria construção narrativa de Heródoto retoma certos tópoi (lugares-comuns) literários que remontam, pelo menos, ao primeiro grande relato bélico que chegou até aos nossos dias – a Ilíada de Homero, ela também uma obra onde o Oeste (os Aqueus) e o Leste (os Troianos) chocam entre si.

Geografia

As Termópilas (do grego: Θερμοπύλαι, thermopylai, significando «portas quentes») são um desfiladeiro situado bem no centro da Hélade, encravado entre as cadeias montanhosas do Eta e do Calídromo e um braço de mar (o golfo de Mália), situando-se na fronteira entre as regiões da Fócida (a Sudoeste), da Ftiótida (a Noroeste), da Lócrida (a Nordeste) e da Beócia (a Sudeste). Devem o seu nome ao facto de no seu interior existirem fontes sulfurosas, sendo que o estreito – uma simples faixa de areia entre o mar e o desfiladeiro – era, em três dos seus troços (as famosas «portas», às quais o estreito foi buscar o seu nome), esse estreito tinha por volta de apenas 10 metros de largura.

Tratava-se de uma região relativamente estéril, apta somente para o pastoreio; por esse motivo e também pela sua intrincada orografia, bem conhecida dos Gregos, foi o local estrategicamente escolhido pelas forças da Liga para deter o ímpeto persa (por se situar relativamente longe das bases de apoio que estes tinham na Tessália, tal dificultaria – e eventualmente frustraria – a sua investida).

De facto, os Helenos compreenderam que apenas teriam possibilidade de deter o avanço persa numa região montanhosa (se tivessem decidido dar batalha aos Persas na vasta planície da Tessália, teriam sido derrotados muito mais facilmente, pois ver-se-iam de imediato rodeados pela vasta massa humana do inimigo e liquidados ante a desproporção dos números); de resto, foi questão muito discutida, entre os defensores da Grécia, saber qual a melhor localização para deter o avanço persa – se as Termópilas, se o Istmo de Corinto; porém, acabou por vingar a primeira posição, muito pela pressão que Atenas colocou: se as forças gregas se concentrassem em Corinto, Atenas ficaria desprotegida e sujeita ao embate directo com o inimigo.

Os números

A batalha das Termópilas tornou-se conhecida graças à narrativa de Heródoto de Halicarnasso, na qual o historiador faz opor quatro milhões e meio de homens (os números dos historiadores antigos são quase sempre entusiásticos, quando costumam exagerar quanto aos números de contendores envolvidos em batalha - geralmente, na intenção de enaltecer a um dos lados), arregimentados à força pelos Persas, contra Leónidas e os seus trezentos Espartanos, combatendo tão-só pela liberdade da sua Nação. Mas não havia apenas Espartanos nas Termópilas.

Heródoto enumera, do lado grego, trezentos Espartanos, quinhentos hoplitas de Tegeia e outros quinhentos de Mantineia, cento e vinte de Orcómeno, mil da Arcádia, quatrocentos de Corinto, duzentos de Pilos e oitenta de Micenas (prefazendo estes o contingente do Peloponeso, num total de 3 100 homens); setecentos de Téspias, setecentos de Tebas, mil homens da Fócia, e ainda um número desconhecido (mas elevado) de Lócridos Opuntianos. Portanto, no mínimo, cinco mil e quinhentos homens. É provável que a este número devamos acrescentar ainda os soldados auxiliares (muitas vezes não mencionados), o que levaria, segundo alguns estudiosos, a fazer aumentar este contingente para cerca de 7 500 homens (ou, no máximo, 10 mil). (Fonte: História Antiga de Armando Souto Maior).

Estivessem presentes apenas 300 Espartanos nas Termópilas; se é certo que a cidade invocara a realização do festival religioso de Carneia para se poder eximir a enviar um maior contingente de tropas (o que poderia denotar alguma má-vontade para com os parceiros da Liga, designadamente Atenas), não é menos verdade que Esparta deveria saber que contaria com um portentoso exército pela frente e, ainda assim, destacou o escol dos seus homens a fim de se sacrificar nas Termópilas: 300 homens, todos eles (segundo o relato do historiador) «com filhos» – por forma a que se pudesse perpetuar a tradição militarista da cidade –, comandados em pessoa por um dos reis de Esparta, Leónidas I.

Mesmo o pequeno número de soldados presentes por cada uma das outras cidades gregas está também relacionado com outro fato muito importante – 480 a.C. foi ano de Olimpíadas, durante as quais se proclamava a trégua sagrada e cessavam as hostilidades entre todos os inimigos na Grécia. Embora se tratasse de um inimigo externo (não-heleno), e se tratasse de uma situação de excepção, a trégua entre os Gregos não foi levantada.

Quanto ao campo do adversário, Heródoto fala em 2,1 milhões de Medo-Persas, acompanhados por 2,6 milhões de soldados auxiliares. Estes números são claramente excessivos (isto porque os Persas não dispunham de uma logística suficientemente avançada, nem tão-pouco o estéril solo grego teria capacidade para alimentar um número de indivíduos largamente excedentário face à população autóctone), quer porque Heródoto desconhecesse o número real, quer por pretender, muito provavelmente, impressionar o leitor, e realçar, por oposição, a pequenez da coligação helénica – a qual, não obstante ter perdido a batalha, acabou por, no fim, lograr vencer a guerra contra os Persas.

O embate

Nos começos de Agosto de 480 a.C., as forças da Liga posicionaram-se no interior do estreito, com Leónidas no supremo comando, tendo este no entanto que fazer face à tentativa de deserção dos Tebanos (acusados de simpatizarem com os Medos, ter-se-ão eventualmente deslocado às Termópilas apenas para que não recaísse sobre a sua cidade a inimizade e o opróbrio dos restantes membros da Liga, e tendo já provavelmente a secreta intenção de se furtarem a meio do combate, como viria, de facto, a suceder), e aos pedidos dos seus aliados do Peloponeso, que desejavam que as forças se concentrassem no Istmo de Corinto. A tudo isto o rei espartano respondeu com mão de ferro. Colocou ainda os Fócios a guardarem a rectaguarda do estreito, por forma a evitar qualquer ataque surpresa.

Ao mesmo tempo, os Persas aproximavam-se do desfiladeiro, tendo Xerxes montado o seu acampamento no topo de uma colina sobranceira, em Mália, onde instalou também o seu trono áureo, de onde observou, durante dias, o confronto armado entre os seus homens e os irredutíveis Helenos.

Durante quatro dias, Xerxes esperou que fossem os Gregos a tomar a iniciativa, mas como tal não se verificasse decidiu ele mesmo atacar, na madrugada do quinto dia; os seus homens, armados somente com um pequeno escudo e uma lança de menores dimensões que a dos hoplitas gregos (cujo armamento – elmo, couraça, escudo, grevas, lança e uma pequena espada – lhes dava, nesta fase do confronto, uma superioridade decisiva), ao tentarem penetrar no desfiladeiro, viram-se completamente rechaçados, pois as falanges gregas facilmente destruíam as suas lanças e, desarmando-os dessa forma, fácil foi chaciná-los em seguida.

Xerxes, que observava o espectáculo, teria dito, segundo Heródoto, ter «muitos homens, mas poucos soldados» (VII, 210). De fato, embora Xerxes dispusesse da superioridade numérica, as condições físicas do estreito impediam-no de tirar partido dessa vantagem (designadamente, pela impossibilidade de fazer aí atacar a sua célebre cavalaria).

Mesmo quando Xerxes ordenou que os archeiros medos disparassem, os longos escudos dos Gregos protegeram-nos das flechas; é nesse contexto que Plutarco (nos seus Apótegmas dos Espartanos) atribui a Leónidas uma célebre afirmação, em resposta a um soldado que dissera que as flechas dos Medos tapavam o Sol: «Melhor, pois se os Medos taparem o Sol, combateremos à sombra» (Heródoto, porém, reporta esta afirmação a um tal Dieneces, tido como um dos mais bravos soldados de Esparta presentes neste prélio).

Plutarco afirma ainda que Xerxes procurou evitar o combate por todos os meios, tendo enviado cartas ao rei espartano, dizendo-lhe que lhe atribuiria o governo da satrapia da Grécia se este depusesse as armas e se passasse para o lado persa, ao que Leónidas teria respondido, muito laconicamente – como era característico dos Lacedemónios – «Vinde buscá-las!».

Como estas estratégias não davam resultados, Xerxes ordenou enfim que avançassem os 10 000 Imortais, comandados por Hidarnes. Tratava-se do corpo de élite da infantaria persa, o qual, de acordo com a tradição, devia o nome ao facto de, assim que morria um dos seus combatentes, este era imediatamente substituído, prefazendo dessa forma um total constante de dez mil, por isso mesmo tidos como «imortais». Embora melhor treinados e melhor equipados que o resto do exército, esta estratégia não surtiu o efeito desejado, não tendo sido capazes de amover os Gregos da sua posição no interior do estreito. Inclusivamente, o rei, sentado em seu trono no alto da colina, viu morrer um irmão seu no confronto.

Ao sexto dia, o rei persa, julgando que o cansaço tivesse domado os seus oponentes, resolveu voltar a atacar; ludibriou-se, porém, e não colheu melhores frutos que no dia anterior.

Foi então que apareceu, no acampamento persa, Efialtes (filho de Euridemo) de Mális, nome que tem ecoado pelos séculos fora como sinônimo de traidor. Dirigira-se ao Rei de Reis na vã esperança de obter uma compensação pecuniária a troco de revelar um caminho secreto que conduzia à rectaguarda das Termópilas (onde se achavam os Fócios), através da montanha. Xerxes rejubilou com as novas, convocando Hidarnes e ordenando que os Imortais percorressem o dito caminho durante a noite, para poderem atacar os Gregos logo pela madrugada.

De facto, os Fócios, que guardavam a rectaguarda do estreito, só se aperceberam da progressão do inimigo quando já era tarde demais, tendo abandonado a sua posição diante do ataque dos archeiros Medos.

Entretanto, no interior do desfiladeiro, no acampamento dos Gregos, ultimavam-se os preparativos para aquele que viria a ser o derradeiro dia da batalha. Segundo Heródoto, um adivinho que se encontrava entre os soldados, Megístias, após analisar as entranhas dos animais sacrificados aos deuses, concluiu que a morte chegaria com a aurora (o que seria corroborado com o aparecimento de alguns desertores fócios no acampamento).

Leónidas reuniu o conselho de guerra, tendo as opiniões dos Helenos dividido-se: uns eram a favor da retirada pura e simples, para evitar uma inevitável chacina; outros defendiam que aí deviam permanecer até ao último homem. Leónidas resolveu o problema, declarando que todos os Aliados eram livres de partir, já que não sentia neles a coragem para combater; apenas ele e os seus trezentos homens não podiam desertar, pois a isso os obrigava a Constituição de Licurgo (que declarava constituir a deserção a suprema desonra para um Espartano); se pelo contrário ali permanecessem e morressem a pelejar, o seu nome seria cumulado de glória e jamais cairia no esquecimento.

Ao mesmo tempo, esta decisão do rei deve ter sido reforçada pela chegada de um oráculo da Pitonisa de Delfos; pouco antes do começo da batalha, Leónidas mandara inquirir de Apolo quem sairia vencedor da pugna, e agora a sacerdotisa do deus respondia-lhe que um dos reis de Esparta se deveria sacrificar para que a respectiva πόλις pudesse continuar de pé; se tal não sucedesse, a cidade seria reduzida a cinzas pelos Persas.

É evidente que, embora embelezem a narrativa, não há como provar a veracidade destas profecias, pelo que esta tradição poderia muito bem ter sido forjada já após a batalha; não obstante, há que ter em conta a franca popularidade de que o oráculo de Delfos desfrutou, ao longo dos séculos, no Mundo Antigo, para se poder supor que a tradição se baseia numa consulta real que Leónidas fez ao Templo de Apolo no «umbigo do Mundo».

Aliás, o mais provável é que Leónidas não tenha tido tempo sequer para pensar na glória futura; compreendendo a eminência do massacre, deverá ter ponderado ser preferível dispensar a maior parte do contigente estacionado nas Termópilas, incumbindo-o agora da organização da defesa da Grécia mais a Sul, no Istmo de Corinto, enquanto os poucos que restavam nas Termópilas protegiam a sua retirada.

Chegara finalmente a aurora do sétimo dia; os Persas haviam já contornado o desfiladeiro, ora desguarnecido pelos Fócios, e iniciam o seu ataque por ambos os lados do estreito; os Gregos, cônscios de que não havia outra saída que não fosse a morte, pareciam não a temer e, segundo as Histórias, lutavam com ainda mais afinco que nos dias anteriores, causando grandes perdas entre os invasores.

Perante este último ataque dos Bárbaros, quebradas que estavam a maior parte das lanças gregas pelos machados dos Persas, os Helenos, cercados, enfrentaram por fim o inimigo com as espadas, numa luta corpo-a-corpo, falecendo assim de modo honroso. Dessa forma caiu Leónidas, no meio dos seus soldados, os quais, de acordo com Heródoto, ao verem o seu rei perecer, logo procuraram recuperar o seu cádaver, qual troféu de guerra que importava preservar ao máximo dos ultrajes que o inimigo lhe poderia provocar.

Com efeito, quando a batalha acabou, Xerxes dirigiu-se pessoalmente ao campo onde se travara peleja, procurando pelo corpo de Leónidas – o responsável pelo seu atraso na conquista da Grécia e pelo tão elevado número de perdas entre os seus homens –, ordenando de seguida que fosse decapitado e a sua cabeça empalada (facto que ditou, de acordo com a tradição, que a alma penada de Leónidas, vagueando no Tártaro, atormentasse Xerxes nos seus sonhos para sempre, não só por não haver celebrado as suas exéquias – parte integrante do riquíssimo ritual bélico da Antiguidade – como ainda por haver profanado o seu corpo).

Mas a salvação do corpo do seu rei não foi o único problema com que os Espartanos se debateram; a sua maior dificuldade eram as deserções que continuavam a verificar-se (Heródoto cita os nomes de dois Lacedemónios que teriam sobrevivido à batalha, afirmando mesmo que um deles cometeu suicídio por não aguentar a pressão da desonra, demonstrando assim que até entre os míticos Espartanos houve deserções, e que nem todos os Trezentos teriam morrido na batalha); a maior parte delas, porém, vinha do campo dos Tebanos, os quais, a meio da batalha, se viraram para o inimigo. Se essa traição teria sido já acordada previamente, se foi fruto puro e simples das circunstâncias em que a peleja se proporcionava, ou se se trata simplesmente uma invenção de Heródoto, não se sabe. Certo é que, segundo o seu relato, Xerxes, descontente, ordenou que metade dos combatentes tebanos fosse massacrada, e a outra metade escravizada – destinando-se o castigo a punir a demora no honrar do acordo de aliança celebrado.

O desfecho da batalha parece ser, à primeira vista, uma retumbante vitória dos Persas. Mas bem observados os factos, esta vitória teve tanto de esmagadora como de pírrica.

Faleceram nas Termópilas cerca de dois mil Gregos (muito mais que os míticos trezentos Espartanos); porém, antes de caírem mortos, os Gregos infligiram um elevado número de baixas no exércio persa (dezenas de milhares de homens), isto para além de reterem a sua marcha durante vários dias; os homens e o tempo perdido nas Termópilas foram cruciais para o subsequente fracasso de Xerxes, pois nesse lapso temporal possibilitou-se a evacuação da população de Atenas (cidade que será saqueada e incendiada pelos homens de Xerxes – como represália por haver sido a grande responsável pelo desfecho da I Guerra Médica) para a vizinha ilha de Salamina, bem como a concentração das forças gregas remanescentes ao longo do Istmo de Corinto.

A batalha naval do cabo Artemísion, travada ao norte da Eubeia, escassos dias após as Termópilas, redundou num empate técnico, e só nos começos de Setembro se começou enfim a esboçar a derrota do Rei de Reis: o estratego ateniense Temístocles forçou a armada persa a entrar no estreito de Salamina; aí, as pesadas embarcações persas viram-se incapazes de manobrar diante das ágeis trirremes atenienses, tendo acabado aquelas por sofrer uma copiosa derrota, o que levou Xerxes a regressar à Ásia. No ano seguinte, o golpe final é dado em Plateias, nunca mais voltando a Pérsia a tentar invadir a Grécia Continental. As hostilidades prosseguiriam, no entanto, até à assinatura da Paz de Cálias, em 449 a.C., já durante o reinado de Artaxerxes I. O perigo medo-pérsico, nunca completamente esquecido, só seria dominado cento e cinquenta anos mais tarde, quando Alexandre III da Macedónia, o Grande, invadiu o Próximo Oriente e conquistou o vasto império de Dario III.

Os motivos

A historiografia moderna acha-se ainda contaminada pela visão que o Romantismo oitocentista legou a esta batalha: os Gregos, tradicionalmente desunidos, resolveram unir-se e lutar contra um inimigo comum, pois sentiam-se membros de uma mesma etnia – afinal, partilhavam o mesmo idioma, prestavam culto aos mesmos deuses, e celebravam comummente, por exemplo, de quatro em quatro anos, os Jogos Olímpicos, o exemplo mais demonstrativo do pan-helenismo. Agora, uniam-se para lutar contra um inimigo comum, que teria vindo para os subjugar, fazer dos livres Helenos meros súbditos do Rei de Reis; mais do que isso, uniam-se para preservar, não só a sua liberdade, como também a mais original das suas criações: a democracia, que vigorava em várias das suas πόλεις. Para isso, um grupo de soldados de élite – movidos pela virtude do heroísmo, tão apreciada pelos românticos – teria preferido pagar com a vida a defesa desses ideais, tornando-se num símbolo de coragem, espírito de sacríficio, e de resistência ao invasor.

Não é crível que os Gregos tivessem a consciência de constituírem uma Nação, no sentido que modernamente se dá ao termo (sentido esse forjado a partir do século XIX, precisamente pelos românticos). De igual modo, também parece improvável que os Helenos tenham tido a real noção de que a luta que estavam a travar era, mais que a simples defesa do seu território, um confronto de civilizações, entre valores e ideias radicalmente distintas.

Mais, a liberdade e o sistema de governo dos Gregos não estariam assim tão ameaçados pelo Império Persa (o qual, se comparado com os que o antecederam – como o assírio ou o babilónio –, era relativamente pacífico e tolerante); de facto, os Persas não foram os tiranos a que a historiografia grega alude – o desconhecimento, de parte a parte, dos costumes e tradições de cada um dos lados, levou à formação de mitos sobre ambos os povos sem qualquer fundo de verdade. Dessa forma foi fácil ao Romantismo aproveitar esses dados para fazer persistir a imagem do Persa como opressor quase até aos dias de hoje, quando na verdade, os Persas protegiam os costumes locais (foi durante o domínio persa que, por exemplo, os Judeus deportados na Babilónia regressaram a Jerusalém para reconstruir o Templo), e tinham o cuidado de não impor, nem a sua língua (usavam o aramaico, lingua franca do Próximo Oriente antigo, como idioma da administração, e não o persa), nem a sua religião (o zoroastrismo) aos seus súbditos. Provavelmente o sistema democrático iria colidir com as noções de súbdito e de império, mas é bem provável que, à parte isso, os Gregos tivessem podido integrar-se, sem qualquer problema, naquele que tentou ser o primeiro grande império universal da História.

Quanto ao sacrifício dos Espartanos, tal deve ser entendido no quadro da sua própria mentalidade – como foi dito, estavam vocacionados desde a mais tenra infância para a vida militar, de tal forma que, muito provavelmente, a perspectiva de serem chacinados em combate não os terá perturbado minimamente (ainda que, não obstante, Heródoto documente dois casos de deserções entre os Espartanos).

Importância militar

As Termópilas constituem o exemplo, em termos de estratégia militar, de como um pequeno grupo de soldados bem treinados pode ter, em circunstâncias de desigualdade numérica, um grande impacto sobre um número de inimigos muito maior (tal como sucedeu também, por exemplo, no Álamo); contudo, esta estratégia só é eficaz num terreno desfavorável ao inimigo (campo fechado), pois, como foi dito, se a batalha tivesse sido travada numa planície, facilmente os Gregos sairiam derrotados.



A Batalha do Tenaru, também conhecida por Batalha do Rio Ilu, foi uma batalha terrestre travada em 21 de agosto de 1942 na ilha de Guadalcanal entre o Império do Japão e as forças aliadas (maioritariamente fuzileiros norte-americanos, marines no original), no âmbito da Guerra do Pacífico na Segunda Guerra Mundial.

As forças aliadas, comandadas pelo major-general Alexander Vandegrift do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos da América, repeliram com sucesso um assalto noturno às suas posições junto a Henderson Field, um aeródromo que havia sido capturado pelas forças aliadas durante os desembarques na ilha em 7 de agosto, levado a cabo por forças comandadas pelo coronel Kiyonao Ichiki do Exército Imperial Japonês, que haviam sido enviadas para Guadalcanal com a missão de recapturar Henderson Field e expulsar as forças aliadas da ilha.

A Batalha do Tenaru foi a primeira de três grandes ofensivas terrestres japonesas durante a Campanha de Guadalcanal. Após a batalha os japoneses perceberam que a força aliada na ilha era muito maior do que o que tinham estimado, e enviaram forças mais numerosas nas suas posteriores tentativas de reconquistar Henderson Field.

Em 7 de agosto de 1942, tropas aliadas (predominantemente norte-americanas) comandadas pelo major-general Alexander Vandegrift desembarcaram nas ilhas de Tulagi, Florida e Guadalcanal, no arquipélago das Salomão, com o objectivo de impedir que os japoneses as usassem como bases militares para ameaçar as rotas de abastecimento entre os Estados Unidos e a Austrália. Os aliados pretendiam ainda usar estas ilhas como bases de apoio a uma campanha visando isolar a grande base militar japonesa em Rabaul e apoiar a Campanha da Nova Guiné. Estes desembarques iniciaram a Campanha de Guadalcanal, que se prolongaria por seis meses.

Os japoneses, que haviam ocupado as ilhas em Maio, foram surpreendidos pelo desembarque das tropas aliadas, que ocuparam Tulagi e outras pequenas ilhas próximas, assim como um aeródromo em construção em Lunga Point, Guadalcanal, até ao anoitecer do dia 8 de agosto. Enquanto decorriam os desembarques, a força tarefa aliada, composta por porta-aviões e navios de guerra de superfície, foi alvo de diversos ataques aéreos japoneses a partir da base militar de Rabaul, que causaram a perda de dois navios e dezanove aeronaves. Na sequência desses ataques, o almirante Frank Fletcher, comandante-chefe da força tarefa de porta-aviões, resolveu retirar os seus navios da área receando novos ataques.

Durante a noite, enquanto os navios de desembarque descarregavam material e equipamento para as tropas na ilha, os navios de guerra aliados que os guardavam, comandados pelo contra-almirante britânico Victor Crutchley, foram atacados de surpresa e derrotados por uma força japonesa composta por sete cruzadores e um contratorpedeiro, comandada pelo vice-almirante japonês Gunichi Mikawa. Três cruzadores norte-americanos e um australiano foram afundados, e outro cruzador norte-americano e dois contratorpedeiros foram seriamente danificados, naquela que ficou conhecida como a Batalha da Ilha de Savo. Desconhecendo que Fletcher havia retirado os seus porta-aviões e temendo um ataque aéreo à sua frota ao amanhecer, Mikawa bateu em retirada após a vitória naval sem atacar os agora desprotegidos barcos de desembarque e as tropas em terra. O almirante Richmond Turner retirou a restante força naval aliada durante a tarde de 9 de agosto sem terminar o desembarque de todo o equipamento, provisões e homens, deixando as tropas de Vandegrift entregues a si mesmas. Embora a maioria das peças de artilharia tenha sido descarregada, apenas foram desembarcadas provisões para cinco dias.

Vandegrift dispôs os 11.000 homens de que dispunha num perímetro defensivo à volta do aeródromo capturado, na zona de Lunga Point. Os trabalhos de conclusão do aeródromo começaram de imediato utilizando equipamento capturado aos japoneses, e em 12 de agosto o aeródromo foi batizado de Henderson Field em homenagem ao major Lofton Henderson, o primeiro aviador da marinha norte-americana morto na Batalha de Midway. Após quatro dias de intenso esforço, todos os suprimentos foram movidos das praias para vários depósitos dentro do perímetro defensivo, e graças aos mantimentos capturados aos japoneses os fuzileiros passaram a dispor de comida suficiente para catorze dias. Para conservar as suas limitadas reservas de comida, os soldados estavam limitados a duas refeições por dia.

Em resposta ao desembarque aliado, o Quartel-General Imperial japonês incumbiu o 17º Exército do Exército Imperial Japonês, com base em Rabaul e comandado pelo tenente-general Harukichi Hyakutake, com a missão de reconquistar a ilha de Guadalcanal. Inicialmente apenas algumas das unidades deste exército estavam disponíveis para a missão, pois o grosso das suas forças encontrava-se envolvido na campanha japonesa na Nova Guiné. Dessas unidades, a 35ª Brigada de Infantaria comandada pelo major-general Kiyotake Kawaguchi estava em Palau, o 4º Regimento de Infantaria "Aoba" estava nas Filipinas e o 28º Regimento de Infantaria "Ichiki" comandado pelo coronel Kiyonao Ichiki encontrava-se no mar a caminho do Japão a partir de Guam. Todas estas unidades começaram a mover-se em direcção a Guadalcanal de imediato, mas o regimento de Ichiki, mais próximo, foi o primeiro a chegar.

Um reconhecimento aéreo levado a cabo pelos japoneses em 12 de agosto avistou poucas tropas em terra e nenhum navio de guerra nas proximidades, convencendo o Quartel-General Imperial que os aliados tinham retirado a maioria das suas tropas da ilha. Na verdade, nenhumas tropas aliadas haviam sido retiradas. Hyakutake ordenou que uma força avançada composta por 900 homens do regimento de Ichiki fosse rapidamente desembarcada em Guadalcanal para atacar de imediato as posições aliadas e reocupar o aeródromo na zona de Lunga Point, enquanto os restantes elementos do regimento seguiriam em navios de transporte mais lentos e seriam desembarcados mais tarde. Na base naval japonesa de Truk, que foi o ponto de partida para a operação de desembarque em Guadalcanal, Ichiki foi informado de que 2.000-10.000 tropas norte-americanas defendiam a cabeça de ponte em Guadalcanal e de que deveria evitar ataques frontais.

Ichiki e 916 soldados do seu regimento (de um total de 2.300), designados como o "Primeiro Elemento", foram transportados por seis contratorpedeiros para Taivu Point, cerca de 35 quilómetros a oriente de Lunga Point, às 01:00 do dia 19 de agosto. Deixando cerca de 100 soldados em Taivu Point guardando a retaguarda, Ichiki marchou para ocidente com o resto da sua unidade e acampou antes da madrugada a cerca de catorze quilómetros do perímetro Lunga. As tropas aliadas em Lunga Point receberam inteligência indicando que tinha ocorrido um desembarque japonês e tomaram medidas para descobrir exatamente o que estava a passar.

Relatórios de patrulhas levadas a cabo por nativos das ilhas, incluindo o sargento-major Jacob C. Vouza da Guarda Indígena, sob a direcção de Martin Clemens, um vigia da costa e oficial da Força de Defesa do Protetorado Britânico das Ilhas Salomão (BSIPDF), juntamente com inteligência proveniente de outras fontes, indicavam a presença de tropas japonesas a oriente de Lunga Point. Para recolher mais informação, uma patrulha composta por 60 fuzileiros e quatro batedores nativos comandada pelo capitão Charles H. Brush marchou para oriente a partir do perímetro Lunga. Ao mesmo tempo, Ichiki enviou uma patrulha de 38 homens comandada pelo capitão Yoshimi Shibuya para fazer o reconhecimento da disposição das tropas aliadas e estabelecer um posto de comunicações avançado. Pelas 12:00 do dia 19, a patrulha aliada avistou e emboscou a patrulha japonesa em Koli Point, abatendo todos excepto cinco dos seus elementos, que escaparam para Taivu Point. Três fuzileiros foram mortos e outros tantos feridos durante o confronto. Documentos encontrados nos corpos dos oficiais da patrulha japonesa revelaram que estes pertenciam a uma unidade muito maior e continham inteligência detalhada sobre as posições aliadas em Lunga Point. No entanto, os documentos não indicavam qual o tamanho exato da força japonesa nem se o ataque estava iminente.

Embora vários relatos oficiais norte-americanos apontem o rio Tenaru como a localização das defesas orientais do perímetro Lunga, o seu limite era na realidade o rio Ilu, localizado a ocidente do rio Tenaru. O rio Ilu não era um rio mas sim um esteiro separado do oceano por uma barra com cerca de 30 metros de comprimento e 7-15 metros de largura, conhecido pelos habitantes locais como Esteiro do Jacaré. Antecipando um ataque vindo dessa direcção, Vandegrift preparou as defesas aliadas do lado oriental do perímetro Lunga. O coronel Clifton B. Cates, comandante do 1º Regimento de Fuzileiros, colocou os seus 1º e 2º batalhões na margem ocidental do esteiro, reforçados por cem homens do 1º Batalhão de Armas Especiais com duas armas antitanque de 37mm armadas com metralha. A artilharia aliada, composta por 32 obuses de 75mm e 105mm, foi apontada para a margem oriental e para a barra do esteiro, e os observadores de artilharia foram destacados para as posições avançadas dos fuzileiros. As tropas aliadas trabalharam durante todo o dia 20 de agosto para preparar o melhor possível as suas defesas antes do anoitecer.

Após ser informado da aniquilação da sua patrulha, Ichiki enviou rapidamente uma companhia para enterrar os corpos e seguiu com o resto das suas tropas, marchando durante toda a noite do dia 19, parando finalmente a escassos quilómetros das posições aliadas às 04:30 do dia 20. Nesse local, Ichiki preparou as suas tropas para atacar as posições aliadas na noite seguinte.

Pouco depois da meia-noite do dia 21, as tropas de Ichiki chegaram à margem oriental do Esteiro do Jacaré e ficaram surpreendidas por encontrar as posições dos fuzileiros, pois não esperavam encontrar forças aliadas tão longe do aeródromo. Os soldados norte-americanos nos postos avançados mais próximos ouviram vozes humanas e outros ruídos antes de recuarem para a margem ocidental. Às 01:30 as tropas de Ichiki abriam fogo sobre as posições aliadas na margem ocidental do esteiro com metralhadoras e morteiros, e uma primeira vaga de cerca de cem soldados japoneses carregou em direcção aos fuzileiros. O fogo dos canhões de 37 mm e das metralhadoras dos fuzileiros matou a maioria dos soldados japoneses enquanto atravessavam a barra do esteiro, mas alguns alcançaram as posições aliadas e envolveram-se em combate corpo a corpo com os defensores, capturando algumas das posições avançadas. O fogo de metralhadora e espingarda japonês proveniente da margem oriental do esteiro provocou ainda várias baixas entre os operadores das metralhadoras. Uma companhia de fuzileiros, guardada de reserva junto à linha da frente, atacou e abateu a maioria dos soldados inimigos que tinham penetrado as defesas, pondo fim ao primeiro assalto japonês cerca de uma hora após o seu início. Às 02:30 uma segunda vaga de cerca de 150-200 soldados japoneses carregou em direcção aos fuzileiros e foi novamente quase totalmente aniquilada pelo fogo dos canhões e das metralhadoras. Pelo menos um dos oficiais japoneses que sobreviveram ao ataque aconselhou Ichiki a retirar as suas tropas, mas este recusou fazê-lo.

Enquanto as tropas de Ichiki se reagrupavam, as posições aliadas do lado ocidental do esteiro foram bombardeadas com fogo de morteiro. Os fuzileiros responderam com barragens de fogo de artilharia e de morteiro sobre o lado oriental do esteiro. Pelas 05:00 uma nova vaga de soldados japoneses atacou, desta vez tentando flanquear as posições aliadas, avançando pelas águas pouco profundas junto à costa e carregando pela praia em direcção à margem ocidental do esteiro. Os fuzileiros responderam com fogo de artilharia e de metralhadora, causando pesadas baixas entre as tropas atacantes e obrigando-as a abandonar o ataque e a retirar novamente para a margem oriental do esteiro. Nas duas horas seguintes os dois lados trocaram fogo de fuzil, metralhadora e artilharia ao longo do esteiro.

Apesar das pesadas baixas sofridas, as tropas de Ichiki mantiveram as suas posições na margem oriental, incapazes ou sem vontade de retirar. Nessa madrugada os comandantes das tropas aliadas conferenciaram sobre a melhor forma de agir e decidiram contra-atacar as tropas japonesas. O 1º Batalhão do 1º Regimento de Fuzileiros, sob o comando do tenente-coronel Lenard B. Cresswell, atravessou o esteiro a montante da zona da batalha e envolveu as tropas de Ichiki pelo sul e pelo leste, cortando todas as vias de fuga e empurrando as tropas japonesas para uma pequena mata de coqueiros no lado oriental do esteiro. Aviões provenientes de Henderson Field atacaram os saldados japoneses que tentaram escapar pela praia e, durante a tarde, cinco tanques ligeiros aliados avançaram pela barra do esteiro e atacaram a mata de coqueiros. Os tanques varreram a zona com fogo de metralhadora e de canhão, para além de passarem por cima dos corpos dos soldados japoneses, vivos ou mortos, que se encontravam no seu caminho. Quando o ataque dos tanques terminou, Vandegrift escreveu que "a traseira dos tanques parecia um picador de carne."

Pelas 17:00 a resistência japonesa tinha terminado. Ichiki foi morto em combate ou cometeu suicídio ritual pouco depois, dependendo do relato. Quando fuzileiros curiosos começaram a caminhar pelo campo de batalha, alguns soldados japoneses feridos dispararam sobre eles, matando e ferindo vários homens. Depois desses episódios, as tropas aliadas passaram a apunhalar com as suas baionetas ou a disparar sobre os corpos de todos os japoneses que encontravam, apesar de quinze soldados japoneses inconscientes terem sido capturados vivos. Cerca de trinta soldados japoneses escaparam à batalha e juntaram-se às tropas que tinham sido deixadas a guardar a retaguarda em Taivu Point.

Para os aliados a vitória na Batalha do Tenaru foi psicologicamente importante pois demonstrou, após uma série de derrotas no Pacífico e na Ásia Oriental, que era possível derrotar as tropas japonesas numa batalha terrestre. A batalha também abriu outro precedente que viria a repetir-se durante o resto da guerra, que era a relutância dos soldados japoneses em se renderem e a sua determinação em continuar a matar soldados aliados, mesmo quando se encontravam moribundos no campo de batalha. Sobre este assunto, Vandegrift comentou: "Nunca tinha ouvido falar nem lido sobre este tipo de combate. Esta gente recusa render-se. Os feridos esperam até que alguém se aproxime para os examinar... e rebentam-se em pedaços juntamente com o outro tipo com uma granada de mão."

A 25 de agosto a maioria dos sobreviventes da batalha chegou a Taivu Point e comunicou ao quartel-general do 17º Exército em Rabaul que as tropas de Ichiki tinham sido aniquiladas a curta distância do aeródromo. Reagindo com descrença às notícias, os oficiais japoneses prepararam planos para enviar mais tropas para Guadalcanal e tentar novamente recapturar Henderson Field. A segunda grande ofensiva japonesa em Guadalcanal ocorreu cerca de três semanas depois na Batalha de Edson's Ridge, usando uma força muito maior do que a que tinha sido usada na Batalha do Tenaru.



O massacre da noite de São Bartolomeu foi um episódio sangrento na repressão dos protestantes na França pelos reis franceses, católicos. As matanças, organizadas pela casa real francesa, começaram em 24 de Agosto de 1572 e duraram vários meses, inicialmente em Paris e depois em outras cidades francesas, vitimando entre 30.000 e 100.000 protestantes franceses (chamados huguenotes).

Este massacre veio dois anos depois do tratado de paz de Saint-Germain, pelo qual Catarina de Médici tinha oferecido tréguas aos protestantes.

Em 1572, quatro incidentes inter-relacionados têm lugar após o casamento real de Marguerite de Valois, (a irmã do rei da França) com Henrique de Navarra, uma aliança que supostamente deveria acalmar as hostilidades entre protestantes e católicos e fortalecer as aspirações de Henrique ao trono. Em 22 de Agosto, um agente de Catarina de Médici (a mãe do rei da França de então, Carlos IX de França, o qual tinha apenas 22 anos e não detinha verdadeiramente o controle), um católico chamado Maurevert, tentou assassinar o almirante Gaspard de Coligny, líder huguenote de Paris, o que enfureceu os protestantes, apesar de ele ter ficado apenas ferido.

Nas primeiras horas da madrugada de 24 de Agosto, o dia de São Bartolomeu, dezenas de líderes huguenotes foram assassinados em Paris, numa série coordenada de ataques planejados pela família real.

Este fora o sinal inicial para um massacre mais vasto. Começando em 24 de Agosto e durando até Outubro, houve uma onda organizada de assassínios de huguenotes em cidades como Toulouse, Bordéus, Lyon, Bourges, Rouen, e Orléans.

Relatos da altura dão conta de cadáveres nos rios durante meses, de modo que ninguém comia peixe.

Não foi o primeiro nem o último ataque massivo aos protestantes franceses. Outros pogromas se seguiriam.



A Batalha do Nilo, conhecida na França como Batalha de Aboukir, foi uma importante batalha naval das Guerras Revolucionárias Francesas entre a armada da Inglaterra, comandada pelo Vice-Almirante Horatio Nelson, e a frota francesa sob o comando do Vice-Almirante François-Paul Brueys D'Aigalliers que teve lugar na noite e manhã de 1 e 2 de Agosto de 1798. As baixas francesas foram muito altas, tendo sido 1700 homens mortos e 3000 capturados, enquanto as baixas inglesas foram bastante baixas, com apenas 217 mortos. A frota francesa tinha chegado a cidade egípcia de Alexandria no dia 1 de Julho, ou seja, dois dias depois da frota inglesa de Nelson ter partido em perseguição aos franceses. As tropas francesas desembarcaram, e a cidade foi tomada.

Como era difícil aos navios entrar no porto de Alexandria, Napoleão Bonaparte ordenou ao vice-almirante Brueys, capitão do Orient, que ancorasse os 13 navios e as 4 fragatas na baía de Aboukir, a cerca de 32 km a este-nordeste de Alexandria, enquanto Napoleão e as suas tropas marchavam pelo deserto egípcio para conquistarem o Cairo. Enquanto isso, a frota britanica andava pelo Mar Mediterrâneo Oriental até que foram informados na Grécia que os franceses tinham sido vistos quatro semanas antes na ilha de Creta navegando para sudeste com destino a Alexandria.

Ao entardecer do dia 1 de Agosto, Nelson finalmente avistou a frota de Brueys que se encontrava ancorada em linha nas águas pouco profundas da baía de Aboukir com um longo e perigoso banco de areia à sua retaguarda. Bruyes pensou que Nelson não iria correr o risco de atacar até ao dia seguinte, dado o perigo que representava tentar navegar na baía já sem luz. Este tipo de situação, no entanto, apela à capacidade dos marinheiros experimentados e a tácticas inusitadas, e era precisamente o que distinguia Nelson e o mais entusiasmava. Os navios de Nelson seguiram imediatamente para ambos os flancos da frota francesa ancorada, mas pararam a meio da linha dos navios, o que assegurava que metade dos navios franceses não poderia tomar parte na acção porque estavam situados a sotavento.

A frota francesa tinha maior poder de fogo: um navio de 118 canhões (L'Orient), três de 80 (o Tonnant, o Guillaume Tell e o Franklin), nove de 74 canhões (o Aquillon, o Spartiate, o Généreux, o Mercure, o Peuple Souverain, o Guerrier, o Heureux, o Conquérant e o Timoléon) e 4 fragatas (a Justice, a Diane, a Artémise e a Sérieuse). A frota britânica dispunha de um barco de 50 canhões (HMS Leander) e 13 barcos de 74 canhões: HMS Vanguard, HMS Zealous, HMS Audacious, HMS Orion, HMS Theseus, HMS Minotaur, HMS Goliath, HMS Defence, HMS Bellerophon, HMS Majestic, HMS Swifture, HMS Alexander e HMS Culloden.

Contudo, este ataque surpresa de Nelson deu aos ingleses a vantagem táctica de não perderem nenhum navio, enquanto a frota francesa sofreu enormes perdas: só dois sobreviveram os outros foram capturados ou afundados, incluido o Orient, que pegou fogo e explodiu durante a batalha. O vice-almirante Brueys foi atingido e faleceu no tombadilho do Orient. Nelson teve com esta vitória uma grande variedade de honras e presentes de potências estrangeiras que lhe foram reconhecidas. Tornou-se Barão Nelson do Nilo e passou a receber pensões anuais tanto do parlamento inglês como irlandês. Também foram-lhe dadas 10000 libras esterlinas pela Companhia Inglesa das Índias Orientais.



A Batalha de Áccio (ou Ácio – em latim, Actium) teve lugar em 2 de Setembro de 31 a.C., perto de Actium na Grécia, durante a guerra civil romana entre Marco António e Octaviano (depois conhecido como imperador César Augusto). A frota de Octaviano era comandada por Marcus Vipsanius Agrippa e a de António apoiada pelos barcos de guerra da rainha Cleópatra do Egipto. O resultado foi uma vitória decisiva de Octaviano, que findou a oposição ao seu poderio crescente. Esta data é por isso usada para marcar o fim da República e início do Império Romano.

O Segundo Triunvirato rompeu-se devido à séria ameaça que Octaviano sentia de Cesarion, o filho de Cleópatra e César. A base do poder de Octaviano era a sua ligação a César por adopção, que lhe garantia a sua muito necessitada popularidade e lealdade das legiões. Ao ver esta situação conveniente posta em causa após Marco António ter declarado que Cesarion era o legítimo herdeiro de Júlio César, começou uma guerra de propaganda entre os aliados a destruir o segundo triunvirato no último dia de 33 a.C..

Finalmente o Senado retirou Marco António do seu poder e declarou guerra contra Cleópatra. Um terço do Senado e ambos os cônsules juntaram-se ao lado de Marco António, e em 31 a.C. a guerra começou quando o talentoso general Marco Vipsânio Agripa capturou a cidade grega e o porto naval de Methon que era leal a Marco António. Marco António era um excelente soldado, no entanto a sua falta de experiência em confrontos navais foi o seu calcanhar de Aquiles.

As duas frotas eram constituídas por cerca de 400 navios cada uma. Este número é apenas uma estimativa, visto que as fontes históricas são contraditórias neste aspecto. A táctica usada por Marco António foi valer-se da maior tonelagem dos seus navios, carregá-los com artilharia e bombardear o inimigo. No entanto, os barcos comandados por Marco Vipsânio Agripa eram mais leves e manobráveis e conseguiram evitar estas investidas e eliminar o perigo. Durante a luta, Cleópatra decidiu fugir e António depressa a seguiu. A fuga do comandante não foi descoberta e a luta prosseguiu até Agripa conseguir incendiar e afundar a frota de António.

Cerca de um ano depois destes eventos, Octaviano invadiu o Egipto e António e Cleópatra suicidaram-se. Uma referência à batalha é feita na Eneida de Virgílio.



A Guerra Civil da Nigéria, também conhecida como Guerra Civil Nigeriana, Guerra Nigéria-Biafra ou ainda Guerra de Biafra que durou de 6 de Julho de 1967 a 13 de Janeiro de 1970, foi um conflito político causado pela tentativa de separação das províncias ao Sudeste da Nigéria, como a República autoproclamada de Biafra.

Com as tropas nigérianas a isolarem a província rebelde, limitando a quantidade de produtos de fora que aí podiam chegar, a curto prazo a escassez de alimentos tornou-se crónica, e em breve a fome em grande escala assola a população. Pela primeira vez, através da televisão, as imagens de populações inteiras literalmente a morrer de fome pelos caminhos chegam em directo e com todo o impacto ao Ocidente. O choque que causam levam a que um pouco por todo lado apareçam movimentos, muitos enquadrados pela Igreja, tanto católica como protestante, para o envio de alimentos. Foi a primeira vez que a exibição das imagens de uma catástrofe humana pela televisão geraram resposta popular, obrigando várias instituições e governos a intervir pela pressão da opinião pública.



A chamada Guerra Civil Espanhola foi um conflito bélico deflagrado após um fracassado golpe de estado de um setor do exército contra o governo legal e democrático da Segunda República Espanhola. A guerra civil teve início após um pronunciamento dos militares rebeldes, entre 17 e 18 de julho de 1936, e terminou em 1° de abril de 1939, com a vitória dos rebeldes e a instauração de um regime ditatorial de caráter fascista, liderado pelo general Francisco Franco.

A derrubada temporária dos Bourbons absolutistas por Napoleão Bonaparte, em março de 1808, a Guerra de Independência contra a ocupação francesa, a abertura das Cortes de Cádiz, em 1810, e a proclamação da Constituição liberal de 1812 assinalam o desaparecimento do Antigo Regime espanhol, que, durante o reinado de Carlos III, chegou a ser considerado como um exemplo de Despotismo Esclarecido. Durante todo o século XIX e o início do século XX, no entanto, a Espanha não conseguiu completar, política e socialmente, a sua revolução burguesa de forma a produzir uma institucionalidade liberal-democrática estável.

O século XIX espanhol foi um período especialmente conflitivo, com lutas entre liberais e absolutistas, entre membros rivais da Casa de Bourbon (isabelinos e carlistas), e mais tarde entre monarquistas e republicanos, sobre o pano de fundo da perda das colônias americanas e filipinas.

A economia espanhola teve um crescimento rápido desde o final do século XIX até ao início do século XX. Em especial, as indústrias mineiras e metalúrgicas lucraram e expandiram-se enormemente durante a Primeira Guerra Mundial, fornecendo insumos a ambos os lados.

Entretanto, os resultados desse crescimento não se refletiram em mudanças nas condições sociais. A agricultura, sobretudo na Andaluzia, continuou em mãos de latifundiários, que deixavam grandes extensões de terra sem cultivar. Somava-se a isto a forte presença da Igreja Católica, que se opunha às reformas sociais e se alinhava aos interesses da elite agrária. Finalmente, a monarquia espanhola apoiava-se no poder militar para manter o seu regime. O fim da monarquia e o advento da república, em 1931, em nada mudou esta configuração política básica, com a agravante de que Igreja e Exército se mantiveram monárquicos e as tentativas de golpe tornaram-se constantes.

Com o crescimento da economia, cresceu também o movimento operário. Após a fundação da primeira sociedade operária em Barcelona (1840), o movimento cresceu e se espalhou pelo país. Desde o início, e principalmente na Catalunha, a principal região industrial de Espanha, o anarquismo tornou-se a tendência política mais difundida entre os operários. A principal confederação sindical, a CNT (Confederación Nacional del Trabajo), sob influência anarcossindicalista, recusava-se a participar na política partidária.

O choque entre classes é freqüente e violento. Desde o fim do século XIX até o início do século XX, grupos de extermínio, como o Sindicato Libre, procuram suprimir os sindicatos através do assassinato dos seus principais militantes. Do outro lado, grupos de militantes sindicalistas, como o famoso Nosotros, também assassina religiosos e industriais suspeitos de apoiar o Sindicato Libre. Insurreições armadas, tanto de direita como de esquerda, ocorrem com regularidade.

Com a renúncia do ditador Primo de Rivera após uma onda de escândalos de corrupção, o rei Alfonso XIII procurou restaurar o regime parlamentar e constitucional. Foram convocadas eleições municipais em Abril de 1931 e, embora os monarquistas tivessem sido vitoriosos, os republicanos conquistaram a maioria nas grandes cidades. Prevendo uma guerra civil, o rei Alfonso XIII prefere abdicar e é proclamada a Segunda República.

Novas eleições são convocadas para compor uma assembléia constituinte em Junho, que institui a separação entre Igreja e Estado. Por este motivo, Alcalá Zamora, chefe do governo provisório, abdica.

Novas eleições acontecem em Dezembro de 1931, nas quais a esquerda sai vitoriosa. Alcalá Zamora é eleito presidente da República e encarrega Manuel Azaña de organizar um governo. O governo da República não consegue avançar na resolução da questão das autonomias regionais, nem no encaminhamento da questões agrária e trabalhista. Na questão religiosa, a governo Azaña cedeu moderadamente ao espírito anticlerical que predominava no parlamento, através da dissolução da Companhia de Jesus na Espanha, ficando preservadas as demais ordens religiosas, que no entanto foram proibidas de dedicar-se ao ensino. Comprimido entre a direita e a Igreja - que viam a laicização do Estado e da educação de maneira muito negativa - e a esquerda e os anarquistas - os quais consideravam as mesmas reformas insignificantes - o governo Azaña é incapaz de agradar a população.

Como economia predominantemente agrário exportadora, a Espanha havia sido pouco atingida pela Crise de 1929: o desemprego era pequeno e o salário médio por dia trabalhado havia aumentado significativamente nos primeiros anos da Segunda República. Este aquecimento da economia aguçava as tensões sociais já existentes, e com elas a aguda divisão político-ideológica da sociedade, que já vinha do século anterior.

Em maio de 1931, os anarquistas incendiaram a Igreja dos Jesuítas na Calle de la Flor, no centro de Madrid. Em agosto de 1932, o general monarquista Sanjurjo tenta dar um golpe, mas fracassa. Condenado à morte, é depois indultado, continuando a conspirar na prisão.

Em 1933, a recusa dos anarquistas em dar apoio aos partidos de esquerda e sua propaganda pela "greve do voto" permitem a vitória eleitoral da direita, representada pela Confederação das Direitas Autônomas (CEDA) de José Maria Gil Robles. Segue-se uma insurreição da esquerda, que foi mal sucedida em toda a Espanha, menos nas Astúrias, onde os operários dominaram Gijón por 13 dias. Este evento ficou conhecido como Comuna das Astúrias.

Com milhares de militantes feitos prisioneiros, os anarquistas decidem apoiar a esquerda nas eleições de 1936. Espera-se que o novo governo lhes conceda anistia. A esquerda vence em 16 de Fevereiro, com 4.645.116 votos, contra 4.503.524 da direita e 500 mil votos do centro, mas as particularidades do sistema eleitoral - que favorecia as maiorias - dão à esquerda a maioria das cadeiras no parlamento.

Alcalá Zamora encarrega Azaña de formar um governo. Em maio de 1936, Alcalá Zamora é destituído e Azaña assume a Presidência da República, tendo como seu primeiro-ministro o socialista Largo Caballero. A direita então lança-se a preparar um golpe militar que se concretiza em 18 de Julho.

Se os militares rebeldes esperavam resolver a questão com um pronunciamiento rápido e sem muito derramamento de sangue, à maneira do século XIX, foram surpreendidos pelo nível de mobilização ideológica da sociedade espanhola da época: de modo geral, exceto em casos isolados, os militares triunfaram nas regiões onde a direita havia sido mais votada em fevereiro de 1936, enquanto a esquerda - principalmente pela ação das milícias armadas socialistas, comunistas e anarquistas - vence nas regiões onde havia sido mais votada a Frente Popular: em Madrid e Barcelona, a insurreição foi esmagada quase que imediatamente.

Em 21 de julho, os rebeldes controlavam o Marrocos Espanhol, as Canárias (exceto a ilha de La Palma), as Baleares (exceto Minorca) e o oeste da Espanha continental. As Astúrias, a Cantábria, o País Basco e a Catalunha, assim como a região de Madri e Murcia, estavam nas mãos dos republicanos. Mas os rebeldes conseguem apoderar-se das cidades mais importantes da Andaluzia: Sevilha - tomada pelo General Queipo de Llano, que se tornaria tristemente célebre pelas suas atrocidades - Cádiz, Granada e Córdoba.

As posições rebeldes no Sul da Espanha estando separadas de suas posições mais ao Norte, realiza-se a Campanha da Extremadura, quando o bombardeio de aviões alemães e italianos contra a marinha republicana no Estreito de Gibraltar, o que permite a passagem de tropas rebeldes do Marrocos para a Espanha.

Um avanço rápido de Sevilha a Toledo, realizado sob o comando do Tenente-Coronel Yagüe, que aplicava as técnicas alemãs de Blitzkrieg, com avanços rápidos de tropas de infantaria apoiadas por artilharia e aviação (acompanhada pela eliminação sistemática de pessoas suspeitas na retaguarda) , possibilitou aos rebeldes nacionalistas tomarem Badajoz, em agosto de 1936, o que lhes permite organizar um frente coerente contra o campo republicano - estratégia esta, mais rotineira, adotada por Franco, que preferiu apoiar-se primeiro sobre a fronteira do Portugal de Salazar a tentar um avanço direto até Madrid, a partir do Sul.

A morosidade dos rebeldes e a ação das milícias populares na defesa republicana fizeram com que o conflito assumisse, assim, um caráter ideológico e potencialmente revolucionário.

Uma vez tendo feito junção as forças rebeldes em Badajoz, inicia-se o avanço sobre Madrid, buscando-se encerrar a campanha o mais rápido possível. Em 28 de setembro, as forças rebeldes rompem o cerco republicano ao Alcazar de Toledo, defendido por José Moscardó desde 22 de julho - uma conquista sem muito significado estratégico mas que foi logo revestida de características lendárias (o filho de Moscardó teria sido fuzilado após haver pedido ao pai, ao telefone, que se rendesse) e serviu de mito fundador do regime franquista.

Em 8 de novembro começa a Batalha de Madrid, mas o lento movimento das forças rebeldes, que haviam levado três meses deslocando-se a partir de Sevilha, permite ao governo republicano estabilizar o frente em 23 do mesmo mês. No Norte, os rebeldes tomam Irún em 5 de setembro e San Sebastián no dia 13, isolando o Norte republicano.

Em inícios de 1937, os rebeldes tentam novamente tomar Madri: uma ofensiva a partir de Jarama, de 6 a 24 de fevereiro, é apoiada pelo avanço de tropas de voluntários italianos fascistas na direção de Guadalajara, de 8 a 18 de março. A resistência das Brigadas Internacionais republicanas frusta os planos das forças italianas e, mais uma vez, converte o que se pretendia como golpe de estado numa guerra civil de longa duração, em que o acirramento das paixões políticas internas era potencializado pela presença de contingentes militares estrangeiros, ideologicamente opostos, numa verdadeira guerra civil européia, em que voluntários italianos fascistas e alemães nazistas, por exemplo, enfrentavam voluntários esquerdistas das mesmas nacionalidades.

A substituição do governo republicano de Largo Caballero pelo de Juan Negrín - que buscou apoiar-se, internamente, no Partido Comunista, e, externamente, na aliança com a União Soviética - deu conta do acirramento ideológico do conflito, mesmo no interior do campo republicano, levando aos incidentes de maio em Barcelona, de enfrentamento armado entre forças do governo e comunistas contra diversas milícias de Extrema Esquerda - anarquistas, trotskistas e semi-trotskistas -seguidos por uma cruel repressão policial à mesma Extrema Esquerda, sob o comando dos comunistas. Neste interím, o governo Negrín tenta substituir as milícias, tanto quanto possível, por um exército republicano regular, e lança, em agosto, na frente de Aragão, uma ofensiva em Belchite, tentando aliviar a pressão sobre a frente Norte.

A ofensiva fracassa; o lado republicano tinha menos armas modernas (blindados e aviões) do que o nacionalista, e, ao invés de combinar ações defensivas com a infiltração de guerrilheiros na retaguarda franquista (para o que teria que contar com as milícias anarquistas) preferia tentar vitórias convencionais com ganho propagandístico para os comunistas que comandavam as unidades de elite do exército regular. Estas ofensivas, que não tinham um alvo estratégico claro, soldaram-se sempre com enormes perdas de homens e equipamento, solapando ainda a moral das Brigadas Internacionais.

Acrescente-se a isso que as dissensões internas e insanáveis no campo republicano, sobre se convinha primeiro ganhar a guerra militarmente, ou se a guerra deveria ser combinada com uma revolução socialista, fizeram com que este governo jamais conseguisse a autoridade indisputada que precisaria para vencer militarmente, ao mesmo tempo que não possuía uma ideologia coerente que garantisse sua sustentação política: no verão de 1937, soma-se à ofensiva fracassada em Belchite o avanço dos rebeldes no Norte, onde é rompido o assim chamado "Cinturão de Ferro" republicano: Bilbao, Santander e finalmente Gijón, em 20 de outubro, são ocupadas pelos franquistas e a Frente Norte desaparece, com os prisioneiros republicanos sendo internados no campo de Miranda de Ebro. A República perde, assim, o apoio do nacionalismo basco, assim como uma das suas bases industriais mais importantes. No Sul, depois da tomada de Málaga pelos franquistas em 8 de fevereiro, a frente havia estabilizado-se na província de Almería.

Em fins de 1937, os republicanos tomam a iniciativa e fazem uma ofensiva na direção de Teruel, que é tomada em 8 de janeiro de 1938, apenas para ser recuperada pelos franquistas em 20 de fevereiro. A contra-ofensiva franquista toma Vinaroz em 15 de abril, atingindo o Mar Mediterrâneo, e a zona republicana remanescente é dividida em duas partes, isolando a Catalunha.

Os republicanos contra-atacam em 24 de julho na Batalha do Ebro, e acabaram por retirar-se em 16 de novembro após uma longa batalha de atrito, que permite aos franquistas o caminho para a tomada da Catalunha. Em 23 de setembro o governo republicano ordena a retirada total das Brigadas Internacionais, numa tentativa (fracassada) de modificar a posição de não intervenção mantida pelos governo francês e inglês pela retirada de uma força militar sob forte influência comunista. Em 23 de dezembro inicia-se a batalha por Barcelona, que cai nas mãos dos franquistas em 26 de janeiro de 1939. As tropas rebeldes ocupam a fronteira com a França e cortam a retirada dos republicanos.

Em março de 1939, começa uma pequena guerra civil dentro do campo republicano, quando o Coronel Casado, comandante do Exército do Centro, dá um golpe de estado em Madri, apoiado pelos oficiais de carreira (que acreditavam que "entre militares nos entenderemos melhor"), golpe este que tinha como objetivo a ruptura com os comunistas para facilitar negociações com os franquistas, enquanto o governo Negrín, partidário da continuação da resistência - e esperando que o estalar iminente da Segunda Guerra Mundial trouxesse novos apoios aos republicanos - refugia-se na chamada Posição Yuste.

Os franquistas, no entanto, exigem dos casadistas a rendição incondicional, e Madri cai em 26 de março. Com a queda de Valencia e Alicante em 30 de março, e de Murcia em 31, a guerra termina em 1º de abril.

O liberalismo, na Espanha, tinha, desde os inícios do século XIX, sido violentamente anticlerical; entre os anarquistas, muito influentes na Esquerda, o anticlericalismo havia sido sempre particularmente agressivo, ao contrário dos socialistas marxistas. Na medida em que a Guerra Civil foi a conclusão dos enfrentamentos político-ideológicos do século XIX espanhol, a identificação da Igreja com a Direita determinou o anticlericalismo da Esquerda na sua generalidade: Já em 14 de outubro de 1931, no jornal El Sol, o então primeiro-ministro Azaña equiparara a proclamação da República com o fim da Espanha católica, e durante a Guerra Civil, como Presidente da República, teria dito num de seus discursos, que preferia ver todas as igrejas de Espanha incendiadas a ver uma só cabeça republicana ferida, e o radical catalão Alejandro Leroux teria conclamado a juventude a destruir igrejas, rasgar os véus das noviças e "elevá-las à condição de mães".

A perseguição anticatólica durante a Guerra Civil apenas continuou um padrão já existente: nos só quatro meses que precederam a guerra civil já 160 igrejas teriam sido incendiadas. Durante a Guerra, pela repressão republicana, segundo o historiador Hugh Thomas, foram mortos 6861 religiosos católicos (12 bispos, 4.184 padres, 300 freiras, 2.363 monges); uma obra mais recente, de Anthony Beevor, dá números muito semelhantes (13 bispos, 4.184 padres seculares, 283 freiras, 2.365 monges). De acordo com o artigo espanhol, foram destruídas por volta de 20.000 igrejas, com perdas culturais incalculáveis pela destruição concomitante de retábulos, imagens e arquivos. Diante disto, é pouco surpreendente verificar que a Igreja Católica, tenha chegado, na sua generalidade a propagandear a revolta contra o governo e chegado a compará-la, numa declaração coletiva de todo o episcopado (1 de julho de 1937) com uma cruzada moderna; note-se, no entanto, que os mesmos bispos espanhóis, numa carta de 11 de julho do mesmo ano de 1937, mostraram-se ciosos em desmentir à opinião católica liberal, que via na intransigência conservadora do clero espanhol a razão das perseguições por ele sofridas, argumentando que a Constituição republicana de 1931 e todas as leis subseqüentes haviam dirigido a história da Espanha num rumo contrário à sua identidade nacional, fundada no Catolicismo ou, nas palavras do Cardeal Segura y Sáenz: "na Espanha ou se é católico ou não se é nada".

Muito embora houvessem sido realizados esforços de propaganda pelos republicanos no exterior em favor da liberdade religiosa (o Ministro da Justiça do governo Negrín, Manuel Irujo, autorizou o culto católico, que, no entanto, na prática realizou-se de forma semi-clandestina) de forma a não alienar a opinião pública católica internacional e os próprios grupos católicos no campo republicano (muito notadamente o principal partido basco, o PNV) o campo republicano era em geral anticlerical e apoiava a repressão à Igreja. Por outro lado, o escritor e filósofo católico francês Jacques Maritain protestou violentamente contra as repressões franquistas contra o clero basco, e teria dito que "a Guerra Santa, mais do que ao infiel, odeia ardentemente os crentes que não a servem".

De um lado lutavam a Frente Popular, composta pela esquerda (e extrema esquerda como o comunismo, anarquismo mas também o governo eleito liberal-democrático) e os nacionalistas da Galiza, do País Basco e da Catalunha, que defendiam a legitimidade do regime instalado recentemente no Estado, (a República proclamada em 1931 e os respectivos estatutos de autonomia).

Do outro lado os nacionalistas (compostos por monárquicos, falangistas, e militares de extrema direita, etc. O seu referente político (sobretudo para a Falange) era o general José Sanjurjo, chave da intentona militar de 1932, mas que morreu num acidente aéreo ao se transladar de Portugal para a zona ocupada pelos nacionalistas. Só durante o decorrer da guerra, os nacionalistas, chefiados pelo militar Francisco Franco irão aceitar progressivamente a sua indiscutível liderança.

A sublevação fascista tentava impedir a qualquer preço que as instituições republicanas assentassem de maneira estável e permanente o regime democrático, impedindo o trabalho de um governo real de esquerda que estava para realizar profundas reformas económicas, jurídicas e políticas no conjunto do Estado. Sob o suposto afã de lutar contra o perigo do aumento do comunismo e do anarquismo em certos lugares do Estado, ocultava-se realmente o levantamento contra o regime institucional e democrático estabelecido, na tentativa de impedir a continuação e assentamento da democracia e daquilo que os fascistas consideravam intoleráveis experiências de colectivismo.

Mas outra das claras intencionalidades do chamado "Movimiento Nacional", além de lutar contra o "perigo vermelho", foi lutar contra o que consideravam o "perigo separatista" tentando impedir a todo preço a instituição dos governos autónomos nas nações chamadas históricas.

Aliados à Igreja Católica, Exército e latifundiários, buscavam implementar um regime de tipo fascista na Espanha,o que consideravam mais condizente com a "originalidade espanhola (suas tradições políticas de raiz católica e autoritária).No entanto, o franquismo não foi fascista, se por tal entender-se um regime fundado numa base política de massa, na mobilização mais ou menos permanente dos seus partidários e no papel importante atribuído a certos grupos sociais emergentes: mesmo antes da queda dos regimes efetivamente fascistas, o regime acabou muito cedo por configurar-se como uma ditadura pessoal apoiada nos grupos dominantes tradicionais, muito semelhante nisto ao Portugal salazarista.

As tropas do chamado "Movimiento Nacional" foram reforçadas, desde o início da guerra pela ajuda militar directa da Alemanha de Hitler, expressa no bombardeamento a Guernica e Madrid, e da Itália de Mussolini, que enviou um corpo de tropas voluntárias para a frente nacionalista, assim como engajou aviões e submarinos no esforço de guerra franquista. Portugal de Salazar , embora ocultado sob a capa da neutralidade , enviou tropas voluntárias para combater pelos Nacionalistas (a Legião Viriato), permitiu o abastecimento das tropas rebeldes com armas e logística através de seu território além de recusar a entrada de refugiados ; a Irlanda tendo embora o seu governo declarado a participação na guerra como ilegal, cerca de 700 irlandeses combateram pelos Nacionalistas comandados pelo General Eoin O'Duffy, um veterano histórico do IRA que na Irlanda presidia os Camisas Azuis, algo entre uma associação de ex-militares e um partido fascista.

O Vaticano apoiou igualmente Franco, pois a Igreja condenava o comunismo - e também porque a política anticlerical do governo da República não lhe oferecia outra alternativa. O papa Pio XI, no entanto, que não tinha simpatias pelo fascismo, e que em 1937 publicaria a encíclica em alemão Mit brennender Sorge ("Com profunda preocupação"), condenando a ideologia nazista, não chegou jamais a oferecer um apoio incondicional ao campo franquista. No País Basco- que ficou isolado do restante da zona republicana desde o início da guerra - grande parte do clero católico colocou-se ao lado do nacionalismo basco e pela República, escapando assim à sorte dos seus análogos no restante do território republicano, onde as igrejas foram saqueadas e os padres perseguidos como agentes do fascismo. Pelo menos uma figura do alto clero espanhol, o cardeal-arcebispo de Tarragona Vidal y Barraquer - que havia sido exilado na Itália pela Generalitat republicana catalã - tentou realizar esforços por uma paz negociada, o que lhe valeu o desprazer constante do governo franquista, que impediu o seu retorno a Espanha até à sua morte em 1943, na Suíça. De certo modo, a divisão no interior do catolicismo mundial encontra-se bem descrita num artigo, muito posterior, do escritor e católico integrista brasileiro Gustavo Corção que relata como um grupo de padres bascos, buscando entrevistar-se com Pio XI para conseguirem um protesto seu contra as perseguições franquistas ao clero basco, teria sido impedido de conferenciar com o pontífice pelo seu Secretário de Estado, o cardeal Pacelli que, mais tarde, como papa Pio XII, seria objeto de fortes controvérsias quanto a sua postura em relação ao fascismo. O mesmo Pio XII, tendo sido elevado ao papado durante o término da Guerra Civil, saudou o fim da guerra com a vitória nacionalista no documento Com imenso gozo e em discurso radiofônico de 18 de abril de 1939.

Em 11 de maio de 2001, o papa João Paulo II procederia à beatificação de 233 vítimas religiosas da repressão republicana. Uma nova beatificação de outras 498 vítimas seria proclamada por Bento XVI em 28 de outubro de 2007.Esta última beatificação, que não foi celebrada pelo próprio papa, não sendo incluída, entre suas celebrações litúrgicas, foi no entanto, a maior beatificação da história da Igreja Católica. O papa declarou, na ocasião, a importância do martírio como testemunho de fé numa sociedade secularizada. Continuam sem solução os protestos dos parentes das vítimas das repressões nacionalistas ao clero basco contra o que consideram falta de reconhecimento da hierarquia católica.

As tropas republicanas receberam ajuda internacional, proveniente da URSS (alguns assistentes militares e material bélico) e das Brigadas Internacionais composta de militantes de frentes socialistas e comunistas de todo o mundo e de numerosas pessoas que a título individual entravam na Espanha a defender o governo da República. Vários intelectuais europeus e americanos participaram deste esforço, nomeadamente o romancista americano Ernest Hemingway, o escritor inglês George Orwell, o poeta também inglês W. H. Auden, os escritores franceses André Malraux e Saint-Exupéry e a matemática, católica e activista política, também francesa, Simone Weil. Dos brasileiros que lutaram nas Brigadas - principalmente militares comunistas de prévia militância na Aliança Nacional Libertadora - celebrizar-se-ia, sobretudo, Apolônio de Carvalho, cuja atuação nas Brigadas seria seguida, após seu internamento na França, pela sua participação heróica na Resistência Francesa.

Os governos da Inglaterra e da França, optaram por ficar de fora, impondo um embargo geral à exportação de armas à Espanha. Oficialmente, este embargo foi furado pela Alemanha e pela Itália, e não levou a qualquer consequência, na ausência de sanções impostas pela Liga das Nações).

Para os anarquistas e outros críticos de Extrema Esquerda, boa parte da culpa da derrota do campo republicano espanhol pode ser creditada à política de Josef Stalin, que, desejoso da vitória da República, mas temendo que esta vitória levasse a uma revolução socialista na Espanha que criasse complicações diplomáticas à União Soviética -pois um "Outubro Espanhol" criaria uma divisão ideológica na Europa Ocidental que atuaria contra a política de uma Frente Popular antifascista que era o grande objetivo de Stalin à época - foi capaz apenas de realizar uma ajuda militar tímida, pelo envio de alguns militares, aviões e armas (por estas exportações de armas, Stálin fêz-se pagar com a reserva de ouro do Banco Central Espanhol). Segundo este ponto de vista, instalou na Espanha uma série de agentes da sua polícia secreta, o GPU, que desencadeou uma política de repressões indiscriminadas contra militantes de Extrema Esquerda, anarquistas e trotskistas, visando conter a Guerra Civil dentro de um marco democrático-liberal. O ponto alto destas repressões foi a prisão e morte sob tortura de Andreu Nin, dirigente catalão do semi-trotskista POUM - Partido Operário de Unificação Marxista. Para cúmulo, Stálin ainda encarcerou e matou como traidores os executantes desta política (tais como o velho bolchevique Antonov-Ovssenko, que havia comandado em 1917 a tomada do Palácio de Inverno do tsar em São Petersburgo) quando do seu retorno à URSS, de modo a impedir o questionamento de sua política espanhola.E Isaac Deutscher sumariza: ao tentar preservar a respeitabilidade burguesa da Espanha republicana, sem querer antagonizar as democracias liberais européias, Stalin não preservou nada e antagonizou a todos: a causa da revolução socialista foi perdida, sem que a Direita européia, por um momento sequer, deixasse de ver em Stalin o agitador revolucionário.

Teve fim a guerra com a consequência da morte de mais de 400 mil espanhóis e uma queda enorme na economia, como a morte de mais da metade do gado,a queima de vários campos e milhões de moradias destruidas. Um abalo financeiro e queda do PIB que demorou quase 30 anos para se normalizar. Outras fontes ressaltam a dificuldade em quantificar o número de mortos por causa da guerra originada pelo chamado "Movimiento Nacional", mas colocam o dado para todo o período do franquismo de mais de 2 milhões de pessoas mortas sob o regime fascista.

Nas áreas controladas pelos anarquistas, Aragão e Catalunha, somando-se às suas vitórias militares temporárias, existiu uma grande mudança social na qual os trabalhadores e camponeses se apoderaram da terra e da indústria, estabeleceram conselhos operários paralelos ao governo, que estava paralisado, e autogestionaram a economia. Esta revolução ocorreu à revelia dos republicanos e comunistas apoiados pela União Soviética. A coletivização agrária obteve um êxito considerável, apesar da carência de recursos, já que as terras com melhores condições para o cultivo estavam em poder dos "Nacionais". Esse êxito sobreviveu na mente dos revolucionários libertários como uma prova de que uma sociedade anarquista pode florescer sob certas condições como as que haviam durante a Guerra Civil Espanhola.

Mais tarde durante o conflito, o governo e os comunistas receberam armas soviéticas, com as quais restauraram o controle do governo e se esforçaram por ganhar a guerra através da diplomacia e do poder bélico. Os anarquistas e os membros do POUM foram integrados ao exército regular, ainda que a contragosto, e o POUM foi declarado ilegal, após ser falsamente denunciado como instrumento dos fascistas. Num dos episódios mais dramáticos da Guerra, centenas de milhares de soldados comunistas e militantes anarquistas, ambos antifascistas, enfrentaram-se uns aos outros pelo controle dos pontos estratégicos de Barcelona, nas chamadas "Jornadas de Maio de 1937". Por trás desse conflito estava a divergência básica entre PCE de um lado e POUM e CNT de outro: estes acreditavam que a guerra devia servir para conduzir à vitória na revolução que tinham iniciado; já o PCE acreditava que a revolução lhes minava os esforços diplomáticos para ganhar o apoio das potências ocidentais contra o fascismo, assim como seu esforço de controle sobre a economia e a sociedade de maneira geral.

Na Galiza, zona que ficara na "retaguarda fascista" (militarmente ocupadas logo no início), a luta republicana encontrou a forma de guerrilhas organizadas que levaram a luta até depois de 1940.

A resposta através do método das guerrilhas manteve-se na Galiza até 1956 com muita força, iniciando-se um período de decadência a partir desta data, devida em parte ao abandono dessa estratégia por parte do PCE, até ocorrerem os últimos assaltos e combates em 1967, com a morte do último guerrilheiro e o exílio doutros.

Segundo dados fornecidos por diferentes historiadores foram presas ou mortas cerca de 10.000 pessoas relacionadas com a guerrilha galega durante esses anos.

O Franquismo instaurou na Galiza o método dos "passeios" (ir procurar pessoas a sua casa para "passeá-los", isto é fuzilá-los à noite e deixá-los nas valetas). Através deste método do "passeio", dos conselhos de guerra realizados contra civis, dos fuzilamentos maciços dos prisioneiros e dos confrontos armados com a guerrilha morreram 197.000 pessoas galegas (fonte "La Guerra Civil en Galicia" edic. La Voz) durante o regime franquista, das quais a grande maioria continua em valas comuns. Quanto ao exílio, cerca de 200 mil galegos fugiram exilados para outros países nesse período.

Por outro lado, os campos de concentração mais conhecidos na Galiza são os de Lubián, Lavacolla (Santiago de Compostela) e o cárcere de extermínio da Ilha de São Simão (comarca de Vigo), assim como os respectivos cárceres de cada cidade. Existem ainda em cada cidade ou vila lugares ainda não reconhecidos de fuzilamento maciço e continuado de pessoas que foram consideradas "perigosas" para o regime fascista.



De 1580 a 1640 Portugal viveu sob o domínio do ramo espanhol da casa de Habsburgo. A monarquia dualista da Dinastia Filipina, iniciada após as Cortes de Tomar, com a proclamação de Filipe II de Espanha como Rei de Portugal, fez acumular descontentamentos que resultaram na instauração da casa de Bragança em 1 de Dezembro de 1640.

O tumulto do Manuelinho de Évora, em 1637, foi um prenúncio do movimento restaurador. A causa imediata dessas alterações em Évora fora o lançamento de novos impostos. A conspiração de 1640 (ver Os Conjurados) foi planeada pelos fidalgos D. Antão de Almada, Dom Miguel de Almeida e pelo Dr. João Pinto Ribeiro, não obstante de outros nomes associados que, nesse sábado de 1640 acorreram ao Terreiro do Paço e mataram o secretário de Estado Miguel de Vasconcelos e aprisionaram a duquesa de Mântua, que governava então Portugal em nome de seu primo, Filipe III. O momento fora bem escolhido, porque a casa de Habsburgo defrontava os problemas advindos da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e procurava vencer a revolta da Catalunha.

Do decurso do reinado de D. João IV as hostilidades não se caracterizavam por encontros graves devido a coroa estar envolvida na Guerra dos 30 Anos e na revolta da Catalunha, pelo que não pôde dar uma resposta eficaz à revolta portuguesa. O que permitiu ao partido brigantino organizar e aperfeiçoar o seu exército com a chegada de novos efectivos e a utilização de oficiais e técnicos estrangeiros de qualidade.

Houve lugar a vários confrontos na fronteira, maioritariamente na zona do Alto Alentejo, e ainda na Beira Alta. A guerra arrastou-se durante 28 anos, vindo a paz a ser assinada já na regência de D. Pedro II.

A 2 de Dezembro de 1640 D. João IV já se dirigia como soberano por carta régia datada de Vila Viçosa, à Câmara de Évora. O caminho a seguir era o da reorganização de todas as forças para o embate que se previa. Assim, resolve criar em 11 de Dezembro o Conselho de Guerra para promover em todos os assuntos relativos ao exército. Vem a seguir a Junta das Fronteiras que haveria de cuidar das fortalezas fronteiriças, da defesa de Lisboa, das guarnições e portos de mar. Dá-se, ainda em Dezembro de 1641, a criação da Tenência para assegurar o artilhamento das fortalezas com o produto das Terças dos concelhos.

Posteriormente são restabelecidas as Leis Militares de D. Sebastião, visando reorganizar o exército. Paralelamente, desenvolve-se uma intensa actividade diplomática.

Com as decisivas vitórias do partido brigantino, lograram-se criar condições para o reconhecimento da independência, o que viria a ser conseguido, em 1668, sendo já regente o infante D. Pedro (futuro Rei D. Pedro II). Neste último ano foi assinado o tratado de paz, terminado, assim, ao fim de 28 anos de luta, as Guerras de Restauração.



A Guerra da Barba ocorreu entre França e Inglaterra, entre os anos de 1152 e 1153.

O barbado rei Luis VII de França casou-se com Eleanor, filha de um duque francês, e recebeu duas províncias no Sul do país como dote. Ao voltar das Cruzadas, o rei Luís raspou a barba. Eleanor não gostou, mas ele se recusou a deixar a barba crescer novamente. Eleanor se divorciou e casou-se com o rei Henrique II, da Inglaterra, exigindo a devolução das duas províncias. Luís não quis entregá-las e a guerra começou.



A expressão Guerra dos Cem Anos identifica uma série de conflitos armados, registrados de forma intermitente, durante o século XIV e o século XV (1337-1453, de acordo com as datas convencionais), envolvendo a França e a Inglaterra. A longa duração desse conflito explica-se pelo grande poderio dos ingleses de um lado e a obstinada resistência francesa do outro. Ela foi a primeira grande guerra européia que provocou profundas transformações na vida econômica, social e política da Europa Ocidental. A França foi apoiada pela Escócia, Boêmia, Castela e Papado de Avignon. A Inglaterra teve por aliados os flamengos e alemães. A questão dinástica que desencadeou a chamada Guerra dos Cem Anos ultrapassou o caráter feudal das rivalidades político-militares da Idade Média e marcou o teor dos futuros confrontos entre as grandes monarquias européias.

Historiograficamente é registrada entre 1334 a 1452. As suas causas remotas prendem-se à época em que o duque da Normandia, Guilherme, o Conquistador, se apoderou da Inglaterra em 1066. Desde Guilherme, os monarcas ingleses controlavam extensos domínios senhoriais em território francês, ameaçando o processo de centralização monárquica da França que se esboçava desde o século XII. Durante os séculos XII e XIII, os soberanos franceses tentaram, com crescente sucesso, restabelecer sua autoridade sobre esses feudos.

No século XII, o rei Henrique II da Inglaterra se casou com Leonor da Aquitânia e, segundo as tradições feudais, tornou-se vassalo do rei da França nos ducados da Aquitânia (Antiga Guiena, Guyenna ou Guyenne) e Gasconha. Desde então as relações entre os reis da Inglaterra e França foram marcadas por conflitos políticos e militares. Isso culminou na questão da soberania sobre a Gasconha. Pelo Tratado de Paris (1259), Henrique III de Inglaterra abandonara suas pretensões sobre a Normandia, Maine, Anjou, Touraine e Poitou, conservando apenas a Gasconha. Os constantes conflitos vinham pelo fato do rei inglês, que era duque da Gasconha, ressentir-se de ter de pagar pela região aos reis franceses e de os vassalos gascões frequentemente apelarem ao soberano da França contra as decisões tomadas pelas autoridades inglesas na região.

As influências francesa e inglesa em Flandres (atual Bélgica e Países Baixos) eram também opostas, pois os condes deste território eram vassalos da França e, por outro lado, a burguesia estava ligada economicamente à Inglaterra. Além do intenso comércio estabelecido na região, Flandres era importante centro produtor de tecidos, que consumia grande parte da lã produzida pela Inglaterra. Essa camada urbana vinculada à produção de tecidos e ao comércio posicionava-se a favor dos interesses ingleses e portanto, contra a ingerência política francesa na região. Resolveram, flamengos e ingleses, estabelecer uma aliança, que irritou profundamente o rei da França, também interessado na região.

O estopim dos conflitos se deu com o problema sucessório resultante da morte do terceiro e último filho de Filipe IV, o Belo, Carlos IV, em 1328. Entre os possíveis sucessores estavam: o rei inglês Eduardo III, da dinastia Plantageneta, neto do falecido monarca pelo lado materno, detentor dos títulos de duque de Guyenne (parte da Aquitânia, no sudoeste da França) e conde de Ponthieu (na região do canal da Mancha); e o nobre francês Filipe, conde de Valois, sobrinho de Filipe IV, o Belo, pertencente a um ramo secundário da família real. As pretensões dos dois foram examinadas por uma assembléia francesa que, apoiando-se na Lei Sálica, segundo a qual o trono não poderia ser ocupado por um sucessor vindo de linhangem materna, inclinou-se para o candidato nacional, aclamando o sobrinho, Filipe de Valois, com o título de Filipe VI. O rei inglês não discutiu a decisão, reconhecendo Filipe VI em Amiens em 1329.

O Conde de Nevers, regente de Flandres desde 1322, prestou juramento de obediência ao seu suserano Filipe VI, decisão que poderia paralisar a economia flamenga.

Eduardo III, após a intervenção de Filipe VI em Flandres apoiando o conde contra os amotinados flamengos, suspende as exportações de lãs. A burguesia flamenga forma um partido a favor do rei de Inglaterra incitando-o a proclamar-se rei de França. Assim Eduardo III, instigado por Jacques Artervelde - rico mercador que já havia liderado uma rebelião na cidade flamenga de Gante - e temendo perder o ducado francês de Guyenne - mantido como feudo de Filipe VI -, repudiou o juramento de Amiens e alegou a superioridade de seus títulos à sucessão.

Os franceses acusavam os ingleses de desenvolverem uma política expansionista, percebida pelos interesses na Guyenne e em Flandres. Já os ingleses insistiam em seus legítimos direitos políticos e territoriais na França. Embora tenham ocorrido crises anteriores, em geral, a data de 24 de maio de 1337 é considerada como o início da guerra: nesse dia, após uma série de discussões, Filipe VI, cônscio da grave ameaça que representava para seus domínios a existência de um ducado leal à coroa inglesa, apoderou-se de Guyenne. Eduardo respondeu imediatamente: não reconheceu mais "Filipe, que dizia ser rei da França", e ordenou o desembarque de um exército em Flandres. Iniciava-se a Guerra dos Cem Anos. A situação se deteriorou diante do auxílio francês à independência da Escócia nas guerras que Eduardo III e seu pai haviam iniciado contra os reis escoceses para ocupar o trono desse país.

Entre os episódios mais importantes do conflito citam-se

- A Batalha de Sluys (1340) - A desiciva batalha naval de Sluys aconteceu em 24 de junho de 1340 como um dos conflitos de abertura da guerra dos cem anos. Foi historicamente importante, pois nela foi destruída grande parte da armada francesa, fazendo a invasão francesa da Inglaterra impossivel e assegurando que a maioria das batalhas desta guerra tenha ocorrido na França;

- A Batalha de Crécy (1346) - Batalha de Crécy, que teve lugar em 26 de agosto de 1346, foi o primeiro grande confronto da Guerra dos Cem Anos, entre os exércitos de Filipe VI, da França, e Eduardo III, da Inglaterra, que terminou com a vitória dos ingleses. Ali foram utilizados os primeiros canhões.

A batalha de Crécy foi um dos grandes fiascos da França na Guerra dos Cem Anos. Apesar de contar com um exército de entre 30000 e 40000 guerreiros, Filipe VI foi derrotado pelas combalidas forças inglesas que, segundo estimativas, não ultrapassavam os 12000 homens.

Um ponto decisivo para o sucesso de Eduardo III nesta campanha foi a estratégia de guerra. O monarca dispôs seu exército no topo de uma colina, restringindo o combate pelo lado inglês à infantaria. Filipe VI, por seu turno, contava com uma vitória arrasadora da cavalaria francesa, cuja nata fizera reunir nas cercanias de Crécy-en-Ponthieu (ao sul de Calais).

Os franceses iniciaram as ações ofensivas com o ataque de 6000 besteiros, mercenários contratados a Gênova para participar da batalha. A chuva que caíra na noite anterior, entretanto, danificara as bestas, que possuíam um alcance menor do que o dos arcos empregados pelos inimigos. Os ingleses, que haviam recolhido suas armas durante a tempestade, não tiveram deste modo qualquer dificuldade em abater os genoveses, que bateram em retirada sofrendo grandes perdas.

Irritados com este primeiro fracasso mas confiantes em uma vitória que parecia assegurada graças à sua superioridade numérica, os cavaleiros franceses partiram então para o ataque. No caminho, abateram os besteiros e partiram para cima dos ingleses de forma completamente desorganizada. O terreno enlameado em aclive, entretanto, não era adequado à carga em montaria, e aos diversos obstáculos que já haviam sido preparados pelos ingleses somavam-se agora os corpos dos besteiros genoveses que haviam sido abatidos na primeira fase da batalha.

Os cavalos franceses começaram então a refugar a carga e jogar os cavaleiros sobre a lama. Derrubados com facilidade pelos arqueiros inimigos, eles tornavam-se novos obstáculos ao avanço dos exércitos de Filipe VI. Os ingleses empregavam arcos leves que disparavm flechas de uma distância de 400m. Seu impacto, além de matar, chegava a perfurar a armadura dos soldados franceses.

Os exércitos franceses tentaram 16 vezes romper as linhas inglesas, sem sucesso.

Estima-se que as perdas do lado francês girem em torno de 12000 homens, incluídos os besteiros genoveses. Entre estes, incluíam-se em torno de 1200 cavaleiros e 11 príncipes.
Do lado inglês, as estimativas giram em torno de 300 homens (embora este número, muito baixo, tenha sido frequentemente questionado pelos historiadores)
Alguns dos nobres importantes que faleceram na batalha de Crécy foram:

- Carlos II de Alençon (nascido em 1297), irmão de Filipe VI;
- João I, rei da Boêmia (nascido em 1296), pai de Carlos IV.


A derrota na batalha de Crécy mostrou aos orgulhosos cavaleiros franceses, que ainda apostavam na superioridade numérica e numa cavalaria numerosa, que ou o exército se modernizaria - o que foi conseguido com notável prejuízo para os cofres do país - ou perderia a guerra e o trono para a Inglaterra;

- A Batalha de Calais (1347) - O Cerco de Calais (no norte de França) começou em 1346 e durou até ao início do que mais tarde se chamaria a Guerra dos Cem Anos. Eduardo III de Inglaterra, que reclamava também o reino de França, derrotou a armada francesa na Batalha de Sluys em 1340, e entrou na Normandia, terminando finalmente na Batalha de Crécy em 1346. Nesse ponto o exército inglês não podia continuar sem renovação de alimentos e sem reforços, e a ajuda da Flandres, pelo que se retirou para norte. Os navios ingleses tinham abandonado já as costas da Normandia de regresso à Inglaterra, e assim o rei Eduardo tinha que tomar um posto defensável onde o seu exército pudesse reagrupar-se e reabastecer-se.

Calais era perfeitamente apropriada para os propósitos do monarca inglês. Era altamente defensável, com duplo fosso e muralhas que tinham sido erguidas cem anos antes. A cidadela no lado noroeste da cidade tinha o seu próprio fosso e fortificações adicionais. Além disso a cidade encontrava-se sobre o Canal da Mancha, o que implicava que, uma vez tomada, podia ser facilmente reabastecida e defendida por mar. Atractiva como era para Eduardo de Inglaterra, por sua posição, era porém muito difícil de tomar.

A cidade foi cercada no Verão de 1346, mas só se renderia em 1 de Agosto de 1347;

- A batalha de Poitiers (1356) - A Batalha de Poitiers foi uma batalha ocorrida em 19 de setembro de 1356 e que opôs o Reino de Inglaterra à França;

- A Batalha de Cocherel (1364) - A Batalha de Cocherel travou-se a 16 de Maio de 1364, no lugar de Cocherel, França, entre as forças de Carlos V de França, comandadas por Bertrand du Guesclin, e de Carlos II de Navarra, comandadas por Jean de Grailly. Participaram arqueiros ingleses. Esta batalha ocorreu no contexto da Guerra dos Cem Anos;

- A Batalha de Azincourt (1415) - Batalha de Azincourt foi uma batalha que aconteceu em 25 de outubro de 1415 (Saint Crispin's Day), no norte da França e que faz parte da Guerra dos Cem Anos.

"Aquele que sobrevier esse dia e chegar a velhice, a cada ano, na véspera desta festa, convidará os amigos e lhes dirá: "Amanhã é São Crispim". E então, arregaçando as mangas, ao mostrar-lhes as cicatrizes, dirá: "Recebi estas feridas no dia de São Crispim."
( A vida do rei Henrique V, ato IV, cena III - Shakespeare)

Assim romanceia Shakespeare, um discurso que o rei Henrique V da Inglaterra, em revista às tropas, prenunciando a batalha que transcorreria naquele dia (25 de outubro de 1415) em Azincourt (ou Agincourt), num terreno em que a chuva transformara num atoleiro. Seus oponentes, os franceses, comandados pelo condestável Charles I d'Albret.

Em grande inferioridade numérica, os ingleses contavam com, aproximadamente, 15 mil soldados para opor-se aos 50 mil franceses (os números são imprecisos). Numa excelente estratégia, os arqueiros ingleses praticamente liquidaram os franceses no atoleiro. A derrota foi assombrosa. Além do condestável Charles I d'Albret e outros membros da alta nobreza, mais de 1.500 cavaleiros e 4.500 soldados morreram nesta batalha. Alguns citam, a morte de 10.000 franceses contra 1.600 ingleses. A batalha celebrizou-se pelo uso do arco galês pelos ingleses;

- A Batalha de Orleães (1429) - O Cerco a Orléans foi uma batalha da Guerra dos cem anos que marcou a primeira grande vitória de Joana D'Arc e a primeira grande vitória da França depois da derrota esmagadora de Agincourt em 1415. O início deste cerco marcou o pináculo do poder inglês nos outros estágios da guerra. A cidade possuía significância estratégica e simbólica para os dois lados do conflito.

Origem

Joana D'Arc vinha ouvindo vozes orientando-a a ir para a guerra (entre ingleses e franceses) e salvar a França. Ela se dirigiu ao Rei Carlos VII e pediu-lhe a permissão de conduzir um exército contra os ingleses. Carlos não acreditava muito em Joana, por isso deu-lhe apenas um dos menores exércitos para libertar Orleães, e foi surpreendido quando recebeu a notícia que Orleães havia sido libertada;

- A Batalha de Jargeau (1429) - A Batalha de Jargeau foi a primeira batalha ofensiva comandada por Joana d'Arc, e teve lugar nos dias 11 e 12 de junho de 1429, um marco da Guerra dos Cem Anos. Pouco depois de libertar Orléans, as tropas francesas dirigiram-se ao vale do rio Loire, próxima a ciudade de Jargeau.

A Batalha de Jargeau aconteceu nos últimos anos da prolongada Guerra dos Cem Anos. Nesta época a aliança entre ingleses e borguinhões tinha capturado quase a totalidade da França ao norte do rio Loire, houve numerosas batalhas para recuperar os territórios ocupados, como no caso de Orléans. Esta última ciudade estava tomada desde outubro. Uma vez que os ingleses asseguraram a região, só lhes restava invadir o sul da França para ter o controle completo sobre todo o país.

Em março de 1429, Joana d'Arc chegou a Chinon para encontrar-se com o delfim (futuro Carlos VII da França). Após uma audiência inquisitorial, Joana se viu a frente de um grande exército para tentar levantar o domínio que existia em Orléans. Após a libertação de Orléans, Joana e seu exército partiram para a Campanha conhecida como Campanha do Loire.

Jargeau era uma cidade pequena a margem sul do rio Loire, na França central, situada a uns 16 quilometros a oeste de Orléans. Os ingleses a ocuparam por vários anos antes pensando em lhe utilizar como base de retaguarda para uma posterior invasão a França meridional. Por este motivo, fortificaram o povoado com uma muralha e várias torres cercada por uma fossa profunda.

A cidade cresceu e tinha muitos subúrbios que se encontravam no exterior de suas defesas. Para garantir o cruzar do rio, as forças inglesas fortificaram também a ponte do povoado. Esta ponte teria uma grande importância estratégica nas fases posteriores da Guerra dos Cem Anos. Jargeau estava defendida por uns 700 ingleses, todos eles equipados com armas de fogo.

Joana ordenou atacar primeiro os subúrbios fora dos muros. Ao ver isto, os ingleses sairam das muralhas para contra atacar, retornando logo a segurança do muro.

Na manhã seguinte (dia 12), Joana intimou aos ingleses sua rendição, oferta que foi recusada. Em consequência, a jovem ordenou um poderoso ataque de artilharia, seguido por um assalto com máquinas de assédio, com a qual rapidamente consiguiu tomar uma das torres da cidade.

Consciente que o fracaso estava próximo, o comandante inglês, Duque de Suffolk começou as negociações de rendição, especialmente com o comandante La Hire, o que desagradou a Joana por considerar uma violação flagrante dos protocolos de guerra.

Decidida a terminar a batalha como fosse, Joana mandou colocar as escadas de assalto e o grande exército françês subiu as muralhas de Jargeau. A própria comandante sobreviveu milagrosamente quando um projétil de pedra lhe golpeou a cabeça enquanto encabeçava o assalto.

Já em cima da muralha, se produziu uma grande matança de ingleses, que sofreram enormes perdas devido a grande inferioridade numérica em que se encontravam, forçando a Suffolk a render-se. O comandante inglês sobreviveu e foi feito prisioneiro por Joana D'Arc.

A vitória francesa em Jargeau consolidou a posse da estratégica ponte da cidade e permitiu uma série de vitoriosas batalhas de Joana d'Arc que lhe permitiran cumprir os objetivos da campanha do Loire com precisão e exatitude. A Jargeau siguiram-se as batalhas de Meung-sur-Loire e Beaugency;

- A Batalha de Meung-sur-Loire (1429) - A Batalha de Meung-sur-Loire, 15 de junho de 1429, foi uma das grandes vitórias obtidas por Joana D'Arc na Campanha do Loire, na fase final do prolongado conflito conhecido como Guerra dos Cem Anos. Esta campanha seguiu a libertação de Orléans pelas forças da Donzela.

Meung-sur-Loire, pequena cidade situada sobre o rio Loire, tinha uma enorme importância estratégica para os franceses, era dominada pelos ingleses que controlavam várias pontes sobre o rio. As forças de Joana D'Arc necesitava imperiosamente dominar aquelas pontes, já que de outra forma a França estava dividida em duas (norte e sul) e o inimigo controlava os únicos meios de cruzar o país.

A poente de Meung-sur-Loire era o terceiro objetivo vital da campanha. Depois de Orléans e Jargeau, Joana decidiu recuperar a ponte de Meung-sur-Loire.

- A Batalha de Patay (1429) - A Batalha de Patay (18 de Junho de 1429), foi uma batalha da Guerra dos Cem Anos entre a França e a Inglaterra no centro-norte da França.Foi uma vitória decisiva para os franceses e mudou o rumo da guerra.Embora creditada a Joana d'Arc, a maioria dos combates ocorreu na vanguarda do exército francês.

Após o alívio do Cerco de Orléans, o exército francês havia recapturado várias fortalezas Inglêsas no vale do Loire.Quase todos na França ao norte do Rio Loire estava sob controle estrangeiro.A vitória francesa em Orléans destruiu a única ponte ponte controlada por francêses.Três pequenas batalhas tinham recuperado pontes ao longo do Loire.

A recaptura do Rio Loire em 1429 constou de cinco batalhas:

1. O Cerco de Orléans. 2. A Batalha de Jargeau. 3. A Batalha de Meung-sur-Loire. 4. A Batalha de Beaugency. 5. A Batalha de Patay.

Nesta batalha, o exército Inglês tentou usar a mesma táctica que tinha usado nas vitoriosas batalhas de Crecy, em 1346, Poitiers, em 1356, e Agincourt, em 1415.Estas táticas tinham um extenso número de longos arcos afiados empurrados para o chão e defendido por homens em frente do seu exército inimigo, os arcos impediam o avanço da cavalaria enquanto o exécito Inglês massacrava o resto do inimigo.No entanto, na Batalha de Patay, os cavaleiros franceses foram finalmente capazes de penetrar nos arcos Inglêses.

Nenhum outro país na Europa utilizava arcos como Inglaterra.Embora a arma era relativamente barata de se produzir, o custo de manutenção era proibitivo: a única formação necessária para operar a arma a fazer a manutenção era a de um exército permanente.Durante a Idade Média mais soldados lutaram , e muitas campanhas acabaram em tempo para a colheita do Outono.Nobres e soldados eram os únicos que tinham uma careira.

O longo arco tinha dois pontos fracos: a ligeireza de homens indefesos em combate e o extenso treinamento Inglês atrasou a produção do novos arcos.O exército Francês explorou esses pontos na batalha.

Um reforço do exército Inglês comandado por Sir John Fastolf partiu de Paris na sequência da derrota em Orléans.Os Franceses haviam se mudado rapidamente, capturando três pontes e os Inglêses haviam se rendido Beaugency na véspera do exército de Fastolf chegar.Os Francêses, na convicção de que não podiam ultrapassar um plenamente preparado exército Inglês em batalha aberta, esperavam encontrar o exército Inglês despreparado e vulnerável.

O exército Inglês reencontrou os restantes defensores de Meung-sur-Loire.Os Francêses tinham tomado apenas a ponte neste local, não o castelo vizinho ou o castelo da cidade.O exército Inglês era excelente em batalhas abertas, e assumiram uma posição cuja localização exata é desconhecida, mas tradicionalmente acreditavam estar perto da pequena aldeia de Patay.Fastolf, John Talbot e Sir Thomas Escalas comandaram o exército Inglês.

A tática defensiva dos Inglêses era conduzir participações em terra perto de suas posições. Isto impediria encargos da cavalaria e infantaria durante tempo suficiente para os arcos terem uma palavra decisiva sobre o inimigo.No entanto, os arcos Inglêses inadvertidamente revelaram a sua posição para vigias Francêses antes de terminar seus preparativos.

Com a notícia da posição Inglêsa, cerca de 1.500 homens dos capitães La Hire e Jean Poton de Xaintrailles, fortemente armados, blindados e a cavalaria do exército francês, atacou o exército Inglês.A batalha rapidamente virou um tumulto, com todos inglêses fugindo sobre cavalos enquanto a infantaria, na sua maioria composta de protetores dos arcos, foram cortados em massa.Os arcos nunca foram destinados ao combate contra cavaleiros blindados e preparados a partir de posições em que os Inglêses não poderiam atacar eles, então os Inglêses foram massacrados.Pela primeira vez uma tática Francêsa de um grande ataque frontal da cavalaria tinha dado certo, e com resultados decisivos;

- A Batalha de Formigny (1450) - Formigny, 15 de abril de 1450. Na França, 3 mil arqueiros ingleses estavam preparados para reeditar, agora num vilarejo da Normandia as glórias de Crécy e Agincourt. Mesmo com a fraca liderança do rei Henrique VI (filho único de Henrique V), a Inglaterra acreditava ser capaz de dominar as forças francesas, que se organizaram durante os 5 anos da Trégua de Tours, estabelecida em 1444. Acampado perto do vilarejo de Formigny, situado a menos de 10 km do Canal da Mancha, o exército inglês se posicionou em formação defensiva, protegido pelo terreno com elevações e por estacas. A estratégia deu certo: as duas primeiras ondas de ataques do exército francês, composto por 3 mil cavaleiros e homens de infantaria, foram repelidas com facilidade. Mas um lance virou os rumos da batalha. Por ordem do comandante francês, o conde de Clermont, dois canhões leves passaram a disparar contra as linhas de arqueiros, provocando o caos no inimigo. Ainda assim, Thomas Kyriell, o comandante das tropas inglesas, reagiu com um ataque que tomou dos franceses as duas armas. Só que o movimento deixou o seu exército vulnerável a uma segunda ofensiva, lançada pelos 1,2 mil cavaleiros de Arthur de Richemont, um aliado bretão dos franceses. Mais do que causar baixas, o papel fundamental da artilharia em Formigny foi permitir que Richemont, guiado pelo barulho dos disparos, localizasse os aliados. Atacados simultaneamente pelo sul e pelo oeste, os ingleses não tinham soldados suficientes para resistir ao combate homem a homem. A tática de empregar grandes quantidades de arqueiros falhou, evidenciando a importância do uso dos canhões, mesmo que apenas dois, no resultado final. Dos 3,8 mil soldados ingleses, 2,3 mil morreram e cerca de 900 foram capturados - entre eles, o comandante Kyriell. Os 4,2 mil franceses envolvidos no combate sofreram apenas 200 baixas. O massacre em Formigny deixou Londres sem um exército capaz de fazer frente aos franceses. Depois disso, as cidades da Normandia caíram uma a uma, deixando aos ingleses apenas a Aquitânia, a sudoeste, e a cidade fortificada de Calais, ao norte;

- A Batalha de Castillon (1453) - A Batalha de Castillon foi a última batalha entre franceses e Ingleses, durante a Guerra dos cem anos.

Após a tomada de Bordeaux pela França em 1451, a Guerra dos Cem Anos parecia estar no fim. Entretanto, após 300 anos de domínio Inglês, muitos habitantes da Aquitânia se viam como súditos britânicos e não como franceses, e enviaram mensageiros ao Rei Henrique VI de Inglaterra solicitando a recuperação da província.

Em 17 de Outubro, 1452, John Talbot, um general de mais de 70 anos, desembarcou próximo a Bordeaux com 3.000 soldados e arqueiros. A região recebeu os ingleses de braços abertos e, com o apoio das forças locais, elevou seu contingente para quase 9.000 soldados.

Enquanto isso, os franceses contavam com 3 exércitos na região e os serviços de Jean Bureau, um dos primeiros especialistas no uso de artilharia em combate. Bureau conseguiu a façanha de reunir 300 canhões e preparou uma armadilha, ameaçando com um dos exércitos a fortaleza de Castillon, a cerca de 50 km de Bordeaux, no sul da França. Ali, Talbot encontrou inicialmente um grupo de 1.000 arqueiros franceses, que ofereceu pouca resistência aos ingleses e recuou rapidamente para leste, onde estava o corpo principal do exército francês. Perseguindos os soldados em retirada, os ingleses se depararam com o acampamento de 6.000 franceses e partiram para o ataque.

Bureau preparara bem sua defesa. Sabia que os ingleses não teriam outra opção senão atacar pelo sul, já que o terreno protegia seus flancos pelo norte e pelo oeste. Decidiu, então, colocar seus 300 canhões lado a lado, formando uma bateria jamais vista em solo europeu. Os ingleses, inexperientes em confrontos contra artilharia, não sabiam o risco que estavam correndo. Quando os canhões dispararam, foi uma carnificina.

Dezenas de Ingleses que sobreviveram tentavam resistir. Nesse momento entrou em cena a cavalaria pesada francesa, que aguardava escondida ao norte do campo de batalha. Seu ataque, somado ao apoio estratégico dos arqueiros franceses, reorganizados, esmagou a resistência do inimigo e encerrou a batalha. O velho John Talbot morreu com um golpe de machado, após seu cavalo ter sido atingido por uma bala de canhão, cerca de 3.500 ingleses e aliados foram mortos ou capturados.

Era a primeira vez na história européia que a artilharia havia decidido uma guerra. Os franceses perderam aproximadamente 300 homens e privaram a Inglaterra de um exército que pudesse manter a região sob seu controle e conquistaram, depois de Castillon, todas as cidades da Aquitânia.

Assim acabou a participação da Inglaterra na Guerra dos Cem Anos, sem soldados para mandar para a França e dividida por uma guerra civil em seu próprio solo (Guerra das Duas Rosas).

Para os franceses, Castillon é até hoje motivo de celebração - a batalha é encenada anualmente no vilarejo de Castillon-la-Bataille desde a década de 1980.


Desenrolar da Guerra

A guerra desenrolou-se por quatro períodos: o primeiro entre 1337 e 1364, o segundo entre 1364 e 1380, o terceiro entre 1380 e 1422, e o quarto entre 1422 e 1453.

Primeiro Período (1337-1364)

Filipe VI exerceu intenso assédio ao litoral inglês durante meses, até ser derrotado em 1340. As hostilidades começaram seriamente com a batalha naval de Sluys, além do rio Escalda, em 1340, onde a frota inglesa foi vitoriosa. Eduardo III tentou conquistar a França, vencendo grande parte dos combates em Crécyen-Pomthieu (1346), Calais (1347). As duas vitórias inglesas garantiram a Eduardo III importantes posições no norte da França, mantendo o Canal da Mancha sob seu controle. Para tanto o rei da Inglaterra contou com o apoio financeiro de grandes mercadores de Flandres e do duque da Bretanha, que voltou-se contra o monarca francês. O avanço e a conquista inglesa só não foram maiores porque após a batalha de Crécy, ocorreu a chamada "Peste Negra", que dizimou praticamente 1/3 da população européia. A peste foi responsável por interromper a guerra.

Vários anos depois, quando se retomaram os combates, Eduardo III havia conquistado o apoio do rei de Navarra, Carlos II, e a inestimável ajuda militar de seu filho Eduardo, o príncipe de Gales, conhecido como o príncipe negro (por conta da cor de sua armadura). Esse período foi caracterizado por sucessivas vitórias inglesas, contando com o apoio de muitos nobres locais, mais preocupados em preservar seus domínios do que com a lealdade devida ao rei da França, possibilitando o domínio de cerca de um terço do território francês nas regiões norte e oeste. O príncipe Negro conseguiu tomar como prisioneiro o sucessor de Filipe, João II, o Bom na Batalha de Poitiers (1356), e posteriormente, exigiu resgate por sua libertação. Uma insurreição popular (Jacquerie) complicou as coisas: revoltados com a miséria, os camponeses se lançavam contra os senhores feudais, enquanto a burguesia de Paris, indgnada pelas calamidades da guerra e liderada por Étienne Marcel, clamava por mudanças políticas. O filho de João, o Bom, o futuro Carlos V, atendeu as questões internas e negociou a paz com Eduardo III. Em 1360, o Tratado de Brétigny, ratificados em Calais, deu a Eduardo um considerável número de territórios na França (Calais e todo o sudoeste francês) em troca do abandono de suas reivindicações ao trono francês.

Segundo Período (1364-1380)

A morte de João II (1364), que permanecera em mãos dos ingleses, marcou o recrudescimento das hostilidades, pois seu filho Carlos (1364-1380), que o sucedeu no trono francês com o nome de Carlos V, negou-se a respeitar os tratados firmados em 1360. Dessa vez os franceses atacaram com êxito o inimigo pois a França desfrutava de uma melhor posição.

Sob Carlos V, os franceses, graças a unificação de seus exércitos, recuperaram boa parte do território meridional do Reino da França. Neste período destacou-se o condestável francês Bertrand Du Guesclin, cavaleiro valente e notável militar que organizou as famosas "campanhas brancas" (sistema de guerrilhas). A luta estendeu-se a Castela com a França apoiando o candidato à coroa, Dom Henrique, contra Dom Pedro aliado da Inglaterra. As vitórias do monarca francês, fruto da reorganização militar, fortaleceram a idéia de centralização política, possibilitou submeter a maior parte da nobreza, aumentar a arrecadação tributária e organizar o Estado com elementos oriundos da burguesia em cargos de confiança.

Em 1377, com escassos meses de distância entre um e outro, faleciam o príncipe de Gales e Eduardo III. O sucessor do trono inglês era o neto do monarca falecido, Ricardo II, de apenas dez anos de idade. A morte do monarca da França Carlos V, em 1380, esfriou o ânimo dos franceses.

Terceiro Período (1380 - 1422)

Nas últimas décadas do século XIV e as décadas iniciais do século seguinte foram marcadas pelas disputas internas nos dois países, arrefecendo momentaneamente a guerra externa. No caso da Inglaterra ocorreram rebeliões camponesas lideradas por Wat Tyler, contra a servidão e posteriormente as disputas envolveram parte da nobreza, que lutou contra o rei, e culminou com a ascensão de Henrique de Lancaster ao trono, em 1399, com o título de Henrique IV.

Na França as lutas internas foram mais complexas e envolveram os interesses da região da Borgonha, antigo feudo poderoso, que lutou constantemente por seus interesses particulares. Em 1380, quando os ingleses nada mais ocupavam senão Calais e a Guyenne, morreu Carlos V na França, abrindo caminho para a ascensão do herdeiro Carlos VI, o Insensato, de doze anos. Houve uma série de disputas pelo poder, que culminou com a cisão da nobreza francesa em dois partidos: os armagnacs, partidários da família de Orléans, e os borguinhões, partidários dos duques de Borgonha. Em considerando Carlos VI como incapaz, os Borguinhões pretenderam tomar o poder e, após várias derrotas, aliaram-se aos ingleses. Ao lado da família real ficaram o irmão do rei, Luis de Orléans e Bernardo de Armagnac. Nesta guerra civil, destacaram-se João sem medo, da Borgonha, e o Delfim Carlos.

No reinado do inglês Ricardo II, investido do poder assim que alcançou a maioridade (1389), as hostilidades praticamente cessaram. Ricardo II, enfrentou graves distúrbios sociais e a oposição de parte da nobreza, encabeçada por Henrique de Lancaster, que em 1399 subiu ao trono como Henrique IV.

A retenção inglesa de Calais e Bordeaux, no entanto, impediu a paz permanente. Na França, a evidente incapacidade mental do rei, Carlos VI, desencadeou acirradas disputas pelo trono entre seus irmãos. A eclosão da guerra civil na França (luta entre Armagnacs, partidários dos Orléans, e os Borguinhões, partidários do duque de Borgonha), além da loucura do rei Carlos VI, animou o novo rei inglês, Henrique V, a insistir em suas reivindicações no tocante ao trono francês (invocando a lei sálica). Henrique V, primo de Ricardo II, assumira a coroa em 1413.

A guerra civil e a loucura do rei Carlos VI permitiram novas conquistas dos ingleses. Em 1415, Henrique V desembarcou na Normandia, invadindo e tomando Harfleur. Neste mesmo ano, travou-se a batalha de Agincourt (ou Azincourt), num terreno em que a chuva transformara num atoleiro. A orgulhosa cavalaria francesa foi massacrada e milhares de nobres franceses pereceram. Seguiu-se a ocupação de Paris (1415), da Normandia (1419) e de outras regiões no norte da França, obrigando a assinatura da paz, com a cumplicidade de Isabel da Baviera. O Tratado de Troyes (1420), que garantia a Inglaterra todo o norte do país (inclusive Paris) e, o mais grave, forçou Carlos VI a deserdar do trono seu filho, o Delfim Carlos VII. Henrique V casou-se com a princesa Catarina, filha de Carlos VI, ficando com o direito de herdar o trono.

Depois do assassinato de João sem Medo, duque de Borgonha e um dos contendores na guerra civil da França, Henrique V aliara-se ao filho do duque, Filipe, o Bom. A união teve sucesso e até 1422 o rei inglês e o novo duque de Borgonha controlaram todo o território francês ao norte do Loire, incluindo Paris e a Aquitânia.

Naquele ano, morreram tanto Carlos VI quanto Henrique V, o que faz com que as duas coroas (a da França e da Inglaterra) fossem herdados por Henrique VI, que ainda era uma criança recém nascida. Dois barões ingleses encaregaram-se da regência: o Duque de Badford se ocupou da França e o Duque de Gloucester passou a administrar a Inglaterra. Carlos VII, o Delfim, assumiu a realeza em Bourges. Assim, a França encontrava-se dividida em dois reinos: nos territórios do norte, governava o rei inglês, apoiado pelos borguinhões; nos poucos territórios do sul, reinava o francês Carlos VII, com o apoio dos armagnacs.

Quarto Período (1422-1453)

O Delfim, porém, instalara-se no Vale do Loire e dali passou a liderar a resistência francesa aos invasores. É nesse momento que aparece em cena uma camponesa mística e visionária de Domrémy: Joana d'Arc, que conseguiu desarmar uma conspiração para matar o soberano. Os regentes do ineficaz Henrique VI foram perdendo o controle dos territórios conquistados para as forças francesas, sob a liderança de Joana d'Arc.

Com a França em perigo Joana d'Arc organizara um exército completamente diferente dos exércitos feudais. Guerra era assunto para nobres e homens. Seu exército era liderado por uma mulher camponesa. Os exércitos feudais lutavam por seu senhor e seu feudo. O de Joana d'Arc era um exército nacional, que lutava pela França e por seu rei. Os franceses, agora, sentiam-se integrantes de um país. A idéia de nação estava lançada.

Joana d'Arc conseguiu do Delfim um exército de aproximadamente cinco mil homens e libertou a praça forte de Orléans (1429). Essa vitória fez Filipe, o Bom, abandonar seus aliados ingleses e aceitar a autoridade de Carlos VII. Depois conquistou Reims, no norte do país, onde Carlos VII foi coroado segundo as antigas tradições. Carlos VII, aproveitando as discórdias da Guerra das Duas Rosas na Inglaterra, empreendeu eficaz reestruturação militar que culminará com a conquista da Aquitânia em 1453.

Em 1430, aprisionada pelos borguinhões, Joana D'Arc foi entregue aos ingleses, em Compiègne. Foi julgada herética por um tribunal eclesiástico e queimada na fogueira, em 1431, em Rouen (ou Ruão).

O impulso, entretanto, estava dado. Os franceses, incentivados pelo martírio de Joana d'Arc, bateram os ingleses em Formigny (1450), tendo conquistado a Normandia e grande parte da Gasconha. O fim da guerra é marcado pela batalha de Castillon, em 1453, quando foi capturada a cidade de Bordeaux, o último reduto inglês. Isto significou, efetivamente, o fim da guerra, e desde então os ingleses mantiveram apenas Calais, que conservaram até 1558. Eles foram forçados a voltar sua atenção aos assuntos internos, principalmente às guerras das Rosas e desistiram de todas as reivindicações sobre a França. Nenhum tratado foi assinado de forma a assinalar o fim das hostilidades. A rivalidade anglo-francesa, no entanto, ainda perduraria por muito tempo.

Consequências

Os conflitos deixaram um saldo de milhares de mortos em ambos os lados, e uma devastação sem precedentes nos territórios e na produção agrícola francesa.

No plano político e social, a Guerra dos Cem Anos contribuiu para a Dinastia de Valois, apoiada pela burguesia, fortalecer o poder real francês, abrindo caminho para o chamado absolutismo, por vários motivos:

- Liquidou com as pretensões inglesas sobre territórios na França;
- Os feudos do rei inglês, na França, passaram para o domínio da coroa francesa;
- O longo período de guerras enfraqueceu bastante a nobreza francesa, porque, à medida que os nobres morriam, seus feudos iam passando para o domínio do rei, debilitando o sistema feudal;
- Construção de uma identidade nacional entre os franceses;
- Tornou possível a criação de algumas instituições de governo centralizadas;
- A cavalaria entrou em decadência.


No plano das relações internacionais da Europa no período, o conflito se liga ainda a outros episódios como a Guerra Civil de Castela, os confrontos na Sicília entre a França e o reino de Aragão e mesmo o chamado Papado de Avignon.

Poderá, enfim, dizer-se que a Guerra dos Cem Anos marca o final da Idade Média e anuncia a Época Moderna.



A chamada Revolta da Vacina ocorreu de 10 a 16 de Novembro de 1904 na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil.

No inicio do século XX, a cidade do Rio de Janeiro, como capital da República, apesar de possuir belos palacetes e casarões, tinha graves problemas urbanos: rede insuficiente de água e esgoto, coleta de resíduos precária e cortiços super povoados. Nesse ambiente proliferavam muitas doenças, como a tuberculose, o sarampo, o tifo e a hanseníase. Alastravam-se, sobretudo, grandes epidemias de febre amarela, varíola e peste bubônica.

Decidido a sanear e modernizar a cidade, o então presidente da República Rodrigues Alves (1902-1906) deu plenos poderes ao prefeito Pereira Passos e ao médico Dr.Oswaldo Cruz para executarem um grande projeto sanitário. O prefeito pôs em prática uma ampla reforma urbana, que ficou conhecida como bota abaixo, em razão das demolições dos velhos prédios e cortiços, que deram lugar a grandes avenidas, edifícios e jardins. Milhares de pessoas pobres foram desalojadas à força, sendo obrigadas a morar nos morros e na periferia.

Oswaldo Cruz, convidado a assumir a Direção Geral da Saúde Pública, criou as Brigadas Mata Mosquitos, grupos de funcionários do Serviço Sanitário que invadiam as casas para desinfecção e extermínio dos mosquitos transmissores da febre amarela. Iniciou também a campanha de extermínio de ratos considerados os principais transmissores da peste bubônica, espalhando raticidas pela cidade e mandando o povo recolher os resíduos.

"Tiros, gritaria, engarrafamento de trânsito, comércio fechado, transporte público assaltado e queimado, lampiões quebrados à pedradas, destruição de fachadas dos edifícios públicos e privados, árvores derrubadas: o povo do Rio de Janeiro se revolta contra o projeto de vacinação obrigatório proposto pelo sanitarista Oswaldo Cruz" (Gazeta de Notícias, 14 de novembro de 1904).
A resistência popular, quase um golpe militar, teve o apoio de positivistas e dos cadetes da Escola Militar. Os acontecimentos, que tiveram início no dia 10 de novembro de 1904, com uma manifestação estudantil, cresceram consideravelmente no dia 12, quando a passeata de manifestantes dirigia-se ao Palácio do Catete, sede do Governo Federal. A população estava alarmada. No domingo, dia 13, o centro do Rio de Janeiro transforma-se em campo de batalha: era a rejeição popular à vacina contra a varíola que ficou conhecida como a Revolta da Vacina, mas que foi muito além do que isto.

Para erradicar a varíola, o sanitarista convenceu o Congresso a aprovar a Lei da Vacina Obrigatória (31 de Outubro de 1904), que permitia que brigadas sanitárias, acompanhadas por policiais, entrassem nas casas para aplicar a vacina à força.

A população estava confusa e descontente. A cidade parecia em ruínas, muitos perdiam suas casas e outros tantos tiveram seus lares invadidos pelos mata-mosquitos, que agiam acompanhados por policiais. Jornais da oposição criticavam a ação do governo e falavam de supostos perigos causados pela vacina. Além disso, o boato de que a vacina teria de ser aplicada nas "partes íntimas" do corpo (as mulheres teriam que se despir diante dos vacinadores) agravou a ira da população, que se rebelou.

A aprovação da Lei da Vacina foi o estopim da revolta: no dia 5 de Novembro, a oposição criava a Liga contra a Vacina Obrigatória. Entre os dias 10 e 16 de novembro, a cidade virou um campo de guerra. A população exaltada depredou lojas, virou e incendiou bondes, fez barricadas, arrancou trilhos, quebrou postes e atacou as forças da polícia com pedras, paus e pedaços de ferro. No dia 14, os cadetes da Escola Militar da Praia Vermelha também se sublevaram contra as medidas baixadas pelo Governo Federal.

A reação popular levou o governo a suspender a obrigatoriedade da vacina e a declarar estado de sítio (16 de Novembro). A rebelião foi contida, deixando 50 mortos e 110 feridos. Centenas de pessoas foram presas e, muitas delas, deportadas para o Acre.

Ao reassumir o controle da situação, o processo de vacinação foi reiniciado, tendo a varíola, em pouco tempo, sido erradicada da capital.



A Revolta da Chibata foi um movimento de militares da Marinha do Brasil, planejado por cerca de dois anos e que culminou com um motim que se desenrolou de 22 a 27 de novembro de 1910 na baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, à época a capital do país, sob a liderança do marinheiro João Cândido Felisberto.

Na ocasião, mais de dois mil marinheiros rebelaram-se contra a aplicação de castigos físicos a eles impostos como punição, ameaçando bombardear a cidade. Durante os seis dias do motim seis oficiais foram mortos, entre eles o comandante do Encouraçado Minas Gerais, João Batista das Neves.

Os castigos físicos, abolidos na Marinha do Brasil um dia após a Proclamação da República, foram restabelecidos no ano seguinte (1890), estando previstas:

"Para as faltas leves, prisão a ferro na solitária, por um a cinco dias, a pão e água; faltas leves repetidas, idem, por seis dias, no mínimo; faltas graves, vinte e cinco chibatadas, no mínimo."


Os marinheiros nacionais, quase todos negros ou mulatos comandados por uma oficialidade branca, em contato cotidiano com as marinhas de países mais desenvolvidos à época, não podiam deixar de notar que as mesmas não mais adotavam esse tipo de punição em suas belonaves, considerada como degradante. O uso de castigos físicos era semelhante aos maus-tratos da escravidão, abolida no país desde 1888. Paralelamente, a reforma e a renovação dos equipamentos e técnicas da Marinha do Brasil eram incompatíveis com um código disciplinar que remontava aos séculos XVIII e XIX. Essa diferença foi particularmente vivida com a estada dos marujos na Inglaterra, em 1909, de onde voltaram influenciados não só pelas lutas dos colegas britânicos mas também pela revolta dos marinheiros da Armada Imperial Russa, no Encouraçado Potemkin, ocorrida poucos anos antes, em 1905.

Ainda na Inglaterra, o marinheiro João Cândido Felisberto formou clandestinamente um Comitê Geral para organizar a revolta, que se ramificaria depois em vários comitês revolucionários para cada navio a entrar em motim, e que se reuniam no Rio de Janeiro entre 1909 e 1910. Em 1910 juntou-se a este comitê o marinheiro Francisco Dias Martins, vulgo "Mão Negra", que tinha facilidade para escrever, e tinha ficado famoso por uma carta, sob este pseudônimo, aos oficiais contra a chibata em recente viagem ao Chile.

Marcada para dez dias depois da posse do Presidente Hermes da Fonseca, o que precipitou o ápice da revolta acabou sendo a punição aplicada ao marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes do Encouraçado Minas Gerais. Por ter trazido cachaça para bordo e, em seguida, ter ferido com uma navalha o cabo que o denunciou, foi punido, não com as vinte e cinco chibatadas máximas regulamentares, e sim com duzentos e cinqüenta, na presença da tropa formada, ao som de tambores no dia seguinte à posse do presidente, dia 16 de Novembro. O exagero dessa punição, considerada desumana, provocou uma indignação da tripulação muito superior à que já vinham sentindo durante a conspiração da revolta.

Uma semana depois, já na baía de Guanabara, na noite de 22 de novembro, os marinheiros do Minas Gerais amotinaram-se. Quando o comandante Batista das Neves retornava de um jantar oferecido a bordo do navio francês Duguay-Trouin, foi cercado pelos amotinados e, depois de uma curta luta, mataram-no a tiros e a coronhadas. Na seqüência, outros cinco oficiais foram assassinados, conforme acordavam e saíam dos seus camarotes para verificar o que se passava. Enquanto isso, o 2º tenente Álvaro Alberto, o primeiro oficial gravemente ferido, com golpe de baioneta, conseguiu alcançar o Encouraçado São Paulo num escaler e notificou os demais oficiais da armada, que escaparam para terra.

Sem os seus oficiais a bordo, os encouraçados São Paulo (o segundo maior navio da Armada à época) e Deodoro, o cruzador Bahia, e mais quatro embarcações menores ancoradas na baía, aderiram ao motim no decorrer da noite.

Na manhã seguinte (23 de novembro), sob a liderança do marinheiro de primeira classe João Cândido Felisberto e com redação de Francisco Dias Martins, foi então emitido um ultimato no qual ameaçavam abrir fogo sobre a então Capital Federal:

O governo tem que acabar com os castigos corporais, melhorar nossa comida e dar anistia a todos os revoltosos. Senão, a gente bombardeia a cidade, dentro de 12 horas. (carta de João Cândido, líder da revolta). Não queremos a volta da chibata. Isso pedimos ao presidente da República e ao ministro da Marinha. Queremos a resposta já e já. Caso não a tenhamos, bombardearemos as cidades e os navios que não se revoltarem."


Surpreendido e sem capacidade de resposta, o governo, o Congresso e a Marinha divergiam quanto à resposta, pois a subversão da hierarquia militar é um dos principais crimes nas Forças Armadas. A população da então Capital, num misto de medo e curiosidade, permaneceu em estado de alerta, parte dela refugiando-se longe da costa enquanto outros se dirigiram à orla para assistir o bombardeamento ameaçado pelos marinheiros.

A Marinha esboçou um ataque aos revoltosos com dois navios menores, mas além de rechaçá-lo, estes bombardearam as instalações na ilha das Cobras. Outros disparos foram efetuados sobre o Palácio do Catete, sede do Poder Executivo. Ainda nessa manhã, o deputado e capitão-de-mar-e-guerra José Carlos de Carvalho esteve a bordo dos encouraçados Minas Gerais e do São Paulo, dando início às negociações com os amotinados.

Os navios que não aderiram à revolta, na maioria contratorpedeiros, entraram em prontidão para torpedear os amotinados. No dia 25 de Novembro, o então Ministro da Marinha, almirante Joaquim Marques Batista Leão expediu a ordem: "hostilize com a máxima energia, metendo-os a pique sem medir sacrifícios." No mesmo dia, entretanto, o Congresso Nacional votava a anistia para os revoltosos.

Quatro dias mais tarde, a 26, o governo do presidente marechal Hermes da Fonseca declarou aceitar as reivindicações dos amotinados, abolindo os castigos físicos e anistiando os revoltosos que se entregassem. Estes, então, depuseram armas e entregaram as embarcações. Entretanto, dois dias mais tarde, a 28, alguns marinheiros foram expulsos da Marinha, sob a acusação de "incoveniente à disciplina".

A 4 de dezembro, quatro marujos foram presos, sob a acusação de conspiração. Em meio a uma forte onda de boatos, isolados e desorganizados, os fuzileiros navais sublevaram-se na ilha das Cobras (dia 9 do mesmo mês), sendo bombardeados durante todo o dia, mesmo após hastearem a bandeira branca. De seiscentos revoltosos, sobreviveram pouco mais de uma centena, detidos nos calabouços da antiga Fortaleza de São José da Ilha das Cobras. Entre esses detidos, dezoito foram recolhidos à cela n° 5, escavada na rocha viva. Ali foi atirada cal virgem, na véspera do Natal. Após vinte e quatro horas, apenas João Cândido e o soldado naval Pau de Lira sobreviveram. Cento e cinco marinheiros foram desterrados para trabalhos forçados nos seringais da Amazônia, tendo sete destes sido fuzilados nesse trânsito.

Apesar de se declarar contra a manifestação, João Cândido também foi expulso da Marinha, sob a acusação de ter favorecido os rebeldes. O Almirante Negro, como foi chamado pela imprensa, um dos sobreviventes à detenção na ilha das Cobras, foi internado no Hospital dos Alienados em Abril de 1911, como louco e indigente. Ele e dez companheiros só seriam julgados e absolvidos das acusações dois anos mais tarde, em 1 de dezembro de 1912.

Em 24 de julho de 2008, através da publicação da Lei Federal nº 11.756/2008 no Diário Oficial da União, foi concedida anistia post mortem a João Cândido Felisberto, e aos demais participantes do movimento.

Conclusão

Embora seja indiscutível a validade dos argumentos dos marinheiros em 1910, a revolta não apresentava nenhum projeto de transformação social mais amplo. O seu objetivo era apenas e tão somente a extinção dos castigos corporais e a melhoria das condições de vida e trabalho da categoria a bordo das embarcações da Armada.



A Batalha de Nova Orleães teve lugar no dia 8 de janeiro, 1815, e foi a última grande batalha da guerra de 1812. forças americanas, comandadas pelo general Andrew Jackson, derrotaram uma invasão britânica com intenção do Exército na apreensão Nova Orleães e do vasto território da América tinha adquirido com a compra da Louisiana.



A guerra da Cisplatina ou campanha da Cisplatina (espanhol: Guerra del Brasil) foi um conflito ocorrido entre o Império do Brasil e a Províncias Unidas do Rio da Prata, no período de 1825 a 1828, pela posse da Província Cisplatina, a região da atual República Oriental do Uruguai. Na historiografia argentina é denominada como Guerra do Brasil.

A região era disputada pelas Coroas de Portugal e da Espanha desde a fundação da Colônia do Santíssimo Sacramento (1680), sendo objeto de vários tratados territoriais, dos quais os principais foram o Tratado de Madrid (1750)), o Tratado de Santo Ildefonso (1777) também chamado Tratado dos Limites e o Tratado de Badajoz (1801).

Na posse espanhola, com a independência da Províncias Unidas do Rio da Prata, constituiu-se em território daquele país até 1816 quando foi invadida pelo General Carlos Frederico Lecor, comandante da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, para a Coroa Portuguesa, na Guerra contra Artigas. Ali desenvolveu uma inteligente política de ocupação, com a fundação das Escolas Mútuas do Método Lancaster e o apoio às elites Orientais. Em 1821 foi incorporado ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves pelo Príncipe-Regente Português, com o nome de Província Cisplatina. A anexação foi justificada, à época, pelos alegados direitos sucessórios que sua mãe, a Rainha Carlota Joaquina, teria sobre a região.

Após a Independência do Brasil, alimentando pretensões de recuperar o território da Província Oriental ou Cisplatina as Províncias Unidas do Rio da Prata ajudaram os patriotas orientais (uruguaios), liderados por Juan Antonio Lavalleja, a que se levantassem contra a dominação brasileira na região. Para esse fim, os argentinos ofereciam-lhes apoio político, além de suprimentos de boca e de guerra.

O conflito acabou eclodindo em 1825, quando líderes militares orientais, como Lavalleja e Fructuoso Rivera proclamaram a independência da região. Lavalleja desembarcou com suas forças na praia da Agraciada e, com o apoio da população, declarou a incorporação da Província Oriental às Províncias Unidas do Rio da Prata. Em resposta, em 10 de dezembro, o governo imperial brasileiro declarou guerra às Províncias Unidas, que retribuíram a declaração de guerra em 1° de janeiro de 1826.

O Brasil tinha uma significativa vantagem populacional em relação aos seus inimigos. A população brasileira era de 4,5 milhoes de pessoas (incluindo 1,1 milhão de escravos), enquanto que a população das Províncias Unidas era de 600.000 (150.000 na Província de Buenos Aires) e a do Uruguai, 60.000. O tamanho da população, entretanto, não era uma medida adequada da força dos países. Muitos brasileiros estavam fisicamente e emocionalmente afastados do conflito. Nas Províncias Unidas, somente os portenhos estavam interessados na luta. Apesar da maioria dos uruguaios terem lutado com os portenhos, alguns se aliaram aos brasileiros.

Tanto o Brasil quanto as Províncias Unidas tinham dificuldades em criar Exércitos nacionais. A espinha dorsal do Exército brasileiro, que haviam lutado no Uruguai entre 1811 e 1821, eram portugueses. Depois que o Brasil proclamou sua independência em 1822, as tropas portuguesas em Montevidéu retornaram à Europa em março de 1824, sendo substituídas por tropas brasileiras recém recrutadas. A partir de 1822, o Império Brasileiro começou a criar um exército nacional com as unidades brasileiras que já existiam, mas ainda havia muito a se fazer.

O efetivo da tropa, entretanto, caiu muito além do que era necessário, obrigando o governo a determinar o recrutamento forçado. John Armitage escreveu que:

"Apesar de detestarem a vida militar, [os camponeses livres] erão agarrados como malfeitores, manietados, mettidos a bordo de immundas embarcações, e mandados para as agrestes campinas do sul, soffrer os rigores de hum clima inhospito, e a tactica de hum inimigo desapiedado. Grande numero adoecia e morria na viagem."


Diante da dificuldade de recrutar brasileiros para servir no Exército, mercenários eram recrutados na Alemanha e Irlanda, mas essas tropas não ofereciam ajuda imediata.

O Exército brasileiro de 1826 contava com 10.000 homens, estando 6.000 deles na Banda Oriental: 2.500 em Montevidéo, 1.100 em Colonia, 1.100 espalhados em guarnições ao longo dos rios Uruguai e Negro, e o restante em outros lugares. Muitos desses 6 mil homens eram recrutas locais.

As Províncias Unidas também teve problemas para levantar um exército. O caudilho Juan de las Heras, governador da Província de Buenos Aires levantou um exército de 800 homens sob o comando do General Martín Rodriguez perto de Concepción del Uruguay, na Argentina. A nata da força humana da cidade havia sido enviada à a costa oeste da América do Sul para enfrentar os Realistas, e as Províncias do interior não tinham o mesmo entusiasmo com a guerra contra o Brasil quanto os portenhos e não enviaram tropas.

Embora a população uruguaia fosse pequena comparada às do Brasil e das Províncias Unidas, o país teve menos dificuldade em levantar um Exército. A maioria dos uruguaios viviam nas planícies do interior eram apropriados para servir como cavalaria irregular. Armitage descreveu o típico homem do front:

"Armado unicamente com as bolas e os laços, e com a inseparável faca enfiada no cinto, todos [os gaúchos] são soldados por hábito; e animados pelo espírito de nacionalidade, estão sempre promptos a entrar em luta."


As Marinhas eram outra questão. Apesar do Lorde Cochrane ter voltado para a Inglaterra, a Marinha do Brasil, criada por ele e integrada principalmente por 1.200 mercenários ingleses, irlandeses e norte-americanos, permaneceu praticamente intacta. Um terço dos Oficiais da Marinha do Brasil eram ingleses. A Marinha sofria por falta de oficiais juniores. Em 1826, a Marinha do Brasil possuia um navio de linha, seis fragatas, dezoito brigues e bergantins, além de umas vinte e cinco embarcações inferiores.

A Marinha de Buenos Aires era categoricamente inferior à brasileira. Inicialmente, consistia nas brigues General Belgrano (14 canhões) e General Balacre (14 canhões) e algumas poucas canhoneiras. Também foram comprados e equipados alguns navios mercantes, sendo o mais importante a corveta Comércio de Lima, que se tornou a 25 de Mayo (28 canhões). As Províncias Unidas também compraram três belonaves chilenas que estavam no dique à algum tempo — a frigata O'Higgins (44 canhões), renomeada para Buenos Aires; a corveta Independencia (28 canhões); e a corveta Chacabuco (20 canhões). Os navios zarparam de Valparaíso em 25 de maio de 1826; o Buenos Aires, entretanto, naufragou no Cabo Horn após uma tempestade, causando a perda de 500 vidas, e o Independencia encalhou, sendo perda total. Mais da metade dos cinqüenta e seis Oficiais eram norte-americanos e britânicos. O Comércio regional estava crescendo e o potencial para prêmios em dinheiro era grande. Por isso, encorajar os corsários era fácil.

O Brasil esperava que a demonstração de seu poderio naval antes do início das hostilidades moderasse as ações dos portenhos e que os mesmos desistiriam de seu apoio aos uruguaios. A partir de abril de 1825, o Brasil começou a enviar significativos reforços à sua pequena esquadra no Rio da Prata. O comando foi dado ao Vice-almirante Rodrigo Ferreira Lobo.

Essa demonstração de força falhou no intuito de deter a guerra, então o Brasil esperou que um bloqueio à Buenos Aires persuadisse os portenhos. O bloqueio do porto de Buenos Aires, entretanto, se mostrou uma missão muito difícil. As águas imediatamente anteriores à enseada eram muito rasas para as belonaves brasileiras mais pesadas, e o canal de acesso à enseada era estreito e tempestuoso. Além disso, havia poucos pontos de referênciadistinguíveis no mar para auxiliar na navegação. Por essas mesmas razões, o bombardeio de Buenos Aires seria extremamente difícil.

A estratégia inicial das Províncias Unidas era furar o bloqueio através de rápidas incursões contra os boqueadores utilizando belonaves menores e mais ágeis. As belonaves portenhas de pequeno calado zarparam de Buenos Aires, tentando atrair os bloqueadores brasileiros para águas rasas, onde deveriam encalhar. Um vez encalhados, ele podiam ser atacados com sucesso por belonaves menores. O plano de Buenos Aires também consistia garantir suprimentos aos gaúchos uruguaios, aproveitando sua grande motivação de lutar contra as tropas brasileiras de ocupação.

Para apoiar as forças de Lavalleja, um exército argentino atravessou o Rio da Prata, estabelecendo acampamento em Durazno, iniciando uma invasão do território brasileiro pelo general Carlos Maria de Alvear (1826). O visconde de Barbacena, no comando das tropas imperiais, deu combate aos argentinos na batalha de Ituzaingó.

Em apoio ao Exército Brasileiro, o imperador Pedro I do Brasil enviou uma esquadra para bloquear o estuário do Rio da Prata, assim como o porto de Buenos Aires. A Argentina revidou, atacando o litoral gaúcho. Contudo, a pressão da Marinha do Brasil conseguiu, com o tempo, estrangular o comércio argentino.

O Império Brasileiro iniciou a ofensiva terrestre a partir do final de 1826, por meio da concentração de tropas no Sul do país. Essas tropas eram formadas, em sua maioria, por voluntários e por algumas unidades de mercenários europeus.

A dificuldade do imperador em reunir forças para o conflito deveu-se, em grande parte, ao fato de que seu governo estava enfrentando à época várias rebeliões populares e levantes militares nas províncias do recém-independente Brasil (inclusive na capital Rio de Janeiro).

A falta de tropas atrasou em muito a capacidade de resposta brasileira ao apoio de Buenos Aires ao levante no Sul. Por volta de 1826 esse apoio não era mais somente político e logístico: já havia a convocação de tropas para lutar contra o Império.

A guerra foi marcada por diversos encontros de pequena monta e por escaramuças de grupos armados de ambos os lados. Estes encontros em nada contribuíram para a solução do impasse político e militar.

Somente as batalhas de Sarandi e Passo do Rosário se constituíram em encontros militares de maior vulto. Em ambas, o exército imperial foi derrotado. Contudo, graças à falta de recursos humanos e logísticos também por parte das Províncias Unidas como da Província Oriental, para explorarem estas vitórias, elas foram de pouco proveito.

A guerra prosseguiu, por terra e mar, com vantagem para as forças imperiais, que derrotaram as forças republicanas na decisiva Batalha de Monte Santiago (1827).

Na primeira metade do ano seguinte, Fructuoso Rivera reconquistou para a Província Oriental (e para as Províncias Unidas) o Território dos Sete Povos das Missões que passou ao Império Português em 1801 (ver Tratado de Badajoz (1801)). Após esta vitória dos argentinos e orientais, dado o impasse em terra, o bloqueio naval brasileiro, os altos custos para os beligerantes da continuação da guerra, a pressão britânica para que um acordo fosse firmado, além da precariedade militar e política dos países em conflito, a paz começou a ser negociada, com a mediação da França e da Grã-Bretanha.

Desse modo, o Império do Brasil e a República das Províncias Unidas do Rio da Prata, pela Convenção Preliminar de Paz, assinada no Rio de Janeiro, renunciaram às suas conquistas e reconheceram como Estado independente a Província Oriental, que passou a se chamar República Oriental do Uruguai.

A perda da Província Cisplatina foi um motivo adicional para o crescimento da insatisfação popular com o governo de D. Pedro I. Na realidade, a guerra era impopular desde o início, pois para muitos brasileiros representava aumento de impostos para o financiamento de mais um conflito.

Quando o Império do Brasil assinou o acordo pela independência da região, muitos utilizaram isto como argumento para tornar ainda mais impopular o governo, alegando que o imperador havia depauperado os cofres públicos e sacrificado a população por uma causa perdida.

Entretanto, a Guerra da Cisplatina não foi uma causa direta para a abdicação do imperador, em 1831. Ela se insere dentro de uma conjuntura que concorreu para a sua queda. Entre as causas da abdicação, sem dúvida, o estilo centralizador de governar foi o principal.



A guerra do Peloponeso foi um conflito armado entre Atenas (centro político e civilizacional por excelência do mundo do século V a.C.) e Esparta (cidade de tradição militarista e costumes austeros), de 431 a 404 a.C. Sua história foi detalhadamente registrada por Tucídides e Xenofonte. De acordo com Tucídides, a razão fundamental da guerra foi o crescimento do poder ateniense e o temor que o mesmo despertava entre os espartanos. A cidade de Corinto foi especialmente atuante, pressionando Esparta a fim de que esta declarasse guerra contra Atenas.

As relaçoes entre Atenas e Esparta eram tensa , aindaque formalmente amigáveis durante as Guerras Médicas, agudizando-se gradualmente a partir de 450 a.C., com lutas freqüentes e tréguas cíclicas, tudo pela disputa da hegemonia grega. Atenas, dominando politicamente a Liga de Delos (também chamada de Liga Marítima Ateniense), controlava o comércio marítimo com a sua poderosa frota, desfrutando igualmente de uma boa situação financeira. Esparta, por seu lado, assentava a sua estratégia política num exército imbatível e bem treinado, respondendo à Liga de Delos com uma confederação de cidades, a Liga do Peloponeso, que reunia, além da importante cidade marítima de Corinto, as cidades do Peloponeso (península no sul da Grécia) e da Grécia central. O crescente poderio e a riqueza inigualável de Atenas alarmava Esparta, como dizia Tucídides. A guerra era assim inevitável, como pensava Péricles, que acumulou uma notável reserva financeira para suportar um conflito em larga escala. No ano de 445 a.C. ainda se chegou a um acordo de paz que deveria durar trinta anos. Todavia, as alianças estavam feitas, e aí residia o detonador da guerra.

Primeiro período: 431-421 a.C.

Corcira, colônia de Corinto, ponte natural entre a Grécia e o Ocidente, queria celebrar com Atenas uma aliança, que daria condições de dominar o comércio com o Ocidente. Corinto era aliada de Esparta, o que implicava que Córcira alinhasse nessa aliança. As cidades de Esparta, Corinto, Tebas e Mégara aliaram-se contra Atenas e seus aliados. Na primavera de 431 a.C. - no Outono e no Inverno não se combatia -, Tebas, aliada de Esparta na Grécia Central, atacou Platéia, antiga aliada de Atenas, dando início à Guerra do Peloponeso, que durou 27 anos e envolveu quase todas as cidades-estados gregas, provocando o enfraquecimento da Grécia.

De 431 a 421 a.C., os beligerantes devastaram reciprocamente seus respectivos territórios sem chegarem a alcançar êxitos decisivos.

Esparta invadiu a Ática com seus aliados em 431 a.C. Péricles, avaliando corretamente a superioridade do exército terrestre de Esparta, convenceu os atenienses a refugiar a população do território da polis ateniense dentro das longas muralhas que ligavam Atenas a seu porto, o Pireu, e a evitar uma batalha em terra com o superior exército espartano. Atenas confiava em sua frota de trirremes para invadir o Peloponeso e proteger seu império e suas rotas comerciais, mas foi gravemente surpreendida pela deflagração de uma epidemia - conhecida como "Peste do Egito" - em 430 a.C., que matou cerca de um terço da população da superpopulosa Atenas, inclusive Péricles. Isso afetou o moral dos aliados de Atenas e provocou uma frustrada rebelião da ilha de Lesbos contra a hegemonia da cidade ática. Apesar disso, a frota teve boa performance e foi estabelecida uma trégua de um ano, em 423 a.C.

O resultado das lutas foi variável nos anos seguintes. Na batalha de Anfípolis, no ano 422 a.C., morreram os chefes dos dois exércitos inimigos, o ateniense Cléon e o espartano Brásidas. A Cléon, defensor da continuidade da guerra a todo custo, sucedeu Nícias. A guerra estava equilibrada e as cidades beligerantes desgastadas. Por isso, esse primeiro período foi encerrado em 421 a.C. pelo Tratado de Nícias, que garantia a paz durante cinqüenta anos. Aproveitando-se disso, as cidades aliadas a Atenas procuraram se libertar de sua opressão, ameaçando todo o sistema democrático que se apoiava na cobrança de tributos.

Segundo período: 415-413 a.C.

O segundo período vai de 415 a 413 a.C. A trégua, que deveria se prolongar durante cinqüenta anos, durou somente seis. Alcibíades liderou um movimento de oposição a Esparta no Peloponeso; suas esperanças esvaneceram-se com a vitória de Esparta em Mantinéia, em 418 a.C. A saída para a crise do sistema democrático era uma grande vitória militar contra a Liga do Peloponeso. Assim, em 415 a.C. foi preparada uma grande e poderosa esquadra, comandada por Alcibíades, para atacar a cidade siciliana de Siracusa (na Magna Grécia) e outras regiões da Itália, colônias de onde provinham os alimentos para Esparta e seus aliados. Alcibíades, principal defensor da expedição à Sicília (415-413 a.C.) foi acusado de impiedoso por seus adversários políticos em Atenas. Alcibíades, então, fugiu para Esparta e traiu os atenienses.

Esparta enviou então um poderoso exército para a Sicília, o que resultou num completo desastre para Atenas. A frota e o exército atenienses foram desbaratados pelas forças espartanas diante de Siracusa. Dá-se aí o ponto de viragem da Guerra do Peloponeso, apesar da derrota ter acontecido por um triz, mercê de uma chefia fraca aquando da invasão da Sicília, traduzindo o claro declínio político e militar surgido com a morte de Péricles. Os historiadores vêem no desaparecimento deste a razão do desastre ateniense, gorando-se a união da Hélade em torno de Atenas.

Na cidade de Atenas, tomou o poder um grupo oligárquico partidário da paz. Mas a sublevação da armada de guerra, desejosa de reiniciar o conflito, forçou o restabelecimento da democracia e, com ela, a continuação da guerra.

Na invasão de Siracusa pelas forças atenienses, não foi um exército espartano que iniciou a derrocada da frota, mas sim, apenas um general, Gilippo, pois os espartanos não tinham força naval suficientes para transportar um exército para o além-mar de siracusa. Portanto, a tática espartana não foi enviar forças armadas para seus aliados, mas enviar um exemplo de coragem e habilidade bélica. O generel Gilippo treinou e disciplinou a grandiosa força siracusana e graças à estratégias dignas de uma mente militar brilhante, foi possível expulsar os atenienses e encurralá-los, sem suprimentos e com a frota avariada, no litoral.

Terceiro período: 412-404 a.C.

O terceiro período começou em 412 a.C.; a fortificação de Decélia, na Ática, pelos espartanos, e revoltas generalizadas entre seus aliados pressionaram Atenas, que havia perdido grande parte de sua frota na Sicília e estava falida e atormentada por convulsões políticas. Apesar disso e graças, em grande parte, a Alcibíades, nomeado estratego das forças atenienses, a sorte de Atenas ressurgiu, com vitórias navais em Cinosema (411 a.C.), e Cícico ou Cízico (410 a.C.), e com a reconquista de Bizâncio (408 a.C.). Houve mais uma vitória em Arginuse, em 406 a.C. Os espartanos aliaram-se aos Persas em troca do financiamento de uma frota de navios para invadir Atenas, deixando, assim, o caminho livre para que os medos conquistassem as colônias gregas da Jônia (Ásia Menor). A partir de então, os espartanos, ajudados pelo ouro dos persas e pelas habilidades estratégicas e táticas do espartano Lisandro alteraram a balança. A tomada de Lâmpsaco, o triunfo na Batalha de Egospótamos (405 a.C.), perto do rio Egospótamos, e o controle do Helesponto pelos espartanos subjugaram Atenas, pela fome. Esparta venceu a Guerra do Peloponeso após a rendição de Atenas em abril de 404 a.C. As condições de paz foram desastrosas para a cidade de Atenas, enquanto Esparta se convertia no centro hegemônico da Grécia.

Seguiu-se imediatamente um golpe oligárquico em Atenas, apoiado por Esparta. A oligarquia, com o apoio das tropas espartanas, tomou o poder dos democratas. Esse governo ficou conhecido como Tirania dos Trinta, porque era formado por trinta oligarcas. A Tirania dos Trinta dissolveu a Confederação de Delos e entregou o resto da frota Ateniense a Esparta. A democracia foi restabelecida em 403 a.C..

O declínio de Atenas marca a ascensão de Esparta e desfaz a única via possível para a unificação política do mundo grego, afetada rudemente com a devolução aos Persas das cidades da Ásia Menor em troca do seu ouro. A substituição do império ateniense, baseado no projeto de Delos, por um outro, militarizado, como o de Esparta, não trará grandes alterações ou momentos de grandeza helênica, antes inicia o apagar do "fogo grego".

A importância desta guerra reside também no fato de ter envolvido quase todos os Estados gregos, além de ter registrado um número sem precedentes de homens em armas e um elevado consumo de recursos materiais. O poder naval foi fundamental, num teatro de operações onde tal se justificava, pois desenrolou-se entre a Ásia Menor e a Sicília. Anteriormente, as guerras tinham um caráter estival, de curta duração, com alguns rencontros de infantaria (hoplitas) e poucos combatentes, sem grandes estratégias e investimentos logísticos, com um carácter simples e com o seu fim a depender de cadências pela fome ou fuga de uma facção. A Guerra do Peloponeso foi diferente: grandes blocos de Estados, várias áreas de combate, com estratégia definida e dependendo da ação de Esparta ou Atenas - uma, potência terrestre; a outra, naval e detentora de um império financeiro e comercial.



A Revolta camponesa de 1381 foi uma das numerosas revoltas populares da Baixa Idade Média, na Europa, e um dos principais eventos da História da Inglaterra, sob o feudalismo. Marca o começo do fim da servidão no país, com a luta por reformas e pelos direitos dos servos.

Também conhecida como Rebelião de Tyler, teve lugar durante a Guerra dos Cem Anos e não foi apenas a insurreição mais amplamente difundida e radical da história inglesa, como também a mais bem documentada rebelião popular do Medievo. Os nomes dos seus principais líderes - John Ball, Wat Tyler e Jack Straw - ainda são lembrados embora pouco se saiba sobre eles.

A revolta foi despoletada em parte devido à introdução de um imposto pago por cabeça (poll tax) de um xelim por adulto, introduzido em 1377 como forma de financiar as campanhas militares no continente - uma continuação da Guerra dos cem anos, travada por Eduardo III.

Paralelamemte aos aspectos materiais em disputa, existia uma questão ideológica e religiosa: alguns pregadores lollardos estavam ligados à revolta.

O neto de Eduardo, Ricardo II, estava agora no trono, e sua presumida atuação tornou a revolta dos camponeses ainda mais memorável. O imposto era a última gota para os camponeses, que tinham sua remuneração fixa depois de muitos anos e eram proibidos de procurar trabalho noutros sítios, conforme a antiga lei senhorial de servidão. A peste negra tinha reduzido a força de trabalho e, num mercado livre, a remuneração do trabalho teria aumentado.

Em Junho de 1381, um grupo de pessoas comuns dos condados orientais ingleses marcharam em direcção a Londres. O mais estrondoso dos seus líderes era Walter ou "Wat" Tyler, líder do grupo oriundo de Kent. Quando os rebeldes chegaram a Blackheath, a 12 de Junho, o padre renegado lollardo John Ball pregou um sermão que incluiu a famosa questão que ecoou durante séculos "When Adam delved and Eve span, who was then the gentleman?" ("Nos tempos de Adão e Eva quem era o nobre senhor?").

Encorajados pelo sermão, no dia seguinte, os rebeldes atravessaram a Ponte de Londres até ao coração da cidade. Entrementes, os "Homens de Essex" tinham-se reunido com Jack Straw em Great Baddow e marcharam até Londres, chegando a Stepney.

Ao contrário do esperado, houve um ataque sistemático a apenas algumas propriedades, muitas delas associadas a João de Gaunt ou com a Ordem dos Hospitalários. Em 14 de Junho, supõe-se que eles se encontraram com o próprio rei e apresentaram-lhe uma série de exigências, incluindo a demissão de alguns dos ministros mais impopulares e a abolição efectiva do sistema feudal. Ao mesmo tempo, um grupo de rebeldes tomou a Torre de Londres, tendo provavelmente contado com a aquiescência para o efeito, e executaram sumariamente aqueles que ali se escondiam, como o Lorde Chanceler (o Arcebispo, Simon Sudbury, que estava particularmente conectado com o imposto) e o Lorde Tesoureiro (ministro das finanças). O Palácio Savoy, pertencente ao tio do rei, João de Gaunt, foi um dos edifícios de Londres destruídos pelos revoltosos. Ricardo II concordou, então, em introduzir reformas tais como rendas justas e a abolição da servidão.

Em Smithfield, no dia seguinte, seguiram-se novas negociações com o rei, mas nesta ocasião, o assassinato de Wat Tyler, apunhalado na presença do rei pelo próprio xerife de Londres, Walworth, levou à dispersão do grupo rebelde mais ligado a ele, pois outros grupos, inclusive o de John Ball, acreditando nos compromissos reais, já se haviam retirado.

A maioria dos líderes do movimento foi perseguida, capturada e executada, incluindo John Ball. No seguimento do colapso da revolta, as concessões do rei foram rapidamente revogadas e o imposto foi novamente introduzido.

Apesar do seu nome, a participação na revolta não se restringiu aos servos ou mesmo às classes baixas e embora os eventos mais significativos tenham tido lugar na capital, houve recontros violentos por todo o leste de Inglaterra. No entanto, os envolvidos logo se dispersaram nos meses que se seguiram.

Ainda que o movimento em geral seja considerado como um fracasso, teve êxito em mostrar aos camponeses que eles tinham algum valor e poder. Após a revolta, o termo poll tax não foi mais utilizado, ainda que os governos ingleses continuassem a coletar subsídios similares até o século XVII.

A Revolta camponesa de 1381 foi uma das numerosas revoltas populares da baixa Idade Média, na Europa, e um dos principais eventos da história da Inglaterra, sob o feudalismo. Marca o fim da escravidão no país, com a luta por reformas e pelos direitos dos escravos.



A Revolta de 1953 na Alemanha Oriental desenrolou-se em Berlim Oriental, em 16 de Junho de 1953 e prolongou-se até ao dia seguinte.


Memorial das vítimas da Revolta de 1953 em Berlim OrientalDepois da morte de Stalin, em 5 de Março de 1953, Lavrenti Beria anunciou uma amnistia política para cerca de um milhão de prisioneiros soviéticos.

Deu-se uma manifestação, ocorrida em 16 de Junho de 1953, e iniciativa de trabalhadores da construção na Stalinallee, na qual cerca de 40 operários se dirigiram para a sede do governo para reclamar o regresso às antigas normas e denunciar o aumento da cadência de 10% no volume e horas de trabalho sem compensação que foi estabelecido pelo governo da RDA; à chegada, o cortejo contava já com 2.000 pessoas entre as quais se infiltraram elementos da extrema-direita. Ao início da noite, um comunicado do governo informou que o governo iria rever a sua posição.

Tudo parecia terminar bem, quando um cartaz clandestino foi colocado e fez lançar palavras de ordem apelando a uma greve geral para o dia seguinte, e reclamando eleições livres e democráticas. No dia 17 de Junho uma imensa vaga de revolta ocorre em numerosas cidades da Alemanha Oriental, no sector soviético. Uma multidão de 60.000 pessoas atacou a polícia, e incendiou os jornais do regime comunista.

Foi o incêndio de um entreposto (a Columbushaus) e a implicação de trabalhadores vindos de Berlim Ocidental que fez com que Walter Ulbricht apelasse às tropas soviéticas para reprimir violentamente a sublevação, qualificada de «contra-revolucionária» e comandada, segundo a posição das autoridades leste-alemãs, pelos ocidentais.

A intervenção de uma coluna de tanques e carros de combate saldou-se por 153 vítimas mortais, e numerosos feridos. Os soldados eram obrigados a atirar sobre a multidão desarmada. Para escapar à repressão, a fuga era a única alternativa possível para os habitantes da zona de ocupação soviética. Dos 19 milhões de habitantes, mais de 3 milhões fugiram para o Oeste, antes da construção do muro de Berlim, iniciada em 13 de Agosto de 1961.

A repressão não provocou nenhuma reacção do Ocidente. As desordens pararam a partir de 23 de Junho, quando a SED anunciou a anulação da medida.

As autoridades comunistas iniciaram preventivamente a formação de uma milícia composta por voluntários de confiança, fiéis ao regime, a fim de evitar futuramente ter de recorrer aos serviços do exército soviético perante situações semelhantes.

As revoltas tiveram consequências na União Soviética, fazendo com que Lavrenti Beria fosse afastado em 26 de Junho da direcção do NKVD, preso e imediatamente executado por ordem de Nikita Khrouchtchev.



A Revolta de Nike (ou Motins de Nike) aconteceu no ano de 532 em Constantinopla durando cerca de uma semana. A revolta recebeu o nome de "Nika" porque houve uma duvida sobre que vencera a corrida de cavalos que tinha acontecido no hipodromo, "nika" era o cavalo favorito da população que havia ganhado a disputa por muito pouco, contudo o imperador Justiniano torcia para outro cavalo e declarou que o seu cavalo tinha vencido a disputa, a plebe enfurecida se rebelou e começou uma discução entre as varias classes socias, o que quase nunca acontecia devido ao fato de que a alta sociedade não se misturar com a plebe, o hipodromo era o lugar perfeito para que uma revolta contra os poderosos acontessece; Na realidade a revolta não se deu simplesmente por uma corrida de cavalos e sim por uma serie de motivos que já estavam acontecendo a muitos anos como a fome os impostos altissimos falta de moradia essas coisas que são de obrigação do governo.

Em Bizâncio, existiam organizações esportivas rivais, que defendiam suas cores no hipódromo, onde a rivalidade esportiva refletia divergências sociais, políticas e religiosas. Eram os Verdes, os Azuis, os Brancos e os Vermelhos. Esses grupos haviam se transformados em partidos políticos. Os Azuis reuniam representantes dos grandes proprietários rurais e da ortodoxia religiosa. Já os Verdes tinham, em suas fileiras, altos funcionários nativos das províncias orientais, comerciantes, artesãos e adeptos da doutrina monofisista.

Até então, os imperadores tinham tentado enfraquecer um grupo, apoiando o outro. Justiniano recusou essa solução, o que provocou a união dos Verdes e Azuis, que se rebelaram. A rebelião se propagou rapidamente por toda a capital e ganhou grandes proporções. A população queria uma diminuição dos altos impostos cobrados. Os rebeldes massacraram a guarda real e dominaram quase toda a cidade, proclamando um novo imperador. Diante da gravidade da situação, Justiniano ameaçou deixar o trono, mas foi chamado aos brios por sua mulher Teodora. A altiva imperatriz disse:

"Ainda mesmo que a fuga seja a única salvação, não fugirei, pois aqueles que usam a coroa não devem sobreviver à sua perda. Se quiseres fugir, César, foge. Tens dinheiro, teus navios estão prontos e o mar aberto. Eu, porém, fico. Gosto desta velha máxima: a púrpura é uma bela mortalha."


Diante disso, Justiniano decidiu reagir e encarregou o general Belisário de cercar o hipódromo e aniquilar os revoltosos. A revolta foi ferozmente reprimida pelo general, que, ao lado de seu exército, degolou mais de 30.000 pessoas. Esmagada a oposição, Justiniano pôde, a partir de então, reinar como um autocrata.



A revolta de Olhão, no contexto da chamada primeira invasão francesa, tem como particularidade ter sido a primeira das revoltas populares contra a ocupação francesa em que houve um real enfrentamento contra os invasores.

Cerca de duas dezenas de soldados franceses deram entrada no lugar de Olhão no dia 14 de Abril de 1808. Os editais de Junot começam então a ser publicados, com prejuízos drásticos sobre uma população que vivia essencialmente do mar. Entre vários vexames sofridos, o Compromisso Marítimo de Olhão foi obrigado a cobrar aos pescadores para que pudessem ir ao mar. Estes também estavam sujeitos ao pagamento dum imposto para se dirigirem à costa de África, que costumavam frequentar. Qualquer contrabando estava expressamente proibido, condenando-se à pena de morte quem infringisse a medida. Quem quisesse sair do Algarve e quem tivesse bens tinha que pagar outros tributos. Como se não bastasse, os franceses roubaram ainda toda prata que constava na sua Igreja.

Apesar de o príncipe regente D. João ter decretado aos portugueses para não se rebelarem contra o invasor (antes de partir com a sua família para o Brasil), todas estas afrontas começavam a fazer fervilhar nos olhanenses sentimentos hostis aos franceses, ao ponto de estes, em Faro, se queixarem daqueles pescadores (que aí tinham de se dirigir para contribuir para o então chamado prato do governador francês), dizendo que os olhanenses eram "má gente", porque nunca olhavam para eles, franceses, com olhos direitos... O sentimento de revolta – aliás, praticamente geral em todo o Algarve – foi crescendo à medida que os franceses pressionavam e saqueavam o povo.

Tal "má gente" teria sido facilmente excitada, um pouco mais adiante, com as notícias dos motins dos vizinhos espanhóis. Napoleão traíra a família real espanhola, fazendo-a abdicar do seu poder a favor de José Bonaparte, irmão do imperador francês. Em Maio de 1808, o povo espanhol começara a revoltar-se contra esta medida. Em finais do mesmo mês, o alastrar desses motins chegara à Andaluzia, criando-se em Sevilha uma Suprema Junta de Governo que, a 6 de Junho, declarara guerra à França. Começaram então a desembarcar os primeiros auxílios de tropas inglesas em Sevilha.

No mesmo dia 6 de Junho, tendo conhecimento do que se está passando em Espanha, o general espanhol Domingo Belesta, destacado para o Porto, decide prender o general francês Quesnel e entregar o poder à Junta Governativa portuguesa formada na ocasião. No dia seguinte, ao ver hastear a bandeira nacional, os portuenses excitam-se, embora as próprias autoridades portuguesas tentem acalmar os ânimos mais exaltados. Não obstante, o sucesso maior deste levantamento foi a sua rápida divulgação, o que originará várias insurreições ao longo de todo o país, nos dias seguintes, sobretudo no norte do país. A notícia acabará mesmo por chegar ao Algarve, através de dois barcos de pesca vindos do Porto.

Fermentação dos ânimos (12 de Junho de 1808)

Seria com um estado de ânimo levantado, graças ao conhecimento deste conjunto de novidades, que a população de Olhão festejou a noite de 12 de Junho, véspera do dia de Santo António. Nesse dia, o escrivão do Compromisso Marítimo, João da Rosa, ao preparar o altar de Nossa Senhora da Conceição (privativo do Compromisso) na Igreja Matriz, para a celebração do dia seguinte, destapou o escudo das armas reais portuguesas que encimava o altar. Era uma clara desobediência às ordens de Junot, que proibira qualquer ostentação dos símbolos da soberania da monarquia portuguesa. Em Olhão, talvez não despropositadamente, o escudo real da aludida capela tinha sido tapado com um painel daquela que, desde o início da dinastia da Casa de Bragança, era a padroeira de Portugal, Nossa Senhora da Conceição. Nessa mesma noite os olhanenses deram-se conta de que os símbolos reais estavam ao descoberto, manifestando o seu júbilo e gritando vivas à família real entre as cantigas dedicadas a Santo António.

Festa de Santo António (13 de Junho de 1808)

Pela manhã, o povo de Olhão chega à Igreja Matriz para celebrar a missa de Santo António e, tornando a ver as armas reais destapadas, ganha coragem para hastear a bandeira portuguesa nas suas embarcações. Apesar de no lugar estar presente uma guarnição francesa, não há qualquer informação que registre que esta tenha tentado demover a excitação do povo. Perante a euforia geral, talvez os franceses, em número bastante reduzido, preferissem evitar conflitos que pudessem pôr em risco a sua própria vida, esperando que os ânimos acalmassem.

De facto, os olhanenses ter-se-iam aquietado nos dias seguintes, provavelmente devido ao retomar dos seus afazeres habituais.

Início da revolta (16 de Junho de 1808)

O dia 16 de Junho de 1808 coincidiu com uma quinta-feira de Corpo de Deus. Mais uma vez, é junto à Igreja Matriz que os ânimos se acendem. Dirigindo-se à missa, para celebrar essa festa de cariz obrigatório para qualquer católico praticante, o povo de Olhão, pelas dez e meia da manhã, deparou-se com um papel afixado na igreja. Era um edital de Junot datado de 11 de Junho, o qual aplaudia a pacífica mansidão dos soldados portugueses, convidando-os a se juntarem aos franceses contra a Espanha, então já sublevada (ver Edital de Junot de 11 de Junho de 1808).

Esperando pela missa, o povo apinha-se no adro da igreja. Entretanto, chega o coronel José Lopes de Sousa, que estava em Olhão desde que tinha preferido destituir-se do seu cargo de governador de Vila Real de Santo António e, assim, não servir os franceses. Quis vir, talvez por isso, para o “lugar sem mando” que então era Olhão, segundo expressão de João da Rosa. Ao ver o edital, José Lopes de Sousa rasga-o e brada ao povo que já não havia portugueses e homens marítimos como os de antigamente, ao que os olhanenses lhe respondem que o eram, e que estavam dispostos a demonstrá-lo. Elegeram então o coronel como seu chefe, e sob o seu comando aprisionaram 58 militares franceses que estavam no local, fora uns quantos que conseguiram fugir.

No meio do alvoroço provocado por estes acontecimentos quase espontâneos, José Lopes de Sousa não perdeu tempo em organizar a defesa daquele sítio. Enviou por isso vários pescadores em direcção a dois fortes que existiam na entrada da ria, defronte ao lugar de Olhão, com o objectivo de regressarem com armas e munições. Em terra, segundo João da Rosa, “era tanta alegria e prazer que havia” entre os que aí ficaram, que todos (entre homens, mulheres, rapazes e raparigas, e até os padres que aí se encontravam para celebrarem esse dia sagrado) começaram a pegar as armas que tinham: forcados, fisgas, besteiros, espadas velhas, paus e pedras... O armamento não era muito nem dos melhores, mas era o que havia à mão, e assim, “todos unidos a uma voz e a uma vontade”, estavam dispostos a todos os perigos e a morrer pela liberdade e pela família real. Entretanto, os sinos da igreja não paravam de tocar, atraindo e convocando assim mais população, vinda dos campos vizinhos a Olhão.

Por se ver desprovido de grandes meios para defender um provável ataque francês a Olhão, José Lopes de Sousa enviou uma embarcação ao encontro de uma armada inglesa que estava ancorada próximo da foz do rio Guadiana, para lhe participarem todos estes movimentos e pedirem armamento. O auxílio dos nossos aliados foi nulo, mas quis o acaso que nessa mesma armada se encontrasse o capitão Sebastião Martins Mestre, da cidade de Tavira, que aí se encontrava com o mesmo objectivo dos olhanenses. Assim que se deu conta do que estava a acontecer em Olhão, Sebastião Martins Mestre uniu-se a essa causa, onde acabará por ter um papel bastante importante, que começará ao conseguir com que as autoridades de Ayamonte, para onde se dirigiu (juntamente com os marítimos olhanenses), lhe fornecessem 130 espingardas.

Estas armas chegam ao lugar de Olhão no dia 17 à noite. Segundo João da Rosa, ao se entregarem as espingardas ao povo, “todos ficaram muito contentes e fortes, como se estivessem na melhor praça de armas das mais fortes que houvesse no mundo”. Não se deve esquecer que até aí, o lugar de Olhão se achava “sem armas e no meio de duas cidades inimigas [Faro e Tavira] que lhe não podiam valer, ainda por via da muita tropa francesa que estava nelas”.

Reação dos franceses em Faro (16 e 17 de Junho de 1808)

Ainda no dia 16 os franceses instalados em Faro souberam da incipiente revolta dos olhanenses. Mr. Goguet, o corregedor mor francês, ordenou então a um major português, Joaquim Filipe de Landerset, que com a sua influência sossegasse os revoltosos. Mas este esquivou-se a tal resolução, com palavras patriotas que rapidamente se terão espalhado entre a população farense.

No dia seguinte, novos pormenores da revolta olhanense chegam a Faro, por via dum pescador olhanense, Domingos Gonçalves Encharroco. Por se encontrarem em número reduzido, os franceses chamaram vários farenses reputados para irem tranquilizar os olhanenses, manobra esta que era só para os franceses ganharem tempo e precaverem-se com reforços. De facto, já tinha sido ordenado a uma parte dos militares franceses que estavam em Tavira e Vila Real de Santo António para que se dirigissem para Faro, a fim de, uma vez reunidos, atacassem o lugar de Olhão. Tais medidas justificavam-se, pois Faro contaria apenas com um regimento de duzentos soldados franceses, e o general Maurin estava enfermo.

No resto do Algarve estavam cerca de setecentos militares franceses, a maior parte dos quais concentrada junto à fronteira espanhola, pelo receio da vizinhança da armada inglesa ancorada na foz do Guadiana, a tal a que os olhanenses e Sebastião Martins Mestre tinham ido pedir ajuda.

Vitórias dos olhanenses (18 de Junho de 1808)

No dia 18 pela manhã, os pescadores olhanenses tiveram conhecimento de que três embarcações vindas de Tavira, levando a bordo soldados franceses e despojos de guerra, se dirigiam “em socorro das tropas francesas que se achavam em Faro, que tinham medo que os filhos de Olhão os fossem atacar a Faro”, segundo João da Rosa. Em plena ria, a sul do lugar de Olhão, os franceses são surpreendidos por alguns marítimos armados, comandados pelo capitão Sebastião Martins Mestre. Tomados por simples pescadores, os olhanenses ter-se-ão subitamente apoderado dos barcos, aprisionando oitenta e um militares franceses e todas as suas bagagens. Entre as apreensões, e para além das armas e munições que, somadas às que já tinham, viriam a ser muito úteis, havia correspondência, onde descobriram as intenções dos franceses de “virem arrasar Olhão e passarem tudo a espada”, como conta João da Rosa.

No entanto, segundo o mesmo, ao povo de Olhão “nada disto lhe metera medo, antes lhe meteu mais ânimo”, e assim, quando chega a notícia de que, por volta do meio-dia, tropas francesas tinham passado Moncarapacho, seguindo o antigo caminho de Tavira para Faro por terra, decidem os olhanenses ir esperá-los à ponte de Quelfes (entre Moncarapacho e Olhão).

Aí, aproveitando o factor surpresa, o povo esperava um contingente de 185 militares franceses. Ainda que se desconheça o número exacto de marítimos do lugar de Olhão e de gente do campo que aí acorreu, e mesmo que suponhamos que fosse em número maior do que o dos franceses, provavelmente estes últimos estavam em aparente vantagem. Na verdade, José Lopes de Sousa, mais tarde, vai afirmar que “o povo influído” correu a atacar o inimigo, “apesar da desigualdade em armas e poucas munições”. O mesmo governador adiantará ainda, em documento datado de 29 de Setembro de 1808, que Sebastião Martins Mestre atacou os franceses “com muito menos número de paisanos, e só socorridos com seis cartuxos cada um, por não haver mais”. Os revoltosos denunciaram-se demasiado cedo, dado o seu nervosismo e inexperiência nas artes da guerra, o que provocou a debandada dos franceses pelos campos. Não obstante, o povo que aí acudira perseguiu os franceses do sítio do Joinal à Meia Légua, matando pelo caminho 18 soldados franceses (alguns ocultados pelos próprios franceses) e outros 12 feridos.

Entretanto, o general e estratega José Lopes de Sousa não se tinha dirigido à ponte de Quelfes, pois segundo as suas palavras, decidira ir (certamente não sozinho) “suster os inimigos que constava virem de Faro” com o recurso de uma peça de campanha. É possível que tenha estacionado no sítio da Meia Légua (entre Olhão e Faro). A pouca distância, vindos em sentido contrário, cerca de cinquenta soldados franceses acamparam na Quinta do Rio Seco, com ordens para não deixarem unir os povos de Olhão e Faro. A essa artilharia teriam ido pedir ajuda as tropas de Junot fugidas dos confrontos da ponte de Quelfes. No entanto, nessa zona se dá um novo combate, e o resultado é ainda mais negro para os franceses: 25 homens mortos, sendo que 16 foram abandonados no campo, com mochilas, munições e pólvora. Do lado português houve também algumas baixas, mas segundo os vários relatos da época, muito menos do que no lado francês.

Temendo uma esperada reacção da parte dos franceses, o coronel José Lopes de Sousa e o capitão Sebastião Martins Mestre (ferido no peito, nos confrontos da Meia Légua, “enquanto inspirava valor e reunião possível em uma gente maruja estranha em tais empresas, mas valorosos, a quem as mesmas mulheres davam o exemplo”, como contará José Lopes de Sousa), embarcam nessa mesma noite em direcção a Ayamonte para pedirem ajuda, e para tentarem deixar lá os soldados franceses que tinham sido aprisionados. Conscientes dos perigos para os quais se arriscavam, os pescadores olhanenses dormiram essa noite na ria, nas suas embarcações, ficando em terra apenas alguns homens armados.

O povo farense finalmente une-se à causa olhanense (19 de Junho de 1808)

A manhã do dia 19 de Junho caracterizou-se pela chuva de apelos e editais com que os franceses procuravam pacificar os olhanenses. Na verdade, essas mensagens eram, mais uma vez, um estratagema francês para ganhar tempo, pois de Mértola se dirigia para Tavira (e daí para Faro) um batalhão inimigo, cujo objectivo era o fortalecimento da unidade que estava na capital algarvia.

Várias são as versões que narram esses diversos apelos, mas centrar-nos-emos, mais uma vez, em João da Rosa, que conta de forma caricata um dos episódios desse dia: Depois de ver como os seus soldados chegavam “estropiados” a Faro, devido aos confrontos do dia anterior, o general Maurin (então enfermo, preso à cama) envia o seu irmão que, através de um hortelão farense, faz passar uma mensagem aos olhanenses, na qual prometia-lhes perdão e benefícios, em troca da pacificação. A resposta, por escrito do padre António de Matos Malveiro, “que era o primeiro que se achava em tudo o que era preciso”, e que tinha ficado no comando das operações, na ausência de Lopes de Sousa e Martins Mestre, foi dada pelo próprio “povo todo junto, a uma só voz”:

“Que não queriam reconhecer o Bonaparte por seu Rei, senão o príncipe D. João de Portugal e mais toda a família real. E que não se queriam entregar, nem queriam seus privilégios nem suas dádivas, que pelo seu príncipe estavam prontos até à última pinga de sangue do seu corpo. Se queria guerras, que eles estavam prontos no campo. Que viesse [o irmão de Maurin] mais todos os franceses e todo Faro que estavam prontos para tudo”.

A firmeza dos olhanenses faria suspeitar aos franceses que os ingleses já se encontravam desembarcados em Olhão, suspeitas estas, aliás, fundamentadas em falsos boatos que as mulheres olhanenses faziam passar em Faro e que os próprios espiões farenses ouviam em Olhão. O temor provocado por estes rumores já era tanto que os militares franceses viam canos de espingardas inglesas no próprio brilho provocado pelo orvalho matinal nas piteiras que se encontravam à entrada de Olhão… Os barcos em linha, dentro dos quais muitos olhanenses dormiram nessa noite, como atrás ficou referido, faziam lembrar uma esquadra inglesa, e as próprias mantilhas vermelhas que usavam as mulheres dos pescadores também contribuíram para o aflorar do pânico dos franceses, pois essa era a cor de alguns regimentos britânicos.

Vendo que as tropas auxiliadoras vindas de Mértola tardariam pelo menos mais um dia a chegarem a Faro, já quase tudo parecia perdido para os franceses. Mas, qual cão que ladra não morde, fizeram passar aos olhanenses, através de alguns nobres farenses, um derradeiro ultimato aos olhanenses para se apaziguarem. Entre os farenses se encontrava, contrafeito, o major Landerset, ao qual já se aludiu, e que aí se tinha dirigido como mero tradutor, como bem deixou expresso. Os franceses diziam que queriam paz com os olhanenses, e estavam dispostos a assinar um tratado de pacificação no dia seguinte, com as condições que os olhanenses determinassem. Em caso contrário, seriam os olhanenses “todos passados a espada e Olhão arrasado para memória das mais terras”, como diz João da Rosa. Mais uma vez, e segundo o mesmo, a resposta dos olhanenses aos franceses foi “que não cediam, pois que tinham muita gente, pólvora e bala para os abraçar a todos”.

Nisto, eis que subitamente chega à quinta do Rio Seco (perto da Meia Légua, entre Faro e Olhão), onde estas conversações se realizavam, um soldado francês a cavalo, avisando que pelas três e meia da tarde tinha rebentado um levantamento em Faro. Landerset, entendendo o que este francês comunicava aos seus companheiros, diz aos olhanenses para resistirem a todas as propostas do inimigo, pois já não estavam sozinhos na sua luta.

Todos os franceses que aí se encontravam retiraram-se então para Faro, tentando abafar a revolta, mas já era tarde de mais. Aí, incentivados pelo toque dos sinos da Igreja do Carmo, tinham os habitantes começado a se reunir, estalando a revolta seguidamente, tendo como resultado o aprisionamento de cerca de 170 franceses, incluindo o general Maurin. Parte dos franceses que conseguem fugir dispersa-se pelos campos, passando nessa noite ao largo do lugar de Olhão, “desviados deste lugar, perdidos por essas fazendas com medo que tinham da gente de Olhão, não tomando estradas direitas toda a noite, e deixando por cima deste lugar (...) um obus e mais uma peça, tudo encravado em muita pólvora encramalhada por essas estradas”, como refere João da Rosa.

Entretanto, a notícia do levantamento de Olhão tinha-se espalhado de tal forma por todo a província algariva, que logo no dia 23 de Junho, “se deitaram as tropas francesas fora deste reino do Algarve, ficando livre desta maldita nação”, segundo o mesmo escrivão do Compromisso.

Na sequência destes eventos, alguns pescadores de Olhão voluntariam-se para ir contar ao príncipe regente D. João a novidade da expulsão dos franceses do Reino do Algarve. Embarcando num pequeno caíque chamado Bom Sucesso no dia 7 de Julho, chegaram ao outro lado do Atlântico no dia 22 de Setembro, onde foram recebidos pela população do Rio de Janeiro e pelo próprio monarca com a maior da alegria e grande espanto. O futuro D. João VI condecora então os olhanenses com várias benesses económicas e cargos militares e civis. Mas não se ficaria por aqui: Como o próprio monarca reconheceu através dum Alvará Régio de 15 de Novembro de 1808, a revolta de Olhão foi "o primeiro sinal para se restaurar a Monarquia", elevando por isso o lugar a vila, nomeada agora de Vila de Olhão da Restauração, “e que tenha, e goze de todos os Privilégios, Liberdades, Franquezas, Honras e Isenções, de que gozam as Vilas mais Notáveis do Reino”. Para além disto, o príncipe permitia “que os Habitantes dela usem de uma Medalha, na qual esteja gravada a letra – O – com a legenda – Viva a Restauração e o Príncipe Regente Nosso Senhor”.



A Batalha de Iwo Jima (Operação Detachment) foi travada entre os Estados Unidos e o Japão, entre fevereiro e março de 1945, durante a Guerra do Pacífico, na Segunda Guerra Mundial. Como resultado da batalha, os EUA ganharam controle da ilha de Iwo Jima e os campos aéreos localizados nessa mesma ilha.

Nos primeiros dias de 1945, o Japão viu-se à beira de uma possível invasão pelas forças Aliadas. Bombardeamentos diários na ilha principal eram originários das ilhas Marianas, numa operação com o nome de Scavenger. Iwo Jima servia como uma estação de alerta, que reportava movimento aéreo de volta para a ilha principal do Japão. Quando os bombardeiros Aliados chegavam às cidades Japonesas, as defesas antiaéreas já estariam aguardando por eles.

No fim da Batalha do Golfo de Leyte nas Filipinas, os Aliados tinham ficado com dois meses de atraso em suas operações. O plano anterior, a invasão de Okinawa, não era mais aceitável. Mas mesmo assim, a decisão de invadir Iwo Jima foi tomada. A invasão foi chamada de Operação Detachment.

As defesas estavam prontas. A ilha era defendida por 22.000 soldados e estava fortificada com uma rede de bunkers e túneis. O alvo da defesa de Iwo Jima era causar muitas baixas nas forças aliadas e desanimar a invasão da ilha principal. Era esperado que cada soldado morresse pela defesa da pátria, levando 10 soldados inimigos no processo.

Os aliados não queriam apenas Iwo Jima para neutralizar a ameaça aos seus bombardeiros e navios de carga, mas também para usar os seus campos aéreos para bombardeamento e aterragens de emergência. Em 19 de Fevereiro de 1945 iniciaram um massivo bombardeamento aéreo e naval de três dias na ilha.

Mesmo antes da Queda de Saigon em Junho de 1944, os estrategistas japoneses sabiam que Iwo Jima teria de ser reforçada materialmente caso fosse para ser mantida durante algum tempo, e preparações começaram a ser efetuadas para enviar um grande número de homens e grandes quantidades de material para a ilha. Em finais de Maio, o tenente-general Tadamichi Kuribayashi foi chamado ao escritório do Primeiro Ministro, general Hideki Tojo, que informou que o general havia sido escolhido para defender Iwo Jima até ao fim. A Kuribayashi foi indicada a importância da sua missão, a Tojo coube apontar os olhos da nação inteira, que estariam focados na defesa de Iwo Jima. A 8 de Junho de 1944, Kuribayashi estava a caminho da sua missão final, determinado a converter Iwo Jima numa fortaleza invencível.

Quando chegou, estavam cerca de 80 caças colocados em Iwo Jima, mas por volta de inícios de Julho restavam apenas quatro. Uma força da Marinha dos Estados Unidos apareceu perto da ilha e sujeitou os japoneses a um bombardeamento naval durante dois dias. Este bombardeamento destruiu todos os edifícios na ilha, bem como os quatro aviões restantes.

A grande surpresa para a guarnição japonesa em Iwo Jima, uma invasão norte-americana da ilha, não se deu durante o verão de 1944. Existiam poucas dúvidas quanto aos norte-americanos serem compelidos a atacar a ilha em curto tempo. O general Kuribayashi estava determinado, mais que nunca, a aumentar o custo da tomada de Iwo Jima quando os invasores atacassem. Sem apoio naval ou aéreo, chegou-se rapidamente à conclusão que a ilha não poderia ser indefinidamente mantida pelas forças japonesas, contra um invasor com supremacia aérea e naval.

Como um primeiro passo para preparar Iwo Jima para uma defesa prolongada, o comandante da ilha ordenou a evacuação de todos os civis. Este passo foi terminado no final de Julho. Em seguida veio um plano geral para a defesa da ilha. O tenente-general Hideyoshi Obata, comandante-geral do 31º Exército, tinha anteriormente, em 1944, sido responsável pela defesa de Iwo Jima, antes do seu retorno para as Marianas. Nesse tempo, e com fé na doutrina que a invasão tinha praticamente de ser travada na borda da água, Obata tinha ordenado a colocação de artilharia e a construção de bunkers perto das praias. O general Kuribayashi tinha ideias diferentes. Em vez de um esforço fútil para manter as praias, Kuribayashi planejou defender essas mesmas com um sistema de fogo cruzado fornecido por armas automáticas e infantaria. Artilharia, morteiros e foguetes seriam posicionados nas encostas do Monte Suribachi, tal como noutros terrenos altos ao norte do campo aéreo de Chidori.

A defesa prolongada da ilha requisitava a preparação de um extensivo sistema de cavernas e túneis, pois o bombardeamento naval tinha claramente mostrado que as instalações à superfície não poderiam agüentar um bombardeamento extensivo. Para este objetivo, engenheiros especializados em minas foram enviados do Japão para desenhar as plantas para fortificações subterrâneas projetadas que iriam consistir de túneis elaborados em níveis variados para garantir uma boa ventilação e minimizar os efeitos das bombas que explodissem perto das entradas ou saídas.

Ao mesmo tempo, reforços estavam gradualmente começando a alcançar a ilha. Como comandante da 109º Divisão de Infantaria, o general Kuribayashi decidiu antes de mais nada, desviar a 2ª Brigada Mista Independente, consistindo de cerca de cinco mil homens sob o comando do major-general Kotau Osuga, de Chichi para Iwo. Com a queda do Saigon, 2.700 homens do 145º Regimento de Infantaria, comandados pelo Coronel Masuo Ikeda, foram revertidos para Iwo Jima. Estes reforços, que chegaram à ilha durante Julho e Agosto de 1944, trouxeram a força na guarnição até aproximadamente 12.700 homens. Em seguida chegaram 1.233 membros do 204º Batalhão de Construção Naval, que rapidamente começaram a construção de posições para metralhadoras de betão e outras fortificações.

A 10 de Agosto de 1944, o vice-almirante Toshinosuke Ichimaru chegou a Iwo Jima, sendo seguido de uma equipe naval de 2.216 homens, incluindo aviadores e equipes de solo. O almirante, um aviador japonês de renome, tinha ficado gravemente ferido numa queda de avião no meio dos anos vinte e, desde o início da guerra, tinha ficado repetidamente no comando de missões atrás das linhas da frente.

Os reforços seguintes a chegar a Iwo Jima foram equipes de artilharia e cinco batalhões anticarro. Embora numerosos navios em rota a Iwo Jima fossem afundados por submarinos e aviões norte-americanos, quantidades substanciais de material chegaram a Iwo Jima durante o Verão e Outono de 1944. Pelo final do ano, o general Kuribayashi tinha disponível 361 peças de artilharia de 75 mm ou de calibre maior, uma dúzia de morteiros de 320 mm, 65 morteiros médios (150 mm) e ligeiros (81 mm), 33 armas navais de 80 mm ou de maior calibre, e 94 armas antiaéreas de 75 mm ou maior. Em adição a este formidável arsenal de armas de alto calibre, as defesas de Iwo Jima tinham ainda mais de duas centenas de armas antiaéreas de 20 mm e de 25 mm, e 69 armas anti-carro de 37 mm e 47 mm. O poder de fogo da artilharia era ainda complementado por uma variedade de rockets, desde do tipo de 203 mm que pesava 90 kg e que tinha um alcance até 2–3 km, até a um projétil gigante de 250 kg que tinha um alcance de mais de 7 km. No total, 70 rockets e as suas equipes chegaram a Iwo Jima.

De modo a aumentar ainda mais a força das defesas de Iwo Jima, o 26º Regimento de Carros de Combate, que tinha sido posicionado em Pusan, na Coreia, após ter servido na Manchúria, recebeu ordens para ser colocada em Iwo Jima. O comandante do regimento era o Tenente-Coronel Barão Takeichi Nishi. O regimento, constituído por 600 homens e 28 carros de combate, partiu do Japão em meados de Julho, a bordo do Nisshu Maru. Ao navio, a navegar num comboio naval, se aproximou de Chichi Jima a 18 de Julho de 1944, foi afundado pelo submarino norte-americano USS Cobia. E embora apenas dois dos membros do 26º Regimento de Carros de Combate tivessem sido afundados, todos os 28 carros de combate do regimento foram afundados no mar. Seria apenas antes de Dezembro que estes carros de combate poderiam ser substituídos, mas 22 carros de combate novos finalmente chegaram a Iwo Jima.

Inicialmente, o Coronel Nishi tinha planejado empregar os seus blindados como um tipo de "brigada móvel de fogo", que seria empregada em alguns pontos importantes do combate. O terreno acabou por dificultar tal emprego, e no fim, sob o comando do Coronel, os tanques foram colocados em posições estáticas. Sendo ou enterrados, ou tendo a sua torre desmontada e com toda a habilidade posicionada no terreno rochoso onde era praticamente invisível do ar tal como do solo.

Os japoneses rapidamente descobriram que a cinza preta vulcânica que existia em abundância em toda a ilha poderia ser convertida em betão de alta qualidade quando misturada com cimento. Bunkers e posições para metralhadoras foram construídas em betão reforçado perto das ilhas a norte do Monte Suribachi, muitos destes tendo paredes com 1 metro de espessura. Ao mesmo tempo, um sistema elaborado de cavernas, casas fechadas de betão, e bunkers tinham sido terminados. Um dos resultados dos ataques aéreos e dos bombardeamentos navais norte-americanos anteriormente em 1944 foi de conduzir os japoneses para o subterrâneo, que eventualmente as suas defesas ficaram virtualmente imunes tanto ao bombardeamento aéreo, como ao naval.

Enquanto os japoneses na Ilha de Peleliu nas Carolinas do Oeste, também à espera de uma invasão norte-americana, tinham transformado as cavernas naturais numa arte, os defensores de Iwo Jima tinham desenvolvido as suas cavernas numa ciência. Devido à importância das posições subterrâneas, 25% da guarnição estava colocada a trabalhar nos túneis. As posições construídas no subterrâneo tinham passado de cavernas pequenas, a câmaras que podiam abrigar de 300 a 400 homens. De modo a prevenir que os homens ficassem presos numa eventual derrocada em qualquer escavação, as instalações subterrâneas foram providenciadas com múltiplas entradas e saídas, tal como escadas e passagens interligadas. Especial atenção teve de ser dada para fornecer ventilação adequada, visto que fumos de enxofre estavam presente em várias instalações subterrâneas. Felizmente para os japoneses, a maioria das pedras vulcânicas em Iwo Jima eram tão suaves que podiam ser cortadas com ferramentas de mão.

O general Kuribayashi estabeleceu o seu posto de comando na parte norte da ilha, a cerca de 500 m a nordeste da vila de Kita e a sul do Ponto de Kitano. Esta instalação, a 20m de profundidade, consistia de cavernas numa variedade de tamanhos, ligados por 150m de túneis. Aqui o comandante da ilha tinha o seu próprio gabinete de guerra numa de três câmaras de betão; as outras duas câmaras semelhantes eram utilizadas pela sua equipe. Ao sul, na Montanha 382, o segundo ponto mais alto da ilha, os japoneses construíram uma estação de rádio e de meteorologia. Próxima, numa elevação apenas a sudeste da estação, uma enorme casa fechada foi construída para servir como quartel-general do Coronel Chosaku Kaido, que comandava a artilharia em Iwo Jima. Outras montanhas na porção mais a norte da ilha foram escavadas. Todas estas enormes escavações tinham múltiplas entradas e saídas e eram virtualmente invulneráveis a danos de artilharia ou bombardeamento aéreo. Típico da força empregada na construção das defesas subterrâneas era o principal centro de comunicações a sul da vila de Kita, que era tão espaçoso que continha uma câmara de 50 metros de comprimento e 20 metros de largura. Esta estrutura gigante era semelhante na construção e na espessura das paredes e do teto ao posto de comando do general Kuribayashi.

Talvez o projeto de construção mais ambicioso a ser realizado tenha sido a criação de uma passagem subterrânea desenhada, a ligar todas as principais instalações de defesa na ilha. Como projetada, esta passagem teria alcançado um total, em comprimento, de 27 quilômetros. E caso tivesse sido completada, teria ligado todas as formidáveis instalações subterrâneas na porção norte de Iwo Jima com as a sul da ilha. Pela altura em que os fuzileiros norte-americanos desembarcaram em Iwo Jima, mais de 18 quilómetros de túneis tinham sido completados.

Um esforço enorme foi necessário, por parte dos japoneses colocados no trabalho das construções subterrâneas. Além do trabalho físico pesado, os homens estavam expostos a temperaturas de 30~50 °C, tal como aos fumos de enxofre que os forçavam a utilizar mascaras de gás. Em várias estâncias um trabalhador tinha de ser substituído apenas após cinco minutos de trabalho. Quando ataques aéreos norte-americanos foram lançados contra a ilha a 8 de Dezembro de 1944 e tornaram-se uma ocorrência diária até à data da invasão da ilha, um grande número de homens teve de ser retirado do trabalho subterrâneo para reparar os campos aéreos danificados.

Enquanto Iwo Jima estava a ser convertida numa fortaleza a toda a velocidade possível, o general Kuribayashi formulou o seu plano final para a defesa da ilha. Este plano, que era uma radical mudança das táticas defensivas utilizadas pelos japoneses no início da guerra, providenciou os seguintes pontos de maior importância:

1. De modo a prevenir a revelação das suas posições aos norte-americanos, a artilharia japonesa tinha ordens para estar em silêncio durante o bombardeamento esperado, precedente ao desembarque. Nenhum bombardeamento seria direccionado contra os navios norte-americanos.

2. Após o desembarque em Iwo Jima, os norte-americanos não deveriam encontrar oposição nas praias.

3. Uma vez que os norte-americanos tivessem avançado cerca de 500 metros na terra, seriam colocados debaixo de fogo concentrado de armas automáticas posicionadas perto do campo aéreo de Motoyama a norte, tal como de armas automáticas e de posições de artilharia, ambas nos terrenos altos ao norte das praias onde desembarcaram os invasores e no Monte Suribachi no sul.

4. Após infligir o máximo possível de baixas e de danos na força terrestre, a artilharia era para ser recolocada em terreno alto perto do campo aéreo de Chidori.

Em ligação a isto, Kuribayashi indicou mais uma vez que tinha planejado conduzir uma defesa elástica designada a gastar a força invasora. Tal resistência prolongada naturalmente necessitava de um depósito de rações e de munição. Para este fim o comandante da ilha acumulou uma reserva de comida para durar durante dois meses e meio, tendo sempre em mente que o fornecimento de mantimentos estavam a ter cada vez mais problemas em chegar a Iwo Jima durante o final de 1944, e que esses mesmos mantimentos parariam de chegar ao mesmo tempo, finalmente, a ilha ficasse cercada por uma força naval hostil.

Embora o assédio intermitente dos submarinos e aviões norte-americanos, pessoal adicional continuou a chegar a Iwo Jima até Fevereiro de 1945. Nessa altura, o general Kuribayashi já tinha sob o seu comando uma força que totalizava entre 21 mil e 23 mil homens, incluindo ambas unidades do Exército e da Marinha.

O general Kuribayashi efetuou várias alterações no seu plano de defesa básico nos meses precedentes à invasão norte-americana de Iwo Jima. O estratagema final, que tornou-se efetivo em Janeiro de 1945, chamava pela criação de fortes, e mutuamente apoiantes posições que seriam defendidas até à morte. Quer contra-ataques em grande escala, quer retiradas, quer ataques banzai não foram contemplados. A parte ao sul de Iwo Jima na proximidade do Monte Suribachi foi organizada num semi-independente setor defensivo. Fortificações incluíam bunkers de artilharia costeira e de armas automáticas num mútuo suporte de fogo. O estreito ao norte de Suribachi seria defendido por uma pequena força de infantaria. Por outro lado esta área inteira estava exposta ao fogo da artilharia, lançadores de rockets, e morteiros posicionados em Suribachi ao sul e ao terreno elevado no norte.

Uma linha principal de defesa, consistindo de posições mutuamente a apoiarem-se, estendia-se desde a parte noroeste da ilha até ao sudoeste, ao longo de uma linha geral desde montanhas até ao noroeste, através do campo aéreo número 2 de Motoyama até à vila de Minami. Desde lá continuava em direcção a leste até à linha de água apenas a sul do Ponto de Tachiiwa. A linha inteira de defesa era dotada de bunkers. Os carros de combate estáticos do Coronel Nishi, enterrados e camuflados com todo cuidado, reforçavam ainda mais a área fortificada, ao qual a sua força era suplementada pelo terreno. Uma segunda linha de defesas estendia desde algumas centenas de quilómetros a sul do Ponto de Kitano até ao ponto distante no norte de Iwo Jima através do ainda não terminado campo aéreo número 3, até à vila de Motoyama, e depois até à área entre o Ponto de Tachiiwa e Basin Leste. Esta segunda linha continha menos fortificações construídas por homens, mas os japoneses tiraram o máximo de proveito das cavernas naturais e das cavernas de terreno.

Como um meio adicional à proteção dos dois campos aéreos terminados, em Iwo Jima, de assalto direto, os japoneses construíram um número de trincheiras anticarro perto dos campos e minaram todas as rotas naturais de aproximação. Quando, a 2 de Janeiro, mais de uma dúzia de bombardeiros B-24 Liberator atacaram o campo aéreo número 1 e infligiram danos pesados, Kuribayashi moveu mais de 600 homens, 11 caminhões e 2 bulldozers para reparações imediatas. Como resultado, o campo tornou-se novamente operacional apenas após 12 horas. Eventualmente, 2 mil homens foram colocados a encher as crateras causadas pelas bombas. No final de 1944 bombardeiros B-24 norte-americanos atacavam quase todas as noites a ilha. A 8 de Dezembro de 1944, aviões norte-americanos largaram mais de 800 toneladas de bombas em Iwo Jima, que fez poucos danos reais nas defesas da ilha. Embora os ataques aéreos frequentes interferissem com as preparações japonesas e rouba-se muito do descanso da guarnição, o progresso do trabalho não se tornou lento.

A 5 de Janeiro de 1945, o almirante Ichimaru realizou um briefing com o pessoal naval no seu posto de comando, no qual os informou da destruição da frota japonesa na Batalha do Golfo de Leyte, a perda das Filipinas, e a espera da invasão em breve da Iwo Jima. Exatamente um mês depois, os operadores de rádio japoneses começaram a reportar ao comandante da ilha que os sinais de código dos aviões norte-americanos tinham sofrido grandes alterações. A 13 de Fevereiro, um avião de patrulha naval japonês detectou 170 navios norte-americanos a se moverem a noroeste do Saigon. Todas as tropas japonesas nas Ogasawaras foram alertadas e ocuparam as suas posições de batalha. Em Iwo Jima, as preparações para a batalha esperada tinham sido completadas, e os defensores estavam prontos.

Em 7 de Outubro de 1944, o almirante Chester Nimitz e a sua equipe publicaram um estudo para planejamento preliminar, que claramente listava os objetivos da Operação Detachment. O principal motivo da missão da operação era o de manter pressão militar contra o Japão e o de estender o controle norte-americano ao Pacífico Oeste. Nas mãos norte-americanas, Iwo Jima poderia ser convertida numa base da qual poderiam ser lançados ataques aéreos contra as ilhas principais do Japão, proteger base nas Marianas, apoiar forças navais, conduzir operações de reconhecimento, e fornecer escolta através de caças a operações de longa distância. Três tarefas especialmente visionadas no estudo eram: a redução da força naval e aérea, e industrial no Japão; a destruição da força naval e aérea japonesa nas Ilhas Bonin, e a captura, ocupação, e subsequente defesa de Iwo Jima.

Dia-D

Às 02:00 da manhã de 19 de Fevereiro, navios de guerra assinalaram o início do Dia D. Em breve 100 bombardeiros atacaram a ilha, em seguida outra rajada de artilharia naval. Às 08:30, os primeiros dos eventuais 30.000 fuzileiros da 3ª, 4ª e 5ª divisão de fuzileiros, sobre a V Corporação Anfíbia, desembarcaram na ilha Japonesa de Iwo Jima, e a batalha pela ilha começou.

Os fuzileiros foram recebidos com fogo pesado proveniente da montanha de Suribachi, ao sul da ilha, e combateram em péssimo terreno; cinza vulcânica áspera que não permitia nenhum movimento seguro ou escavação de uma trincheira. Não obstante, por essa noite a montanha tinha sido cercada e 30.000 fuzileiros navais tinham desembarcado. Aproximadamente 40.000 mais estavam por vir.

O movimento acima de Suribachi foi combatido por cada metro. A artilharia era ineficaz contra os Japoneses, mas os atiradores, lança-chamas e granadas limpavam os bunkers. Finalmente, a 23 de Fevereiro, o cume foi alcançado. O fotógrafo Joe Rosenthal da Associated Press tirou a famosa foto "Raising the Flag on Iwo Jima" (Subindo a bandeira em Iwo Jima) da bandeira estado-unidense sendo colocada no cume da montanha.

Com a área de desembarque segura, mais Fuzileiros e equipamento pesado chegaram à costa e a invasão procedeu para norte, para capturar as bases aéreas e o resto da ilha. Com a sua bravura habitual, muitos soldados Japoneses combateram até à morte. De mais de 21.800 defensores, apenas 200 foram feitos prisioneiros.

As forças Aliadas sofreram mais de 26.000 baixas, com mais de 7.000 mortos. Mais de um quarto das Medalhas de Honra que foram atribuídas a fuzileiros durante a Segunda Guerra Mundial foram dadas pela sua conduta em Iwo Jima.

A ilha de Iwo Jima foi declarada segura em 26 de Março de 1945.

A marinha estado-unidense atribuiu o nome de USS Iwo Jima a vários barcos. Consultar USS Iwo Jima para detalhes.

O memorial da Corporação da Marinha, nos arredores de Washington, memoriza a todos os fuzileiros com uma estátua da famosa fotografia.



A Cabanagem (1835-1840) foi a revolta na qual negros, índios e mestiços se insurgiram contra a elite política e tomaram o poder no Pará (Brasil). Entre as causas da revolta encontram-se a extrema pobreza das populações ribeirinhas e a irrelevância política à qual a província foi relegada após a independência do Brasil.

De cunho popular, contou com a participação de elementos das camadas média e alta da região, entre os quais se destacam os nomes do padre João Batista Gonçalves Campos, do jornalista Vicente Ferreira Lavor Papagaio.

A denominação "Cabanagem" remete ao tipo de habitação da população ribeirinha, constituída por mestiços, escravos libertos e indígenas.

História

Após a Independência do Brasil, a Província do Grão-Pará mobilizou-se para expulsar as forças reacionárias que pretendiam manter a região como colônia de Portugal. Nessa luta, que se arrastou por vários anos, destacaram-se as figuras do cônego e jornalista João Batista Gonçalves Campos, dos irmãos Vinagre e do fazendeiro Félix Clemente Malcher. Formaram-se diversos mocambos de escravos foragidos e eram freqüentes as rebeliões militares. Terminada a luta pela independência e instalado o governo provincial, os líderes locais foram marginalizados do poder. A elite fazendeira do Grão-Pará, embora com melhores condições, ressentia-se da falta de participação nas decisões do governo central, dominado pelas províncias do Sudeste e do Nordeste.

Em julho de 1831 estourou uma rebelião na guarnição militar de Belém do Pará, tendo Batista Campos sido preso como uma das lideranças implicadas. A indignação do povo cresceu, e em 1833 já se falava em criar uma federação. O presidente da província, Bernardo Lobo de Sousa, desencadeou uma política repressora, na tentativa de conter os inconformados. O clímax foi atingido em 1834, quando Batista Campos publicou uma carta do bispo do Pará, Romualdo de Sousa Coelho, criticando alguns políticos da província. Por não ter sido autorizada pelo governo da Província, o cônego foi perseguido, refugiando-se na fazenda de seu amigo Clemente Malcher. Reunindo-se aos irmãos Vinagre (Manuel, Francisco Pedro e Antônio) e ao seringueiro e jornalista Eduardo Angelim reuniram um contingente de rebeldes na fazenda de Malcher. Antes de serem atacados por tropas governistas, abandonaram a fazenda. Contudo, no dia 3 de novembro, as tropas conseguiram matar Manuel Vinagre e prender Malcher e outros rebeldes. Batista Campos morreu no último dia do ano, ao que tudo indica de uma infecção causada por um corte que sofreu ao fazer a barba.

Em 6 de janeiro de 1835, liderados por Antônio Vinagre, os rebeldes (tapuios, cabanos, negros e índios) tomaram de assalto o quartel e o palácio do governo de Belém, nomeando Félix Antonio Clemente Malcher presidente do Grão-Pará. A Cabanagem apenas começava. Os cabanos, em menos de um dia, atacaram e conquistaram a cidade de Belém, assassinando o presidente Lobo de Souza e o Comandante das Armas, e apoderando-se de uma grande quantidade de material bélico. No dia 7, Clemente Malcher foi libertado e escolhido como presidente da província e Francisco Vinagre para Comandante das Armas. O governo cabano não durou por muito tempo, pois o novo presidente, Félix Malcher - tenente-coronel, latifundiário, dono de engenhos de açúcar - era mais identificado com os interesses do grupo dominante derrotado, é deposto em 19 de fevereiro de 1835, com o apoio das classes dominantes e pretendia manter a província unida ao Império do Brasil.

Francisco Vinagre, Eduardo Angelim e os cabanos pretendiam se separar. O rompimento aconteceu quando Malcher mandou prender Angelim. As tropas dos dois lados entraram em conflito, saindo vitoriosas as de Francisco Vinagre. Clemente Malcher, assassinado, teve o seu cadáver arrastado pelas ruas de Belém.

Agora na presidência e no Comando das Armas da Província, Francisco Vinagre não se manteve fiel aos cabanos. Se não fosse a intervenção de seu irmão Antônio, teria entregue o governo ao poder imperial, na pessoa do marechal Manuel Jorge Rodrigues (julho de 1835). Devido à sua fraqueza e ao reforço de uma esquadra comandada pelo almirante inglês Taylor, os cabanos foram derrotados e se retiraram para o interior. Reorganizando suas forças, os cabanos atacaram Belém, em 14 de agosto. Após nove dias de batalha, mesmo com a morte de Antônio Vinagre, os cabanos retomaram a capital.

Eduardo Angelim assumiu a presidência. Durante dez meses, a elite se viu atemorizada pelo controle cabano sobre a província do Grão-Pará. A falta de um projeto com medidas concretas para a consolidação do governo rebelde, provocaram seu enfraquecimento. Diante da vitória das forças de Angelim, o império reagiu e nomeou, em março de 1836, o brigadeiro Francisco José de Sousa Soares de Andréa como novo presidente do Grão-Pará, autorizando a guerra total contra os cabanos. Em fevereiro, quatro navios de guerra se aproximavam de Belém, prontos para atacar uma cidade tomada pela desordem, fome e varíola. No dia 13 de maio de 1836, o brigadeiro d'Andrea estacionou sua esquadra em frente a Belém e bombardeou impiedosamente a cidade. Os cabanos insurgentes escapavam pelos igarapés em pequenas canoas, enquanto Eduardo Angelim e alguns líderes negociavam a fuga.

O brigadeiro d'Andrea, entretanto, julgando que Angelim, mesmo foragido, seria uma ameaça, determinou que seus homens fossem ao seu encalço. Em outubro de 1836, numa tapera da selva, ao lado de sua mulher, Angelim foi capturado, tornado prisioneiro na fortaleza da Barra, até seguir para o Rio de Janeiro. A cabanagem, porém, não acabou com a prisão de Eduardo Angelim. Os cabanos lutaram até 1840 (internados na selva), até serem literalmente exterminados: nações indígenas foram chacinadas: os murá e os mauê praticamente desapareceram.

Calcula-se que de 30 a 40% de uma população estimada de 100 mil habitantes morreu. Em 1833 o Grão-Pará tinha 119.877 habitantes; 32.751 eram índios e 29.977, negros escravos. A maioria mestiça ("cruzamento" de índios, negros e brancos) chegava a 42 mil. A minoria totalizava 15 mil brancos, onde mais da metade eram portugueses.

Em homenagem ao movimento Cabano foi erguido um monumento, projetado pelo famoso arquiteto Oscar Niemeyer, na entrada da cidade de Belém: o Memorial da Cabanagem.



A chamada Guerra da Independência estendeu-se de 1822 a 1823, no contexto do processo de Independência do Brasil, entre 1808 e 1825, quando esta foi formalmente reconhecida por Portugal e pelo Reino Unido. A Guerra da Independência acabou por ser uma guerra civil Luso-Brasileira, já que Portugueses e Brasileiros combateram em ambos os lados.

Após a proclamação da independência, às margens do riacho Ipiranga, na então província de São Paulo, a 7 de Setembro de 1822, as lutas para afirmá-la foram mais encarniçadas nas regiões onde, por razões estratégicas, se registrava maior concentração de tropas do Exército Português, a saber, nas então Províncias Cisplatina, da Bahia, do Piauí, do Maranhão e do Grão-Pará.

Recorde-se que a maior parte da oficialidade era de origem portuguesa. Desse modo, o governo brasileiro, através do Ministro José Bonifácio de Andrada e Silva, adotou as providências para eliminar a resistência portuguesa. Para esse fim providenciou a compra de armas e navios, o recrutamento de tropas nacionais e o contrato de estrangeiros (mercenários), bem como medidas repressivas como o confisco de bens e a expulsão daqueles que não aceitassem a emancipação política do Brasil. No plano econômico, proibiu-se o comércio, e, no diplomático, autorizou-se a guerra de corso, contra Portugal.

Na Província Cisplatina, a campanha foi marcada pelo bloqueio a Montevidéu, sob o comando de Carlos Frederico Lecor, barão da Laguna. Isoladas, as tropas do Exército Português foram obrigadas a abandonar o território brasileiro.

Na Província da Bahia, a área tradicionalmente produtora de açúcar e de tabaco do Recôncavo, dominada pelos grandes latifundiários escravistas, desde cedo se manifestara pela causa brasileira, sob a liderança da vila de Cachoeira. A capital da Província, Salvador, então ocupada pelas tropas do Exército Português sob o comando do Governador das Armas, Inácio Luís Madeira de Melo, mantinha os laços com a Metrópole.

Com a divulgação da notícia da proclamação da Independência, as vilas do Recôncavo baiano, sob a liderança da vila de Cachoeira, em cuja Câmara Municipal se instalou um governo interino, mobilizaram-se para expulsar as tropas portuguesas entrincheiradas em Salvador, reforçadas desde os acontecimentos que haviam culminado no Dia do Fico (9 de Janeiro de 1822). Esse processo de reforço de tropas foi marcado por diversos incidentes em Salvador, entre os quais o assassinato, por soldados portugueses, da abadessa do Convento da Lapa, Sóror Joana Angélica de Jesus (19 de Fevereiro).

Para apoiar e reforçar a ação brasileira na região, o governo brasileiro despachou, da Corte, alguns navios sob o comando de Rodrigo de Lamare, conduzindo tropas e suprimentos, inclusive um oficial experimentado nas campanhas napoleônicas, Pedro Labatut. Este efetivo desembarcou em Maceió, nas Alagoas, de onde seguiu, por terra, para a Bahia. Durante a marcha, o contingente foi reforçado por efetivos vindos de Pernambuco, do Rio de Janeiro e do amplo voluntariado que se abrira no Recôncavo.

Entre esses voluntários destacaram-se nomes como os de Maria Quitéria, no Batalhão dos Periquitos, criado pelo avô do poeta Castro Alves - José Antônio da Silva Castro -, assim denominado pelo predomínio da cor verde em sua farda.

De Portugal, foram enviados 2.500 homens para reforçar as tropas de Madeira de Melo. A este efetivo juntaram-se elementos da Divisão Auxiliadora, que se retirava do Rio de Janeiro.

As vitórias brasileiras nas batalhas de Cabrito e de Pirajá (8 de Novembro de 1822), bem como o fracasso na tentativa portuguesa de ocupação da ilha de Itaparica (7 de Janeiro de 1823), tornaram cada vez mais difícil o sustento da posição por parte do Exército Português. Diante do bloqueio naval de Salvador, imposto pela esquadra imperial sob o comando de Lord Thomas Cochrane, complementado pelo bloqueio terrestre, que conjugados, impediam o suprimento do efetivo luso, Madeira de Melo foi forçado a capitular, abandonando a cidade (2 de Julho), então ocupada pelas tropas brasileiras. Na ocasião Cochrane aprisionou várias embarcações de bandeira portuguesa ("Prontidão", "Leal Portuguesa", "Pizarro", "Carolina" e "Conde de Peniche"), perseguindo as demais até às proximidades de Lisboa.

Na então Província do Piauí, tradicional produtora de gado, a burguesia comercial e mesmo os proprietários de terras, estavam ligados à Metrópole, inclusive por laços de sangue. Aqui, a adesão à Independência do Brasil foi proclamada na vila de Parnaíba. O interior e a capital, Oeiras, permaneceram sob o controle de tropas do Exército português sob o comando do Governador das Armas do Piauí, major João José da Cunha Fidié. Mesmo diante do recebimento de reforços vindos da então Província do Ceará, as tropas brasileiras foram inicialmente derrotadas na Batalha do Jenipapo (13 de março de 1823), ocorrida no atual município de Campo Maior, às margens do rio Jenipapo. Outras localidades, entretanto, manifestaram a sua adesão à Independência, alcançando a vitória quando Fidié se deslocou para apoiar a resistência portuguesa na vila de Caxias, no Maranhão.

Também na Província do Maranhão, as elites agrícolas e pecuaristas eram muito ligadas à Metrópole. À época, o Maranhão era uma das mais ricas províncias do Brasil. O intenso tráfego marítimo com a Metrópole, justificado pela maior proximidade com a Europa, tornava mais fácil o acesso e as trocas comerciais com Lisboa do que com o sul do país. Os filhos dos comerciantes ricos estudavam em Portugal. A região era conservadora e avessa aos comandos vindos do Rio de Janeiro. Foi da Junta Governativa da Capital, São Luís, que partiu a iniciativa da repressão ao movimento da Independência no Piauí. A Junta controlava ainda a região produtora do vale do rio Itapecuru, onde o principal centro era a vila de Caxias. Esta foi a localidade escolhida pelo major Fidié para se fortificar após a derrota definitiva na Batalha do Jenipapo, no Piauí, imposta pelas tropas brasileiras, compostas por contingentes oriundos do Piauí e do Ceará. Fidié teve que capitular, sendo preso em Caxias e depois mandado para Portugal, onde foi recebido como herói.

São Luís, a capital provincial e tradicional reduto português, foi finalmente bloqueada por mar e ameaçada de bombardeio pela esquadra de Thomas Cochrane, sendo obrigada a aderir à Independência em 28 de julho de 1823.

Na então Província do Grão-Pará, a burguesia comercial e os proprietários de terra também se encontravam profundamente ligados à Metrópole. Aqui, John Pascoe Grenfell, subordinado a Cochrane, impôs a aceitação da Independência também recorrendo ao bloqueio naval, sob ameaça de bombardear a capital, Belém (15 de agosto). Tendo sido eleita uma Junta Governativa (17 de Agosto), explodiu uma violenta reação popular, que obrigou Grenfell a desembarcar tropas e efetuar prisões em massa, visando restabelecer a ordem pública. A 19 de Agosto, sem que houvessem cárceres suficientes em terra, a pedido da Junta, Grenfell autorizou encerrar nos porões do brigue "São José Diligente" (depois "Palhaço"), duzentos e cinquenta e sete detidos, onde todos, menos um (duzentos e cinquenta e seis, menos quatro, em outras fontes) morreram asfixiados.

Embora posteriormente Grenfell tenha se defendido argumentando não ter ordenado o massacre, também nada fez para responsabilizar ou punir os responsáveis.

Os combates da Guerra da Independência serviram como batismo de fogo para o jovem Luís Alves de Lima e Silva, futuro duque de Caxias.



A Guerra Franco-Prussiana ou Guerra Franco-Germânica(19 de Julho de 1870—10 de Maio de 1871) foi um conflito ocorrido entre França e Prússia no final do século XIX. Durante o conflito, a Prússia recebeu apoio da Confederação da Alemanha do Norte, da qual fazia parte, e dos estados do Baden, Württemberg e Bavária. A vitória incontestável dos alemães marcou o último capítulo da unificação alemã sob o comando de Guilherme I da Prússia. Também marcou a queda de Napoleão III e do sistema monárquico na França, com o fim do Segundo Império e sua substituição pela Terceira República Francesa. Também como resultado da guerra ocorreu a anexação da maior parte do território da Alsácia-Lorena pela Prússia, território que ficou em união com a Alemanha até o fim da Primeira Guerra Mundial.

Motivos da guerra

A Espanha estava sem rei desde 1868 devido à abdicação de Isabel II, em virtude da Revolução de 1868 e as Cortes - Parlamento espanhol - ofereceram a Coroa ao príncipe prussiano Leopoldo de Hohenzollern-Sigmaringen, primo do rei da Prússia, Guilherme I. Um Hohenzollern no trono espanhol seria demais para a Europa antiprussiana. O imperador francês Napoleão III pressionou a Prússia para impedir que o parente distante do rei prussiano assumisse o trono espanhol. O ministro do exército francês realizou, na Câmara, um discurso indignado e belicoso contra a Prússia, o que gerou sentimentos antifranceses no sul da Alemanha.

O chanceler prussiano Otto Von Bismarck e seus generais estavam interessados em uma guerra contra a França, pois esse país punha empecilhos à integração dos Estados do sul da Alemanha na formação de um novo país dominado pela Prússia - o Império Alemão. Bismarck, o unificador da Alemanha, preparara um poderoso exército e conhecia a mediocridade do exército francês. Sabia também que, se fosse atacado pelos franceses, teria o apoio dos estados alemães do Sul e, derrotando a França, já não haveria nenhum obstáculo a seu projeto de unificar a Alemanha. Por outro lado, os conselheiros de Napoleão III asseguraram-lhe que o exército francês era capaz de derrotar os prussianos, o que restauraria a declinante popularidade do imperador, perdida em conseqüência das inúmeras derrotas diplomáticas sofridas.

A guerra em si foi provocada por Bismarck, que habilmente insultou a França e alterou uma indiscutível mensagem de seu rei (o telegrama de Ems), que buscava justamente dar fim à crise. Napoleão III declarou guerra à Prússia em 19 de julho de 1870, de acordo com a versão oficial da historiografia francesa. Por outro lado, esta visão de que Bismarck falsificou documentos do telegrama que Napoleão III enviou ao rei Guilherme I da Prússia, é meio controversa (ou equivocada), pode-se dizer; merecendo profundos questionamentos e reflexões sobre o real motivo da guerra entre estes dois países.

No livro de História Geral de Antônio Jorge Borge Hermida, nada consta a respeito da falsificação dos termos do telegrama que Napoleão III enviou a Guilherme I, e que Bismarck teria falsificado, e reenviado a Napoleão III, (o telegrama de Ems). Abaixo a versão do que teria sido o motivo (pretexto) da guerra entre França e Prússia (futura Alemanha), e os motivos que levaram a França de Napoleão III ser derrotada pelas tropas prussianas:

Pretexto da Guerra Franco-Prussiana (1870-1871)

A Espanha, que estava sem rei desde 1868, ofereceu através de seu parlamento a coroa ao príncipe Leopoldo de Hohenzollern-Sigmaringen, parente afastado do rei da Prússia (também da Casa dos Hohenzollern). Tal fato era inaceitável pela Europa antiprussiana que contava também com a França. O ministro do exército francês proferiu um discurso indignado e belicoso contra a Prússia, o que gerou sentimentos antifranceses no sul da Alemanha. Bismarck aproveitou-se da idéia de guerra entre os dois países, pois estava interessado em territórios franceses e sabia que conseguiria apoio no sul da Alemanha, o que seria decisivo para seus planos de unificação alemã.

Ele também sabia da superioridade de seu poderio militar sobre o exército francês. Todavia antes do conflito começar, Napoleão III temendo a expansão prussiana, protestou e exigiu do rei da Prússia a renúncia do príncipe Leopoldo, que desistiu de disputar o trono espanhol.

Napoleão III, ainda não satisfeito, e para agradar à opinião pública francesa, exigiu novas garantias de que jamais um membro de sua família ocuparia o trono espanhol. Apesar de Guilherme I aceitar todas as condições impostas pelo imperador francês, este último insistia que o rei deveria dar estas garantias e negociar pessoalmente ao embaixador Benedetti da França. O rei prussiano, que anteriormente atendera a todas as reivindicações de Napoleão III, refutou ter que negociar e dar novas garantias ao embaixador francês, Benedetti.

Em Paris, a atitude do rei prussiano foi tida como uma ofensa ao orgulho nacional da França e ao povo francês - este foi o motivo da França de Napoleão III declarar guerra à Prússia.

Finalmente, França e Prússia entraram em guerra em 1870 e logo a Prússia mostrou-se preparada o suficiente para encurralar a França em seu próprio território. Os franceses perderam em todas as frentes. O forte exército prussiano acumulava vitórias, como sucedeu na esmagadora vitória na batalha de Sedan (1 de Setembro de 1870) na qual o próprio imperador francês foi feito prisioneiro. No dia 2 de setembro de 1870, concluiu-se a batalha de Sedan, onde a cavalaria francesa resistiu bastante, a ponto do rei Guilherme I da Prússia admirar a bravura com que estes lutaram. Porém, Napoleão III viu que era inútil sacrificar vários soldados seus, e mandou hastear a bandeira branca, e entregou sua espada, ficado prisioneiro do rei prussiano. Dois dias depois, a república seria proclamada em Paris. No dia 20 de setembro, os prussianos cercavam Paris. Perante esta situação, o governo de Defesa Nacional (republicano, em funções desde 4 de Setembro, altura em que depusera Napoleão III) assinou a rendição. Na paz de Frankfurt (10 de Maio de 1871) a França, para além de pagar uma pesada indenização de 5 bilhões de francos para a Prússia, entregava o rico território da Alsácia-Lorena, de maioria germânica e rico em carvão, para o novo Império Alemão.

A vitória em Sedan estimulou o nacionalismo no sul da Alemanha e os estados germânicos ao sul do rio Main (Hesse, Baden, Baviera e Würtemberg) entraram na Confederação. A esses estados, porém, foram garantidas certas autonomias, como, por exemplo, exército próprio em tempo de paz. Com a integração desses estados ao novo Reich (II Reich; pois o I Reich ou Sacro Império Romano-Germânico, foi fundado por Carlos Magno, rei franco, sucedido mais adiante por Oto I o Grande), completou-se a última etapa para a unificação alemã.

Motivos da derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana

A derrota da França comandada pelo general francês Mac-Mahon se deu por ser o exército prussiano maior e estar mais bem organizado para a guerra. Enquanto os canhões franceses eram carregados pela boca, os da Prúsia tinham os famosos Krupp, de aço, carregados pela culatra, o que possibilitava tiro mais rápido. Paris resistiu o quanto pôde aos prussianos, mas capitulou após quatro meses, por causa da fome.


A Prússia desde logo contou com o apoio dos estados germânicos do Sul, na sua luta contra a França. As forças alemãs estavam unificadas sob o comando supremo de Guilherme I que contava com o grande estrategista Helmuth von Moltke como Chefe do Estado Maior. À frente das tropas francesas encontrava-se Patrice-Maurice MacMahon.

Exércitos prussianos avançaram para dentro da França. A eficácia da ofensiva alemã, comandada pelo general Helmuth von Moltke, contrastou com a ineficiência da mobilização francesa. As forças francesas foram expulsas da Alsácia, enquanto a divisão de exército francês, comandado pelo general François Achille Bazaine, foi obrigado a se retirar de Metz.

A Batalha de Sedan

Um exército chefiado pelo próprio Napoleão III e pelo marechal MacMahon tentou libertar o general François Achille Bazaine, em Metz, mas acabou cercado por Helmuth von Moltke em 31 de agosto, na batalha de Sedan, que decidiu o conflito.

No dia seguinte, os franceses tentaram inutilmente romper o cerco e, em 2 de setembro, Napoleão, Mac-Mahon e 83.000 soldados renderam-se aos alemães. Napoleão III foi capturado e, desacreditado aos olhos dos franceses, deixou de ser imperador.

A resistência francesa prosseguiu sob um novo governo de defesa nacional, que assumiu o poder em Paris em 4 de setembro, depois de dissolver a Assembléia Legislativa, proclamar a deposição do imperador e estabelecer a república. Bismarck recusou-se a assinar a paz e, em 19 de setembro, começou o cerco a Paris. No dia 19, os alemães começaram a sitiar Paris. O novo governo dispôs-se a negociar com Bismarck, mas suspendeu as conversações quando soube que os alemães exigiam a Alsácia e a Lorena. O principal líder do novo governo, Léon Gambetta, fugiu de Paris num balão, estabelecendo um governo provisório na cidade de Tours para reorganizar o exército no interior. A partir daí seriam organizadas 36 divisões militares, todas destinadas ao fracasso.

A Comuna de Paris

Esperanças de um contra-ataque francês dispersaram-se quando o Marechal Bazaine, com um exército de 173.000 homens, apresentou sua rendição, em Metz, no dia 27 de outubro. A capitulação oficial de Paris ocorreu em 28 de janeiro de 1871. Adolphe Thiers, velho político francês, foi eleito pela Assembléia como chefe do Executivo e solicitou um armistício aos prussianos, o qual foi concedido por Bismarck. O armistício incluía a eleição de uma assembléia nacional francesa que teria a autoridade de firmar uma paz definitiva. A Assembléia Nacional Francesa reuniu-se em Bordéus, em 13 de fevereiro, nomeando Adolphe Thiers o primeiro presidente da III República. O acordo, negociado por Thiers, foi assinado em 26 de fevereiro e ratificado em 1º de março. A população de Paris, entretanto, recusou-se a depor as armas e, em março de 1871, revoltou-se, estabelecendo um breve governo revolucionário, a Comuna de Paris.

O fim da guerra: O Tratado de Frankfurt

O governo francês assinou em 10 de Maio de 1871 o Tratado de Frankfurt, pondo fim à guerra entre a França e a Prússia. Neste documento ficava estabelecido que, por direito de guerra e pela população da a Alsácia-Lorena ser de maioria germânica, a província francesa da Alsácia e parte da Lorena (até mesmo Metz) passariam para o domínio do Império Alemão. Devido aos grandes danos causados à Prússia, a França foi obrigada a pagar uma indenização de guerra de cinco bilhões de francos de ouro e a financiar os custos da ocupação das províncias do norte pelas tropas alemãs, até o pagamento da indenização. Em troca, foram libertados 100 mil prisioneiros de guerra franceses, os quais foram admitidos nas linhas prussianas para reprimir a Comuna de Paris. Depois de dois meses de luta sangrenta, a Comuna foi esmagada pelas tropas de Adolphe Thiers.

O maior triunfo de Bismarck ocorreu em 18 de janeiro de 1871, quando Guilherme I da Prússia foi proclamado imperador da Alemanha em Versalhes, o antigo palácio dos reis da França. Para a Prússia, a proclamação do Segundo Império alemão foi o clímax das ambições de Bismarck em unificar a Alemanha.

A onerosa obrigação francesa só foi cumprida em setembro de 1873. Naquele mesmo mês, as tropas alemãs abandonaram a França, depois de quase três anos de ocupação.



A Batalha de Viena (alemão: Schlacht am Kahlenberg, polonês: Bitwa pod Wiedniem ou Odsiecz Wiedeńska, turco: İkinci Viyana Kuşatması), ucraniano: Віденська відсіч (Viděns'ka Vidsič) aconteceu em 12 de setembro de 1683 depois de Viena estar sendo sitiada por tropas do Império Otomano por dois meses. A batalha impediu o avanço do Império Otomano na Europa, e marcou a hegemonia política da dinastia dos Habsburgos na Europa central.

A captura da cidade de Viena já vinha há muito sendo uma aspiração estratégica do Império Otomano, por ser o ponto de cruzamento das rotas de comércio do Danúbio (Mar Negro-Europa Ocidental) do sul da Europa e por terra (Mediterrâneo Oriental-Alemanha). Durante os anos que antecederam ao segundo cerco (o primeiro foi em 1529), sob os auspícios dos grão-vizires da influente família Köprülü, o Império Otomano empreendeu uma longa preparação logística desta vez, incluindo a reparação e construção de estradas e pontes que conduziam à Áustria e aos centros logísticos, bem como o envio de munições, canhões e outros recursos bélicos, de todas as partes do Império para esses centros logísticos e para os Bálcãs.

Na frente política, o Império Otomano vinha fornecendo ajuda militar aos húngaros e às minorias não-católicas, nos territórios ocupados dos Habsburgos da Hungria. Lá, nos anos que antecederam ao cerco, tumultos generalizados tinham se tornado rebelião aberta, devido à constante perseguição de Leopoldo I aos princípios da Contra-Reforma e seu feroz desejo de esmagar o Protestantismo. Em 1681, os protestantes e outras forças anti-Habsburgos, liderados por Imre Thököly, foram reforçados com um contingente significativo de otomanos, que reconheceram Imre como Rei da "Hungria Superior" (parte oriental da Eslováquia e partes do nordeste da atual Hungria, que ele havia anteriormente tomado dos Habsburgos pela força das armas). Este apoio viria para os húngaros até quando o "Reino de Viena" caísse nas mãos dos otomanos.

No entanto, antes do cerco, um tempo de paz existiu por vinte anos entre os Habsburgos e o Império Otomano, como resultado da Paz de Vasvár.

Em 1681 e 1682, atritos entre as forças de Imre Thököly e as forças militarizadas de fronteira dos Habsburgos se intensificaram e as incursões das forças dos Habsburgos na Hungria Central serviram como argumento para que o grão-vizir Kara Mustafá Pasha tentasse convencer o sultão, Mehmet IV e seu ministério, a autorizarem a interferência do exército otomano. Mehmet IV autorizou Kara Mustafá Pasha a operar até os castelos de Győr (turco: Yanıkkale, alemão: Raab) e Komárom (turco: Komaron, alemão: Komorn), ambos no noroeste da Hungria e sitiá-los. O Exército Otomano foi mobilizado em 21 de janeiro de 1682 e a guerra foi declarada em 6 de agosto de 1682.

A logística do tempo indicou que teria sido arriscado ou impossível iniciar uma invasão em agosto ou setembro de 1682 (uma campanha de três meses faria com que os turcos chegassem em Viena por ocasião do inverno). No entanto, este período de quinze meses entre a mobilização e o começo de uma invasão em grande escala possibilitou o tempo necessário para que as forças dos Habsburgos preparassem sua defesa e firmassem alianças com outros governantes da Europa Central, e, sem dúvida, contribuiu para o fracasso da campanha. Isto ficou mais que provado quando os Habsburgos e a Polônia concluíram um tratado durante este inverno, no qual Leopoldo apoiaria o rei polonês Jan III Sobieski caso os turcos atacassem Cracóvia; em contrapartida, o exército polonês viria em auxílio de Viena, caso fosse atacada.

Em 31 de março de 1683 outra declaração, enviada por Kara Mustafa, em nome de Mehmet IV, chegou à Corte Imperial, em Viena. No dia seguinte a marcha do exército otomano teve início a partir de Edirne, na Trácia. As tropas chegaram a Belgrado no início de maio, e então tomaram a direção da cidade de Viena. Cerca de 40.000 soldados tártaros da Criméia chegaram a 40 quilômetros a Leste de Viena em 7 de julho, número duas vezes maior do que as forças austríacas naquela área. Depois das lutas iniciais, Leopoldo retirou-se para Linz com 80 000 habitantes de Viena.

O Rei da Polônia preparou uma expedição de socorro a Viena durante o verão de 1683, honrando com seu compromisso no tratado. Ele chegou mesmo a deixar a sua nação praticamente indefesa quando partiu de Cracóvia em 15 de agosto. Sobieski compensou isso com uma advertência dura feita a Imre Thököly, o líder da Hungria, a quem ele ameaçou de destruição caso tentasse tirar vantagem da situação — o que Thököly fez.

O principal exército turco finalmente investiu contra Viena em 14 de julho. No mesmo dia, Kara Mustafá enviou a tradicional exigência de renúncia à cidade.

Ernst Rüdiger, Conde de Starhemberg, líder dos restantes 11 000 soldados, 5 000 cidadãos e voluntários com 370 canhões, recusou-se a capitular. Alguns dias antes, ele havia recebido a notícia do assassinato em massa em Perchtoldsdorf, uma cidade ao sul de Viena, cujos cidadãos haviam entregado as chaves da cidade depois terem recebido semelhante proposta.

Os vienenses tinham demolido muitas casas ao redor dos muros da cidade e retirado seus escombros, a fim de criar uma área livre que exporia os turcos ao fogo defensivo caso eles tentassem atacar a cidade. Kara Mustafá Pasha resolveu este problema ao ordenar que suas forças escavassem longas linhas de trincheira diretamente em direção à cidade, para ajudar a protegê-los dos defensores à medida que iam avançando em direção à cidade.

Embora os turcos tivessem 300 bons canhões, as fortificações de Viena eram muito fortes e modernas, e os turcos tiveram que planejar um uso mais eficaz para sua pólvora. Túneis foram escavados sob os muros maciços da cidade para explodi-los com explosivos.

Os otomanos tinham essencialmente duas opções para tomarem a cidade: a primeira, um assalto total, teria sucesso praticamente garantido, uma vez que os defensores estavam em número menor, quase 20-1. A segunda era a de estabelecer um cerco à cidade, e esta foi a opção escolhida.

Isto parece ir contra a lógica militar, mas atacar adequadamente fortificações defendidas sempre resultou em baixas muito pesadas para os atacantes. Um cerco era uma razoável tática de ação para minimizar perdas e capturar a cidade intacta, e, na realidade, quase foi conseguido. O que os otomanos não levaram em conta, contudo foi que o tempo não estava do seu lado. Sua falta de urgência nesta altura, combinada com o atraso no avanço de seu exército após a declaração de guerra, permitiu a chegada de uma força de socorro. Os historiadores têm especulado que Kara Mustafá quis tomar a cidade intacta para ter acesso a todas as suas riquezas, e recusou um ataque total, a fim de impedir o direito de saque que acompanharia este tipo de assalto.

O cerco otomano cortou praticamente todos os meios de fornecimento de alimentos para Viena, e a guarnição e civis voluntários sofreram extremas baixas. A fadiga se tornou tal problema que o conde Ernst Rüdiger von Starhemberg ordenou que qualquer soldado que fosse encontrado dormindo no posto de vigilância seria fuzilado. Cada vez mais desesperadas, as pessoas que defendiam Viena já se encontravam no limite de suas forças quando, em agosto, as forças imperiais sob o comando de Carlos V, Duque da Lorena derrotaram Imre Thököly da Hungria em Bisamberg, cinco quilômetros a nordeste de Viena.

Em 6 de setembro, os poloneses cruzaram o Danúbio, 30 quilômetros a noroeste de Viena em Tulln, para se unirem às forças imperiais e às tropas adicionais da Saxônia, Baviera, Baden, Francônia e Suábia que haviam respondido à chamada da Santa Liga que era apoiada pelo Papa Inocêncio XI. Apenas Luís XIV da França, rival dos Habsburgos, não só deixou de ajudá-los, como aproveitou a oportunidade para atacar cidades na Alsácia e em outras partes do sul da Alemanha, como na Guerra dos Trinta Anos décadas antes.

Durante o início de setembro, os experientes 5.000 turcos sapadores repetidamente explodiram grandes partes dos muros, a guarita Burg, a guarita Löbel e o baluarte Burg entre elas, criando aberturas de cerca de 12 metros de largura. Os austríacos tentaram contê-los cavando seus próprios túneis, para interceptar o depósito de pólvora instalado nas cavernas subterrâneas. Os turcos finalmente conseguiram conquistar o baluarte Burg e a muralha Nieder naquela área em 8 de setembro. Prevendo uma abertura nos muros da cidade, os austríacos que lá permaneceram se prepararam para a luta no interior da cidade.

O exército de ajuda tinha que agir rapidamente, para salvar a cidade dos turcos e para impedir outro longo cerco caso acontecesse. Apesar da composição internacional e o tempo curto de apenas seis dias, uma estrutura de liderança eficaz foi estabelecida, centrada no Rei da Polônia e sua cavalaria pesada. A motivação era grande, uma vez que esta guerra não era como é habitual pelos interesses dos reis, mas para a defesa da fé cristã. E, diferentemente das cruzadas, o campo de batalha se encontrava no coração da Europa.

Kara Mustafá Pasha, por sua vez, foi menos eficaz, apesar de vir há meses organizando suas forças, promovendo suas motivações e lealdade e se preparando para o esperado ataque militar. Ele tinha confiado a defesa da retaguarda de seu exército ao Khan da Criméia e a sua força de cavalaria, que contava com cerca de 30 - 40.000 homens.

Existem sérias dúvidas quanto à forma como as forças tártaras participaram da batalha final em Viena. Seu Khan sentia-se humilhado pelas repetidas ofensas proferidas por Kara Mustafá. Ele recusou-se a atacar as forças de socorro polonesas quando elas cruzassem as montanhas, onde a cavalaria ligeira tártara teria vantagem sobre a cavalaria pesada polonesa. Também não eram eles os únicos componentes do exército otomano a desafiar abertamente Mustafá ou a recusar atribuições.

Isto deixou pontes vitais indefesas e permitiu a passagem do exército combinado Habsburgos-poloneses, que chegou para levantar o cerco. Os críticos desta explicação dizem que foi Kara Mustafá Pasha, e não o Khan da Criméia, que foi considerado responsável pelo fracasso do cerco.

Além disso, os otomanos não podiam contar com os seus aliados valaquianos e moldavos. Estes povos tinham ressentimento dos otomanos, que lhes cobravam pesados tributos. Os otomanos também intervieram na política interna desses países, procurando substituir seus príncipes governantes por homens que seriam meros fantoches turcos. Quando os príncipes da Moldávia e Valáquia perceberam os planos dos turcos, eles tentaram alertar os Habsburgos. Eles também tentaram evitar participarem da campanha, mas os otomanos insistiram para que eles enviassem tropas. Há um grande número de lendas populares sobre as forças valaquianas e moldavas no cerco. Quase invariavelmente, estas lendas descrevem-nos carregando seus canhões com bolas de palhas, de modo a não causar impacto nos muros da cidade sitiada.

As forças da Santa Liga chegaram em Kahlenberg (uma montanha nos arredores de Viena), sinalizaram sua chegada com fogueiras. Nas primeiras horas de 12 de setembro, antes da batalha, uma missa foi rezada para o Rei da Polônia e seus nobres.

A batalha começou antes de todas as unidades estarem plenamente posicionadas. Na madrugada, às quatro horas da manhã, os turcos atacaram, procurando interferir na preparação das tropas da Santa Liga. Carlos V, Duque da Lorena avançou tendo o exército austríaco à esquerda e as forças alemãs ao centro.

Mustafá Pasha lançou um contra-ataque, com a maior parte de sua força, mas deixou para trás parte da elite de janízaros e unidades de sipahis para um ataque simultâneo à cidade. Os comandantes turcos tinham a intenção de tomar Viena antes da chegada de Sobieski, mas o tempo se esgotou. Seus sapadores tinham preparado outra grande e final detonação sob a guarita Löbel, para promover o acesso à cidade. Enquanto os turcos apressadamente terminavam seu trabalho e fechavam o túnel para tornar a explosão mais potente, os "toupeiras" austríacos encontraram o túnel pela tarde. Um deles entrou e desativou a carga bem a tempo.

Nessa altura, acima do "campo de batalha subterrâneo", uma grande batalha estava em andamento, uma vez que também a infantaria polonesa lançou um ataque maciço sobre o flanco direito turco. Em vez de se concentrarem unicamente na batalha contra o exército de socorro, os turcos também tentaram forçar seu caminho em direção à cidade, carregando sua bandeira.

Depois de doze horas de luta, os poloneses atingiram o terreno mais alto do lado direito. A cavalaria da Santa Liga aguardou nas colinas, e assistiu a batalha da infantaria por todo o dia. Então, por volta das cinco horas da tarde, a cavalaria atacou em quatro grupos. Um grupo era austro-alemão, e os outros três eram poloneses. Mais de 20.000 homens atacaram descendo as colinas (um dos maiores ataques de cavalaria da história). O ataque foi comandado por Sobieski à frente de 3.000 pesados lanceiros poloneses, os famosos "hussardos alados poloneses". O ataque rompeu as linhas dos otomanos, que estavam cansados da longa luta em duas frentes. Na confusão, a cavalaria foi direta para os acampamentos otomanos, enquanto a guarnição de dentro da cidade de Viena deixava sua posição defensiva e se juntava ao ataque.

As tropas otomanas estavam cansadas e desmotivadas após as fracassadas tentativas de explosão das muralhas e da impossibilidade de invasão da cidade. A chegada da cavalaria virou a maré da batalha contra eles e se retiraram em direção ao sul e ao leste. Em menos de três horas após o ataque da cavalaria, as forças cristãs venceram a batalha e salvaram Viena.

Após a batalha, Sobieski parafraseou a famosa citação de Júlio César ao dizer "Venimus, Vidimus et Deus vicit" - "Viemos, vimos, e Deus conquistou".

Os turcos perderam pelo menos 15.000 homens entre mortos e feridos nos combates, além de cerca de 5.000 homens capturados e todos os seus canhões; contra cerca de 4.500 mortos e feridos das forças Habsburgo-polonesas.

Ernst Rüdiger, Conde de Starhemberg ordenou a imediata reconstrução das fortificações de Viena severamente danificadas, temendo um possível contra-ataque turco. No entanto, isto revelou-se desnecessário. A vitória em Viena, foi o ponto de partida para a reconquista da Hungria e (temporariamente) de alguns dos países dos Bálcãs pelo príncipe Eugênio de Savóia, nos anos seguintes. A Áustria assinou um acordo de paz com o Império Otomano em 1699.

Muito antes disto, os turcos haviam se livrado do seu comandante derrotado. Em 25 de dezembro de 1683, Kara Mustafá Pasha foi executado em Belgrado (na forma aprovada, por estrangulamento com uma corda de seda puxada por vários homens em cada extremidade), por ordem do comandante dos janízaros.

Embora ninguém tenha percebido isto na ocasião, a batalha mostrou bem todo o resultado da guerra. Os otomanos lutaram por mais dezesseis anos, perdendo no processo o controle sobre a Hungria e a Transilvânia, antes de finalmente se renderem. O término do conflito foi finalizado com o Tratado de Karlowitz.

A Batalha de Viena é vista por muitos historiadores como o marco do início do declínio do Império Otomano e o fim da expansão turca no sudeste europeu.

O comportamento de Luís XIV da França também serviu para mostrar o que seria esperado para os próximos séculos: os países de língua alemã tiveram de lutar em guerras simultâneas, no Oeste e no Leste. Enquanto as tropas alemãs estavam lutando para a Santa Liga, Luís XIV, implacável, aproveitou a ocasião, antes e depois da batalha de Viena, para anexar territórios na Europa Ocidental, como Luxemburgo, Alsácia com Estrasburgo, etc. Devido à sua guerra contra os turcos, a Áustria não podia apoiar os interesses dos aliados alemães no Ocidente. A biografia de Ezéchiel du Mas, Conde de Mélac ilustra as devastações de grandes partes do sul da Alemanha pela França.

Em homenagem a Sobieski, os austríacos construíram uma igreja no alto de uma colina na montanha Kahlenberg, ao norte de Viena. Também, a linha de trem de Viena a Varsóvia é chamada de Sobieski em sua homenagem. A constelação Scutum Sobieskii (o Escudo de Sobieski) foi nomeada para lembrar a batalha. Porque Sobieski confiou seu reino na proteção da Virgem Bem-aventurada (Nossa Senhora de Czestochowa), antes da batalha, o Papa Inocêncio XI comemorou sua vitória, estendendo a festa do Santíssimo Nome de Maria, que até então era comemorado apenas no interior da Espanha e no Reino de Nápoles, para a Igreja universal; é comemorado em 12 de setembro.

O período de amizade polaco-austríaca durou somente até quando Carlos V, Duque da Lorena começou a minimizar a importância do papel de Jan III Sobieski e de suas tropas na batalha. Nem Sobieski, nem a República das Duas Nações beneficiaram-se por terem salvo a Áustria; pelo contrário, a batalha de Viena abriu caminho para a futura formação do Império Austríaco (1804 a 1867) e à destruição da República das Duas Nações. Em 1772 e 1795 a Monarquia Habsburgo tomou parte na primeira e na terceira partições da Polônia, que tirou a República das Duas Nações do mapa da Europa. Em contrapartida, o Império Otomano nunca reconheceu as partições e serviu de local de refúgio para muitos poloneses.

A festa do Santíssimo Nome de Maria é comemorado em 12 de setembro no calendário litúrgico da Igreja Católica em comemoração à vitória nesta batalha da Europa cristã sobre as forças muçulmanas do Império Otomano. Antes da batalha o rei Jan III Sobieski colocou suas tropas sob a proteção da Virgem Maria. Após a batalha, o Papa Inocêncio XI, desejando homenagear Maria, estendeu a festa para toda a Igreja.



A estratégia da guerra-relâmpago foi aperfeiçoada pelo general alemão Heinz Guderian no final de década de 1930.

O efeito desejado pela guerra-relâmpago só pode ser obtido pela utilização coordenada da infantaria, dos blindados e da aviação, que agem conjuntamente para "perfurar" as linhas inimigas em um ponto de ruptura. Todo "atrito" com as forças inimigas era evitado. Se um foco de resistência era encontrado, era imediatamente cercado, suas comunicações interrompidas (o que dificultava a tomada de decisões e a transmissão de ordens) e o resto das tropas de ataque continuava seu avanço ao interior do campo inimigo o mais rapidamente possível. O foco de resistência era destruído mais tarde, pelas forças de infantaria que seguiam o ataque surpresa.

Foi graças a essa táctica ofensiva que a Wehrmacht conseguiu vencer os exércitos aliados durante a primeira parte de Segunda Guerra Mundial, principalmente quando da invasão da Polônia, da Dinamarca, da França (com os Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo), Jugoslávia, Grécia e da União Soviética, e também graças ao seu poderio militar superior e ao despreparo das forças armadas dos países invadidos.

Quer na campanha da Polónia, quer a da França duraram pouco mais de um mês: em ambos os casos, colunas maciças de carros de combate romperam através das estáticas linhas inimigas e avançaram profundamente no coração do território dos oponentes, enquanto a força aérea alemã (Luftwaffe) destruía as linhas de comunicação, o poderio aéreo inimigo, as suas indústrias-chave e outros objectivos militares, abrindo caminho para a invasão terrestre. Os resultados foram avassaladores: a Polónia viu aniquilado o seu exército e perdeu a independência; enquanto para os Aliados, no Oeste, foi a humilhante retirada britânica de Dunquerque e a ocupação da França.

No entanto, essa táctica começou a mostrar seus limites a partir de 1942. Na realidade, a guerra-relâmpago só era aplicável com êxito em teatros de operação reduzidos e de curta duração.

Depois da Segunda Guerra Mundial, e particularmente durante o período da Guerra Fria, os comandos militares temiam uma invasão de tipo "blitzkrieg", quer pelo Pacto de Varsóvia quer por parte da OTAN (NATO). Em tempos mais próximos, o princípio da "blitzkrieg" foi usado pelas forças aliadas sob o comando do general norte-americano Norman Schwarzkopf para alcançar uma rápida vitória sobre o Iraque de Saddam Hussein em 1991 na Guerra do Golfo, e na Invasão do Iraque de 2003 pelo general Tommy Franks.

Termo

O termo Blitzkrieg foi mencionado pelos jornais ocidentais durante a invasão da Polônia, iniciada em 3 de Setembro de 1939. Apesar de ser empregado em referência a qualquer ataque militar de surpresa, isso não é correto; blitzkrieg é um tipo diferente de manobra bélica usado somente pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial.

A palavra Blitzkrieg é um germanismo em diversas línguas, entre as quais o inglês, o francês e mesmo o português.



A Rússia de Catarina, a Grande (1729-1796) tinha sido geralmente pró-britânica. O seu sucessor, Paulo I (1796-1801) tendia politicamente para Bonaparte, mas não viveu muito para impor essa marca na política externa do Império. O seu filho, Alexandre I da Rússia (1801-1825) fez realinhar com brevidade a Rússia com os britânicos e este alinhamento manteve-se até ao fim das Guerras Napoleónicas.

A frustrada invasão da Rússia pelas tropas de Napoleão Bonaparte em 1812 resultou numa maior preponderância dos Romanov na cena internacional. Após a morte de Alexandre I em 1825, o novo czar, o seu irmão Nicolau I (1825-1855), revelou-se um tirano, obcecado com a expansão territorial. Esta mudança conduziria a dois novos pontos de atrito na fronteira sul da Rússia, que eram a tentativa de tomar a península da Crimeia ao Império Otomano e a tentativa de desestabilizar os britânicos na Índia. Este conjunto de movimentações ficou conhecido como o "Grande Jogo" pelos britânicos e como "Torneio das Sombras" entre os russos. Seguiu-se um período de pequenos confrontos e guerras locais, que iria ter o seu auge na Primeira Guerra do Afeganistão (1839-1842). A "Fronteira Noroeste" (as terras entre o Afeganistão e o Paquistão de hoje) do Império Britânico continuariam sendo um problema por mais um século do "Grande Jogo".

A Grã-Bretanha, que se aliara à França, estava em 1854 prestes a declarar guerra ao Império Russo, que ocupara a Roménia e ameaçava o Império Otomano, tendo havido vários incidentes nesse ano. Após a retirada russa da Roménia, as forças aliadas decidiram basear-se na Crimeia para os enfrentar e tentar estancar o avanço russo na Europa Oriental e Ásia Menor.

As frotas britânica e francesa partiram do porto búlgaro de Varna em 5 de setembro de 1854, em direção à Baía Kalamita, na Crimeia. No dia 14 desse mês as tropas começaram o desembarque. Em quatro dias as forças aliadas tinham reunido 61 400 homens de infantaria, 1200 na cavalaria e 137 armas pesadas. A cerca de 53 km a sul da zona do desembarque, para lá dos rios Bulganak, Alma, Katcha e Belbek, ficava a base naval russa e fortaleza militar de Sebastopol, o objetivo principal dos aliados na Crimeia. O general Menshikov, ciente da presença aliada, preparou as suas tropas nas margens do rio Alma, num esforço para deter o avanço anglo-francês, mas em 20 de setembro foi severamente derrotado na Batalha de Alma, a primeira grande batalha na península da Crimeia. As notícias da derrota russa foram encaradas com incredulidade pelo czar Nicolau I em São Petersburgo - pareceria que era apenas uma questão de tempo até que Sebastopol caísse. Mas a hesitação aliada, primeiro do comandante em chefe francês, Canrobert (que tinha sucedido ao recentemente falecido por cólera Marechal Saint-Arnaud), e depois de Lord Raglan, permitiu aos desmoralizados russos escapar do campo de batalha em relativa ordem e a Menshikov e seu exército atingirem Sebastopol, reorganizarem-se e recuperar o moral. "É terrível pensar no que poderia ter acontecido", escreveu o vice-almirante Vladimir Kornilov, "se não tivesse acontecido este erro do inimigo".

A marcha aliada para sul recomeçou na manhã do dia 23 de setembro, mas havia ainda que definir um plano de ação: foi só então que passaram o rio Katcha à vista de Sebastopol, e os comandantes aliados discutiram as suas opções. O plano aliado tinha previsto uma passagem do rio Belbek antes de atacar o lado norte do porto de Sebastopol, defendido pelo Forte da Estrela. Informações secretas tinham revelado que a posição era muito mais forte do que se tinha julgado à primeira vista. John Burgoyne, o engenheiro mais experiente do Exército Britânico, defendeu um ataque a Sebastopol pelo lado sul, que, de acordo com todos os relatórios, era uma posição mal entrincheirada. Esta vista era partilhada por Saint-Arnaud que, tendo recebido as suas próprias informações secretas sobre os reforços dos russos, recusou-se a concordar com um ataque por norte. Burgoyne propôs uma marcha que exigiria aos aliados circundar a cidade a leste para atacar o porto pelo lado sul, onde as defesas eram mais fracas. Raglan esteve tentado a concordar, argumentando que sempre fora essa a sua posição: sempre soubera que o problema dos reabastecimentos seria facilitado com o cerco aos portos meridionais do Quersoneso.

Em 24 de setembro Menshikov começou a retirar o seu exército de Sebastopol para Bakchi Serai e Simferopol, deixando a cargo dos almirantes Kornilov e Nakhimov a organização da guarnição de cerca de 18 000 homens, sobretudo marinheiros, e preparar as defesas do porto. Ao passar para o interior da península da Crimeia, Menshikov não só iria manter abertas as comunicações com a Rússia, como estaria em contato com reforços de Odessa ou Kerch. Além disso, ficaria livre para manobrar no campo e ameaçar o flanco dos aliados. Enquanto Menshikov se movia para leste, o exército anglo-franco-otomano, com os britânicos à frente, continuou a sua marcha para a costa do sul da Crimeia. O calor era intenso, a água rara, e a cólera grassava, causando grandes perdas no exército, mesmo entre oficiais como o marechal Saint Arnaud. A marcha foi difícil e cheia de incidentes: em certo lugar perto da chamada "Quinta de MacKenzie", a 25 de setembro, Lord Raglan e o seu pessoal na frente da coluna britânica depararam-se com a retaguarda do Exército Imperial Russo em retirada. Com a retaguarda do seu exército em desesperada desordem, Menshikov perdeu uma oportunidade para infligir uma reversão no decurso da guerra. No dia 26, porém, Lord Raglan chegou à vila de Kadikoi, o que lhe permitiu ver a estreita enseada de Balaclava. Nesse dia o marechal Saint Arnaud, gravemente doente, entregou o seu comando ao general Canrobert.

Balaclava era muito pequena para ser usada por ambos os exércitos aliados em simultâneo. Por direito seriam os franceses que deveriam ocupá-la, enquanto os britânicos se moveriam para oeste, para os portos de Kazatch e Kamiesh. Canrobert ofereceu aos britânicos a hipótese de escolha, mas, mal aconselhado pelo almirante Lyons, Lord Raglan escolheu Balaclava para a sua base, sem se aperceber que as outras duas baías ofereciam melhores condições como portos de reabastecimento. Mais ainda, Raglan comprometeu o Exército Britânico a defender o flanco direito da operação aliada, garantindo a segurança de ambos os exércitos contra a ameaça colocada pelas forças de Menshikov a leste. A decisão de Raglan foi um grave erro, e um pelo qual o Exército Britânico pagaria um alto preço.

Para muitos, a única justificação para a marcha dos flancos seria um assalto imediato a Sebastopol. George Cathcart, comandante da 4.ª Divisão de Infantaria, pediu a Raglan que se agisse rapidamente. "Estou certo que posso lá entrar, quase sem perder nenhum homem." escreveria Cathcart a Raglan em 28 de setembro das alturas no leste da cidade. "Podíamos deixar as nossas coisas, e correr para ela em pleno dia… vemos pessoas a andar nas ruas em grande preocupação…" Mas a cautela foi mais forte, e planos de Burgoyne para um cerco formal, apoiados por Canrobert, foram preparados. Quando Raglan disse a Cathcart que nada aconteceria até que o cerco aliado estivesse montado, Cathcart não escondeu a sua irritação, "Land the siege trains! But my dear Lord Raglan, what the devil is there to knock down?" ou seja, "Montar o cerco! Mas, meu caro Lord Raglan, o que diabo há ali para destruir?"

Tendo decidido sobre que porto ocupariam, os aliados decidiram mover as suas forças para o Quersoneso. Esta península é rodeada a norte pelo porto de Sebastopol, à frente do qual o rio Tchernaya desagua, vindo de sudoeste. A parte oriental tem uma longa escarpa, chamada Sapouné, com cerca de 180 m de altura, e apenas tem duas passagens: a estrada de Voronstov e. no sul, o "Colo", pelo qual passava uma estrada mais íngreme e difícil que ligava a parte ocidental de Sebastopol a Balaclava. Sebastopol estava dividida ao meio pela ravina dos estaleiros. A duas das quatro divisões de Canrobert, orientadas pelo general Forey, foram atribuídas as operações no cerco ocidental, do Mar Negro até aos estaleiros. As outras duas, sob o comando do general Bosquet, atuariam como força de cobertura ao longo das colinas Sapouné. A norte de Bosquet estaria a 1.ª Divisão de Infantaria dos britânicos e além dela a 2.ª Divisão de Infantaria de De Lacy Evans que guardava o extremo direito da linha aliada com as colinas Inkerman à frente e o vale do Tchernaya à direita.

À medida que as armas do cerco aliado bombardeavam Sebastopol, as reservas russas estavam a caminho da Crimeia. Na frente desses reforços estava a 12.ª Divisão de Infantaria - parte do 4.º Corpo russo - sob as ordens do general Pavel Liprandi. Esta divisão, que consistia nos regimentos Azovsky, Dniepre, Ucrânia e Odessa, juntamente com quatro baterias de artilharia, tinha chegado da Bessarábia. Quando a divisão chegou à Crimeia, Menshikov tinha decidido usá-la para atacar a retaguarda dos aliados a partid de Chorgun, e marchar para Balaclava.

A vulnerabilidade de Balaclava era bem conhecida por ambos os lados. Fazer o cerco em torno de Sebastopol, mantendo a segurança em simultâneo no flanco oriental dos aliados, fez com que os recursos de Raglan não pudessem responder a tudo. As vítimas britânicas na batalha de Alma haviam sido muitas, e muitos estavam ainda a sofrer com a epidemia de cólera, e outros simplesmente adoeciam de exaustão. Com a chegada de mais reforços russos, Menshikov passaria a dispor de um força no teatro de operações (incluindo a 12.ª Divisão) com cerca de 65 000 homens. O resto do 4.º Corpo - Divisões 10 e 11 - também foi a caminho da Crimeia, mas Menshikov, sob pressão de Nicolau I, decidiu não esperar por essas tropas antes do início do ataque.

A primeira movimentação dos russos foi na madrugada de 18 de outubro, quando o tenente-coronel Rakovitch atacou a aldeia de Chorgun com infantaria (três batalhões, 200 cossacos e quatro canhões). A partir daqui, Liprandi, Rakovitch, e o major-general Semyakin foram capazes de reconhecer os redutos aliados ao longo das chamadas «Causeway Heights». Para os comandantes russos, e, tardiamente, para os Royal Engineers, os redutos foram julgados como estando demasiado à frente da linha defensiva interior de Balaclava para que pudessem ser adequadamente defendidos e apoiados pelos britânicos. Os russos também tinham relatórios de reconhecimento que indicaram que estas defesas exteriores eram ocupadas por uma mistura de tunisinos, recrutas sem experiência, e milicianos, nenhum do mesmo calibre dos homens que os tinham derrotado no rio Danúbio, no início da guerra. Para Liprandi e os seus generais, parecia que um rápido ataque contra os redutos teria grande êxito.

Em 23 de outubro Liprandi reuniu 16 000 homens, conhecidos como o «Destacamento de Chorgun», com 17 batalhões, 30 esquadrões, e 64 armas pesadas. A coluna da esquerda, comandada pelo major-general Gribbe, avançou pelo rio Tchernaya para a aldeia de Kamara. A coluna central, com o major-general Semyakin, foi dividida em duas alas: o próprio Semyakino, comandando a ala esquerda, levou as suas tropas do sul de Chorgun antes de partir para a colina de Canrobert e o primeiro reduto; o major-general Levutsky, comandando a ala direita da coluna central, foi encarregado do assalto ao reduto n.º 2, mais longe e a oeste. Entretanto, a coluna da direita, com o coronel Skyuderi, foi avançando pelo Tchernaya através da Ponte Tractir antes de passar por sul para as colinas Fedioukine e atacar o reduto n.º 3. Os ataques foram apoiados pelo tenente-general Ryzhov, de cavalaria. Uma nova força, com 4500 homens e 14 armas pesadas, liderada pelo major-general Zhabokritsky, protegia Liprandi do lado direito dos aliados. Quando os redutos fossem capturados, Zhabokritsky ocuparia as colinas Fedioukine. No total (incluindo a força de Zhabokritsky e uma reserva retida na Ponte Tractir) Liprandi tinha à sua disposição cerca de 25 000 homens e 78 armas - não o suficiente para ameaçar as linhas do cerco, mas mais do que suficiente para comprometer as defesas de Balaclava, cuja perda para os aliados seria grave.

Descrição da batalha

A batalha ocorreu enquanto ingleses e franceses realizavam o cerco a Sebastopol. Preocupado com a potencial vulnerabilidade do abastecimento da base em Balaclava, Lord Raglan marchou para Sapoune em 18 de setembro, mas não via nenhum perigo imediato, apesar dos relatos de movimentação russa nas margens do Rio Tchernaya. No entanto, sob o comando do Príncipe Menshikov, os russos preparavam o seu avanço e continuavam a fazê-lo no início ou em meados de outubro. Na manhã de 25 de outubro o Exército Imperial Russo, alertado em relação ao avanço da cavalaria britânica sob o comando de Lord Lucan, preparou-se para o combate.

Fases da batalha

A batalha pode ser decidida em quatro fases principais:

A primeira fase começou de madrugada com o avanço da infantaria britânica sobre os russos.

A segunda fase da batalha começou cerca das oito e meia da manhã. Liprandi deu ordem a Ryzhov para liderar a principal força de cavalaria russa que avançasse contra o acampamento inimigo. O ataque da artilharia e infantaria russas incidiu sobre os redutos otomanos que formavam a primeira linha de defesa de Balaclava. Os turcos inicialmente resistiram ao assalto russo, mas a falta de apoio forçá-los-ia a retirar. Ryzhov começou a avançar ao longo do oeste do Vale do Norte, apoiado por 26 canhões de campo, mas estava preocupado com infantaria inimiga. Entretanto a cavalaria russa foi forçada a recuar, pelo major-general Sir Colin Campbell com cerca de 700 britânicos e 1000 turcos, numa ação determinada que ficou conhecida como 'A Fina Linha Vermelha' (The Thin Red Line), embora esta designação só se tenha tornado conhecida mais de 20 anos depois da batalha. Esta linha manteve-se e repeliu o ataque, tal como as tropas da Brigada Pesada do general James Yorke Scarlett, que carregaram e derrotaram grande parte do avanço da cavalaria, forçando os russos a colocar-se em posição defensiva.

A terceira fase da batalha envolveu a Brigada Pesada. Durante essa fase, a brigada russa, apesar de numericamente superior, foi forçada a recuar. Os "Dragoons" venciam, e orgulhosamente ostentaram a divisa "Nulli Secundus" (segundo para ninguém). A quarta fase, última da batalha, teve início por volta das 10 horas e 15 minutos da manhã. Apesar de desentendimentos entre os oficiais ingleses (Lucan e Nolan), Balaclava permaneceu em mãos dos aliados, principalmente pelo sucesso da Thin Red Line e da Brigada Pesada. Os russos também tinham motivos para estar satisfeitos com o dia, apesar de não terem cortado as linhas de comunicação britânicas ou ameaçar gravemente Balaclava, e capturaram um número considerável de fortificações e de armas.

Este acontecimento é descrito como um dos episódios mais heróicos ou mais desastrosos de toda a história militar britânica. Lord James Cardigan realiza uma carga de cavalaria da Brigada Ligeira contra a bem defendida artilharia russa durante a Guerra da Crimeia. Os britânicos ultrapassariam a Batalha de Balaclava quando Cardigan recebeu a ordem de atacar os russos. A sua cavalaria carregou sobre os inimigos sem hesitar, mas foi dizimada pelas armas pesadas dos russos, sofrendo 40% de baixas em poucos minutos. Posteriormente, soube-se que a ordem foi o resultado de um erro (uma ordem que não foi dada intencionalmente). Lord Cardigan, que sobreviveu à carga, foi considerado um herói nacional na Grã-Bretanha.

A Brigada Ligeira era formada pelo 4.º e 13.º Regimentos de Dragões Ligeiros, pelo 17.º Regimento de Lanceiros, e pelos 8.º e 11.º Regimentos de Hussardos, às ordens do general Lord Cardigan. Carregaram junto com a Brigada Pesada, formada pelo 4.º Regimento de Dragões Irlandeses da Guarda, pelo 5.º Regimento de Dragões da Guarda, pelo 6º Regimento de Dragões de Inniskilling e pelo Scots Greys. Estas unidades eram as principais forças de cavalaria britânicas no campo de batalha. O comando da cavalaria recaía em Lord Lucan.

Lucan recebeu uma ordem do comandante-chefe do exército, Lord Raglan, indicando que «Lord Raglan deseja que a cavalaria avance rapidamente para diante, persiga o inimigo, e tente impedir que retire os seus canhões. A artilharia montada pode acompanhá-la. A cavalaria francesa encontra-se à sua direita. Imediatamente.». Quem levava a ordem era o capitão Nolan, que talvez tenha transmitido informações complementares de viva voz.

Como resposta à ordem, Cardigan dirigiu 673 (ou 661) ginetes directamente através do vale existente no sopé da colina de Fedyukhin, e que mais tarde o poeta Alfred Tennyson denominaria vale da morte. As tropas russas, sob comando de Pavel Liprandi, eram formadas por aproximadamente 20 batalhões de infantaria com o apoio de mais de cinquenta peças de artilharia. Tais forças estavam distribuídas de ambos os lados e no fundo do vale.

Parece que a ordem de Cardigan se referia à massa de canhões russos existentes num reduto no fundo do vale, aproximadamente 1,5 km mais longe, enquanto Raglan terá percebido que se referia a um grupo de redutos na outra vertente da colina que formava o lado esquerdo do vale. Aqueles não eram visíveis desde as posições ocupadas pela Brigada Ligeira, colocada no fundo do vale.

A brigada alcançou o contato com as forças russas do fundo do vale, e obrigou-as a fugir do reduto. Sofreu fortes perdas, e foi rapidamente obrigada a recolocar-se. Lucan fracassou na sua missão de apoiar Cardigan, e alguns suspeitam que isso se devia à animosidade que sentia contra o seu cunhado: a Brigada Pesada alcançou o vale, mas não avançou mais. A cavalaria francesa, os Caçadores de África, foram mais eficazes já que romperam a linha russa da colina de Fedyukin e cobriram os sobreviventes da Brigada Ligeira durante a sua retirada.

Cardigan sobreviveu, e descreveria o combate num discurso na Mansion House, em Londres, que foi registado e amplamente citado posteriormente na Câmara dos Comuns:

«Avançámos por uma encosta gradual de mais de um quilómetro, as baterias vomitavam sobre nós obuses e metralha, com uma bateria à nossa esquerda e outra à nossa direita, e o espaço intermédio cheio de fuzis russos; assim, quando chegámos a 50 metros da boca dos canhões que tinham lançado a destruição sobre nós, estávamos, de facto, rodeados por um muro de fogo, além do dos fuzis no nosso flanco.

Enquanto subíamos a colina, o fogo oblíquo da artilharia caía sobre a nossa retaguarda, de tal modo que recebíamos um forte fogo sobre a vanguarda, os flancos e a retaguarda. Entrámos no espaço da bateria, atravessámo-la, os dois regimentos à cabeça ferindo um grande número de artilheiros russos ao passar. Nos dois regimentos que tive a honra de dirigir, cada oficial, com uma única exceção, foi ou bem ferido, ou morto, ou viu o cavalo que montava morto ou ferido. Estes regimentos passaram, seguidos pela segunda linha, formada por dois regimentos suplementares, que seguiram o seu dever de ferir os artilheiros russos.
Depois veio a terceira linha, formada por outro Regimento, que completou o trabalho dado à nossa Brigada. Creio que se fez com verdadeiro êxito, e o resultado foi que esse corpo, formado por apenas 670 homens aproximadamente, conseguiu atravessar a massa da cavalaria russa que — como soubemos posteriormente — dispunha de 5240 homens; e tendo atravessado esta massa, deram a volta, como se diz na nossa expressão técnica militar, «ao fundo de tudo», e retiraram-se do mesmo modo, provocando tantos danos como era possível na cavalaria inimiga. De regresso à colina de qual havia partido o ataque, tivemos que sofrer a mesma mão-de-ferro e padecer o mesmo risco de disparos dos atiradores no nosso flanco que na ida. Muitos dos nossos homens foram atingidos, homens e cavalgaduras resultaram mortos, e muitos dos homens cujas montadas morreram foram massacrados quando tentavam escapar.

Mas, mylord, qual foi o sentimento destes valentes que regressaram à sua posição, se de cada regimento não voltou senão um pequeno destacamento, e dois terços dos efetivos implicados na ação se tinham perdido?. Creio que cada homem que participou neste desastroso assunto de Balaclava, e que teve a bastante sorte para continuar com vida, deve notar que foi somente por um decreto da Divina Providência que escapou à morte mais certa que era possível conceber».


Consequências

A brigada não ficou completamente destruída, embora sofresse terríveis perdas: 118 mortos, 127 feridos, e a perda de 362 cavalos. Depois de serem reagrupados, apenas 195 homens dispunham de cavalo. A futilidade da ação e a sua bravura imprudente fizeram afirmar o general francês Pierre Joseph François Bosquet: «C’est magnifique, mais ce n’est pas la guerre», ou seja, «É magnífico, mas não é a guerra». Diz-se que os chefes russos acreditavam a princípio que os ginetes tinham abusado da bebida. A reputação da cavalaria britânica melhorou notavelmente com esta carga, embora o mesmo não se possa dizer do seu comando.

A lentidão das comunicações marítimas fez com que as notícias do desastre não chegassem ao conhecimento do público britânico senão três semanas depois. Os relatos da frente dos chefes britânicos publicaram-se numa edição extraordinária da London Gazette em 12 de novembro de 1854. Raglan implica Lucan pela carga, declarando que «Por sua incompreensão da ordem de avanço, o tenente-general (Lucan) considerou que devia atacar a qualquer preço, e ordenou o major-general Cardigan avançar com a Brigada Ligeira».

Sobre o comportamento da "Thin Red Line" da infantaria britânica Friedrich Engels considerou o episódio ímpar, tendo escrito:«A linha de batalha britânica fez o que praticamente nenhuma outra infantaria fez antes: alinhados para receber os seus mosquetes, até ao último minuto antes da carga (…) quando o inimigo chegou a 30 metros (…) e quase sempre com o maior sucesso a infantaria britânica disparou com tal frieza, mesmo no momento mais crítico, que o seu fogo teve seu impacto em todas as outras tropas».



A Guerra das Duas Rosas foi uma série de longas e intermitentes lutas dinásticas pelo trono da Inglaterra, ocorridas ao longo de trinta anos de batalhas esporádicas (1455 e 1485), durante os reinados de Henrique VI, Eduardo IV e Ricardo III. Em campos opostos encontravam-se as casas de York e de Lancaster. As lutas pelo trono de Inglaterra entre famílias rivais dos descendentes de Eduardo III devem o seu nome aos símbolos das duas facções: uma rosa branca para a Casa de York, uma vermelha para a Casa de Lancaster (ambas de descendência Plantageneta).

Esta série de guerras civis iniciou-se com a disputa da aristocracia pelo controle do Conselho Real, por causa da menoridade de Henrique VI. Havia uma rivalidade entre dois aspirantes ao trono: Edmundo Beaufort (1406-1455), duque de Somerset, da casa de Lancaster, e Ricardo Plantageneta, terceiro duque de York. O primeiro apoiava Henrique VI e a rainha Margarida de Anjou. O segundo pôs em causa o direito ao trono de Henrique VI de Lencastre, um homem frio mas fraco, sujeito a fases de insanidade. Henrique VI, ao assumir o poder em 1442, teve o apoio dos Beaufort e do duque de Suffolk, aliados da casa de York.

Os tempos eram de dificuldade para a Casa de Lancaster, no poder, fortemente abalada pela demência do rei e pelas derrotas militares do exército inglês na França durante a última fase da Guerra dos Cem Anos. O duque Ricardo de York, pretendente ao trono, esperou muitos anos que Henrique VI, vítima de problemas mentais, morresse. Ao nascer um príncipe herdeiro, porém, York resolveu agir e, na década de 1450, chefiou uma liga de barões, na qual Richard Neville, barão de Warwick, era o mais influente. Os senhores de York exigiram a demissão de um membro do Conselho Real da casa dos Lancaster. O rei negou-se a atendê-los; assumiu o comando de dois mil representantes dos Lancaster e marchou para o vilarejo de Saint Albans. Ricardo de York liderou 3 mil homens na direção de Londres. Suas tropas foram interceptadas em Saint Albans pelos soldados do rei. Na batalha de Saint Albans (1455) Ricardo derrotou os soldados do rei, o qual foi capturado. O confronto, que deixou um rastro de 300 mortos pelo caminho, foi o início da Guerra das Duas Rosas. Quatro anos depois, York foi derrotado em Ludford Bridge e fugiu para a Irlanda.

Foi breve, porém, a vantagem da casa de Lancaster pois, em 1460, após ter derrotado os exércitos dos Lancaster em Northampton, Ricardo de York reclamou para si o trono. No entanto, nesse mesmo ano, Warwick veio da França, onde se refugiara, venceu as forças do rei e o aprisionou. Designado pelo Parlamento sucessor de Henrique VI, York foi, porém, assassinado na batalha de Wakefield, quando perseguia os últimos contingentes das forças reais. Seu filho e herdeiro, Eduardo de York, com o auxílio de Warwick, vingou a morte paterna. Entrou em Londres e em 1461 foi aclamado rei com o nome de Eduardo IV. Yorkistas e lancasterianos voltaram a se enfrentar em meio a uma nevasca numa colina chamada Towton. Os arqueiros de Eduardo se posicionaram melhor e lançaram flechas a uma distancia maior que a do inimigo. O exército de Lancaster foi destruido pelo duque de York na batalha de Towton. Henrique VI refugiou-se na Escócia.

Os partidários de Henrique VI venceram a segunda batalha de Saint Albans (fevereiro de 1461), porém o filho de Ricardo, Eduardo, foi coroado mês depois na Abadia de Westminister, como Eduardo IV, o primeiro rei da Inglaterra originário de York. Pouco depois, Eduardo inflingiu uma derrota decisiva a Henrique e Margarida, que abandonaram a ilha.

A guerra estava longe de terminar. Lordes partidários dos Lancaster e o próprio rei deposto, Henrique, no exílio, mantinha viva a resistência contra os York. Eduardo IV apagou os focos de revolta e reinou com mão pesada. O poderoso Warwick influenciou os primeiros anos do reinado de Eduardo IV, mas os dois nobres divergiram após o casamento do rei, e a ruptura ocorreu em 1467. Eduardo também deu as costas para outros aliados, como seu irmão, o duque de Clarence. Os dois nobres descontentes foram decisivos em 1469, quando mudaram de lado. Nesse ano Warwick, à frente de força militar, derrotou o exército do rei em Edgecote e o aprisionou. A manobra, no entanto, falhou e Warwick refugiou-se na França, onde se reconciliou com Margarida de Anjou, esposa de Henrique VI. Warwick voltou à Inglaterra em setembro de 1470, depôs Eduardo IV, que fugiu para os Países Baixos, e Henrique VI reassumiu o trono (o poder era efetivamente exercido, no entanto, por Ricardo Neville, agora conde de Warwick). Henrique viria a ser capturado em 1465 e encarcerado na Torre de Londres.

A guerra, no entanto, reacendeu-se, agora devido à divisão dentro da própria facção de York. Ricardo Neville, apoiado por George Plantageneta, duque de Clarence, irmão mais novo de Eduardo, celebrou uma aliança com Margarida e liderou uma invasão a partir da França em 1470. Eduardo IV foi condenado ao exílio e o trono foi restituído a Henrique. Mas, neste tempo, as alianças eram bastante voláteis. Pouco depois, Eduardo IV, agora apoiado pelo irmão, o já referido duque de Clarence, retornou à Inglaterra e venceu a batalha de Barnet (abril de 1471), na qual Warwick morreu. Eduardo recuperou o trono. Grande parte dos líderes lancastrianos remanescentes foi morta em Tewkesbury, em maio de 1471. Henrique foi novamente capturado e encerrado na Torre. Para evitar futuros aborrecimentos, Eduardo mandou matar o rei e seu filho.

Com isso, a Guerra sofreu uma parada brusca, até a morte de Eduardo IV, em 1483. Ele deixou dois filhos - o mais velho, de 12 anos. Eduardo V, o filho mais velho de Eduardo, e os seus apoiantes foram afastados pelo jovem tio do rei, Ricardo, Duque de Gloucester. Poucos meses depois o rei e o irmão foram levados para a Torre de Londres e desapareceram; os rumores diziam que haviam sido assassinados pelo tio, que herdou o trono com o título de Ricardo III.

Nesta altura a Casa de Lancaster apoiou as pretensões ao trono de Henrique Tudor, senhor de Richmond, mais tarde Henrique VII, que fugira ainda adolescente para a Bretanha. As disputas terminaram em 1485, quando Henrique desembarcou na Inglaterra com 5 mil homens e marchou para depor o rei. Os dois se encontraram em Bosworth. O exército dos York tinha 10 mil soldados, o dobro da armada adversária. Ricardo III foi morto no campo de batalha. Apesar da disparidade, Henrique Tudor venceu a celebre batalha de Bosworth Field e foi coroado como Henrique VII. Nos primeiros anos de seu reinado, Henrique VII eliminou todos os seus rivais. Com a intenção de unir as duas facções rivais e fortalecer sua posição, Henrique VII casou-se com a filha mais velha de Eduardo IV, Elizabeth de York (ou Isabel de York).

As guerras enfraqueceram o poder da nobreza e, após o convite ao trono de Lambert Simnel, em 1487, não houve sérias contestações à dinastia Tudor, criada por Henrique VII.



A batalha de Munda ocorreu no dia 17 de Março de 45 a.C. na planície de Munda, no sul da actual Espanha, e foi a última batalha da guerra civil entre Júlio César e os conservadores republicanos. O confronto resultou numa vitória expressiva de César e na morte de Tito Labieno e Gneu Pompeu, o filho mais velho de Pompeu. Após esta vitória, César tornou-se o senhor incontestado de Roma e assumiu o cargo de ditador, no conceito romano do termo.

César tinha voltado a Roma no final de julho de 46 a.C., após acabar com a oposição pompeana na África e deixar quatro legiões lá. De volta à capital, tratou dos negócios e satisfez-se com a adulação das multidões em uma série de triunfos por suas vitórias no Egito, em Pontus e na África e, segundo alguns relatos, também pela Gália. Porque um triunfo somente poderia ser celebrado sobre inimigos estrangeiros. Tapso foi considerada uma vitória sobre o rei Juba I, da Numídia.

Mas notícias preocupantes da Hispânia alcançaram César. Quando os irmãos Pompeu desembarcaram na Hispânia remota, duas legiões de foram César baseadas lá, a 2a. e a Indígena, ambas antigas unidades pompeanas, desertaram do general Trebonius, comandante de César. Elas passaram para o lado dos irmãos, juntando-se à legião pompeana que tinha fugido do norte da África, a 1a. Enquanto César reconvocava o general Trebonius para ir a Roma, suas três outras legiões na Hispânia Próxima, a 21a., a 30a. e um novo alistamento da 3a. Legião, realizado na Gália Cisalpina por César e agora comandada pelo general Quintus Pedius, um parente de César e subordinado na campanha gaulesa, junto com o general Quintus Fabius Maximus, foram instruídos a não entrar em luta com os filhos de Pompeu até que César chegasse ao local com reforços.

Os irmãos rapidamente tomaram Córdova e estavam em processo de ocupação da maior parte da atual Andaluzia, atraindo grande apoio local e diariamente alistando novos recrutas — o pai deles tinha sido muito popular na Hispânia. A 5a., a 7a., a 8a., a 9a., a 10a. e a 13a. tinham todas voltado da Tunísia e estavam, nessa época, acampadas no sul da Itália. A 28a. também tinha sido trazida da Tunísia, mas, tendo apenas cinco coortes, foi enviada para a Síria. Segundo Apiano, César já estava pensando sobre uma operação contra o antigo inimigo de Roma no Oriente, o Império Parto, logo que tivesse lidado com los irmãos Pompeu e a 28a. tivesse chegado à Síria com ordens para que já fossem iniciadas as preparações para essa operação. As outras seis legiões transferidas do norte da África receberam ordens de marchar para a Hispânia. Enquanto isso, as duas coortes da 6a, que tinham lutado tão bem por César no Egito e em Ponto e tinham ficado descansando na Itália, provavelmente em Roma, onde tinham participado de suas paradas triun« fais, também receberam ordens de ir para a Espanha.

Foi só no final de dezembro que César partiu. Apiano diz que ele fez a viagem para a Espanha em 27 dias. Quando chegou em janeiro, estava acompanhado apenas por seus oficiais do estafe e atendentes pessoais, Quase certamente ele fez a última parte da viagem, de Marselha a Tarragona, por mar, evitando cruzar os Pirineus. Mas, ao fazer isso, foi forçado a deixar para trás sua leal cavalaria germana pessoal. De modo que despachou uma mensagem à frente para os generais Quinto Pédio e Fabius, na Hispânia, com ordens para lhe enviar um destacamento de cavalaria, que atuaria como sua guarda pessoal assim que chegasse. Acampados a leste do rio Guadalquivir, ou Baetis, como era chamado nos tempos romanos, os generais mal tinham recebido a mensagem quando César desembarcou.

Sem esperar por uma escolta ou por sua força principal de cavalaria, que ainda estava a caminho desde a Itália com o general Caio Nônio Asprenas, César apressou-se a ir para o sul e reunir-se às legiões acampadas na fronteira entre a Hispânia Próxima e a Hispânia Remota. Sua pressa foi causada pelas notícias impressionantes que o esperavam em Tarragona. Quando suas legiões veteranas chegaram à Hispânia como fora ordenado, depois de marcharem desde a Itália e ao longo do sul da França, três delas tinham desertado para os irmãos Pompeu.

César cometera um erro ao enviar legiões hispânicas de volta à sua terra natal; legiões que agora estavam com sua dispensa atrasada em quatro anos; legiões cansadas das promessas de prémios que nunca se materializaram e com nenhuma vontade de lutar contra seus compatriotas; legiões que já tinham se amotinado várias vezes nos últimos anos. Provavelmente inspiradas pela notícia de que a 2a. e a Indígena tinham passado para o lado dos Pompeu, a 8a. e a 9a. Legiões desertaram de César e passaram para o outro lado, para lutar por seu próprio povo em seu próprio país. A 13a., a legião que tinha cruzado o Rubicão com César, seguiu as outras. Porque o fizera, não é claro. O alistamento da 13a. só terminaria após mais três anos. Talvez seus legionários do norte da Itália simplesmente estivessem cansados das intermináveis e não cumpridas promessas de César. Sem dúvida, para grande alívio de César, suas ótimas 10a. e 7a. Legiões permaneceram leais a ele.

Os Pompeu ficaram tão surpresos quanto César com as deserções. Para sua segurança, o Pompeu mais jovem, Sextus, que tinha então 22 anos, manteve a 9a. e a 13a. Legiões com ele em Córdova. Somente a 8a. Legião juntou-se ao exército de campo de seu irmão mais velho, Cneu.

No final de janeiro de 45 a.C., César cruzou o rio Guadalquivir e avançou profundamente pela Andaluzia, com a 3a., a 5a., a 6a., a 7a., a 10a., a 21a. e a 30a. Legiões, bem como com a cavalaria local. Enquanto as forças pompeanas promoviam uma série de ações retardatórias, gradualmente se retirando à frente das legiões de César, ele se dirigia sem descanso para Córdoba, sua capital provincial 16 anos antes, cenário de seu primeiro comando e o local onde ele tinha levantado a 10a. Legião.

A sudeste de Córdova, no vale do rio Salsum, Cneu Pompeu e o general Labieno, o irrepreensível comandante da cavalaria das campanhas na Albânia, Grécia e norte da África, tentavam reter César, montando acampamento entre as cidades montanhosas de Atégua e Ucubi e construindo fortificações ao longo do rio. Enquanto César cercava Atégua, sitiando-a, houve uma série de embates no vale. Após um desses encontros, o povo de Atégua cortou as gargantas dos soldados de César e atirou seus corpos pelas muralhas da cidade. A guerra estava se tornando mais suja. Mas a pressão exercida por César falou mais alto e, em 19 de fevereiro, a cidade se rendeu.

Pompeu e Labieno levaram seu acampamento para mais perto de Ucubi e César os seguiu. Nessa época, os homens estavam desertando de ambos os lados diariamente, embora a maré de deserção fosse cada vez maior a lavor de César. Alguns homens da recalcitrante 8a. Legião realmente desertaram de volta a César nesse ponto. Ocorreu, então, uma batalha por uma montanha do vale, a cinco milhas de Ucubi.

Durante duas semanas, Pompeu tinha cedido terreno, queimando várias cidades enquanto se retirava. No dia anterior, ele tinha montado acampamento na planície, não muito longe da cidade montanhosa de Munda. César chegou com suas legiões após o cair da noite e montou seu próprio acampamento a oito quilômetros de distância. Então, nas primeiras horas da manhã, César foi despertado com a notícia de que o jovem Pompeu estava colocando suas tropas em ordem de batalha. Enquanto César levantava, ele notou que Pompeu tinha escolhido o dia festival do deus Líber, ou Liberalis, para a sua grande batalha. Esse era o dia em que os jovens romanos que tinham chegado à idade tradicionalmente vestiam a toga virilis, o símbolo da idade adulta, pela primeira vez. Talvez Pompeu tivesse esperança de chegar à idade como general nesse dia. Não, se César conseguisse impedir.

Certamente Pompeu não era tímido sobre se colocar contra o poderoso César. Pompeu tinha consciência do fato de que seu pai fizera o seu nome com essa idade. Filho de um general e neto de outro, o jovem Cneu já tinha demonstrado habilidade e ousadia militares — poucos anos antes, ele tinha sido aquele que comandara a frota que devastara as embarcações de César ancoradas no Adriático, isolando César na Grécia. Cneu tinha provado ser um rapaz com uma cabeça antiga sobre os ombros. E parece que ele tinha tido o suficiente dessas escaramuças de recuo, que apenas enfraqueciam o entusiasmo de suas tropas e esgotava a lealdade dos nativos. Na retirada, e com mais e mais cidades espanholas expressando dúvida sobre a habilidade dos irmãos Pompeu de derrotar César, Pompeu decidiu aproveitar o dia e acabar o assunto com uma batalha em escala total, antes que perdesse o apoio do povo.

César ficou contente com o favor e ordenou que sua bandeira — o símbolo para a batalha — fosse içada. Quando as trombetas soaram "às armas" por todo o acampamento de César, ele estabeleceu uma nova senha para o dia: "Vênus". Sua senha do dia da vitória sobre Pompeu, em Farsalos, tinha sido "Vênus, a portadora da vitória". Assim, ele estava continuando uma coisa boa e esperando que Vênus lhe trouxesse novamente a sua famosa boa sorte. De sua parte, o jovem Pompeu estabeleceu a senha "Piedade".

Posicionado em sua ala direita, César deu um longo e pensativo olhar para as cabeças cobertas com elmos dos homens da 10a. Legião, enquanto o dia 17 de março amanhecia calmo e quente. Ficou satisfeito de ver que as unidades pompeanas no vale tinham assumido sua posição final. Ele virou-se para o seu comandante da cavalaria, o general Asprenas, que tinha, nessa época, chegado da Itália com a cavalaria germano-gaulesa-hispânica e agora comandava oito mil cavaleiros, a maior força montada que César já tinha colocado em campo. César tinha dito a ele que pretendia tentar virar a ala esquerda do inimigo, usando a 10a. Legião, e instruiu Asprenas para que estivesse pronto para agir com sua cavalaria e capitalizasse os ganhos obtidos pela 10a quando chegasse a hora. Asprenas confirmou as instruções e, então, dirigiu-se para a sua posição na ala.

A 5a. Legião foi posicionada à esquerda de César. Ao lado da 5a. estavam os novos recrutas da 3a. Legião, provenientes da Gália Cisalpina. As remanescentes quatro legiões de César completavam a linha entre a 3a. e a 10a. Em seus flancos, ele posicionou a cavalaria e vários milhares de auxiliares. Dito tudo, colocou em campo 80 coortes de legionários e auxiliares, embora muitas das coortes estivessem, como aquelas da 10a., com número bem reduzido. Havia literalmente apenas centenas de homens da 6a. Legião ali. O número total de homens da infantaria de César não ultrapassava os 30 mil.

Ao redor deles havia montanhas arredondadas, mas aqui, no vale, o terreno era plano, bom tanto para manobras de infantaria quanto de cavalaria. Mas, primeiro, os homens de César tinham uma longa marcha para alcançar o inimigo. Em seu caminho havia um riacho raso, que cortava a planície. Bem longe, à direita, o riacho acabava em um pântano. Eles tinham certeza de que os pompeanos desceriam da montanha para encontrá-los no meio da planície. Se não, as tropas de César teriam de cruzar o riacho, depois atravessar um outro trecho da planície, de turfa seca, para alcançar a montanha, onde o outro lado esperava.

Como tinha escolhido o campo de batalha, o jovem Pompeu tomou o terreno alto. Como apoio suplementar, a cidade de Munda ficava na montanha atrás dele, cercada por altas muralhas dotadas de torres defensivas controladas por nativos. Cneu Pompeu tinha alinhado os seus homens no declive abaixo de Munda. Estimativas do total de suas tropas variam entre 50 mil e 80 mil. Suas legiões mais experientes eram a 1a. e a 8a. e elas provavelmente se posicionaram uma em cada flanco, apoiadas pela 2a. e pela Indígena.

O seu centro era ocupado por nove legiões de novos recrutas reunidos por todo o oeste dos atuais Espanha e Portugal; simples adolescentes sem qualquer experiência e pouco treinamento. As alas de Pompeu eram cobertas pela cavalaria, apoiada por seis mil homens da infantaria leve e um número idêntico de auxiliares. O próprio Pompeu comandava, com o general Labieno como delegado chefe. O general Vartus, que tinha escapado do norte da África com Labieno, comandava uma das divisões, provavelmente a esquerda pompeana, oposta à 10a.

Ambos os generais fizeram os seus discursos pré-batalha e, embora não saibamos suas palavras exatas, César aparentemente disse a seus homens para permanecerem em formação cerrada e não atacarem, sob nenhuma circunstância, antes que ele desse a ordem, um comando estimulado pela abertura indisciplinada para a Batalha de Tapso. Então, finalmente, ele deu a ordem para o avanço. Sua bandeira inclinou-se para frente e as trombetas das legiões soaram "Avanço em Passo de Marcha".

As legiões de César marcharam a passo ao longo da planície, enquanto, nos flancos, a cavalaria também se movia para a frente a trote moderado. O próprio César e seus oficiais do estafe iam no meio da formação da 10a Legião. À frente, as tropas de Pompeu filho não se moveram, não avançaram para encontrá-los da maneira normal, uma repetição da tática de Pompeu pai em Farsalia. Os homens de César chafurdaram pelo riacho.

Quando sua linha de frente alcançou o sopé da montanha, César inesperadamente deu o comando de parada. O avanço congelou. Quando seus homens pararam, esperando para atacarem, e as formações inimigas se rearranjaram para encontrá-los, César ordenou que suas formações ficassem mais cerradas, concentrassem suas forças e limitassem a área de operação. A ordem foi dada e obedecida. Exatamente quando as tropas estavam começando a resmungar impacientemente, César ordenou que as trombetas soassem "ataque". Com um grito de batalha ensurdecedor, as 80 coortes de César atacaram o declive da montanha.

Com um rugido igualmente ensurdecedor, os homens de Pompeu arremessaram suas lanças. A saraivada de projéteis veio de cima, cortando o ar e as fileiras de César. O ataque oscilou momentaneamente. Depois, readquiriu força. Outra saraivada escureceu o céu azul. E outra, e outra. Os atacantes, nas fileiras da frente de César, com seus camaradas mortos empilhando-se ao seu redor, sem fôlego, e ainda sem alcançar a distância de combate ao inimigo, parou. As linhas seguintes de homens sem fôlego e transpirando pararam em seguida. Todo o terreno de ataque parou. Desmontando rapidamente, César agarrou um escudo de um legionário aterrorizado da 10a., na fileira da retaguarda em frente a ele; depois, movimentou-se entre seus soldados, subindo o declive, dirigindo-se para a linha da frente, com seus oficiais do estafe, pulando para o chão e correndo atrás dele. Tirando o seu elmo, de modo que todos pudessem ver quem ele era, César parou o seu avanço na linha de frente.

Segundo Plutarco, ele gritou com seus soldados, indicando com a cabeça as dezenas de milhares de recrutas adolescentes inexperientes de Pompeu: "Vocês não têm vergonha de deixar seu general ser derrotado por simples garotos?"

Recebendo o silêncio como resposta, ele bajulou os seus homens, repreendeu-os, encorajou-os. Mas nenhum de seus legionários — pintados, suados e sangrando — deu um passo à frente. Então, ele se pirou para os oficiais do estafe, que o tinham seguido. "Se falharmos aqui, esse será o fim da minha vida e o fim de suas larreiras", foi o que ele lhes disse, segundo Apiano, antes de desembainhar sua espada e resolutamente avançar para o declive, subindo muitos metros frente de suas tropas, em direção à linha pompeana.

No lado de Pompeu, os homens dentro do alcance de César arremessaram as lanças em sua direção — tantas que nem mesmo o afortunado Júlio César poderia sobreviver. Seus homens prenderam a respiração. César esquivou-se de alguns mísseis e recebeu outros em seu escudo. Eles caíram no chão ao seu redor ou penderam frouxamente de seu escudo — 200 deles, segundo Apiano. Mas, surpreendentemente, César permaneceu incólume. Ele se virou para suas tropas, que assistiam a tudo. "Bem, o que é que vocês estão esperando?", ele perguntou.

Os oficiais agarraram os escudos dos homens da 10a. nas fileiras ou dos corpos caídos a seus pés e correram para se juntar a César, formando uma parede protetora de escudos ao redor dele.

Esse movimento para a frente foi o catalisador para reacender a coragem necessária e o momentum por toda a linha de frente. Com um rugido, as tropas de César atacaram ladeira acima uma vez mais. Os homens da 10a. ultrapassaram César e seus oficiais e fecharam a brecha entre eles e os inimigos. Com um bater de escudos, as linhas oponentes se reuniram. Pressionados para frente pelas linhas da retaguarda, que subiam a montanha atrás deles, os homens da linha de frente não tinham escolha exceto subir.

Logo houve um empate ao longo da linha, com nenhum lado tendo uma vantagem — exceto na ala direita de César. O próprio César estava no meio dela, com os legionários da 10a., utilizando com destreza sua espada, incitando os homens a irem em frente. Eles tinham uma reputação a manter e, com César lá, incitando-os a esforços sobre-humanos, lutando montanha acima, corpo a corpo, escudo a escudo, os veteranos da lOa. gradualmente empurraram para trás as tropas pompeanas, um passo sangrento de cada vez.

Para conter isso e sustentar sua esquerda pressionada, e provavelmente seguindo o alerta do general Labieno — exatamente como ele tinha aconselhado César nos movimentos das tropas em Alésia e outras batalhas do passado —, Cneu Pompeu deu a ordem para que uma de suas outras legiões atravessasse a linha e viesse da direita.

Sempre oportunista e vendo esse movimento sub-reptício, César ordenou a um de seus oficiais do estafe que encontrasse o general Asprenas, seu comandante da cavalaria, e lhe dissesse para concentrar a cavalaria no flanco oposto, enfraquecido pela retirada de Pompeu. O jovem coronel abriu caminho pelo mar de soldados e desceu a montanha. Encontrando o comandante da cavalaria, ele lhe passou a mensagem. O general Asprenas pessoalmente levou vários milhares de cavaleiros contra a direita enfraquecida do jovem Pompeu.

Enquanto isso, como a legião de Pompeu estava se movendo da ala direita para a esquerda, os jovens soldados inexperientes do centro da linha de Pompeu, não sabendo do propósito estratégico do movimento, entendeu-o como uma retirada. Mais e mais adolescentes do centro pararam de lutar. Em breve, milhares estavam correndo de volta, montanha acima, muitos deles largando suas armas. O pânico espalhou-se entre os recrutas de Pompeu. O centro da linha dissolveu-se, com os homens fugindo aos milhares, alguns para Munda, outros para a planície.

Algumas unidades, como a orgulhosa 1a. Legião, sobreviventes de Farsalos e Tapso, permaneceram e lutaram, muito embora logo fossem cercadas e mortas.

Estimou-se que 30 mil soldados de Pompeu foram mortos na confusão do lado externo de Munda, além de mais de três mil oficiais. Entre eles, o general Labieno — cercado e derrubado de seu cavalo, ele morreu lá, do lado de fora de Munda, lutando até seu último alento, como o fez o general Varus. Ambos foram enterrados no campo de batalha, menos suas cabeças, que, segundo Apiano, foram presenteadas a César. Já as perdas de César foram estimadas em milhares. Muitos homens morreram nos primeiros estágios da batalha, quando o resultado era ainda incerto.

Tanto Plutarco quanto Apiano relatam que, posteriormente, revivendo a batalha, César confessou a seus oficiais e amigos: "Frequentemente luto pela vitória; mas, dessa vez, lutei por minha vida!"

Cneu Pompeu Magno foi ferido, mas conseguiu escapar, acompanhado por na escolta de 150 cavaleiros e soldados da infantaria. Mas ele fez parte uma minoria. Com milhares de pompeanos refugiando-se na cidade de munda e o restante do inimigo sendo perseguido na planície pela cavalaria, César ordenou que a cidade fosse cercada por trincheiras. Para convencer os 14 mil abrigados em Munda a se renderem, ele empilhou os corpos dos soldados mortos em batalha, como parte dos entrincheiramentos, as cabeças de muitos dos mortos cortadas e colocadas na ponta das espadas, com rosto voltado para a cidade. Deixando uma pequena força para lacrar unda, o vitorioso marchou com o grosso de seu exército para Córdoba, para finalizar o negócio.

Pompeu correu para o sul, em direção ao porto de El Rocadillo, posteriormente denominado Carteia, não muito distante da atual Gibraltar, onde possuía navios de guerra e uma guarnição. Mas Pompeu estava ferido no ombro e na perna e também tinha deslocado um tornozelo. Finalmente, muito fraco para cavalgar e impossibilitado de andar, ele estava a 13 quilómetros de seu destino, quando não conseguiu ir mais longe por si mesmo e uma liteira lhe foi enviada de El Rocadillo. Ele foi carregado para a cidade.

Alguns dias depois, o jovem Pompeu fez-se ao mar com dez navios de guerra, mas, após três dias de navegação, foi forçado a retornar para a costa da Hispânia, para buscar água e suprimentos. Depois de sua pequena frota ter sido emboscada lá pelo almirante de César Gaius Didius, Pompeu fugiu por terra, com várias centenas de homens. O almirante Didius perseguiu-os com seus navios, cercando sua posição nas rochas. Durante a luta, Pompeu, que estava imobilizado por causa de seus ferimentos, separou-se de seus próprios homens. Com a pista fornecida por um prisioneiro, os homens de Didius localizaram Gnaeus escondendo-se em um canal. Eles o mataram na hora. A cabeça cortada do corajoso, mas amaldiçoado, filho mais velho de Pompeu, o Grande, foi subsequentemente exposta em praça pública, em Sevilha.

Ironicamente, o almirante Didius, o homem que terminou com a vida de Pompeu, foi ele próprio morto pelos homens de Pompeu, que continuaram lutando por vários dias, apesar da morte de seu líder, e causaram um dano considerável e várias mutilações antes de serem varridos pelas forças de César.

César, depois, tomou Córdova, a capital provincial, que estava sendo defendida por duas de suas antigas legiões, a 9a. e a 13a. A 13a defendeu a cidade, mas a 9a. retornou para César no último minuto e começou a lutar contra seus antigos camaradas na cidade. As forças de César ganharam o dia e a cidade, com 22 mil apoiadores dos oponentes morrendo em Córdoba. Sextus Pompeu conseguiu sair da cidade antes que ela caísse, mas, se ele tinha pensado em reagrupar os apoiadores de Pompeu para uma ofensiva renovada, ficou dolorosamente decepcionado. O momentum da campanha tinha se virado para o lado de César, poderosa e irrevogavelmente, e a resistência pompeana perdeu o ânimo. Uma a uma, as últimas cidades espanholas que estavam em mãos pompeanas foram atacadas ou se renderam. Munda também se rendeu. César poupou as vidas dos 14 mil refugiados lá.

Após a morte de Pompeu, seu irmão Sextus Pompeu desapareceu no interior da província país com um punhado de seguidores, determinado a continuar a guerrilha, e foi perseguido pelo oficial de César, o coronel Pollio. Em um tratado de paz estabelecido por Marco António, no ano seguinte, o senado romano pagaria a Sextus 50 milhões de sestércios como compensação pelas propriedades perdidas de seu pai e deu-lhe o comando de uma frota romana. Na época em que isso aconteceu, encerrou-se a influência da família Pompeu na história romana. Mas não por muito tempo. Posteriormente, Sextus usaria a frota em seu próprio benefício, tornando-se um pirata e um espinho nas administrações romanas, tentando finalmente dominar a Sicília. Após um sucesso inicial, ele seria morto por um dos generais de Marco Antônio, quando fora forçado a fugir para o Oriente, dez anos após a Batalha de Munda.

Com o final da resistência na Hispânia, naquele verão de 45 a.C., a guerra civil, que tinha custado centenas de milhares de vidas, chegou ao fim. Júlio César era, então, o regente de tudo o que havia conquistado.



A Guerra Civil Angolana foi o confronto militar que ocorreu em Angola, de 1975 a 2002. Ela foi precedida pela Guerra de Independência de Angola, 1962 a 1974, e pelo conflito armado em torno da descolonização, 1974/75, que levou à independência do país em Novembro de 1975 - imediatamente seguida pela eclosão da Guerra Civil. Tanto no conflito em torno da descolonização como na Guerra Civil os principais intervenientes foram o MPLA e a UNITA, enquanto a FNLA passou rapidamente para um papel bastante apagado. Um quarto elemento, a FLEC, movimento separatista que luta pela independência de Cabinda desde 1975 até meados de 2000, levou a cabo as suas operações naquela província. A guerra foi travada em três períodos de grandes combates intervalados por períodos de paz: 1975-1991, 1992-1994 e 1998-2002.

A guerra terminou oficialmente no ano 2002, com a morte de Jonas Savimbi. O conflito resultou em cerca de 500 000 mortos sendo umas das guerras mais prolongadas da Guerra Fria. Tanto a União Soviética como os Estados Unidos consideravam este conflito crítico para o equilíbrio de poder entre ambos.

As três principais facções envolvidas no conflito foram:

-Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), um partido com ligação a Cuba e à União Soviética;
-Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) com ligações ao Zaire (hoje República Democrática do Congo e aos Estados Unidos;
-União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), liderada por Jonas Savimbi, apoiada pelos Estados Unidos, pelo regime apartheid da África do Sul e por diversos países africanos.

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